Olhar atrevido

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No começo foi meio sem querer.

Eu estava ocupado e então reparei no seu olhar.

Por alguns segundos me vi perdido naquele rosto,

E seus cabelos esvoaçantes me enfeitiçaram.

Então, o encanto se perdeu e eu voltei aos meus afazeres,

E quando terminei, não a vi mais.

Então, um outro dia, esbarrei com ela sem querer na rua.

Novamente me vi preso naquele olhar,

Pude reparar também em sua pele e suas mãos delicadas.

Com um sorriso lindo e encantador, me pediu desculpas.

Eu só conseguia sorrir de volta, desejando-a para mim.

Então, sem motivo qualquer ela achou meu endereço,

Bateu a minha porta me oferecendo um presente.

Na mesma hora a convidei para entrar, esquecendo-me de todos os compromissos.

Ela era linda, mais linda que uma fada ou um anjo.

Delicada e educada, sentou-se em meu sofá e me observava com atenção.

Minha vontade era toma-la em meus braços,

Fazê-la mulher e me tornar seu homem,

Mas eu precisava me conter.

Quando ela foi embora, depois de uma agradável conversa,

Me dei conta de todos que deixei na mão,

E um por um, me desculpei, mas sem deixar de pensar na bela dama.

Hoje, acordei com seu sorriso.

No início pensei estar sonhando, mas então me dei conta

De que ela estava realmente em cima de mim.

Seminua e com um olhar travesso, tão perto do meu.

Eu deveria perguntar como ela entrou ali,

E porque estava fazendo aquilo,

Mas perdi a concentração com seus lábios tão perto dos meus.

Aqueles olhos grandes e atrevidos, e o sorriso sacana,

Aquele corpo alvo com curvas perfeitas,

Me convidavam para um dia delicioso, que aceitei de bom grado.

Ela era minha dona, minha amante, meu amor.

Eu era seu servo, seu rei, seu devoto.

No meu telefone, várias chamadas perdidas e mensagens urgentes.

Na minha cama, lençóis amassados e um sono tranquilo.

Desculpe-me mais uma vez meus amigos,

Mas a preguiça me seduziu mais uma vez.

 

juhliana_lopes 17-06-2016

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Novo amigo

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Ana estava cansada. A viagem foi longa e o corpo não se entregou ao cansaço naquela cama estranha. O café meio amargo ajudava a acordar, mas ainda não era o suficiente. A cabeça rodava  e os pensamentos perdidos entre o trabalho e outras obrigações não deixavam sua mente descansar. De qualquer forma era preciso se desligar um pouco da rotina e aproveitar o fim de semana. Ana não costumava viajar, mas aceitou de bom grado o convite de sua irmã para visitá-la e participar da festa de aniversário da sua sobrinha Sofia.

A dor de cabeça aumentou subitamente quando a porta bateu. Sua irmã estava animada e trazia consigo alguns pães e doces.

– Não dá pra tomar café puro.  Come alguma coisa! – disse a irmã de Ana.

– Parece a nossa mãe falando – respondeu Ana com um sorriso de canto enquanto tomava mais um gole do café.

– E você parece uma velha rabugenta! Como vão as coisas no trabalho?

– Vão bem, a correria e o estresse de sempre. – Ana respondeu sem muito interesse.

– Você devia ter insistido na carreira de modelo como todo mundo falava. – disse a irmã de Ana enquanto preparava a mesa.

Era verdade. Ana , mesmo mais velha  – e não tão velha, afinal estava com 32 anos – não havia perdido um milésimo de sua beleza natural. Cabelo liso escuro, magra e de pele alva. Pensando bem, talvez tivesse sido melhor ser modelo, agora estaria aposentada e com menos olheiras.

Outra batida forte a fez despertar deste pensamento. Agora era sua sobrinha que havia acordado bem animada. Queria matar a saudade da tia, pois há muito tempo não se viam. Queria mostrar seu material escolar e um adesivo que havia ganhado de um menino na escola, e faria ela prometer que não contaria nada para sua mãe. Além disso, a menina também tinha outros interesses. Faria a tia levá-la ao novo parquinho, já que seus pais nunca tinham tempo. Todas as suas amigas já tinham ido e ela não queria ficar para trás. Quando terminaram de comer, Ana não teve mais descanso e depois de muita insistência, finalmente foram ao tal parquinho.

