Sorriso

b2 (1)A lua brilhava forte no céu estrelado, e o vento frio deixava a noite mais quente. Apesar dos pequenos alvoroços, a cidade era silenciosa, porém ativa, com o movimento constante de carros e pessoas noturnas.

Ela estava com um vestido preto que marcava o quadril, com pouco decote deixando resto para a imaginação. Suas alças finas eram cobertas pelos cabelos caídos aos ombros que chegavam até o meio das costas e ajudavam a ocultar o busto. Algumas pulseiras na mão e uma sandália simples sem muito brilho davam um charme a mais para a peça final, que contava com uma maquiagem leve, quase nude e um batom vermelho marcado. Era um dia especial, um dia marcado e muito esperado em seu íntimo por mais que colocasse um disfarce sobre sua satisfação.

Entre as amigas, conversas tímidas iam tomando corpo conforme os copos iam chegando e logo os assuntos iam subindo níveis cada vez mais claros, chegando a assuntos que faziam a face ficar rubra, mas ao mesmo tempo alimentava a malícia de cada uma.

Os perfumes misturados com o ar quente e sedutor iam chamando as atenções dos que estavam à volta e logo vários homens as observavam, uns com curiosidade, outros com intenções e outros sem perceber.

Um foi o seu escolhido. Um homem alto, com presença e uma barba aparada. Contra todas as expectativas, ele não parecia estar tão impressionado e talvez por isso tenha chamado a atenção dela. Depois de uma boa conversa e mais algumas doses de vinho, as danças de corpos colados foram ficando mais frequentes, e logo as palavras ao pé do ouvido iam aguçando o desejo dos dois.

Não demorou muito para saírem acompanhados em direção a um lugar mais calmo, que de calmo não ia ter nada afinal. Mais conversas no carro, mais beijos e toques ardentes. Cogitaram a ideia de parar pelo caminho mesmo, mas conseguiram conter os ânimos a tempo do lugar especial.

Uma vez no lugar, as roupas já não faziam mais parte da atração, e logo não havia mais batom vermelho em sua boca. Como um fogo em brasa, os dois ardiam e se consumiam rapidamente como uma chama consome uma vela. Nada importava além do prazer envolvido, que tornava tudo mais entorpecido do que já parecia.

Os corpos adormeceram de cansaço, mas as mentes não, pedindo por mais, insatisfeitas, incansáveis, insaciáveis. Pela manhã, o sol anunciava forte o novo dia, com um brilho que cegava, mas renovava as energias.

Ele acordou primeiro, levantou com uma leve dor de cabeça, talvez fosse ressaca. Tomou um banho, deixando a água gelada cair sobre sua cabeça por um longo tempo, tentando assim esvaziar sua mente. Com a porta aberta, ele a observava, linda como um anjo, adormecida sobre os lençóis. Ao sair do banho, enrolou a toalha e procurou por suas calças. Retirou sua carteira, um canivete, uma seringa e um estojo pequeno. Colocou sobre uma mesinha e foi se vestir. Ao terminar, ela ainda dormia calmamente, como se o mundo não fosse acordar antes dela.

Ele abriu o estojo, onde havia um pequeno frasco e algumas agulhas. Preparou uma dose e colocou na seringa, deixando ela pronta ao lado do canivete. Depois, sentou ao lado dela, acariciando levemente seu cabelo com cuidado para não acordá-la, e falando baixinho para si mesmo: “Tão linda, tão rara… Pena que não vai passar de hoje…”.

Ele se distraiu por um leve momento que não percebeu que os olhos agora olhavam direto nos dele. Não soube dizer por quanto tempo, mas a beijou e desejou bom dia. Ela respondeu com um sorriso preguiçoso e se espreguiçou de uma forma tão sensual que fez cogitar a ideia de permanecer ali o dia inteiro. Ela se levantou enrolada no lençol e foi para o banheiro. Passou um tempo tomando banho, deixando a água quente tomar seu corpo, revigorando cada parte e aguçando seus sentidos.

