Jantar

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Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

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Quem é o Assassino? #Final

Boris pediu um momento com Adam para conversarem e então ele sugeriu que fossem para os corredores próximos as salas, pois além de vazios, ficavam longe de todo o barulho. Boris o seguiu apreensivo e então começou a falar.

– Primeiro eu gostaria de te agradecer…. Agradecer pela homenagem e pelas belas palavras, mas eu preciso saber…. – Boris engoliu seco. – São sinceras?

Adam deu um sorriso de canto. Ele tinha mordido a isca. Estava claramente apreensivo e parecia escolher com cuidado as palavras, com medo de falar algo errado. Agora era a sua chance para continuar com o teatro.

– Claro Boris. Por que acha que não são? – Respondeu Adam se mostrando visivelmente preocupado.

– Bem, é que com os números da empresa que não fechavam, imaginei que você pudesse achar que fosse culpa minha ou algo do tipo. Incompetência da minha parte, não sei…. – Boris tentou se explicar, sem graça.

– De maneira nenhuma Boris…. – Disse Adam pegando as mãos de Boris. – Eu tenho trabalhado com Isaque direto para descobrir o erro, mas nenhum deles aponta para você. Acho que se não fosse pela sua experiência, talvez eu já tivesse afundado a empresa, nunca administrei algo deste tamanho. É tudo novo para mim.

– Acho que criei uma confusão em minha cabeça, eu peço desculpas…. – Disse Boris com um tom suave, porém ainda confuso. – Mas talvez fosse melhor rever o seu secretário. Acredito que Isaque seja uma má influência.

A mente de Boris havia dado um nó e agora ele resolverá apelar para não acabar se entregando. Estava nervoso e despreparado. Suas mãos suavam e sentia suas pernas tremerem. Era preciso falar devagar para conseguir falar corretamente, sem que o seu estado de choque o afetasse mais do que já havia mostrado.

– Como assim? – Perguntou Adam com um tom curioso.

– Ora, eu não iria falar nada, afinal estava com medo de que você também estivesse contra mim, mas agora percebo que ele é o verdadeiro culpado de tudo. – Disse Boris, engolindo seco mais uma vez, tentando fingir surpresa.

– O que está acontecendo Boris? – Perguntou Adam em um tom mais sério. Percebeu logo a manobra do velho e resolveu incentivar para ver até onde aquela cobra traiçoeira iria.

– Isaque quer roubar o seu lugar. Ele me ameaçou há alguns dias no vestiário com uma arma. Alguns documentos importantes sumiram e eu tive que refazer tudo para lhe apresentar. Eu tive medo do impacto que isso poderia trazer para a empresa, ainda mais depois das mortes que tivemos, então não falei nada. Ele insinuou que você estivesse por trás disso, mas agora eu vejo que ele foi o grande culpado de tudo. Você corre perigo Adam! – Explicou Boris, falando tudo de uma vez um pouco embolado. Estava começando a perder o autocontrole. Sua cabeça doía com o esforço que fazia para não deixar seus pensamentos o atropelarem.

– Olha, você sabe que esta história é muito difícil para eu acreditar. Isaque sempre foi o meu homem de confiança, assim como Liam é o seu. – Disse Adam com um leve tom transparente de deboche, parecendo desinteressado com aquela conversa.

– Liam? Meu homem de confiança? – Perguntou Boris assustado. Será que de fato Adam não sabia ou desconfiava de nada? Essa pergunta martelava sua mente permanentemente agora e ele sentia sua visão ficar turva e voltar ao normal várias vezes.

– Ora Boris, notei que vocês são muito próximos desde o primeiro dia. Ele pode não ser seu secretário, mas sei que são bons amigos e ele deve lhe dar ótimos conselhos. – Respondeu Adam com um tom mais tranquilo, ainda para incentivar a loucura de Boris.

