A viagem

Karina estava muito animada. Aquele ano havia sido muito generoso com ela. No ano anterior se formou jornalista, e no início deste ano já conseguiu um emprego na área. Melhor que isso, dois meses depois conquistou sua própria coluna quinzenal. Seus artigos, escritos com uma minúcia impecável, tratava de qualquer assunto com profundidade e propriedade. Não só informava o leitor, como também ensinava coisas novas, de forma didática e objetiva. Era um ano realmente bom. Não só seus artigos ficaram conhecidos, mas também suas crônicas, que até o meio do ano não passavam de hobbies. Foi só seu editor chefe ler, que logo teve a ideia de lançar uma mini revista junto com o jornal. Entre propagandas pagas e anúncios gratuitos, lá estava uma “CroniKa”, trazendo um humor ácido, porém muito inteligente. Os assuntos cotidianos retratados por Karina, se tornavam uma poesia boêmia, onde todos se divertindo lendo, pois mesmo diante de um assunto polêmico, ela conseguia trazer uma sutil visão, só sua, que logo era de todo mundo. Não demorou para as crônicas irem para um blog, e então começarem os convites para o lançamento de um livro. Várias propostas, e Karina estudava cada uma delas, afinal, aquele estava sendo um ano muito generoso.

Fim do ano, férias coletivas, Karina se preparava para uma viagem dos seus sonhos. Disney, Europa? Não. No alto dos seus 33 anos, Karina só pensava em curtir o seu descanso passando por cidades do interior, coletando histórias do povo, e assim, aumentar seu material para artigos e crônicas. Seu amigo Noah também se preparava. Ele não era jornalista e sim biólogo, mas se formou na mesma faculdade que ela. Melhores amigos, sempre dividiram experiências, e agora se preparavam para a primeira viagem juntos. Foi ideia de Noah fazer a viagem, enquanto Karina escolheu o lugar no mapa aleatoriamente. Cidade de Portinho, praticamente uma vila antiga sobrevivente no mundo moderno. Sem edifícios enormes, com uma linha de trem na cidade para trens de carga. Um hospital, uma delegacia, um grande mercado e algumas pequenas pousadas. Divisa com um rio, maior orgulho da cidade, que desagua em outro rio maior na cidade vizinha. Rio limpo, bem cuidado, um brinco como diriam os mais velhos. Cidade pequena, pouco mais de 875 habitantes. Isso mesmo, 875 e não 875 mil. Cheia de mato como diriam alguns, mas cheia de histórias maravilhosas também.

Chegar lá não era muito fácil, mas Karina e Noah conseguiram. Depois de parar no aeroporto, foi necessário dois ônibus para chegar a cidade vizinha e de lá, pegar um táxi. Já era fim do dia e o sol já começava a se pôr, pintando o céu de laranja com tons violeta. Eles se instalaram em uma pousada próxima ao mercado. Karina já começava a escrever em seu Notebook sobre as coisas que viu, sobre o percurso, a demora e o lugar em que iam dormir. Noah, preparava seu material para colher algumas amostras no tão famoso rio da cidade no dia seguinte, porém a noite que deveria ser tranquila e silenciosa, como rotina em locais isolados, foi interrompida por gritos tortuosos. Era claramente um grito de sofrimento, dor e que causava arrepios para qualquer um que ouvisse. Noah correu para o quarto de Karina que já estava na janela procurando de onde o som estava vindo. Da mesma forma que se iniciou, o lamento se interrompeu subitamente e a cidade voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.

