Um amigo de um amigo meu #2

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Quando eu paro para pensar em todas as minhas amizades, percebo que conheço muita gente que não presta… na verdade, amigos dos amigos que normalmente vem com esquisitices. É curioso ver como é possível ter uma diversidade de loucuras, apenas em seu círculo de amizades. Às vezes me pergunto, será que sou tão louco como eles? Não, sou apenas um contador de histórias, e isso me fez lembrar da amiga de um amigo meu…

Ela era professora dele na verdade, se tornou amiga depois de uns anos lecionando. Continuaram amigos mesmo depois do curso, e eles sempre saiam para as festas juntos. Não namoravam. Apesar de mais velha e dele ter pedido uma vez, ela disse que não daria certo, não pela idade, mas por ela nunca se relacionar com ninguém pessoalmente.

Já perceberam como você fica mole com o calor? É horrível. É por isso que particularmente eu prefiro o frio. Pelo menos você coloca umas trezentas blusas, fica andando igual a um pinguim e consegue ficar à vontade. No calor, mesmo nu, você ainda sente calor… Se eu tivesse meios… bem, melhor não falar, vai que o amigo do meu amigo da semana passada aparece…

Enfim, ela nunca se relacionava com ninguém pessoalmente. Mania estranha? Pode ser, mas ela preferia assim. Dizia que tinha o dom natural de afastar as pessoas e que era mais fácil lidar com isso por uma tela. As poucas fotos que tinha com seus amores virtuais eram montagens, e mesmo com eles implorando para um “conhecimento mais íntimo”, ela se contentava e se dava por satisfeita por sua imaginação, pois nem pela web cam ela aceitava contato.

Os poucos amigos que tinha não se importavam muito, tanto que nem davam atenção quando ela contava seus casos para eles. Era como se ela tivesse duas vidas. A virtual com seu namorado invisível, e a social, com a suas aulas, amigos e festas. Família? Moravam em outro estado e ela não fazia mais questão de ir vê-los. Brigas, algo sobre o irmão ou primo, alguma coisa do gênero.

Meu amigo arrumou uma namorada, e o irmão dela, ficou muito interessado nesta professora. Claro que ela dava muitos foras, e ele continuava insistindo. Um dia, ela bebeu muito depois de terminar seu relacionamento “on”, pois o rapaz deu o ultimato: “ou nos encontramos ou tudo acaba aqui”; é claro que ela não precisou pensar e pela bebedeira tudo tinha acabado. O cunhado do meu amigo, muito prestativo, cuidou dela bêbada, ouviu todos os seus lamentos e se ofereceu para levá-la em casa. No carro, conseguiu se aproveitar de seu estado e lhe arrancar uns beijos, como percebeu que ela não resistia, não a levou para a casa dela e sim para a sua.

Sabe qual o problema das pessoas? Elas nunca ficam atentas. Sério. “Não, porque eu presto atenção em tudo”, e eu digo que não. As pessoas enchem o peito para dizer que conhecem exatamente a outra pessoa, e podem até conhecer mesmo, mas ainda assim, sempre a algo que elas nunca prestam atenção, e é normalmente esse detalhe que a pessoa gostaria que fosse notado. Algumas pessoas pensam em pedir ajuda, mas não sabem como, e são nesses detalhes que elas depositam todas as suas esperanças. É por isso que tanta coisa acontece…

Uma pessoa que dá aulas por exemplo. Visualmente é uma pessoa inteligente, que tem a capacidade de passar para a frente o conhecimento que adquiriu. Um exemplo, algo realmente notável. Seguindo a lógica, também podemos dizer que pode ser, preste atenção, pode ser, uma pessoa possivelmente estressada, por causa do comportamento pela idade de seus alunos, ou pelos outros professores que são péssimos colegas de trabalho, pela direção, pelo trânsito que pode pegar indo a caminho do trabalho ou a caminho de casa…. Mas pode ser também uma pessoa feliz por ter excelentes alunos, excelentes colegas de trabalho, pela direção competente e por trabalhar do lado de casa.

O calor. Sério, o calor é um fator que também estressa as pessoas. Eu me sinto estressado. É horrível! Mas é o que tem para hoje… A minha sorte são as maravilhosas bebidas geladas que além de refrescar meu corpo, adoçam a minha mente, com o seu toque suave deslizando pela minha garganta deixando um leve aroma de frutas cítricas no ar… Enquanto isso, o álcool invade a minha mente e faz as minhas ideias dançarem diante de meus olhos…. É realmente estimulante.

