Sem escuridão

tumblr_m8xe07xMOL1r9m294o1_1280

Minha mente roda sem parar,

E antes que eu possa entender,

Já me vejo de novo a contar,

Estrelas perdidas que não brilham mais.

 

Não há mais escuridão,

Não há sonhos nem o repouso merecido.

Não há conforto e nem mesmo um chão.

Não há companhia e nem a solidão.

 

A visão fica turva,

A audição mais alta,

Não há palavras para dizer,

Mas a boca insiste em salivar,

Preparando discursos e respostas,

Para pessoas que não vão perguntar.

 

O silêncio constante trás dor aos ouvidos.

Crio vozes que me dizem o que eu gostaria de ouvir,

Vozes que me dizem o que eu não quero escutar,

Vozes que me dão conselhos vãos,

E vozes que me alertam o perigo.

E aquelas vozes que não dizem nada,

Mas estão ali, apenas esperando a sua vez.

 

Perdi o tato e o movimento dos braços,

Que apesar de ligados ao meu corpo não podem se mexer,

Amarrados constantemente, onde eu não posso ver.

 

Não deito ou levanto, pois as pernas não me obedecem mais.

Não há impulso ou alongamento,

Nem exercício ou caminhada,

Apenas um lugar “macio” para repousar,

Um lugar “de paz”.

 

A luz machuca meus olhos e o branco me perturba.

Às vezes imagino outras cores para me distrair,

Mas quando tento dormir, o branco me mantém acordada, atenta.

Quando tento esquecer, o branco volta como uma tela,

Uma galeria das minhas tragédias.

 

Uma camisa de força,

Alguns remédios

E um manicômio.

 

Alguns sonhos,

Uma pessoa

E um pensamento.

 

A sede,

O desejo

E uma oportunidade.

 

Uma resposta,

Uma réplica

E o fim.  

 

29-03-2015 juhliana_lopes

Anúncios

Vozes

mulher-em-camisa-de-forca-43461

As vozes não param de me chamar e mais uma noite estou aqui neste quarto. Não sei que dia é hoje, mas sei quando anoitece, pois eles desligam as luzes me deixando na mais completa escuridão. São várias toda hora, me chamando, me insultando, clamando, chorando, pedindo, exaltando, gritando, cantando, e me enchendo.

Toda vez que vou ao refeitório, ou ao banho de sol, ou mesmo quando vou à sala de visitas, esperar alguém que nunca vêm, elas estão lá, e toda vez que retorno a minha fortaleza da solidão, uma nova voz está cutucando meu ouvido.

Algumas eu reconheço, como as dos enfermeiros, e dos médicos me dizendo “Bom dia, você está com uma cara ótima hoje”. Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia… Várias e várias vezes pela manhã acordo antes da luz se acender com minha mente me desejando um bom dia.

Algumas são de pessoas que conviveram comigo lá fora, pessoas que eram meus amigos, que eram conhecidos, e que um dia fizeram algum tipo de diferença na minha vida. Pessoas que me ofenderam, pessoas que sumiram, e pessoas que eu matei. Não faça isso, não faça aquilo, não faça isso, não faça aquilo, não faça isso, não faça aquilo… Por favor, pare, eu imploro, por favor, pare, eu imploro, POR FAVOR, PARE! EU IMPLORO!

Você pode achar que vivo atormentada por elas, e que minha vida é um inferno. Você pode achar que viver onde eu vivo seria demais para qualquer pessoa e que seria melhor dar conta da minha vida. Você poderia achar ainda que deveriam me manter dopada para que minha mente tivesse um pouco de paz.

Você pode me aconselhar ainda procurar um tratamento de choque, e remédios controlados para que eu possa tentar conviver com pessoas “normais”, e levar uma vida saudável. Quem sabe ainda me dizer que eu devia tomar uma atitude e esquecer esse negócio de vozes, arrumar um emprego e ocupar a mente para que elas possam ir embora. E porque não, você me diria para tentar uma lobotomia e me livrar de tudo isso de uma vez?

Mas eu te digo que nada é tão ruim, que não possa ser pior. É realmente horrível viver com isso 24h por dia, e pior ainda ter uma memória infinita que guarda cada nova voz e faz ela se repetir por meses a fio. Porém, há uma voz que aparece que me faz ficar bem em meio a tantas que me atormentam. Uma voz q me faz delirar em devaneios tolos, e sonhos perdidos.