– Realmente…. – Boris disse um pouco mais aliviado. – Mas Isaque não é como Liam, acredite. Ele não está interessado em fazer as coisas certas, ele quer te prejudicar! – Disse Boris recobrando seus pensamentos insanos. A verdade é que agora nem ele conseguia mais acreditar nas coisas que dizia. Será que este era o grande plano de Adam? Fingir aquilo tudo para vê-lo fraco e amedrontado e assim fazê-lo confessar tudo? Não, isso não estava certo. Ele mesmo havia convidado Adam para conversarem a sós. A festa era apenas uma distração para os últimos problemas da empresa…. Ou talvez fossem uma distração para ele mesmo? Agora era tarde e ele precisava continuar com aquilo. Precisava insanamente convencer Adam de que Isaque era o culpado por qualquer coisa e que ele não tinha nada a ver com isso.  Depois de um breve tempo em silêncio, enquanto Adam o olhava com olhos grandes e atentos esperando a sua explicação, ele tornou a falar.

– Adam, meu Deus! Nós dois corremos perigo! – O velho disse em um tom que pareceu mais desesperado do que ele pretendia insinuar. Talvez não precisasse mais fingir desespero. Estava completamente em choque. Era preciso ousar mais. – Acredito que Isaque não esteja sozinho nessa.

– Como assim? – Perguntou Adam ligeiramente interessado, esperando qual seria a próxima história que Boris inventaria.

– Acredito que Isaque esteja tramando algo junto com Anne, e então os dois irão assumir a empresa. Precisamos demiti-los imediatamente! – Disse Boris assustadoramente sério.

– Olha, você já me disse seus motivos com Isaque, que sinceramente Boris, eu ainda acho pouco provável, mas agora Anne? O que ela tem a ver com isso? – Respondeu Adam tentando não fazer piada com a situação. Estava difícil controlar o seu humor com aquele circo de Boris.

– Ora, não se lembra do velório que teve aqui na empresa quando você veio com o Léo? Clara se suicidou no estoque, mas a perícia achou vestígios de um material que é usado para dopar as pessoas de forma quase instantânea. Antes disso, houve Meg que foi encontrada morta em um beco, e que depois alguns acharam que Clara havia matado. Mas eu sei de toda a verdade. Foi Anne. – Disse Boris em um tom mais alto. Mais uma vez acabou falando tudo de uma forma atropelada, ofegando bastante.

– E como você sabe? – Perguntou Adam em um tom sério. Seus olhos o fitavam para não perder nenhum detalhe daquele teatro.

– Ela é uma assassina cruel que finge ser uma moça normal! Isaque deve ter descoberto e a procurado depois de me ameaçar…. Agora os dois vão se preparar para nos matar Adam! – Boris respondeu, porém não parecia mais estar falando para Adam e sim para o vento ou mesmo as paredes. Seus olhos estavam vermelhos pela pressão do estresse envolvido. Sua boca tremia e ele babava um pouco ao falar.

– Boris, se acalma. Isso está me parecendo muito fantasioso.  Como sabe de tudo isso? – Perguntou Adam demonstrando um pouco de preocupação. Se não tomasse cuidado, aquele velho teria um infarto ali mesmo.

– Ora, Liam me contou e…. – Boris parou subitamente. Falou demais. Não queria arriscar a reputação de Liam, mas já estava feito. Não havia desculpa para retirar o que ele havia dito.

– Boris, desculpa, mas o que você está falando não está fazendo o menor sentido. Acho que a emoção da festa lhe fez mal ou a pressão dos últimos dias mexeu com a sua cabeça. Vamos voltar a festa…. – Disse Adam colocando a mão no seu ombro, ignorando a revelação que agora fazia todas as outras coisas fazerem um pouco de sentido. Pelo menos no sentido das acusações. Talvez ele tenha ensaiado aquele texto por muitas vezes com ajuda de Liam, para escapar das investigações caso houvessem. Talvez Liam tenha lhe dado a arma para que ele fosse ameaçar Isaque…. De qualquer forma, já tinha a sua certeza e a essa altura, esperava que Felipe já estivesse com tudo pronto.

