Medo do Sol Nascente

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Há momentos em que caímos em questionamentos. O sentido da vida, que roupa usarei hoje, rosa ou azul, quente ou frio, levantar ou dormir mais cinco minutos…. A verdade é que seguimos sempre através destes questionamentos, como se eles fossem parte essencial para nossa existência. Pior que isso, só as respostas. Quantos não passaram a vida inteira procurando respostas a esses questionamentos e quando as tiveram, nem se importaram. Se você perguntar para uma pessoa a resolução de um problema que ela chorava há alguns anos, hoje em dia ela nem se lembra mais. As respostas se tornam inúteis, uma vez que o ser humano se acostumou a questionar. A busca, a “aventura”, as pequenas descobertas são mais importantes que a resposta em si. Uma conquista só tem graça durante o seu desenvolvimento, pois uma vez conquistada, uma vez adquirida, o resultado, o glamour, o poder se tornam fáceis. Aquilo que se buscava, aquilo que era apenas um objeto de desejo, se tornou algo ao alcance da mão. Após a primeira vez, aquilo perde seu brilho.

Por isso as pessoas sempre estão buscando alguma coisa e pouco se importando para o que já possuem. Mais do que isso, elas aprenderam a valorizar apenas aquilo que não possuem. Louco, não é? Do alto deste prédio, eu observo o dia a dia de muitas pessoas. Como formigas focadas apenas em um objetivo, as pessoas seguem apressadas, tropeçando umas nas outras. Um ou outro fica para trás, normalmente aqueles que ainda procuram aproveitar os poucos momentos da vida, mas ainda assim, todos sabemos que isso não dura para sempre.

De geração em geração, há sempre alguma coisa que está em alta e outra que é super desvalorizada, chegando ao ponto de ser objeto de vergonha. A ostentação do que está na moda, os holofotes, o Ser querido por alguém é o que faz você ser alguém na vida. Mas afinal, o que é ser alguém? É realmente preciso ser alguém na Vida, ou você pode passar por ela como um completo desconhecido e mesmo assim ser feliz?

Daqui de cima, mais do que as vidas tediosas, eu enxergo também os medos de cada um. Todos eles. E uma coisa eu posso afirmar, a maioria possui o mesmo grande Medo. Entre os mais comuns, há o medo de não ter tempo (que ironia… Ninguém tem), medo de escuro, mas não a falta de luz e sim a falta do conhecimento necessário para se alcançar a luz…. O medo de não ser capaz de enxergar os próprios caminhos. Mas, entre tantos medos que vivem travando as pessoas de conseguirem aquilo que querem, tornando assim tudo tão pacato, existe um que todos confundem, e um dia destes, enquanto eu estava entediada demais para observar as coisas de cima, e resolvi caminhar um pouco, acabei esclarecendo para um dos seres.

Era um dia nublado com temperatura amena, levemente frio. Eu caminhava descalça por ruas aleatórias, com minhas vestes esfarrapadas, já encardidas pelo tempo. É incrível como as pessoas ficam tão apressadas que se quer reparam quem anda a sua volta. Foi durante a caminhada próximo a uma ponte que eu notei, entre tantos passos apressados, um que parou subitamente. Era um rapaz alto e magro, com belas vestes sociais. Parecia muito angustiado, e tremia, enquanto olhava para o viaduto abaixo dele com certo delírio. Ele estava tão atordoado que não me viu chegando – ninguém vê. Então, enquanto o rapaz ainda namorava o asfalto abaixo dele, e vários carros passavam em alta velocidade, lhe fiz uma saudação, com um simples bom dia. Ele não ouviu, então repeti, porém sem toca-lo, apenas falando mais alto.

Como quem vê um fantasma, ele deu um pulo e eu pude sentir seu coração disparar. Um pouco ofegante, ele me olhou com calma dá cabeça aos pés e respondeu alguma coisa gaguejando, que eu não pude entender muito bem.

– Dia difícil? – Eu perguntei com um sorriso no rosto.

Um pouco mais calmo, mas ainda desconfiado, ele respondeu:

– Acho que sim…

– E olha que são só oito horas da manhã. – Respondi, mas desta vez sem encara-lo, olhando para o horizonte.

– Pois é… E você… Saiu de onde? – Ele me perguntou ainda desconfiado.

– Oh, eu? Não se preocupe comigo. Eu vivo vagando por aí, observando tudo. Nada demais.  – Eu respondi como se estivesse desinteressada.