Sobre a professora, bem, quando ela notou que estava fora do caminho de casa, o álcool já havia abandonado sua mente. Na verdade, desde a hora que ela entrou no carro, mas continuou fingindo para ver do que o belo rapaz seria capaz. Ele era meio atlético, daquele tipo que todo mundo acaba olhando, mas nem tanto pela sua beleza e sim pela presença. Agora estava sem presença nenhuma, dirigindo rápido para sua casa com a sua presa na sua mão. Ou pelo menos ele pensava assim.

Depois de uma semana meu amigo disse que a irmã dele estava muito preocupada. Claro que um desaparecimento não era normal. A professora foi visitar a família, pai doente aparentemente, e depois de três dias, o cunhado do meu amigo ligou dizendo que estava bem, que só precisava de um tempo para pensar.

A professora voltou, e realmente, seu pai estava doente. Entenda, é normal eu começar a cogitar que essas histórias sejam mentiras, afinal, conheço todo tipo de gente, e todo tipo mesmo de situação pode acontecer. O cunhado do meu amigo também apareceu, tranquilo e aparentemente desistiu da professora, apesar de ainda dar em cima dela nas festas.

A professora logo arrumou outro namorado virtual, e logo terminou também, logo outros caras começaram a dar em cima, e logo ela ganhava mais caronas. Tudo seguia seu rumo normal, e eu mesmo aproveitei minhas férias para viajar.

Foi uma viagem ótima, aproveitei para andar muito, conhecer mais loucos e contar minhas histórias. Visitei museus das cidades, que guardam coisas como “o primeiro telefone”, “garrafas antigas de leite”, e outras tranqueiras. Uma cidade pode ter muita história por trás de uma garrafa antiga de leite, mas não me interessa muito saber, por isso voltei.

Ao voltar, meu amigo estava solteiro, a namorada dele voltou seja lá de onde ela veio junto com seu irmão. Claro que ele não queria assumir o que aconteceu, mas com um pouco de insistência ele me contou. Claro que eu não devia ter perguntado mais uma vez, mas pelo menos desta ele não estava me contando por telefone…

 

Eis o que aconteceu:

Ao levar a professora para casa, o garanhão, a levou no colo até seu quarto. Ela caiu praticamente “desmaiada” na cama, e ele se apressou para tomar um banho rápido. Ao voltar, ela não estava na cama, e ele começou a andar pela casa. A porta ainda estava trancada, logo ela não saiu, e ao voltar para o quarto ele a achou. Foi um corte rápido e o fato dele perambular pela casa só de toalha ajudou, logo em seguida ela o fez desmaiar com um líquido que ela tinha na bolsa e pegou o gelo que ela havia conseguido na cozinha para ajudar a coagular o sangue. Ligou para a ambulância e saiu calmamente. O choque foi traumático, ainda mais quando ele percebeu que não tinha mais jeito. Ele tentou esconder, mas logo a irmã dele descobriu e culpou o namorado por apresentar uma louca para o irmão dela.

Meu amigo, totalmente inocente, tentou ajudar, mas não havia jeito. Mais tarde, ele em casa, em seu porre pós término namoro recebeu a visita da professora. Ele, lógico se assustou pois, tudo estava trancado, mas não teve tempo de perguntar como ela entrou. Ela também não fez nada, pelo menos não o deixou eunuco como o seu ex cunhado, mas avisou que o próximo amiguinho dele que fosse atrás dela, ia sentir o gosto dele. Ele, claro, prometeu que ninguém mais ia se aproximar dela, e ela sumiu, da mesma forma que apareceu.

Ele se afastou dela, e só encontrava raramente em alguma balada. Quando algum amigo dele perguntava quem era, ele dizia logo que era uma amiga da sua mãe, assim ninguém se aproximava. Ela, continuou satisfeita.

E não, ela não só castrava seus pretendentes, como fotografava o estrago. Tinha um quarto em casa com as paredes repletas de fotos, cada uma com nomes e datas, e a última, ela mostrou para o meu amigo como um bom aviso.  