Pela manhã, Noah escolhia cuidadosamente os pães para o seu café da manhã, enquanto Karina interrogava alguns moradores, em busca de informações. “É só o louco da cidade”, desconversava a maioria, deixando claro com seu desconforto ao responder qualquer coisa que aquele era um assunto “intocado” na cidade, e como uma criança que continua rabiscando a parede mesmo depois de você dizer que não pode, Karina continuava perguntando e tentando extrair alguma informação. O dia estava aberto, ensolarado e os pássaros brincavam alegres próximo as raízes das árvores. Noah, enquanto caminhava sozinho observando as paisagens, sem querer descobriu que o tal “louco” morava próximo ao cemitério, e que na verdade não era exatamente louco, e nem tinha qualquer desordem mental. O homem, que se chamava Alberto, mas que todos conheciam como “Au”, ou Beto. Era famoso na cidade por suas “adivinhações”. Era um dos pontos turísticos da cidade, com uma casa pequena pintada de amarela do lado de fora, com as paredes em azulejo azul bebê. Diziam que ele era capaz de saber tudo o que havia acontecido com você desde que chegará na cidade e arriscava alguns palpites sobre o futuro. Sempre vestido com roupas escandalosas, em um tom de roxo vivo e cintilante, aplicava pequenos golpes e sobrevivia do dinheiro que ganhava dos turistas. O golpe era que ele pagava alguns moleques para vigiar os visitantes, segui-los desde a sua entrada até a sua saída. Eles passavam todas as informações para Beto, que quando se transformava em “Au”, sabia tudo. Depois, sobre o futuro, era só fazer uma previsão simples e garantir que os moleques fariam acontecer. Mesmo quando descobriam o truque, os turistas não ficavam bravos, afinal sua excentricidade era bem divertida. Mas louco? Noah se perguntava. Puxando algumas conversas paralelas, descobriu que Beto havia ganhado a alcunha quando aos 20 anos, sofreu uma “possessão”, e dera informações sobre o passado da cidade e sobre um futuro sombrio. Na época toda cidade ficou temerosa, afinal o espetáculo foi assustador: Beto se debatida ferozmente até arrancar sangue dos braços, e com as mãos sujas, escrevia coisas confusas nas paredes. Depois gritava em agonia e se retorcia no chão, e quando finalmente pareceu estar em paz, falou com uma voz calma e serena (com os olhos virados para trás), que o futuro era maligno, pois aquela que trouxe a desgraça para a cidade uma vez, havia nascido novamente.

Era realmente uma história macabra, mas Noah não estava exatamente convencido. Foi quando um velho que tomava uma dose de pinga, disse sem se importar: “Só sabemos que essa possessão foi verdadeira, porque uma senhora a mais antiga da cidade na época confirmou alguns relatos, e decifrou o que ele havia escrito na parede. Depois disso nunca havia acontecido nada parecido, até ontem. ” Na noite anterior, os gritos ouvidos foram de Beto, porém a cidade não fez questão de tentar entender desta vez e resolveu apenas abafar a história. Não queriam maus presságios novamente. Tinham medo.

Ao meio dia, enquanto almoçavam, Karina contava animada sobre as coisas que havia visto na cidade. O mercado, a delegacia, a linha do trem… Tudo era magnífico, mas ela também havia descoberto algo a mais.

– Você sabia que existe uma senhora com mais de 100 anos na cidade? – Disse Karina, animada.

– Mais de 100? – Perguntou Noah enquanto mastigava.

– Sim, completou 115 anos semana passada. Acho que vou fazer uma visita para ela mais tarde. Dizem que ela sabe algo sobre alguma profecia na cidade.

– Fiquei sabendo de algo assim também… – disse Noah enquanto colocava mais uma porção de comida na boca.

– Como assim?

– O louco – Noah contava enquanto mastigava – é um homem que ganha dinheiro fingindo que consegue adivinhar o futuro das pessoas. Aos vinte anos ele teve uma visão macabra e surtou legal. Os gritos que a gente ouviu ontem a noite eram dele…

– Noah, você fica sabendo disso e só me conta agora? Tem noção de como isso pode se tornar uma excelente história? – Disse Karina exaltada, deixando o garfo cair.

– Ka, não tem nada de extraordinário aqui. Faz trinta anos desde o último surto. Ele pode só ter alguma desordem mental, e agora com a idade chegando, isso pode estar ativando de novo. Não tem nada de anormal aí. – Respondeu Noah um pouco desinteressado.

– Onde você vê nada de anormal, eu vejo algo digno de primeira capa. Toda história que mexe com a crendice do povo ganha proporções enormes, e além disso, eu também quero descobrir os segredos desta história. – Karina encerrou a conversa se levantando e indo para o seu quarto.