– Não! – Disse Boris alto, tirando a mão de Adam de si. – Eu cansei disso ok? Cansei de bancar o tolo! Cansei de aguentar um menino mimado cheirando a leite sentado em minha cadeira! Cansei do seu tio caduco que acha que pode fazer o que quiser com um trabalho que foi uma parceria produtiva durante anos! Cansei de fingir simpatia por um moleque que acha que pode mandar no mundo! NO MEU MUNDO! Eu cansei! A empresa vai ser minha, e vai ser agora! – Boris enfim explodiu, falando tudo que já devia ter falado a meia hora atrás. Explodiu palavras e baba na cara de Adam, que além das ofensas, agora tinha também uma arma apontada para ele.

– Boris o que você está fazendo? – Disse Adam sinceramente surpreso erguendo as mãos e dando alguns passos para trás. O velho enlouquecera afinal.

– Eu vou te matar Adam, agora! – Disse Boris, efetuando o primeiro disparo.

Liam seguiu os dois pois sabia que aquela conversa poderia lhe custar alguma coisa. Se posicionou então em um corredor próximo, mas ainda não era o suficiente para ouvir a conversa. Entrou então em uma sala que dava acesso a outra onde o pessoal do design poderia trabalhar livremente. De lá, além de ouvir bem a conversa, tinha uma ótima visão dos dois, sem que eles o vissem.

Ao ver Adam tecendo elogios para Boris, percebeu então a sua estratégia suja do jovem sócio, e se surpreendeu com a jogada rápida e desesperada de Boris em colocar a culpa no assistente. Colocou a mão no bolso para confortar seu coração, porém quando percebeu o descontrole de Boris, que começava a falar de Anne, o sangue começou a lhe subir à cabeça. Seria possível que aquele velho maldito estragaria tudo? Sim, mais do que possível. Adam provavelmente achava agora que o velho estava demente, e Boris ia perdendo o controle a cada palavra que dizia a seu favor. Decidiu pôr um ponto final quando ouviu seu nome. A raiva ia lhe consumindo por dentro, enquanto estava de plateia e não iria aplaudir enquanto Boris lhe entregava. Puxou a arma de seu bolso e se preparou para atirar, porém hesitou surpreso ao ver que Boris também puxou uma. Onde ele havia conseguido aquela afinal? Ele não tinha perdido a dele para o Isaque? De qualquer forma, se preparou para puxar o gatilho, logo depois que Boris puxasse o dele, acabando com dois coelhos com uma cajadada só. O velho, já estava na mira.

Anne terminou sua taça ao perceber que Liam seguiu Boris e Adam pelos corredores. Era a sua chance de pegar Liam desprevenido e mostrar e lhe dar o que ele merecia. Aprendeu cedo que os mortos não contam histórias e Liam seria mais um a ficar calado. Ao deixar sua taça sobre uma mesa, tropeçou em um convidado de fora. Lhe pediu desculpas, mas mal olhou para ver em quem tinha esbarrado. Estava apressada. Precisava ser rápida. Havia muitas salas vazias e indo por um corredor paralelo, ela conseguiu a acesso a antiga sala de Manoela que ainda não havia sido ocupada. Lembrou da conversa fiada sobre fantasmas na empresa e riu ao pensar nas besteiras que as pessoas inventam para justificar seus medos. Da sala de Manoela, ela pode ouvir toda discussão, e esperou pacientemente que Liam aparecesse para então dar um jeito nele. Porém, ele havia sumido e não parecia que ia interromper a conversa tão cedo. Será que além de fofoqueiro ele também era covarde? Será que ele estaria roubando a sala de Adam enquanto aquela discussão tola de Boris e Adam fosse só uma distração? Anne já começava a se distrair com as próprias pernas, que balançavam com a ansiedade do momento quando ouviu Boris dizer seu nome. Só então prestou atenção no que o velho dizia. Viu então que realmente Liam havia contado a ele quando Boris falou demais, porém para sua sorte Adam não estava lhe dando muito crédito, provavelmente achando que o velho estava louco ou inventando qualquer coisa para não se ferrar. Quando Adam estava se preparando para convencer Boris a voltar para festa, viu Boris o velho puxar uma arma para Adam, que recuou assustado. Olhando com atenção pela persiana, percebeu uma figura nas sombras, apontando algo para Boris na sala do outro lado do corredor. Anne então se posicionou confortavelmente para apreciar o show.