Eu mesmo já gravei o rosto dela, para nunca ter problemas desse tipo. Não que eu me importe, mas…. Não estou muito afim de sentir dor…

 

A moral? Tem alguma? Pessoas podem ser estranhas, mas, uma coisa é importante…. Respeite a esquisitices delas, e você pode sobreviver mais alguns anos…. Pelo menos inteiro.

 

E, já comentei com vocês como me sinto bem em ser solteiro? Isso sim é vida…

juhliana_lopes

Um amigo de um amigo meu #1

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Em minhas caminhadas, já me deparei com muitos casos, em um deles, um amigo, de um amigo meu, tinha uma mania estranha. Ele adorava dar presentes. Se você era amigo dele (assim como o meu amigo), podia ter a certeza que logo ganharia um boneco, uma toalha, um livro… sabe quando você compartilha uma imagem de algum objeto muito legal com “eu quero”? Pois bem, se fizesse isso, no outro dia ele aparecia com aquele objeto embrulhado para você e um “espero que goste, É SÓ UMA LEMBRANCINHA”.

Eu na verdade, não tenho preconceito nenhum com quem gosta de presentear os outros, mas o estranho era porque as gratificações aconteciam sem datas, sem motivos, apenas pelo prazer de presentear alguém. Um fetiche? Talvez, o que me surpreendia nesta história do amigo do meu amigo, era o fato de onde ele arrumava dinheiro para comprar tanta coisa?

Se você parar para pensar, uma agenda, um doce, um porta-retratos… sei lá, esses tipos de coisas são baratas, mas de repente o cara aparece com um boneco de edição limitada, livros e mais livros, até mesmo os raros, peças de cristal… Ele rouba bancos? Eu me perguntava isso e meu amigo também começou a ficar curioso e resolveu investigar.

A verdade é que você nunca deve investigar sobre “de onde vem” certas coisas. É como aquela história sobre restaurantes, se você for olhar a cozinha e o processo do prato, você nunca mais come lá. Se você não vê não te afeta, e isto pode ser considerado também em relação a pessoas que gostam de dar presentes.

Já vi muitas pessoas com estranhas manias, e não me importa os motivos, pelo menos não depois deste caso em especial. Antes que você comece a pensar mil coisas, vamos excluindo algumas… Ele não rouba bancos. Não assalta carros. Não pega a aposentadoria da avó doente. Não se finge de mendigo na rua. Não ganhou na loteria. Não faz programa. Não vende drogas. Não é empresário anônimo de uma marca famosa. Apesar de ser um médico formado, prefere trabalhar como diagramador numa editora.

Meu amigo bem que tentou deixar para lá, mas outras pessoas começaram a ficar curiosas e outra começaram a se aproveitar a boa vontade do “pobre” coitado. Sozinho? Um pouco, ele preferia se isolar na maior parte do tempo, só fazia contato mesmo quando ia presentear seus amigos e em festas. Meu amigo foi em frente e depois de um tempo sumiu.

Claro que todos ficaram preocupados com seu sumiço, inclusive o cara dos presentes. Alguns familiares pensaram em sequestro e outros que havia surtado. Lembrei de nossa última conversa e confesso que senti um leve arrepio na espinha sobre o que poderia ter acontecido mas achei melhor esperar do que especular. Passaram-se alguns meses até que a família não falou mais sobre o desaparecimento. Alguns amigos também receberam notícias e então foi a minha vez.

Um retiro. Se isolou, achou que estava muito sobrecarregado de serviço e resolveu descansar por um tempo. Pediu desculpas por não ter avisado antes, mas ele precisava desse tempo. Não sabia ainda quanto tempo ia ficar e me fez jurar que não contaria para ninguém sobre o lugar que estava, que deixasse que ele fosse avisando todos, um a um, calmamente, e que nunca comentasse nada sobre com o amigo dele.

É claro que eu devia ter ficado quieto, mas é claro que eu também fiquei curioso. Não devia ter perguntado, muito menos insistido, mas eu não pude resistir, queria saber o porquê apesar de já desconfiar. Ele falou mais baixo, começou a respirar mais forte, quando parecia que ia contar mudava de assunto. Resolvi ir direto ao ponto e perguntei se ele enfim descobriu a origem do dinheiro do amigo “papai Noel”, se era por isso que ele havia se isolado. Ele respirou fundo e disse sim, quando tomou novo fôlego para começar a contar, não disse mais que “ele ven…” e a ligação caiu.