Após o almoço, Noah acompanhou Karina até a casa da tal mulher centenária. Por mais cético que ele fosse, não queria que sua amiga fosse sozinha atrás dessa história, afinal, ninguém sabia o que poderia acontecer. A senhora, era nada menos que parente de Beto, e ele cuidava dela desde que as filhas morreram. Ela era sua tia avó, a mais velha de três irmãs. A avó de Beto e a outra irmã morreram no parto. O filho da outra tia morreu dois anos depois que nasceu. A mãe de Beto também faleceu assim que ele nasceu. O local era agradável, e Karina aproveitava para fotografar tudo. Noah, andava despreocupado pelo lugar, até chegar a um quarto. Ela estava lá. Sentada em uma cadeira de rodas de olhos fechados repousando. Antes que pudesse entrar, Beto o interceptou.

– Ei, o que você está fazendo?

– Desculpe, eu só estava olhando. – Respondeu Noah, se afastando a porta.

– Oi, tudo bem? Meu nome é Karina. – Disse Karina se aproximando estendendo a mão para Beto.

Ele hesitou, mas deu a mão para o cumprimento. Quando a tocou, seus olhos viraram assustadoramente para trás, e ele respondeu com uma voz completamente diferente.

– Olá bela dama da noite. Enfim a profecia irá se cumprir! Hoje, no alto da lua cheia, o sacrifício estará esperando por você!

Era uma voz profunda, como se tivesse ecoando por séculos. Na mesma hora, no quarto, Noah podia jurar que a senhora havia aberto os olhos e que eles estavam brilhando, mas ele não tinha certeza, afinal havia ficado com muito medo da situação. Os olhos de Beto voltaram ao normal e então ele disse com sua voz natural e um sorriso no rosto:

– Ah, oi. Eu sou Au, vocês vieram para uma sessão de adivinhações?

– Eu… – Karina ficou sem saber o que dizer.

– Beto, o que você disse? – Perguntou Noah.

– Se vocês vieram para uma sessão de adivinhações? – Respondeu ele um pouco confuso.

– Não, antes disso…

– Perguntei o que você estava fazendo quando estava espionando minha tia. – Beto respondeu sério.

– Não… Beto, você disse algo sobre uma profecia… e sacrifício… – Tentou explicar Noah.

– Vocês estão fazendo algum tipo de brincadeira comigo? Eu não falei nada sobre isso. O que vocês querem aqui afinal? – Ele perguntou um pouco nervoso.

– Beto… – Começou Noah.

– Somos jornalistas. – Interrompeu Karina. – Queremos a sessão, mas também queremos conversar com a centenária. É possível?

– Claro, meu anjo. – Respondeu Beto agora mais tranquilo com um sorriso no rosto. – Vou me preparar, só um minuto.

– Karina, você ouviu o que aquele louco falou? Você não vai ficar sozinha com ele numa sala. – Noah falou baixinho para Karina.

– Eu vou sim, e você também. E depois juntos vamos falar com a mulher. – Disse Karina.

– Na verdade, podem conversar comigo agora e preferirem. – Respondeu a mulher que estava em pé na porta do quarto.

Após o susto, sentaram-se na sala, e Karina ávida por respostas, ouvia cada coisa com atenção. A senhora pacientemente começou a contar a história da cidade, porém Noah ainda estava muito perturbado e a interrompeu.

– Desculpa senhora, mas poderia falar logo sobre a profecia?

Ela ficou muito séria, e então começou a olhar fixamente para Karina com uma expressão de terror.