Mal chegaram e Sofia já se perdeu em meio a areia e as outras crianças. Ana pensou em protestar, para que a menina não sujasse o vestido, mas deixou pra lá, afinal, sua irmã já sufocava a menina com os cuidados de mãe, e a menina precisava viver um pouco. O calor estava ameno e Ana ficou sentada com um sorvete, ao lado de uma mãe que estava com os dois filhos. Assim que os meninos correram, a mãe sentada ao seu lado começou a puxar assunto com Ana e elas iniciaram uma longa conversa sobre trabalho e afazeres, afinal elas trabalhavam na mesma área  e a conversa foi ficando interessante.

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Sofia correu animada para o balanço no outro lado do parque que estava mais vazio e só então viu que ele era alto demais para balançar sozinha. Olhou ao redor procurando a tia, mas ficou com medo de sair e perder o lugar. Sofia em seu pequeno drama da vida, viu uma sombra se aproximando por trás e logo ouviu uma voz amigável.

– Quer ajuda menininha?

Sofia se virou depressa e se deparou com um homem alto, com vestes negras, cabelos longos ondulados e uma barba cerrada. Ele tinha um olhar sério, mas quando olhou em seus olhos, abriu um sorriso amistoso. Sofia, desconfiada, não respondeu nada e só conseguiu ficar olhando pra ele, segurando a corrente do balanço.

– Qual é o seu nome linda? – Ele disse mais uma vez, desta vez se ajoelhando na areia para ficar da altura dela. Sua voz era grave, porém de uma forma macia. Sofia olhou para ele novamente e respondeu.

– Meu nome é Sofia.

– Que nome lindo, quem foi que escolheu?

– Minha mãe. – Sofia respondeu, agora abaixando os olhos um pouco tímida.

– E ela está aqui?

– Não.

– Você veio sozinha? – O homem disse fazendo uma expressão de surpresa.

– Não. – Sofia riu. – Eu vim com a minha tia.

– Ah, entendi. Que ótimo! Você quer ajuda com o balanço?

– Quero sim. – Sofia respondeu agora mais animada. – Você pode segurar ele pra mim enquanto eu chamo minha tia para me empurrar?

– Se você quiser eu posso empurrar você, assim você se diverte mais tempo.

E então Sofia aceitou. Ela subiu animada no balanço e ele empurrava ela levemente e aumentava a intensidade conforme a menina pedia. Ela ria animada, e ele apenas a observava. Enquanto isso, Ana continuava a conversa animada com a colega de profissão, sem fazer qualquer contato visual com Sofia.

A menina cansou do balanço e pediu pra descer. O homem a ajudou e ajoelhou na areia novamente para conversar com ela.

– Você gosta desse parquinho?

– Eu gosto. Minhas amigas já vieram aqui, só eu não tinha vindo. Agora eu posso falar pra elas que já vim.

– Que legal! Meus amigos também gostam de vir aqui. É muito legal mesmo.

– Você vem aqui? Mas você não é adulto pra brincar aqui? Seus amigos são crianças?

– Alguns são. – Ele riu. – Mas eu não sou tão adulto assim. Eu só sou um pouco mais crescido que você. Quantos anos você tem?

– Eu tenho 6, vou fazer 7 anos amanhã. Você quer vir na minha festa de aniversário?

– Sério? Nossa que legal! Pena que eu não posso. Tenho que sair  com meus pais, mas se você conseguir vir aqui amanhã de novo, eu posso te dar um presente. Você quer?

– Quero sim! Eu falo pra minha tia me trazer de novo. Ela é muito legal.

– Que ótimo! E o que você mais gosta? Brinquedo, roupa?

– Eu gosto de boneca. De todas as bonecas.

– Então amanhã eu vou te trazer uma bem bonita, ta bom?

– Sim! – Sofia respondeu animada. Agora a menina também estava sentada na areia e não sentia medo algum no seu novo amigo.

– Qual é o seu nome?

– Pode me chamar de TT.

– Que nome engraçado.

– Eu sei, mas meu nome de verdade não é TT. Meu nome de verdade é um pouco difícil de falar. Agora eu tenho que ir pra casa, mas amanhã eu te ensino a falar meu nome, na hora certa, tudo bem?

– Ta bom!

– Posso ganhar um abraço antes de ir embora? – Ele disse abrindo os braços.

– Pode sim, adoro abraços. – Sofia disse animada, se jogando nos braços dele.  Seu abraço era caloroso e aconchegante e Sofia poderia ficar ali por horas que nem perceberia. Seu novo amigo então se levantou, limpou a areia dos joelhos e foi embora com as mãos no bolso.