Assim que Adam e Boris entraram corredor a dentro, Felipe também os seguiu, porém virou para o outro lado. Ele tinha que ser rápido e chegar na sala de Boris. Rapidamente começou a plantar evidências simples como documentos falsificados, além de papéis com assinaturas faltas. Ele teve cinco dias para aprender a assinatura do velho e como um bom designer, não decepcionou. Com alguns amigos, conseguiu também algumas drogas leves e as escondeu em cantos estratégicos de quem não quer ser descoberto. Com tudo pronto, saiu com cuidado e se encontrou com Isaque. Tudo estava andando conforme o plano.

– Tudo pronto, agora eu vou por esse lado e você vai até eles. Quando me der o sinal, eu dou um jeito de segurar a fera. – Disse Felipe quase em um sussurro.

– Certo, irei para lá imediatamente. – Respondeu Isaque.

Isaque ofegava e respirava fundo para tentar controlar a sua respiração. Estava visivelmente com medo e nervoso. Raramente se sentia assim, mas agora era diferente. Não estava só roubando carteiras, estava cada vez mais metido em algo grande. Em todo caso sabia que precisava chegar logo, afinal Boris não pensava bem sob pressão e ele não poderia garantir que ele também não tivesse comprado uma arma. E Liam? Enquanto ainda estava no salão, percebeu que Liam havia sumido. Será que Boris pediu para ele comprar a arma e fazer algo com Adam? A ideia de que esse plano doentio poderia estar acontecendo corroeu ainda mais seu coração. Sua respiração ainda falhava e andava apressado com os punhos cerrados, esperando que nada desse errado. Ninguém nunca lhe dava uma chance, ainda mais depois de que descobriam seu vício. Adam foi o primeiro que mesmo sendo prejudicado acreditou no seu potencial, era um bom amigo e um ótimo patrão. Não queria perder isso. Quando enfim chegou no corredor onde os dois estavam, ainda oculto pelas sombras, ouviu Boris dizer em alto e bom som que mataria Adam. Mesmo desesperado, deu alguns passos cautelosos a frente e viu a arma reluzir em meio a pouca luz do ambiente, o que tornava a cena ainda mais macabra. Em um impulso de coragem, não pensou duas vezes quando ouviu o disparo, se jogando na frente de Adam.

O jovem empresário ficou surpreso. Por um momento viu a morte em seus olhos, de maneira clara e direta. Estava começando a pensar se não tinha ido longe demais com aquele plano maluco, mas de repente Isaque estava ali, jogado no chão sangrando. Se ele estava ali, queria dizer que Felipe obteve sucesso, mas agora de que isso adiantaria? Sua mente ficou anestesiada e levemente perturbada. Depois desse leve estado de choque, como se acordando de um sonho, se abaixou para tentar acudir o rapaz e ouviu o segundo disparo. Ao olhar rapidamente para cima, viu Boris cair e o sangue escorrer lentamente pelo chão. Adam não conseguia ver muito bem, mas o tiro tinha vindo pelas costas de Boris. Isaque, ainda estava vivo, porém o tiro o havia acertado próximo da costela.

– Senhor… – disse Isaque baixinho com dificuldade. – Obrigado por confiar em mim….