Há 100 anos, morria uma feiticeira. Ou pelo menos era como os antigos a chamavam. Era uma mulher que se divertia matando pessoas aleatórias, deixando elas sangrarem até morrer. Não havia nenhum motivo específico aparente. Todos tinham medo, e assim, ela continuava com os assassinatos. Com um tempo, ela foi transformando esses atos medonhos em rituais. As pessoas com medo, ofereciam pessoas de suas próprias famílias para que eles não fossem amaldiçoados. Até que um dia, uma autoridade da cidade, cansado do povo passivo, se rebelou contra a feiticeira e a colocou para queimar em uma fogueira. Naquele mesmo dia, após a execução, foi achado um papel com uma grafia estranha, mas que os antigos sabiam ler. Lá dizia que após 100 anos da execução, ela voltaria com a idade de sua morte para realizar o último massacre, e no alto da lua cheia…

– O sacrifício estaria esperando, e a profecia iria se cumprir… – Karina completou a frase final sem perceber.

– Karina? – Chamou Noah.

– O que? – Ela pareceu acordar de um transe.

Mais uma vez a senhora olhava fixamente para Karina. Olhos profundos.

– Eu tinha 15 anos quando aconteceu. Meus avós me alertaram que a assassina seria reconhecida por uma mancha de nascença, uma mancha como um corte de faca um pouco abaixo da costela direita. Esse seria o sinal.

– Tia? – Falou de repente Beto, apontando para Karina.

Noah olhou para amiga que estava com a blusa levantada na altura da barriga, observando sua marca de nascença, com os olhos marejados.

– Noah… eu não to me sentindo bem… – Disse Karina antes de desmaiar.

– Mas que merda vocês fizeram com ela? – Noah se levantou irritado.

Beto ia pedir desculpas, porém seus olhos viraram de novo e agora ele estava em uma postura muito estranha. Começou a se debater, e então foi para cima de Noah, lhe dando uma chave de braço.

– Me larga cara, você está louco? – Noah tentava se soltar.

A senhora ficou apenas sentada, de olhos fechados. Noah então perdeu as forças e desmaiou.

Mais tarde, a meia noite, Noah acordou amarrado em cima de uma pedra, rodeado por muitas pessoas com fogueiras. Seu coração estava acelerado, e logo o ar não chegava em seus pulmões. Desesperado, tentou gritar por socorro.

– Que porra é essa? Cadê a Karina? Me soltem seus malucos! Cadê a Karina?

– Aqui. – Ela respondeu séria. Usava um vestido vermelho que ele nunca tinha visto. Estava com uma expressão sombria e assustadora.

– Karina, que merda de brincadeira é essa? Me tira daqui logo, você sabe que eu não gosto desse tipo de coisa.

Ela então se aproximou e puxou seus cabelos contra a pedra, encostando uma lâmina em seu pescoço. Noah estava aterrorizado demais para falar qualquer coisa.

– Eu não sei onde você acha que isso é uma brincadeira. Mas tudo bem, eu vou relevar a sua insolência.

–  Karina… – Noah disse baixinho – Que tipo de lavagem cerebral eles fizeram em você?

– Não existe lavagem cerebral – Karina respondeu – Só existe a verdade. E agora, irei concluir o meu sacrifício.

Karina então se levantou e disse algumas palavras em línguas estranhas, então, se virou rapidamente e cortou a garganta de Noah em um movimento rápido, deixando seu sangue escorrer. Todos gritaram um tipo de canto assombroso. Karina então falou alto:

– Que a profecia então se cumpra!

E todos gritaram e com as tochas, começaram a colocar fogo uns nos outros. Noah, em seu último suspiro observava a cena com horror.

Pela manhã, todos estavam mortos, e aves carniceiras começavam a voar no alto procurando algo para comer.

Longe dali, Karina abandonava um carro na beira da estrada e ia em direção a um ponto de ônibus. Quando o veículo chegou, pediu para ir à cidade vizinha e perguntou onde ela poderia comprar passagens para o aeroporto. O motorista explicou tranquilamente, porém antes que ela fosse sentar em algum lugar, ele sinalizou:

– Moça, acho que você sujou a mão de batom e passou no rosto. Sua bochecha está manchada… – Ele disse apontando para o próprio rosto.