Fiquei mais meses sem resposta. O pensamento me atormentava a noite, mas eu conseguia o ignorar perfeitamente durante o dia. As pessoas levavam suas vidas normalmente e outras continuavam a ganhar presentes. Numa noite qualquer, o amigo veio até mim com uma caixinha, dizendo que não me conhecia direito mas achava que eu iria gostar. Agradeci a gentileza mas recusei educadamente. Ele ficou um pouco chateado, mas então mostrei-lhe uma amiga em comum que ficaria mais feliz já que ela estava passando por um momento de luto na família, prontamente seu sorriso voltou e ele pôde voltar com seu prazer.

Meu amigo apareceu, um pouco mais assustado, cauteloso, sem mencionar muito seu retiro e aos poucos voltou a sua vida normal. Demorou um tempo para que ele voltasse a falar como antes comigo, pois por algum motivo ele evitava todos os seus confidentes.

 

Eis o que aconteceu:

Meu amigo descobriu o segredo, e achou tudo tão surpreendente que resolveu se isolar para proteger seus amigos e familiares e se proteger também. Quando começou a se comunicar e avisar, achou que estava sendo “invisível”, e quando finalmente ia confiar o segredo para alguém em seu momento, o dono do segredo apareceu.

Cortou o fio do telefone com uma tesoura enorme e o olhava fixamente. Largou a tesoura no chão, se agachou e perguntou: “Por que você sumiu?”. Qualquer outra pessoa surtaria e sairia correndo pedindo ajuda, mas depois do que ele ficou sabendo, aquilo era apenas uma consequência.

“Fiquei preocupado com você, toda a sua família, amigos… O que foi? Está passando por algum problema? Alguma dificuldade financeira? Eu posso te ajudar…”

É claro que ele não queria o dinheiro e nem os presentes dele. Queria paz. Mesmo com medo, como a situação já estava estranha o bastante, despejou tudo que sabia sobre ele. Acusou, mas de forma desesperada de quem está com medo e a acusação é a última coisa que resta antes do último suspiro. Só que ele não veio.

O amigo na verdade deu algumas risadas e lhe explicou a situação. Apesar de insano, ele parecia bem à vontade com aquilo. Lhe deu detalhes, tabelas, todo tipo de informação. O medo de meu amigo ficou preso na garganta. Ele parecia extremamente inofensivo, mas por que ele lhe contaria tudo se não houvesse outra intenção? E estava certo, só que do jeito errado. No fim da sua palestra, ele lhe deu um presente e sussurrou em seu ouvido: “Pode voltar, não precisa ter medo, você tem sorte, você é do tipo barato.”

A fonte do seu dinheiro era algo simples, um bom negócio na verdade. Ele era um excelente vendedor. No mercado negro. De órgãos.

Ele ia para outras cidades normalmente a noite, procurava pessoas “saudáveis”, as dopava e levava em seu carro. Pessoas saudáveis são mais caras que as que fumam ou bebem, vez ou outra pegava um bêbado na rua, mas sempre lucrava mais com crianças e pessoas na faixa dos 25 a 35 anos. Em casa, ele matava, dissecava, recolhia e armazenava cuidadosamente tudo que pudesse ser aproveitado. Numa tacada só (nesse caso, num corpo), ele voltava milionário de suas vendas, com a soma de todas as partes. Sempre compravam dele, pois, a qualidade do produto era excelente, e como todo “clube”, nunca ninguém perguntava de onde vinha pois, não era interessante.

Meu amigo, ainda tem a cicatriz e um rim faltando. Ele me garantiu que não lhe faz falta, e já se acostumou com a situação e acha tudo normal, porém, ainda fica nervoso quando ouve barulhos a noite e tem medo de atender o telefone.

A lição? Cabe a você descobrir, eu só digo que as aparências enganam e que se algo não te afeta, apenas aceite, pode ser perigoso descobrir de onde vem, ou não aceite e fique o mais em paz que conseguir, nunca se sabe se um dia todos esses mimos serão cobrados…

E de repente, nunca foi tão bom ser um fumante bêbado em toda a minha vida…

juhliana_lopes