– Fique quieto Isaque, vou conseguir ajuda para você. Não durma, ok? – Adam tentava tranquiliza-lo enquanto olhava ao redor. Felipe se aproximou logo em seguida com uma expressão de pavor do outro lado do corredor, por onde o tiro que acertou Boris veio.

– Felipe, foi você? – Adam o questionou com a voz trêmula, apontando para Boris.

– Lógico que não Adam, eu nem estava aqui, e você sabe que eu não sei atirar. Vi alguém apontando a arma de lá, oculto no escuro e depois sair correndo. Eu pensei em segui-lo, mas fiquei preocupado. – Felipe falava afobado tão surpreso quanto Adam com a situação. – Eu…. Eu vou chamar uma ambulância, já volto. – Ele disse por fim correndo em direção ao salão.

– Adam…. – Chamou Isaque, tossindo – É melhor você sair daqui…. Liam…. Liam deve estar com uma arma também….

– Não vou te deixar aqui sozinho Isaque. Não neste estado. Agora, quieto. – Adam tentou tranquiliza-lo novamente, mas agora, também estava morrendo de medo com a possibilidade eminente de ser morto.

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Anne ficou surpresa por Boris ter tido coragem de atirar realmente e mais surpresa ainda quando Isaque apareceu do nada e protegeu Adam. Não teve tempo de imaginar qual trama já estava planejada, pois logo viu outro tiro acertar Boris que caiu duro no chão, porém o tiro que o matou não veio de Liam. Anne então pensou um pouco, tentando buscar algo em sua mente em uma surpresa quase infantil se pegou pensando alto “Era ele”. Correu para fora da sala antes da chegada de Felipe que para a sua sorte não a viu correr pelos corredores.

Liam, pela outra sala também ficou perplexo. Ainda tinha sua arma apontada agora para o vácuo sem acreditar no que havia acontecido. Sua mão tremia e o coração estava acelerado. Quem havia atirado naquele velho maldito? Será que Anne resolveu se vingar pela investida dele no banheiro? Não…. Ela era discreta demais para tentar uma coisa dessas, não parecia ser algo vindo dela. Mas então quem poderia ter feito isso? Acordando de seu momento de espanto, se encolheu atrás de uma mesa quando ouviu Felipe chegar. Ele tremia e deixava seus pensamentos rápidos especularem, tentando descobrir quem poderia ter feitos o disparo. Para ele, ficou claro que Felipe tinha cometido este crime, afinal porque ele estaria vindo todos esses dias? Ele ouviu o rapaz negar quando Adam perguntou, mas ainda assim, Liam não conseguia acreditar. Em todo caso precisava sair dali antes que o resgate chegasse e alguém descobrisse o seu esconderijo. Agora era mais do que hora para ele sumir.

Conseguiu sair pelo mesmo caminho que veio, sem ser visto e correu para a sala de Adam. Lá havia uma janela grande de vidro, que tinha a vista para a avenida na frente do prédio. Precisava abrir sua mente um pouco e respirar. Estaria seguro e de lá seria um esconderijo melhor, já que Adam estava preocupado com Isaque.

Chegou na sala correndo e fechou a porta. Não conseguiu trancar, pois as chaves não estavam lá. De qualquer forma, agora seu coração começava a se acalmar e ele parou para admirar a paisagem. As luzes da noite se confundiam com as luzes do carro e a escuridão da noite, quase não era notada em meio a toda claridade da cidade.

– Que merda vai acontecer agora? – Liam disse para si mesmo, suspirando vendo as ambulâncias chegarem.

– Você morre. – Disse uma voz, na escuridão.

Liam atordoado, tremeu com um arrepio estranho. Não sabia se estava ouvindo coisas ou se havia mais alguém ali com ele. Ficou com medo de descobrir. O medo tomava conta de cada parte do seu ser.  Aos poucos estava enlouquecendo também, como Boris. Depois de olhar ao redor, percebeu uma sombra que apontava uma arma para ele. A figura então deu dois passos à frente, se revelando por completo. Era um rapaz distinto, barbado e com poucas palavras. Seu olhar era frio e ele lhe encarava com pesar, como se olhasse para sua alma.