– Ah, sim. Muito obrigada. – Ela respondeu docemente, procurando um espelho na bolsa. Quando se sentou, colocou uma música em seu celular e disse para si mesma com um sorriso no rosto– É realmente um ótimo ano….

juhliana_lopes 09-09-2017

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A artesã

marionete

Em uma cidade distante, havia uma pequena vila ligeiramente afastada da cidade, onde havia moradores amistosos e muito pouco para se fazer nos fins de semana.
O turista da vez se chamava Carlo, sem o “s” mesmo, sua mãe quisera assim. Ele era alto e magro, vivia explorando cidades distantes com vilas afastadas, atrás de alguma história interessante para publicar em seu blog de aventuras.
Gostava de conhecer tudo, desde a padaria do “seu Zé” até as lendas mais tenebrosas. Como de costume, se instalou num desses hotéis pequenos que sempre há nessas cidades distantes e procurou logo saber onde poderia encontrar o “ancião” do lugar.
Algumas visitas ao bar do “seu Zé” foram suficientes para descobrir que o ancião na verdade era anciã e para que Carlo notasse que havia uma rua aonde ninguém ia, não importava o horário.

Ao conversar com Dona Amélia (a anciã), Carlo descobriu um pouco sobre a história da rua aonde ninguém ia: “Aquela é uma rua sem saída, e quase todos de lá morreram, sem uma explicação lógica. A única casa onde mora alguém, é a última da rua. Senhorita Artisan, filha dos donos da casa que também morreram. Vive sozinha lá. Ela sai as vezes para comprar mantimentos e coisas para artesanato. No centro da cidade, ela vende suas tranqueiras  porque aqui, ela sabe que ninguém via comprar. Dizem que uma maldição tomou conta daquela rua e qualquer um que se aproximar terá seu destino traçado. Ouça rapaz, muitos turistas curiosos foram para lá e nunca mais voltaram. Não vá lá. Vença sua curiosidade, vá embora daqui enquanto é tempo!”

Carlo foi para o hotel, mas não conseguia tirar as palavras de sua cabeça. Seja lá o que houvesse, ele tinha que descobrir.

Na manhã seguinte, levantou bem cedo e foi a tal rua proibida. Havia muitas casas, que pareciam muito bonitas, apesar do seu péssimo estado de conservação. A última casa parecia bem velha, cheia de plantas, um jardim imenso. Na caixinha de correio do lado de fora, estava escrito em letras brancas: Família Artisan. Com certeza era a casa. Carlo ficou tanto tempo olhando o jardim que não percebeu quando uma sombra se aproximou e tocou seu ombro.

– Senhor! – disse uma voz calma.

– AAAAH! – Carlo deu um grito e olhou rapidamente para trás.

– Calma Senhor. O que faz aqui? – Disse uma moça com um tom de voz suave como uma flor.

– Nossa, eu confesso que não esperava encontrar alguém aqui a essa hora…  – Disse Carlo, ainda ofegante.

– Nem eu esperava encontrar alguém rondando a minha casa a essa hora. Quem é você? – Disse a moça, agora num ligeiramente mais agressivo.

– Ah sim, desculpe. Meu nome é Carlo, eu estava explorando a vila para escrever um artigo no meu blog. Eu já tinha visitado todas as ruas, então resolvi vir nessa.

– Você conversou com a Dona Amélia antes de vir pra cá?

– Ah… Sim, mas…

– Mesmo assim você veio… A curiosidade não te deixou dormir eu imagino…

– É foi, mas o fato de eu ter vindo aqui não tem nada a ver com o que ela disse e…

– Entre. Vamos tomar um café.

Carlo acompanhou a moça. Seu tom de voz era amistoso, porém, ele não conseguia esquecer um detalhe: como ela sabia que ele havia conversado com Dona Amélia? Ela não estava na rua naquela hora…

Ao entrar na casa, sentiu o ar meio pesado, parecia que vivia fechada, mas a decoração também era amistosa. Peças antigas e modernas davam um contraste elegante ao ambiente. Na cozinha, havia muitas peças de artesanato e tapetes feitos a mão. Aos poucos Carlo foi esquecendo as coisas que Dona Amélia disse e se encantando pela misteriosa moradora.

