Vício

Catisofobia

“Olá, boa noite! Vamos começar agora nossa sessão. Espero que todos estejam confortáveis. Quem estiver à vontade, pode começar”. Era assim que todas as minhas noites começavam. Todos se encontravam pontualmente as 18h, mas a reunião só se iniciava as 19h. Diziam que era importante essa pequena interação antes do nosso momento, para ganhar intimidade e proximidade, perdendo assim a timidez. Eu não me importava, estava ali porque eu queria.

De fato, era algo bem curioso com os novatos. Era nítido a diferença de quem estava ali porque queria e de quem foi obrigado por algum motivo. Em todo caso, era um ambiente agradável, com um salão enorme que fazia muito eco, até mesmo com passos cautelosos. Haviam paredes brancas com uma listra cinza, que deixava com um ar meio mórbido, mas também lembrava as antigas salas de aula da escola. A luz branca e fraca bem no alto da nossa roda de conversa, dava um tom melancólico que de alguma maneira, incentivava as confissões contritas.

Eram muitas as confissões. Algumas se repetiam todas as noites, mas sempre havia algo novo para ser descoberto. Lembro-me de uma moça que se auto sufocava toda vez que tinha crises de ansiedade. Ela chorava compulsivamente e ficava com falta de ar e os batimentos acelerados, então ela pegava uma faixa, passava pelo pescoço e apertava em frente ao espelho, respirando limitadamente. Quando começava a ficar roxa, ela afrouxava as faixas e se sentia bem e controlada. Ela contava feliz que agora, depois das reuniões, há muito tempo ela não precisava mais da faixa e se sentia vitoriosa com isso, pois ela percebeu que estava ficando viciada naquelas sensações.

Havia um rapaz que participava todos os dias, mas nunca falava nada. Um dia, aos prantos ele disse que seu maior vício era a pornografia. Ele não se excitava com aquilo, muito menos sentia prazer. Ele só precisava ver e rever várias vezes ao dia. Percebeu que estava ficando incontrolável quando começou a observar pessoas reais, depois de flagrar um casal em um carro. Começou a se arriscar na madrugada próximo das casas para ouvir sons, observar as janelas, se esconder em motéis. Quase foi preso, pois uma mulher o viu rondando a casa dela. Ele pedia ajuda e dizia que tinha medo de ter se transformado em um monstro. Foram mais algumas semanas até ele se sentir bem novamente, agradecer a ajuda e sumir.

Um rapaz se descobriu suicida depois de perceber que adorava ficar em lugares altos e sentir a vertigem ao olhar pra baixo. Percebeu que essa “mania” começou quando ainda era criança, depois de uma surra que levou de seu pai que estava bêbado. Ele simplesmente subiu no telhado, com hematomas aparentes e ficou olhando para o chão sentindo algo que como ele dizia era “indescritível”. Então notou que algo que ele achava normal, acontecia todas as vezes que ele passava por algum trauma ou uma situação difícil. Por recomendação do grupo, ele pulou de paraquedas com toda a segurança envolvida e descobriu nos esportes radicais algo melhor do que ficar só pensando em se jogar.

Você pode pensar que passar as noites ouvindo os problemas alheios é um tipo de fim de carreira, ou mesmo uma perda de tempo, mas acredite para algumas pessoas, aquilo é tudo que elas têm. O comportamento humano tem uma certa graça digna de cinema. Pois já vi tantas pessoas na rua, daquelas que esbarram em você ou te ignoram, mas que se encontram naquela roda e se expõe de uma forma inacreditável. Pessoas insensíveis no dia a dia, que guardam todos os seus sofrimentos para as 19h.

É como uma dupla personalidade diária. Uma capa que vestem todos os dias e convivem com ela por anos, mas fazem questão de tirar ao chegar naquele salão. Capas que são arrancadas, devidamente dobradas e guardadas com todo carinho, pois por mais que ali eles mostrem a própria carne, ainda não estão preparados para viver sem elas. A vida de fato, tem dessas coisas.

Você pode se perguntar qual o meu vício afinal, já que faço questão de estar ali todas as noites. Meu vício é pelo sofrimento alheio. Pela dor humana, pela dor do outro. Não faço questão de resolvê-la ou de toma-la para mim. Aprecio assim como os que apreciam a arte, como um quadro pendurado na parede com cores frias. Degusto como os que degustam vinhos finos em um restaurante qualquer. Sento-me confortavelmente no meio da roda com ouvidos atentos, ouvindo e me alimentando. Não, eles não podem me ver, mesmo que quisessem. Não, eles não sabem da minha existência. Alguns poderiam me chamar de anjo caído, outros de demônio, mas sou só um espírito maldito em busca de paz para o meu pequeno vício.

juhliana_lopes 28-07-16

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A massagista

sexo07

Depois de uma pré avaliação, disseram que eu estava liberada pois tudo não passou de um susto, um pequeno lapso que podia ser facilmente controlado com calmantes. O diagnóstico estava errado, pois eu sinto que está errado. As pessoas podem manifestar distúrbios e até mesmo doenças mais graves de formas sutis inicialmente que, normalmente, são ignoradas ou cuidadas com pouco caso por se tratar de algo “pequeno” ou “só isso” que “logo passa”… Mas não passa.