Sofia correu para o gira-gira e depois de mais alguns minutos, foi até a tia para irem embora. Ana se despediu da colega de trabalho que também ia embora com os filhos. Sempre era um bom momento para aumentar seu networking e ela não perdia tempo com isso.

Em casa, na hora do jantar, a irmã de Ana vendo a animação de Sofia resolveu perguntar.

– Como foi no parquinho filha?

– Foi muito legal mãe!  – A menina respondeu se ajeitando na cadeira. – Fiz um novo amigo.

– Verdade filha? Que amigo é esse?

– O nome dele é TT, mas não é o nome dele de verdade. Ele disse que depois me ensina a falar porque é difícil. Ele mora perto do parquinho. Eu chamei ele pro meu aniversário.

– Filha… Eu sei que o aniversário é seu e você está animada com isso, mas não é certo chamar pessoas que você acabou de conhecer para uma festa na sua casa, ta bom?

– Ah mãe. – respondeu Sofia um pouco emburrada. – Ele não vem. Ele vai sair com os pais dele.

– Entendi filha, fico feliz que você tenha gostado!  Ana, larga esse computador e vem pra mesa.

– Já estou indo. – Ana veio apressada. Estava respondendo alguns e-mails do trabalho e nem se deu conta do tempo.

– Você viu o novo amigo da Sofia no parquinho? – perguntou a irmã de Ana.

– Não. Você fez um amigo no parquinho Sofia? – perguntou Ana um pouco surpresa.

– Fiz tia. Você não viu? O TT, ele é muito legal. Ele me ajudou no balanço que era mais alto, me empurrando.

– Você não viu Ana? – questionou novamente a irmã de Ana.

– Realmente não percebi. Desculpa, me distrai com uma mãe que estava com os filhos dela no parquinho também.

– Ana, você já foi mais atenta. E se fosse um tarado? E se ele levasse a Sofia embora, você só ia ver que horas? –

– Relaxa ok? Não foi nada. Era um menino assim como muitos que estavam lá, não era Sofia? Ela é uma menina esperta também, não ia se deixar levar assim…

– Sim tia. Ele só era um pouco mais crescido. – respondeu Sofia distraída com sua comida.

– Viu, não foi nada.

– Tia, a gente pode ir no parquinho de novo amanhã antes da minha festa? – pediu Sofia, manhosa.

– Se sua mãe permitir, podemos sim minha linda. – respondeu Ana com um tom de ironia que Sofia não percebeu.

– Podem sim. Não vou ser a bruxa má da história. Mas preste mais atenção nela, por favor. – respondeu a irmã de Ana.

Então chegou o grande dia. Sofia se arrumou toda, e arriscou até passar um perfume de sua mãe. Ana, ainda com um cansaço mental, não investiu muito na aparência. Novamente sentada no mesmo banco, deixou Sofia se perder na areia e o primeiro lugar que ela correu foi para o tal balanço mais alto, e ficou por ali como se estivesse esperando algo. Ana resolveu então pegar um sorvete e esbarrou em um homem sem querer. Ele estava de jaqueta e calça preta, tinha os cabelos longos e uma barba cerrada, e tinha também um pacote vermelho nas mãos. Ana pediu desculpas e ele muito educado pediu desculpas também. Além disso, com uma voz amigável, ele perguntou as horas e saiu andando apressado. Ana voltou ao banco, e viu Sofia, brincando no gira-gira com outras meninas. Pegou então o celular e resolveu conferir novamente seus e-mails.

Sofia havia cansado de esperar TT no balanço e como o parquinho não estava tão cheio, foi brincar no gira-gira com outras meninas. Depois de um tempo, olhou de novo e lá estava ele sentado no balanço esperando por ela com um pacote vermelho nas mãos. Ela foi correndo com os braços abertos e ele correspondeu, ajoelhando na areia para abraçá-la. Ela contou que sua tia nem tinha visto ele ontem, e que era melhor ele se apresentar pra ela, pois sua mãe era chata e talvez não fosse deixar eles brincarem.

– Mas o que sua mãe disse? – ele disse com uma expressão preocupada.

– Eu não lembro direito, mas ela disse que alguém podia me levar embora sem minha tia ver.

– Nossa, mas isso não vai acontecer. Você é muito esperta! – ele respondeu segurando as mãos dela.

– Você não pode mesmo ir na minha festa? – Sofia perguntou manhosa da mesma forma que fazia pra pedir as coisas pra tia.

– Não posso. Mas talvez eu possa ir na sua casa depois, onde é?

– Fica perto da padaria.

– Então eu sei onde fica. Eu peço pros meus pais me levarem lá quando a gente voltar, ta bom?