– Ele não. – Disse Anne entrando na sala de repente. – Esse eu vou matar. – Ela disse em um tom sério que Liam nunca ouviu. Observou quando ela se aproximou do rapaz com uma determinação estranha. O rapaz não desviou o foco da arma e dos olhos nem um milímetro. Apesar de não dar a devida atenção a moça, ele parecia obedecê-la.

– O que significa isso Anne? – Perguntou Liam, sendo tomado pelo seu próprio desespero.

– Um delicioso acaso que eu vou ter o prazer de aproveitar. – Respondeu Anne com um tom insano e de deboche anormal. Seu olhar era tão frio quanto o do rapaz, porém ela tinha um brilho diferente, como de quem está saboreando cada momento. O rapaz barbado, não desviou os olhos e atirou, porém, desviou a arma no último momento, acertando o joelho de Liam. Não houve tempo para qualquer defesa, pois Liam se distraiu com aqueles olhos vazios em meio ao seu desespero e declínio pessoal.

Ele caiu com o joelho sangrando e espatifado. Gritava de dor, rolando no chão. Seus olhos se encheram de lágrimas, em uma mistura de raiva e impotência.

Anne com uma expressão vazia, olhava Liam como um predador ao olhar sua caça que tenta debilmente escapar depois de ser ferida. Liam não tentava fugir, mas procurava em seus olhos, algum tipo de redenção inútil.

Anne levantou a saia revelando sua coxa que parecia mais branca com as luzes da janela. Usava uma cinta liga e de lá, tirou uma faca, grande demais para ser um simples canivete. Aquilo era um punhal, talhado com belos desenhos em sua lateral. Seu fio, afiado, reluzia em meios as luzes, assim como a pele da moça.

Liam nada pode fazer, pois a perda de sangue e a dor infernal do joelho espatifado lhe deixava sem forças para lutar. Anne se ajoelhou perto de sua cabeça e lhe cortou a garganta. Foi um corte rápido, porém profundo que fez seu sangue esguichar e escorrer ensopando o tapete.

Ela se levantou e se aproximou de Santiago que observava tudo, com a mesma expressão vazia que a dela.

– Não imaginei que fosse te encontrar tão cedo. – Ela disse quando o corpo de Liam terminou de agonizar dando o último espasmo.

– Eu imaginei. – Ele respondeu com sua voz grossa, que parecia mais grossa que da última vez, em meio àquela sala vazia e escura, exceto pelas luzes que traziam uma penumbra para o ambiente.

– Eu preciso ir embora. Isso vai virar um pandemônio. – Anne respondeu, se aproximando da janela observando mais uma vez as luzes confusas da cidade, pulando o corpo de Liam.

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– E eu preciso ma… matar mais algumas pessoas. Está na hora do ma… massacre. – Ele respondeu, com uma voz sutil, como quem está com pensamentos distante, revirando uma bolsa que ele havia deixado no canto da sala. De lá tirou uma metralhadora.

Anne se aproximou da porta e observou o corpo de Liam mais uma vez. Então se surpreendeu com Santiago tão próximo dela, vindo por trás.

– Você é boazinha? – Perguntou ele ainda apático.

A pergunta não fazia o menor sentido, mas mesmo assim Anne respondeu:

– Talvez um dia. Quando eu era uma criança e inocente.

– Você ainda é inocente? – Ele perguntou novamente em um tom mais pesado, se aproximando mais.

– Acredito que não… – Anne respondeu com um medo visível nos olhos, segurando o cabo de sua faca com um pouco mais de força.

– Eu acho que ainda é. E isso é o que importa. Agora, se me dá licença, eu preciso fazer uns.… trabalhos. – Santiago respondeu tentando colocar um papel no bolso que caiu debilmente no chão sem ele perceber.