Ele resolveu ignorar minha origem, ou mesmo o motivo para que eu estivesse ali. Com o olhar perdido para frente, ele fez o primeiro desabafo.

– As coisas andam tão difíceis. – Ele suspirou. – É horrível para mim passar por aqui todos os dias e perceber que eu não tenho coragem.

Olhei para ele, que estava olhando para os carros abaixo dele.

– Coragem é algo muito subjetivo, se você não souber do que realmente você tem medo. – Respondi calmamente.

– Filosofia de rua? – Ele perguntou em tom de riso.

– Quase isso. – Respondi, dando um sorriso de canto.

Então, depois de olhar para mim de cima abaixo e dar mais um suspiro, ele fez o segundo desabafo.

– Eu nem sei mais porque continuo aqui. Nada me prende sabe? Meu trabalho está a cada dia mais degradante, e o estresse é tão grande que já tem afetado minha vida pessoal. Aliás, vida pessoal é um elogio vindo da minha parte, pois não dá para chamar de Vida chegar em casa e deitar na cama com a roupa do corpo.

– Realmente. – Eu respondi enquanto observava os carros. Tão rápidos e tão vazios ao mesmo tempo. Sendo guiados por pessoas tão confusas e atordoadas como este rapaz ao meu lado.

Ele se calou. Senti sua boca seca, buscando um pouco de saliva para molhar os lábios. Antes que eu tentasse puxar algum assunto aleatório, ele desabafou pela última vez.

– Eu queria tanto acabar com tudo. Queria tanto me jogar daqui sem qualquer arrependimento, ou com todos eles, mas ainda assim me jogar sem pensar no que poderia acontecer depois…. Mas eu não consigo. Acho que eu tenho medo de morrer, essa que é a verdade. Sou tão fracassado que nem me matar eu consigo, e vou ser obrigado a ter essa vida de merda até a minha velhice, ou virar um morador de rua que nem você…. Sou realmente um medroso, uma vergonha.

A falta de umidade na boca de repente foi compensada com água nos olhos que rolaram pelo rosto. Eu podia sentir o toque quente da lágrima descendo pela bochecha esquerda, que rapidamente sumiu com um toque brusco de sua mão para apaga-la. Era mais do que óbvio que o medo dele não era e nunca ia ser da morte.

– Sabe… – Eu comecei – Você não tem medo da morte. São poucas as pessoas que tem.

Ele me olhou com os olhos marejados e uma expressão confusa.

– Você levanta todos os dias sem a menor vontade de levantar. Caminha até o trabalho, mesmo sem querer e quando chega lá, ainda consegue fazer um trabalho ótimo. Claro que isso não o satisfaz, porque você não admite para você mesmo que mesmo em meio a tantos momentos ruins, uma delas está de fato dando certo, e então, você reage desta forma.

Ele não se atreveu a dizer nada, parecia muito surpreso para isso.

– Olha…. – Continuei – Não é porque sua mãe te abandonou durante a infância que você deveria desistir de tudo entende? Claro que ela não foi correta com você, afinal, você era só uma criança, e é muito difícil entender qualquer coisa grave que aconteça durante essa fase. Todos temos pecados, e o dela foi querer viver. Você não pode ter medo de viver só porque ela te deixou para isso. Seu pai fez de tudo por você, e a sua avó também. A vida é mais do que os desejos pessoais, é a busca por novos objetivos quando os primeiros são frustrados.

Sua expressão mudou. Um misto de raiva e incredulidade. Além de claro, a típica não aceitação. Senti seu suor escorrer pela testa do lado direito, enquanto seus dedos se retraiam. Ele me olhou nos olhos com os punhos fechados e sem respirar direito, falou:

– Quem você acha que é para achar que sabe de alguma coisa sobre mim? Você não me conhece, como pode falar qualquer coisa sobre a minha infância ou sobre o meu trabalho? Você acha que só porque uma pessoa está angustiada ela está ferrada na vida igual você? Acha mesmo que todo mundo tem uma vida de merda igual a sua? Acha que só porque você veio parar na rua como uma mendiga, todo mundo tem uma história triste? – Ele falava alto e tremia um pouco.

– O que eu sou para você? – Eu lhe disse praticamente sem expressão.

Ele, um pouco surpreso com a resposta respondeu um pouco confuso.

– Nada.

– Então porque se importou com o que eu falei?