– Oba! Nem vou falar nada pra minha mãe, vou fazer surpresa pra ela. – Respondeu Sofia, olhando pra ver se via sua tia de longe para chamá-la e apresentar seu amigo.

– Ei, quase esqueci de te dar. – Ele disse puxando seu rosto para o seu – Seu presente! – e então lhe deu o pacote vermelho.  – Minha mãe que escolheu pra você. Sabe como é, meninos não entendem muito de boneca.

Sofia abriu animada, e ficou encantada com a boneca de pano. Ela ainda não tinha uma daquelas, e sem se conter, pulou no colo do homem, lhe dando um abraço apertado. Ele a abraçou de volta, segurando-a em seu colo para ela não cair. Então, depois do abraço se despediu. Sofia correu para sua tia que estava ocupada com o celular e disse que elas já podiam ir pra casa.

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No caminho Ana viu o papel vermelho na mão e a boneca, e questionou a menina.

– Onde você conseguiu isso Sofia?

– Meu amigo que me deu tia. Você não viu ele? – respondeu Sofia distraída com a boneca.

– Ah claro, vi sim. O menino que é mais crescido. Que legal Sofia. – Ana disfarçou. Sabia que se dissesse que não tinha visto, ela iria falar para sua irmã e ela iria encher a sua paciência até o próximo aniversário da menina.

Em casa, a irmã de Ana questionou o presente, mas como as histórias batiam, não se preocupou. Após a festa, colocou Sofia pra dormir que não largava a boneca um só minuto. Por dentro, a menina ainda estava um pouco apreensiva, pois ele disse que viria visitá-la, mas talvez os pais dele acharam melhor trazer ele no outro dia e não a noite. Todas as luzes se apagaram e quando a menina estava quase pegando no sono, ouviu leves batidas na janela. Com medo, agarrada a boneca, ficou sentada na cama e ouviu novamente as batidas. Levantou-se devagar, e foi até a janela e então seu medo se foi. Ela abriu animada, e ele entrou. Parecia mais alto do que ela se lembrava, e tinha alguma coisa nas costas que pareciam ser asas. Suas roupas pretas, pareciam rasgadas, mas ainda sim, não era possível ver sua pele, além das suas mãos, seu rosto e um pouco do seu peito. Ele se ajoelhou e ela lhe deu um abraço. Não se importou com a aparência dele, e até esqueceu um pouco da boneca. Pegou em sua mão e o levou até a cama. Ele sentou e ela acendeu seu abajur, podendo enfim ver as asas com mais nitidez.

– São asas de verdade?

– Sim meu amor, são sim.

– Mas porque elas são pretas?

– É a minha cor favorita. Qual a sua cor favorita?

– A minha é rosa. – Ela respondeu com um sorriso. – Você é tipo um anjo então?

– Sim meu amor, e você também é. Um anjinho lindo! – Ele respondeu fazendo cócegas na menina. – Vem cá, senta no meu colo…

E Sofia sentou. Ele lhe deu mais um abraço, e a menina sentiu o calor do seu corpo. Um calor que ela nunca havia sentido.

– Me ensina a falar seu nome. Você disse que ia me ensinar. – disse a menina ansiosa.

– Você acha que é a hora certa? – ele disse com uma expressão de dúvida.

– Sim, me ensina. Eu aprendo rápido.

– Então ta bom linda. Mas você precisa deitar primeiro.

Sofia então se deitou, e ele se ajoelhou na cama, sobre ela. Neste instante foi como se ele não tivesse mais as asas. Ele se abaixou com cuidado, quase se deitando sobre ela e disse baixinho no seu ouvido.

– Mister, Tinker, Train.

– O que? – respondeu a menina sentindo um leve arrepio quando ele tocou seu ombro.

– Mister Tinkertrain. Você consegue dizer? – acariciando levemente o braço esquerdo da menina.

– Mister… Tinke Trei?

– Tenta mais uma vez… Se quiser pode falar daquele jeito que você me pediu pra ir na sua festa, lembra? Mister Tinkertrain… – Ele explicou, agora acariciando o ombro dela e descendo a mão levemente pelo seu tronco.

– Mister Tinker Train! Eu consegui, é assim? Mister Tinker Train! – respondeu a menina animada, porém um pouco assustada com os toques do seu amigo.

– Muito bem. Você é mesmo uma menina muito esperta! Agora vou te ensinar outra coisa, é uma brincadeira. Eu vou fazer uma coisa e se você gostar você fala meu nome, ta bom? Se você não gostar, é só falar pra parar.