Anne viu então quando ele sumiu pelo corredor. Era possível ouvir também a correria dos paramédicos com suas macas. Se sentia anestesiada e com uma sensação de dever cumprido. Precisava muito de um banho quente, porém ela não pode conter a sua curiosidade e então pegou o papel que Santigado havia derrubado para ler.  Havia alguns itens escritos e alguns riscados de vermelho. Roubo, sequestro e assassinato eram alguns itens que estavam riscados, assim como “assassinato pelas costas (aleatório) ”. Logo abaixo estava massacre, terror psicológico, estupro e necrofilia. Massacre estava riscado com uma cor diferente, que ao reparar, Anne viu que era a mesma de uma caneta que estava sem tampa sobre a mesa de Adam. Anne engoliu seco e saiu apressada, ao perceber que com essa caneta também estava escrito “Anne” ao lado de estupro e necrofilia.

Foram cerca de 30 mortos e pelo menos 10 feridos naquela noite. Funcionários e convidados aleatórios, sem qualquer tipo de ligação. Pela manhã, as testemunhas dos arredores ainda estavam sendo ouvidas. A maioria não percebeu nenhuma movimentação estranha antes da festa, mas duas relataram ver um homem sair com uma mochila preta, carregando o que parecia ser uma moça de vestido preto nos ombros e entrar em um carro.

Mais um louco

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Sempre me chamaram de louca por querer trabalhar com loucos. Ora, não é porque são loucos que não precisem de ajuda… Meu trabalho consistia apenas em ouvi-los. Eu sentava perto deles, conversava e ouvia todas as suas angústias e devaneios. Eles sentiam uma confiança tão grande em mim, que minha fama se espalhou.

Quando houve aquele caso do assassinato, me indicaram para ouvir o assassino. Disseram que precisavam saber se ele era louco ou fez aquilo por vontade própria. Ele se recusava a ouvir a todos e era extremamente agressivo quando alguém tentava. Colocaram no sanatório um tempo, e o assédio dos médicos era tão grande que a situação só piorava. Fui fazer uma visita. O terror de todos era visível e eu soube o porquê quando entrei. Havia um psiquiatra com ele na sala, e quando eu cheguei havia outros médicos tentando evitar a sua morte. O assassino havia se irritado com a presença persistente dele e estava sufocando-o contra a parede. Muitos pareciam baratas tontas e não sabiam como reagir. Eu já havia ouvido casos assim, e agi por instinto.

Entrei na sala e disse:

– Larga!

Todos me olharam na mesma hora, inclusive o assassino. Ele largou, olhou em volta e sentou-se num canto olhando pra parede. O psiquiatra recuperava o ar e tentava dizer algo sobre denúncias. Os médicos o retiraram da sala e tentaram me tirar também. Com a mesma autoridade de quando eu entre, eu respondi:

– Me solta.

Os médicos não ousaram dizer nada. Deixaram-me sozinha com o assassino, e como se quisessem testa a situação, trancaram a porta por fora. Quando deixei a bolsa em um canto da sala, vi quando ele me olhou rápido e deu um sorriso de canto de boca. Sentei ao seu lado e perguntei:

– O que aconteceu?

– Nada.

– O que aconteceu?

– Já disse moça. Nada.

– O que aconteceu?

– Nada…

– O que aconteceu? – eu disse mais uma vez. Todas às vezes, serena e calmamente o bastante para irritar qualquer um… Percebi que estava dando certo, porque desta vez ele olhou em meus olhos e disse pausadamente enquanto cerrava o punho.

– Na – da.

– O que aconteceu?

– EU JÁ DISSE, NÃO FOI NADA! – ele gritou, socando a parede próxima ao meu rosto. Na verdade nossos rostos ficaram bem perto um do outro. Seu olhar era de um bicho acuado e a respiração era forte. Arrumei meu cabelo, colocando atrás da orelha e dei um sorriso meio sem graça, desviando levemente o rosto. Ele notando a situação, também ficou sem graça. Recolheu o braço e pediu desculpas.