Ele não respondeu. Como se estivesse repassando tudo o que foi dito, se deu conta da sua raiva sem motivo.

– Você se importa porque é verdade. Não é medo da morte que você tem. É medo da vida. O puro e mais simples medo de viver livremente, encarando os desafios do dia a dia e mais, superando-os. Você tem medo de progredir, medo de crescer. Não é medo de que tudo se acabe. É medo do sol que nasce e te desperta para um novo dia.

Senti então seus olhos arregalarem. Suas mãos começaram a tremer mais, e agora até as pernas começavam a ficar um pouco bambas. Algo me dizia que ele estava começando a me enxergar de verdade.

– Quem é você, algum tipo de anjo? Alguma entidade? Algum ser sobrenatural? – Ele perguntou nervoso.

– Eu pareço um anjo? Não…. Esse título é muito forte para alguém como eu.

– Então quem é você? – Ele perguntou novamente, mas antes que eu respondesse, emendou mais uma pergunta – O que é você? Você é a morte?

Olhei para ele com um leve ar de desprezo. Não importa quantos anos os seres humanos vivam, nunca irão me reconhecer.

– Não. Não sou a morte. Muito pelo contrário. – Eu disse, me aproximando dele. – Eu sou a Vida. É de mim que você tem medo, e é por mim que sua mãe lhe abandonou, e por meio de mim que você irá para casa um pouco mais…. Feliz. – E então lhe toquei no ombro.

Era como se ele tivesse sido soprado. O leve toque foi suficiente para que eu pudesse sentir todo o seu organismo reagindo de uma vez só. Todos os estímulos, o sangue correndo nas veias e o ar passando em seus pulmões. Foi tão rápido que ele ofegou puxando o ar de uma vez como quem acaba de emergir de um mergulho.  Com as pupilas dilatas, ele olhou em volta levemente desesperado e sorriu. Ele não me viu. Não poderia mais me ver. Aquele sorriso tímido, se tornou uma gargalhada, levemente insana. Então, ele subitamente se calou. Olhou em volta novamente, e seguiu caminhando pelas ruas, apressado, segurando o riso. Ele estava feliz, estava motivado e bobo. Permaneceria assim por alguns dias, mas poderia estender o efeito, dependendo das suas atitudes.

Eu fiquei ali, no mesmo lugar observando.

Assim como a Morte vaga por aí, observando as pessoas, apenas as tocando quando é a hora certa. Eu vago por aí, apenas observando e reservando meus toques para àqueles que não se permitem viver o que tem. Reservando meu sopro para aqueles que tem medo de mim.

 

juhliana_lopes 12-02-2017

De verdade

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A verdade é que eu sinto muito. Assim como eu já senti tantas outras vezes. As lágrimas, são verdadeiras, e sempre vão existir muitas por aí. Elas parecem todas iguais, porém, cada uma carrega um peso específico, um peso de um motivo. O tempo, esse grande curador de feridas, que faz tantas pessoas ficarem frias e amargas, também ajuda a renovar a lenha que faz a brasa levantar em uma grande chama novamente. Por isso, não me surpreendo mais com minhas próprias mudanças.

Você não entende, e talvez nunca vai entender os motivos para o que está acontecendo agora, mas um dia quem sabe, você vai olhar para o céu e lembrar de tudo, de cada parte, cada momento, e então vai se pegar falando sozinho, dizendo: “É verdade”. Neste dia, eu estarei longe, e talvez você esteja acompanhado de outra pessoa, mas de qualquer forma, provavelmente lhe restará pouco tempo para se desculpar ou exigir as suas desculpas.

Uma coisa pode ser uma das verdades absolutas que a humanidade tanto procura: As luzes são iguais. Antes, elas eram distantes, e continuaram sendo. Porém as pessoas a trouxeram para mais perto com a eletricidade. Ainda são as mesmas luzes. Os mesmos pontos. As mesmas faíscas que incendeiam os olhos e fazem as pupilas de contraírem depressa, causando um leve desconforto. As mesmas luzes.

Algumas pessoas me perguntam por que eu tenho pensamentos tão distantes, tão frios. Perguntam se eu já conheci um amor de verdade. Me falam que o amor verdadeiro só se encontra uma vez na vida. Outra verdade simples é que os amores são intensos, e fazem você se sentir nas nuvens, mas não são únicos. O que faz as pessoas se iludirem ao ponto de dizer que só existe um amor para a vida toda, é a falta de tempo. Se eles tivessem duas vidas todas, três, quem sabe quatro, amariam mais vezes, sofreriam mais vezes, com a mesma intensidade.