– Ta bom, eu quero brincar!

Tinkertrain então começou a acariciar o corpo da menina com mais força e de uma forma mais obscena. Sua mão era suave e aos poucos ia despindo a menina. Com os corpos quase colados, ela como se estivessem abraçados. A cada toque novo a menina ia chamando seu nome, e aos poucos ele ia possuindo a menina, com beijos delicados no pescoço, tampando seu olhos com uma mão, enquanto a acariciava com a outra. A cada novo toque a respiração dela ia ficando pesada, mas ela não deixava de chamar seu nome. A boneca, jogada no chão era a única testemunha, a única ouvinte.

O dia amanheceu, com a janela aberta. Ana se levantou e foi tomar o café meio amargo. Sentia-se finalmente revigorada, pena que seu estresse voltaria assim que chegasse ao escritório. Ainda meio sonolenta, despertou de ver com os gritos de sua irmã e seu cunhado correndo pelas escadas procurando alguma coisa ao lado de fora. Ana se engasgou com o café quando viu ele retornar com Sofia nos braços, pálida e cheia de manchas rochas, principalmente no pescoço. Sua irmã desceu correndo as escadas chorando, e Ana se aproximou da menina, a tempo de ouvi-la dizer sussurrando antes de fechar os olhos: “Mr. Tinkertrain”.

juhliana_lopes 28-02-2016

 

Texto inspirado na música “Mr. Tinkertrain” de Ozzy Osbourne.

Dia de folga

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O dia se inicia com o sol brilhando forte em meu rosto, enquanto o despertador toca estridente em meu ouvido, e a TV programada pra ligar no mesmo horário, já me põe a par das tragédias do dia.

Levanto, tomo um banho rápido e me visto ao mesmo tempo em que faço a maquiagem. Confiro se não esqueci nada na bolsa pelo menos três vezes, enquanto com um pedaço de pão na boca, recolho minhas pastas. Termino de engolir o café que estava esfriando em minha xícara e pego minhas chaves.

Dirigindo, a cada pausa, aproveito para verificar se não há nenhuma notificação no celular e pular músicas de uma playlist infinita de um pendrive de 16 gigas. Depois de estacionar carregando bolsa, pastas, celular e agendas ao mesmo tempo, subo as escadas em passos acelerados, pulando alguns degraus sempre que possível. Passo por meus colegas com um bom dia apressado e sigo para minha mesa, despejando tudo que há em minhas mãos e organizando tudo minuciosamente.

Depois de uma rápida socialização com os colegas de trabalho, falando coisas aleatórias com o celular na mão, socializando ao mesmo tempo com colegas virtuais, é hora de começar a trabalhar.

O serviço é simples, elaborar relatórios, analisar gráficos, fazer novos relatórios e encaminhar alguns e-mails. Há tempo suficiente para fazer uma coisa de cada vez, mas é impossível escrever sem olhar os números ao mesmo tempo. Impossível ler sem fazer mil anotações necessárias e desnecessárias pra depois organizá-las enquanto escolho a melhor cor para apresentação do gráfico de resultados.

Então o trabalho acaba, e mal começou a hora do almoço. Apresento tudo e após uma excelente avaliação, espero ansiosamente pelas próximas tarefas. “Por hoje é só, pode tirar o dia de folga”.

As palavras pesavam em mim como se eu estivesse com uma bola de ferro amarrada no pescoço. Questiono se não há nada mesmo que eu possa fazer ou revisar e ele, me garante mais uma vez que eu posso descansar. Sinto um vazio aterrorizante e uma vontade louca de cair no chão e chorar como uma criança mimada que foi esquecida no mercado. De cabeça baixa, arrumo minhas coisas com uma lentidão estranha, como se pudesse estender o tempo para que houvesse de repente, uma mudança de ideia.

O pânico bate forte em meu peito ao chegar ao estacionamento. “Não há nada para fazer”, era a frase que martelava em minha mente.  O Nada, aquele momento estranho que todos desejam ter, pois assim, por consequência, terão a oportunidade de fazer tudo o que desejam… O Tudo, aquele momento igualmente estranho que eu não faço a mínima ideia do que seja por que nunca pensei em ter um tempo um “tudo” ou um “nada”, pois gosto de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, pois elas sempre precisaram ser feitas atropeladas uma vez que não havia tempo para fazê-las separadas. Não havia tempo… Não havia… Tempo.