– Agora me conta. O que aconteceu com você? E se você disser nada de novo, quem vai socar a parede sou eu…

Ele riu. Acho que há muito tempo não fazia isso. Não era um riso escandaloso, mas lembrava duma criança feliz, só que versão adulta.

– Não disseram a você?

– Disseram. Mas quero ouvir o que fizeram com você e não o que você fez ou deixou de fazer…

Um pouco surpreso ele respondeu:

– Me bateram um pouco na cadeia. Os policiais. Os outros presos tinham medo de mim. No começo tentaram me intimidar, outros fazer amizade. Mas quando viram que os guardas me pegavam toda hora para interrogatórios e eu voltava mancando, perceberam que eu tinha feito algo grave. Foi um gordo que perguntou o que eu fiz e eu disse que tinha matado alguém…

– E como foi à reação deles?

– Desacreditaram lógico. Muitos ali haviam matado e ninguém ficava indo ter “conversinhas” toda hora. Foi quando eu disse como eu matei que eles me deixaram quieto.

– E como foi essa morte? Quero saber de você, porque eu sei que eles lá fora, distorcem tudo…

– Bem… Não era ninguém importante. Uma senhora devia ter uns 50… Ela não tinha feito nada sabe… Já ouviu aquela de “estar no lugar errado, na hora errada?” então… Foi o que aconteceu com ela… Eu não estava num dia bom…

– E por que seu dia não estava bom?

– Ah… Minha mulher… Queria se separar. Acho que a essa altura ela já deve ter conseguido os papéis e ido pra outro país. Eu não queria sabe… Achava que ainda podíamos dar um jeito. Eu gostava dela… A única coisa que me incomodava era a futilidade dela… Mas ainda sim, era uma ótima esposa…

– Naquele dia vocês tinham brigado?

– Sim. Então eu saí pra esfriar a cabeça. A senhora, a que eu matei, passou por mim. Ela estava com um bolinho de papel na mão. Ofereceu-me um eu não aceitei… Depois nos encontramos de novo e ela tornou a me oferecer… Ai eu explodi.

– E o que aconteceu?

– Eu tomei o bolo de papel da mão dela, segurei seu pescoço e enfiei o bolo na garganta dela. Essa parte foi fácil… Ela começou a engasgar e a ficar roxa. Eu pensei em tirar os papéis… Ajudá-la sabe… Ela não tinha culpa pela minha vida estar uma droga. Mas ai eu olhei em volta e vi que muita gente já tinha visto e estava com cara de “nossa, olha o que ele fez…”. Resolvi terminar o que comecei, já estava tudo na merda mesmo… Segurei os ombros dela e esperei um caminhão passar. Naquele pedaço passavam muitos caminhões. Quando um passou, joguei-a, que estrategicamente caiu onde o eixo ia passar. Ai foi pedaço de “senhora” pra todo lado…

– Entendo. Ai eles te levaram?

– Sim. Na hora do papel, alguém já tinha ligado pra policia certamente. Quando viram os pedaços, nem perderam tempo. Eu também não ofereci resistência… Sabia que estava ferrado mesmo…

– Eles te machucaram muito?

– Nas “conversinhas” eles bem que tentavam. Mas desde criança eu tenho uma resistência natural a ferimentos. Posso me cortar, levar pancada… Dói na hora e depois passa. Até pra cicatrizar é mais rápido do que normalmente deveria ser.

– E o que você pretende agora?

– Eu sei que vou apodrecer na cadeia, mas ainda posso tentar ficar aqui. Sinceramente não sei onde é pior. Na cadeia corro o risco de morrer por causa dos policiais. Aqui posso acabar ficando louco junto com os outros… Entre a minha sanidade e a minha vida, ainda não sei qual escolher…

– Acho que você é inteligente o bastante para manter-se são.

– Talvez… Mas e você?

juhliana_lopes 23-01-2012