Conversaram durante horas, sobre coisas da cidade, crendices populares, o mundo e viagens. Não havia nada de assustador nela. Além de simpática, não tinha nada de moça do interior. Tudo ia bem até ela tirar uma caixinha da gaveta, entregar a Carlo e perguntar: “Qual você prefere?” Na caixa, havia vários retalhos de tecido e cordões e todas as cores. Ele escolheu um pequeno retalho azul, da cor de sua calça, e alguns cordões amarelos. 

Ela pegou suas escolhas e foi para uma salinha escondida, pedindo que ele esperasse. Tudo parecia normal, até que de repente ele se sentiu sufocado, mas não havia nada em seu pescoço. Seu ar fugia e ele tinha dificuldade para falar e pedir ajuda. De repente se viu no chão, se arrastando para a sala onde ela entrou, porém não era ele. Algo controlava seu corpo e ao mesmo tempo impedia seu ar. Ao entrar na sala, viu várias marionetes. Seu ar voltou. Seu corpo voltou. Levantou-se e percebeu que um dos bonecos se parecia muito com “Seu zé”, outra era a cara de Dona Amélia. Havia três estantes, uma com uma pequena placa escrita: “Vivos”, outra com uma plaquinha maior escrita: “Presas” e outra escrita: “Mortos”. Na estante de mortos, havia um casal de bonecos muito parecidos com os pais da moça, que Carlo havia visto em um retrato. Sua cabeça girava, ele não queria entender o porquê daquilo, pois lhe dava arrepios só de imaginar. Sua maior surpresa foi quando Carlo observou a estante das Presas. Havia água por baixo dela. Ao observar com atenção, notou que os bonecos choravam, escorriam lágrimas sem parar de seus olhinhos. 

Carlo colocou a mão na boca para abafar um grito de pavor. Na mesma hora viu a Senhorita Artisan se aproximar com um boneco nas mãos. 

– Senho.. senhorita.. o que significa isso? – disse Carlo, nervoso. 

– Por favor, me chame pelo nome. Aracne. Isso é minha coleção. 

– Aracne Artisan? Seu nome é tão estranho quanto sua coleção. – disse Carlo enquanto caminhava em direção da porta. – Olha, agradeço pela conversa, pelo café, pela acolhida, mas, eu tenho que ir viu, até outro dia quem sabe… aah… 

– Aonde você vai? Fique aqui. Agora você vai fazer parte da minha coleção! – Disse Aracne, segurando um boneco nas mãos, pendurado por um cordão enrolado no pescoço. 

Carlo, novamente sem ar, observou o boneco e percebeu que jamais sairia dali. Era um boneco seu. Com suas características  e conforme ela mexia no boneco, ele sentia seu corpo obedecendo aos comandos.

– Onde devo te colocar? Na prateleira dos Vivos? Não. Você teria que ficar na cidade e acho pouco provável que você queira ficar. Na das presas? Não… Eles choram demais, só porque tiveram suas almas aprisionadas dentro dos bonecos sem vida e não podem sair. Para eu te colocar na dos Mortos eu teria que… Por que não? Você vai ficar aqui.

Ao colocar o boneco sentando na estante dos Mortos, Carlo automaticamente sentou em uma cadeira e ficou lá imóvel. Por mais que tentasse se mexer, seu corpo não obedecia. Aracne chegou perto e disse em seu ouvido: “Você devia ter vencido sua curiosidade… Mas você foi fraco. E agora eu vou lhe matar… Mas não se preocupe você quase não sentirá dor…” Apesar da voz suave, Carlo derrubava lágrimas de agonia. Calmamente, Aracne começou a enrolar o fio amarelo que Carlo havia escolhido em volta do seu pescoço e num único golpe puxou com toda força. Conforme Carlo agonizava, fazia o cordão vibrar e isso divertia Aracne a ponto de gargalhar. A última vibração sinalizou que o serviço estava feito. 

Com certa dificuldade, Aracne arrastou o corpo com o cordão para atrás de sua casa e enterrou junto com os outros. 

“Acho que é melhor eu fazer uma estante só para os turistas… O que acha Dona Amélia?” 

“Uma ótima ideia!” 

/juhliana_lopes 19-12-12