Agora, eu podia perceber um cheiro estranho no ar, uma sensação estranha em dirigir pela cidade durante a tarde, sem trânsito, sem barulho, em tumulto, sem pressa. Foi estranho chegar em casa e perceber como ela é vazia e como fica bonita com os raios de sol que atravessam os vidros coloridos, pintando o interior com tons de laranja e azul. Foi estranho tomar banho sentindo a água quente caindo devagar pelo corpo, o barulho da água do chuveiro, me trazendo sensações da infância, onde minha maior diversão era passar horas no banho sem preocupações.

Foi bizarro comer com tempo, sem precisar mastigar depressa, saboreando todos os gostos e temperos. Foi vazio e solitário deitar pra adormecer naturalmente e não desmaiar de cansaço como acontecia todos os dias.

Mais uma vez o dia amanheceu. Desta vez o sol não bateu forte no meu rosto e nem a TV deu o ar da graça com suas notícias chatas. Somente o celular despertou, e nada me impediu de colocar em modo soneca por mais 20 minutos.

juhliana_lopes 06-08-2015

A massagista

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Depois de uma pré avaliação, disseram que eu estava liberada pois tudo não passou de um susto, um pequeno lapso que podia ser facilmente controlado com calmantes. O diagnóstico estava errado, pois eu sinto que está errado. As pessoas podem manifestar distúrbios e até mesmo doenças mais graves de formas sutis inicialmente que, normalmente, são ignoradas ou cuidadas com pouco caso por se tratar de algo “pequeno” ou “só isso” que “logo passa”… Mas não passa.

A maioria das pessoas também convive bem com isso, escondendo seus medos e anseios em alguma coisa, seja trabalhando demais ou bebendo demais. O vício, seja ele no que for, entra como uma válvula de escape, mas ao mesmo tempo é seu maior veneno pois vai matando e sufocando a vítima aos poucos e então, ela surta de vez liberando aquele problema ou se mata sozinha quando a doença se expande.

No meu caso, ainda não tenho um vício propriamente dito, mas meu trabalho é o meu pior castigo. Como conviver com aquilo que você deveria evitar? É como um pedófilo que quer “se curar” na Disney, um alcoólatra trabalhando como provador de vinhos, ou qualquer coisa do gênero… Não presta entende? Uma hora vai dar merda, mas eu pelo menos sigo firme e forte, pelo menos por enquanto.

Não existe nada demais em trabalhar onde eu trabalho, afinal, eu ajudo as pessoas, elas vem cansadas, estressadas em sua maioria e buscam apenas relaxar. Pelo menos eu não tenho que usar roupas sensuais como é o desejo de alguns marmanjos que por aqui aparecem, mas ainda sim, não é isso que me incomoda.

Fazer massagens nos outros não é ruim. É um bom exercício pra mente. Você consegue atingir pontos específicos que mexem com os nervos das pessoas. Pontos nos braços que atingem o emocional da pessoa diretamente no pulmão ou no coração por exemplo. Pontos que mesmo que doam um pouco ao apertar, trazem um alívio enorme depois. Já cansei de contar as pessoas que chegam com os ombros duros como pedra saírem molinhos como travesseiros.

Já vi pessoas desesperadas encontrarem soluções geniais para seus problemas depois de um tempinho relaxando, e até pessoas que aparentemente estavam completamente “zens”, perceberem que na verdade o problema só estava oculto.

Como vê, não há nada demais na minha vida, no meu trabalho, e em tudo mais. Talvez seja um exagero meu me achar uma louca em potencial, talvez realmente tenha sido algo pequeno como o médico disse… Poderia, claro, por que não? Não, não pode, simplesmente porque eu tenho um gosto insaciável em apertar pescoços, segurá-los e só soltar quando o corpo estiver mole em minhas mãos. Não pode porque cada vez que eu vejo um pescoço vulnerável, indefeso, minha boca enche de água e minhas mãos coçam como um cão sarnento e meu sangue ferve me deixando em um ponto além do ponto de ebulição de uma jarra de água qualquer. O suor frio que corre em minhas costas a cada vez que alguém está sonado, curtindo seu momento relaxante me faz tremer e sangrar por dentro, e apenas respirar fundo e morder os lábios por fora.

 

Se eu já esganei alguém? Sim, mas não sei mais dizer quantos. A primeira vez foi pra me defender de um assalto e eu acho que o bandido nem morreu, só desmaiou mesmo, mas a segunda pessoa eu tenho certeza que se foi, afinal, eu ouvi e senti um estralo profundo em seu pescoço. O que eu fiz com o corpo? Bem, digamos que ele ficou escondido em algum lugar.