Uma voz, que tem gosto e cheiro, uma voz que trás boas coisas. Quando a ouço, sinto gosto de café e sinto cheiro de chuva. Uma voz que quando ouço me dá arrepios e uma vontade de buscar um prazer que jamais iria suprir os meus desejos. Aquela voz que me domina e poderia me levar às alturas. A voz de alguém que vejo todos os dias, mas não posso tocar, pois uma grade nos separa.

Alguém do passado que assim como eu, enlouqueceu (ou será que finalmente ficou são). Alguém que entre juras e promessas, entre as alegrias dos sonhos e a tristeza do realismo, se jogou num abismo de pensamentos e resolveu se perder. Alguém que guardei na lembrança e sei que também me guardou. Alguém que um dia eu prometi que estaria sempre dentro de mim.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, a voz diz. Sinto sua falta, eu respondo. De longe, nossos olhos se encontram, e mesmo sem nem abrir a boca, um sabe o que o outro está pensando. De longe, presos nesse hospício, separados por gênero, esperamos o dia em que vamos poder nos abraçar novamente.

Enquanto isso, em meio a tantas vozes, em meio a tanta confusão, você se tornou uma voz. A voz que eu faço questão de ouvir todos os dias. A voz que me guia e me alegra. A voz que me permite sonhar e dormir no aconchego do meu travesseiro velho. A voz que eu ouvirei até o fim dos meus dias.

 

/juhliana_lopes 26-01-2015

Sinfonia da Loucura

É engraçado quando, todos te chamam de louco. Vira algo banal, natural, até mesmo um desafio. Não sinta angústia, nem remorso. Não tente mudar caso alguém te chame de louco. Não se incomode, não se assuste, pois existe algo pior…

O que poderia ser pior? Você poderia facilmente me perguntar… Se perguntasse, eu responderia com prazer que o pior é quando não falam nada. O pior, é o silêncio.

Você anda, vive, ri, bebe, come, dorme, estuda, trabalha, convive, se relaciona, chora, abraça, bate, corre, pisca, fala, respira… Ninguém vê. Ninguém percebe. O normal é como denominam a sua vida. “Aquele cara normal” é como te chamam. Nada do que você faz ganha uma nota. Ninguém se admira das suas atitudes, ninguém aposta no imprevisível. As pessoas te leem como um livro velho de poucas páginas. Sabem exatamente o que pode acontecer… Mas e se eu disser que na verdade não pode?

Os loucos, os verdadeiros loucos, em sua maioria, nunca são notados. Ninguém repara, encaram a insanidade como algo natural, e menosprezam os pedidos de socorro. Ninguém gosta de ser louco de verdade. É divertido por um tempo, mas cansa. Você necessita de um pouco de realidade. Necessita sentir o gosto das coisas, o toque, ouvir a melodia… Por mais que ninguém repare, o mundo é completamente diferente. Você não consegue pensar, você não consegue dormir, não consegue ao menos ficar sozinho sem ter aquelas visitas desagradáveis.

1044314_547086868671060_674651991_nSim. Os loucos nunca estão sozinhos de verdade. No começo todos encaram como brincadeira de criança, mas só quem vive sabe o que é ter essas visitas. Começam numa coisa simples, dando poucos palpites, um tom diferente, uma música nova… Depois eles entram em sua mente como cobras e tomam seu pensamentos, um a um. Já não há mais privacidade. Tudo o que você pensa passa por eles e pensamentos de: “Deixa de ser idiota”, “Nossa, você não percebe que todos vão rir de você assim?” ou ainda “Nem começa, você sabe que não vai prestar… Sabe que vai ficar um lixo e ainda vai tentar?” se tornam frequentes.

Não existe mais o “dormir em paz”, duas, três, milhares ao mesmo tempo, numa louca sinfonia aguda e torturante. Várias opiniões, várias cartas, várias imagens… Tudo num loop até o corpo ser vencido pelo cansaço.

Ao acordar, mais um dia começa, assim como a rotina de trabalho. Mais pessoas dizendo “bom dia” de forma vazia e não enxergando o peso que você leva nas costas. Mais um dia normal, numa mente delirante. Mais um dia… Mais um…

 

juhliana_lopes 24-08-2013