Eu evito conversas profundas, afinal tive tempo suficiente para estudar e conhecer muitas coisas. Percebi ao longo desses últimos anos que as pessoas estão ficando mais rasas, então, meu assunto para com elas se mantém em seus níveis. Isso, não me afeta, mas com o acumulo de palavras e prosas, me faz conversar sozinha ao vento, muitas vezes.

Agora você se vai, nervoso e sem entender. Praguejando aos quatro ventos como a vida pode ser injusta. Acredite, eu já vi esse filme muitas vezes, e isso não diminui a sua dor, muito pelo contrário, ela é totalmente válida e seu de direito. Eu é que já entendo tudo e já vivi isso tantas vezes e viverei novamente, que não consigo mais esboçar qualquer reação para satisfazer o seu ego ferido.

Novamente, eu vou para aquela ponte, a mesma que eu tive a oportunidade de ver nascer e que depois de tantas gerações ela tem durado tanto, firme e forte. Quando ela se for, terei que arrumar outro lugar, que seja tão resistente ao tempo, assim como essa ponte. Assim como eu.

As pessoas se julgam conhecedoras do mundo, e do saber. Passam anos de suas vidas se dedicando, apontando o dedo para aquelas que estão despreocupadas. As que levam a vida “numa boa”, vivem cada dia como se não fosse haver um amanhã, apontando também os seus dedos, para os que “perdem tempo”. Um dia, em uma das poucas conversas profundas que eu tive, me perguntaram afinal, quais desses tipos, estavam certas. Ninguém está. Então você pode continuar fazendo da sua vida, o que bem entender, afinal, você só vai ter uma vida mesmo.

Eu não sei como aconteceu, eu só sei que um dia eu percebi que todos tinham uma coisa que eu não tinha. Eu juro que tentei encontrar mil formas para quebrar esta maldição, mas não há nada que possa fazer, para que isso mude. Então, continuei vivendo, uma vida de cada vez, viajando, curtindo, conhecendo, estudando, pesquisando, casando, separando, simplesmente tendo vidas, vidas eternas. Não me lembro mais como aconteceu. Já tentei explicar isso aos meus amantes, mas foram poucos que entenderam. A vida é diferente para quem não tem uma só vida. O mundo é o mesmo, com fases diferentes, como a lua, para quem é imortal.  Uma única vida, mísera e comum, é um grande artigo de inveja para quem um dia, sem porquê ou para que, perdeu o privilégio da morte.

Eu sinto muito. De verdade. Assim como já senti outras vezes. Todas, de verdade.

juhliana_lopes 10-08-2016

Eu não lembro

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Eu não lembro exatamente como vim parar aqui.

Na verdade eu não lembro de como cheguei aqui.

Não lembro se tive família, se fui a escola e se um dia eu namorei.

Simplesmente não lembro se eu comi um pão velho ontem ou hoje,

e se eu realmente existo.

Não lembro como é um abraço, e nem lembro se um dia eu beijei alguém.

Não lembro se senti prazer e nem se eu consegui dormir na última noite.

Por mais que eu tente, não lembro se eu tenho um nome,

ou se eu sou quem eu digo ser.

Na verdade, não lembro de ver mais ninguém além de mim,

e pensando bem, não lembro de ver nem o meu rosto.

Não lembro se agora é noite ou dia,

não lembro o nome desse objeto em minha mão.

Eu não me lembro de nada.

Eu sinceramente não acho que eu tenha que lembrar de alguma coisa.

Eu realmente não me importo em ter que lembrar.

Que diferença vai fazer saber como cheguei aqui,

ou saber quem eu era ou o que fiz?

Estou aqui, seja lá onde “aqui” for.

Estou bem, acho que sou bem alimentado, mas não lembro.

Penso ter ouvido vozes ou sussurros, mas eu também não lembro.

Talvez alguém venha me ver quando apagam as luzes,

Ou talvez seja só uma impressão.

Não me lembro e não quero lembrar.

Não me importo e não tenho porquê me importar.

Seja lá o que eu fiz, seja lá quem eu era,

não faz falta a ninguém,

senão eu não estaria mais aqui,

e me lembraria de tudo aquilo que esqueci.

Me lembraria de tudo aquilo que um dia eu escolhi esquecer.

 

/juhliana_lopes 02-04-2013