Nesse meio tempo ocorreram outras e nem todas eu tenho certeza se matei como o meu segundo, e desde então só acontecia quando eu resolvia sair sozinha para curtir baladas em outras cidades onde ninguém me conhecia. Se tornou algo bom de se fazer pois eu podia me sentir livre e ainda curtir meu estranho prazer em paz. Tudo ia bem e eu poderia ter levado isso pra frente por muito tempo se não fosse uma discussão na casa de um amigo meu.

Eu só fui defender ele, mas no fim das contas acabei com o pescoço do cara que estava discutindo com ele nas mãos. Não morreu, mas ficou em coma por uns dias. Como o meu segredo que ninguém sabia nem que existia um segredo foi revelado, me levaram para um médico que diagnosticou apenas como um leve surto pós estresse, sem risco, pois eu era uma menina de boa família, boa educação e desde que eu me acalmasse, não aconteceria novamente.

Mas acontece. Todos os dias, pelo menos um pouquinho, sem danos é claro, de forma mais disfarçada possível entre um movimento e outro durante as massagens. Ninguém até hoje reclamou ou percebeu, ninguém pediu pra parar ou pra continuar, e então eu sigo nesse disfarce, mas só leves apertos não me satisfazem.

Com o tempo e com alguns parceiros descobri que também gosto deste tipo de “carinho”, as vezes, até mesmo pra me acalmar um pouco depois de um longo dia com vários pescoços , eu mesma me enforco, buscando quem sabe sanar um pouco desta loucura. Um dia quem sabe, quando eu não tiver mais nada a perder, eu me acabe no meu prazer, e destrua tudo com as minhas mãos, apertando, segurando, sentindo cada pulsação, cada alma se esvaindo, cada sonho se acabando… Quem sabe um dia, eu respire enquanto os outros não podem mais respirar…

/juhliana_lopes 28-12-2014

Sua cama

_wsb_512x269_OfficeNão estava bem. Mais um dia sabia que não devia ter se levantado, nada poderia acontecer se ele continuasse deitado em sua cama. Era confortável, já estava com a forma do seu corpo, ele realmente devia ter ficado lá pelo resto do dia. Ninguém lhe aborreceria, ninguém o chamaria, ninguém iria sentir a sua falta. Sem explicações, sem cobranças, sem gente chata. A cama seria a sua companheira fiel, calada e sem pensamentos inúteis. Ele devia ter ficado lá.

Levantou-se, e se arrumou, estava atrasado. Olhou para a cama antes de sair, ainda deu um passo a frente para o quarto, mas olhou o relógio novamente e saiu. Correu mas o ônibus já tinha saído do ponto. Esperar não era seu passatempo preferido, então seguiu andando até o próximo ponto, parando uns cinco minutos para observar se o outro ônibus estava vindo. Quando chegou ao terceiro ponto, o ônibus apareceu e ele pôde enfim, seguir viagem.

Ônibus cheio, pessoas com os mais variados perfumes, que se misturavam formando um aroma podre. Até um charuto teria cheiro de rosas próximo daquele ar horrível. Seu nariz coçava, mas era impossível atender aos seus anseios, pois mal havia espaço para o movimento de respirar. Foi assim por pelo menos sete pontos, onde desceu. Ainda faltavam dois para o seu destino, mas era melhor andar a pé que naquele antro. Lembrou-se da cama, e viu o ônibus que ia no sentido contrário vazio. Pensou em voltar, ainda dava tempo, mas agora seu atraso era de mais que o dobro.

Finalmente chegou. Agora o cheiro era uma mistura de perfumes femininos com aquele ar de hospital que lugares muito vazios tem. Não lhe incomodava tanto, perfeitamente mais agradável que o cheiro do ônibus. Pegou o elevador e foi para a sua sala. Ligou sua máquina e nem se quer olhou em volta. Começou a digitar os documentos, e depois de uma hora e meia percebeu o silêncio mas, não olhou. Ficou um tempo parado, voltou a digitar, mas algo lhe incomodava. Não era apenas o silêncio dos teclados a sua volta, mas o silêncio do andar inteiro. Finalmente ergueu a cabeça. Os olhos ardiam pelo tempo que ficaram fixados na tela. Olhou em volta, realmente não havia ninguém.

Se levantou, andou pela sala, foi para a sala do chefe, foi em outras salas do andar, foi em todas as salas daquele andar. Ninguém. Não era dia de trabalho? O que havia acontecido? Sentou-se novamente. Voltou ao seu trabalho. Apesar da estranheza, não lhe incomodava tanto o silêncio, era melhor para se concentrar, nem estava errando, e as revisões ficavam mais rápidas.