A maioria das pessoas também convive bem com isso, escondendo seus medos e anseios em alguma coisa, seja trabalhando demais ou bebendo demais. O vício, seja ele no que for, entra como uma válvula de escape, mas ao mesmo tempo é seu maior veneno pois vai matando e sufocando a vítima aos poucos e então, ela surta de vez liberando aquele problema ou se mata sozinha quando a doença se expande.

No meu caso, ainda não tenho um vício propriamente dito, mas meu trabalho é o meu pior castigo. Como conviver com aquilo que você deveria evitar? É como um pedófilo que quer “se curar” na Disney, um alcoólatra trabalhando como provador de vinhos, ou qualquer coisa do gênero… Não presta entende? Uma hora vai dar merda, mas eu pelo menos sigo firme e forte, pelo menos por enquanto.

Não existe nada demais em trabalhar onde eu trabalho, afinal, eu ajudo as pessoas, elas vem cansadas, estressadas em sua maioria e buscam apenas relaxar. Pelo menos eu não tenho que usar roupas sensuais como é o desejo de alguns marmanjos que por aqui aparecem, mas ainda sim, não é isso que me incomoda.

Fazer massagens nos outros não é ruim. É um bom exercício pra mente. Você consegue atingir pontos específicos que mexem com os nervos das pessoas. Pontos nos braços que atingem o emocional da pessoa diretamente no pulmão ou no coração por exemplo. Pontos que mesmo que doam um pouco ao apertar, trazem um alívio enorme depois. Já cansei de contar as pessoas que chegam com os ombros duros como pedra saírem molinhos como travesseiros.

Já vi pessoas desesperadas encontrarem soluções geniais para seus problemas depois de um tempinho relaxando, e até pessoas que aparentemente estavam completamente “zens”, perceberem que na verdade o problema só estava oculto.

Como vê, não há nada demais na minha vida, no meu trabalho, e em tudo mais. Talvez seja um exagero meu me achar uma louca em potencial, talvez realmente tenha sido algo pequeno como o médico disse… Poderia, claro, por que não? Não, não pode, simplesmente porque eu tenho um gosto insaciável em apertar pescoços, segurá-los e só soltar quando o corpo estiver mole em minhas mãos. Não pode porque cada vez que eu vejo um pescoço vulnerável, indefeso, minha boca enche de água e minhas mãos coçam como um cão sarnento e meu sangue ferve me deixando em um ponto além do ponto de ebulição de uma jarra de água qualquer. O suor frio que corre em minhas costas a cada vez que alguém está sonado, curtindo seu momento relaxante me faz tremer e sangrar por dentro, e apenas respirar fundo e morder os lábios por fora.

 

Se eu já esganei alguém? Sim, mas não sei mais dizer quantos. A primeira vez foi pra me defender de um assalto e eu acho que o bandido nem morreu, só desmaiou mesmo, mas a segunda pessoa eu tenho certeza que se foi, afinal, eu ouvi e senti um estralo profundo em seu pescoço. O que eu fiz com o corpo? Bem, digamos que ele ficou escondido em algum lugar.

Nesse meio tempo ocorreram outras e nem todas eu tenho certeza se matei como o meu segundo, e desde então só acontecia quando eu resolvia sair sozinha para curtir baladas em outras cidades onde ninguém me conhecia. Se tornou algo bom de se fazer pois eu podia me sentir livre e ainda curtir meu estranho prazer em paz. Tudo ia bem e eu poderia ter levado isso pra frente por muito tempo se não fosse uma discussão na casa de um amigo meu.

Eu só fui defender ele, mas no fim das contas acabei com o pescoço do cara que estava discutindo com ele nas mãos. Não morreu, mas ficou em coma por uns dias. Como o meu segredo que ninguém sabia nem que existia um segredo foi revelado, me levaram para um médico que diagnosticou apenas como um leve surto pós estresse, sem risco, pois eu era uma menina de boa família, boa educação e desde que eu me acalmasse, não aconteceria novamente.

Mas acontece. Todos os dias, pelo menos um pouquinho, sem danos é claro, de forma mais disfarçada possível entre um movimento e outro durante as massagens. Ninguém até hoje reclamou ou percebeu, ninguém pediu pra parar ou pra continuar, e então eu sigo nesse disfarce, mas só leves apertos não me satisfazem.

Com o tempo e com alguns parceiros descobri que também gosto deste tipo de “carinho”, as vezes, até mesmo pra me acalmar um pouco depois de um longo dia com vários pescoços , eu mesma me enforco, buscando quem sabe sanar um pouco desta loucura. Um dia quem sabe, quando eu não tiver mais nada a perder, eu me acabe no meu prazer, e destrua tudo com as minhas mãos, apertando, segurando, sentindo cada pulsação, cada alma se esvaindo, cada sonho se acabando… Quem sabe um dia, eu respire enquanto os outros não podem mais respirar…

/juhliana_lopes 28-12-2014