Levou um susto com o telefone. Como não havia ninguém ele atendeu.

“Pelo amor de Deus, onde você está? Estão todos aqui!” A cabeça começava a doer pelo tempo fixo no computador sem parar. Anotou o endereço que a pessoa desesperada lhe falava ao telefone e desligou. Pegou suas coisas e seguiu novamente para o elevador. No saguão, havia movimento, porém todos eram pessoas que trabalhavam em outros andares. Pegou um táxi, luxo que a pessoa do telefone garantiu que pagaria, e seguiu. No carro, pensou novamente em sua casa. Ele teria voltado se tivesse dinheiro para pagar o táxi. No destino, uma pessoa veio de encontro com o dinheiro na mão. Todos estavam sérios, mal respiravam para não fazerem nenhum som. Ele sentou-se ao lado da pessoa que lhe falou em rápidas palavras o que estava acontecendo e ficou observando.

O chefe, em seu terno pomposo, que lhe dava uma leve aparência de um botijão de gás encapado de preto, falava como num discurso, mas a situação realmente era séria.

“Ontem, como todos vocês sabem, o Vitor faleceu. Ao contrário do que todos achavam, não foi suicídio e sim assassinato. A perícia descobriu após analisar as imagens da câmera. Sim meus amigos, há uma câmera naquela sala que nem eu mesmo sabia. Entendo o nervosismo de vocês, eu mesmo acompanhei as imagem, e confesso que me constrangi comigo mesmo. Mas não estamos aqui para constranger ninguém e sim, para por um fim a esse mistério.”

Seu bigode fazia uma dança engraçada enquanto ele falava, e quando citou o constrangimento, estava claro que ele era tão pecador quanto todos os presentes que ficaram boquiabertos quando ficaram sabendo da existência da câmera.

“Pois bem meus amigos, a polícia está ali no fundo, posicionada para qualquer possível fuga, e aqui para vocês vamos mostrar as imagens do momento da morte do Vitor.”

No telão, foi mostrado então a sala e Vitor sozinho trabalhando. Em um certo momento, ele se levantou e começou a dançar. É incrível como algumas pessoas libertam suas essências quando acham que estão sozinhas. Tudo ia bem e até de certo modo cômico, até aparecer a figura na sala, vestida um casaco preto, uns dois ou três números maior com um capuz, era ágil e não deu chance alguma ao rapaz. Colocou a corda em seu pescoço, amarrou rapidamente a ponta num dos apoios da janela e empurrou Vitor para fora. É possível ver a corda balançando com os últimos espasmos, enquanto a figura escreve algo em um papel e deixa sobre a mesa. A tal carta de despedida que todos pensavam que era dele. Ao sair, finalmente a figura revela a sua face, tirando o capuz.

Ele notou que todos olhavam para sua direção, desde que a figura apareceu nas imagens, e mesmo com a queda do capuz continuavam olhando para mim. Antes eram olhares julgadores, como se dissessem: “Sabia que tinha sido ele…” Depois, todos os olhares se transformaram e olhares de pânico. A polícia se aproximou e ele ainda não entendia os olhares, até que olhou para o lado. A pessoa que tinha chamado, pagado o táxi e sentado ao seu lado, agora tinha uma faca apontada em seu pescoço, arrastando seu pesado corpo para o lado e gritando qualquer coisa pedindo que todos se afastassem.

Ele só pensava em sua cama e em como ele não devia ter saído dela hoje de manhã. A polícia tentava manter a calma, até que ele sentiu seu corpo ser jogado para frente. Um dos policiais o ajudou a levantar enquanto outros tiravam a faca da mão da pessoa.

A pessoa era a secretária, braço direito do chefe do bigode dançante. O que a fez soltar seu corpo pesado que estava usando como escudo e refém, foi a ação de outra moça, uma que sentava ao seu lado e que ele mal sabia o nome. Ela abraçou o pescoço da secretária e só soltou quando a faca estava na mão dos policiais e o rosto da assassina ficando roxo. Ele sentiu um leve formigamento e notou as gotas de sangue. No alvoroço do movimento, foi feito um corte em seu pescoço, que agora estava sangrando sem parar. Ele foi levado ao hospital.

Na cama, tomando soro e com alguns pontos, só lembrava-se da sua cama, aquela que estava em sua casa, e de como não devia ter saído dela hoje.

juhliana_lopes 30-05-2013