Quando saiu, procurou seu vestido, e seus sapatos. Ele estava virado de frente para a mesa, mexendo em algo que ela não conseguia ver, mas também não se importou em perguntar. Virou de costas para ele e se vestiu calmamente.

Ele, com a seringa na mão, percebendo sua distração, e foi se aproximando lentamente, com passos leves sem fazer barulho. Ela se abaixou para calçar a sandália, mas ao levantar, se virou para ele, o surpreendendo.

Ele tentou acertá-la com a agulha, mas com um movimento rápido ela o derrubou sobre a cama e a seringa caiu no chão rolando para baixo do criado mudo. Enquanto ela subia em cima dele para impedir que se levantasse, ele a empurrou para o lado e correu para a mesa, pegando rapidamente o canivete e avançando sobre ela novamente.

Na sua ânsia, acabou tropeçando no tapete, e como um gato esperto, ela aproveitou a gravidade e o empurrou, fazendo-o cair sobre o braço esquerdo no chão. Enquanto fazia força para se levantar, foi golpeado na garganta com o salto da sandália que estranhamente tinha uma ponta afiada. Ela, com o mesmo sorriso no rosto que deu quando acordou, forçou a sandália, fazendo a ponta entrar cada vez mais fazendo buraco. Em seguida, tomou o canivete e passou sobre seu pescoço, deixando o sangue escorrer e os olhos surpresos secarem.

Ele, agora não era mais nada. Ela pegou a carteira, pressionou a lateral da sandália, fazendo a ponta se esconder e saiu pela porta tranquilamente, com um sorriso ainda mais bonito no rosto.

 

/juhliana_lopes 04-12-2014

Anúncios

Provocação

img_179839523_1316273019_abigAntes de fechar a porta deu mais um daqueles sorrisos encantadores e saiu deixando seu perfume. Estava contratada, mas se quisesse nem precisava trabalhar, afinal, sempre conseguia o que queria. Sempre caprichando na cruzada de pernas, percebeu enfim que foi uma boa hora de investir naquela saia com dois dedos a menos, imperceptíveis com a postura correta, mas bastante revelador em uma posição mais ousada. Seu chefe também era um bobo. Casado, casamento com rotina, foi fácil mostrar a carne ao lobo faminto, seria uma questão de tempo até acontecer às primeiras reuniões à noite.

Com seu charme, não havia chamado atenção apenas de seu superior. Os outros homens do setor também caíam de suspiros ao vê-la passar, e com um jeito tímido, porém extremamente sensual, ia partindo mais corações.

Mas o que um demônio poderia querer numa empresa tão simplória que cuidava da produção de jarras e taças de cristal? O que um ser como ela poderia querer em algo que já havia alcançado o ápice, e dali não poderia ir para nenhum lugar a não ser para baixo?

Mais do que dinheiro, ela procurava a força vital, os sonhos, aquilo que alimentava os homens e lhes dava forças para viver. Queria tudo até ficar sem nada. Começaria por um e aos poucos tomaria conta de todos.

Um mês depois, já era assunto entre as rodinhas masculinas. Sobre como a blusa se ajusta bem ao seu corpo, deixando escapar um decote generoso de vez em quando. Em como a saia que ajusta em suas coxas e vai subindo aos poucos conforme o seu rebolado enquanto caminha. E que mesmo com toda sensualidade, como nenhum homem tinha coragem de chegar nela e lhe falar todas as coisas insanas que tinham vontade, por causa daquele rostinho tímido e lindo de menina, que fazia parecer um anjo tão inocente que seria um pecado mortal se referir a ela com qualquer coisa maldosa.

Na sala do chefe, ele sempre dava um jeito de encostar ou se esfregar nela. Já estava até sentando no colo dele de vez em quando, com algum papinho mole no ouvido, mas nada de avançar demais, afinal, aquele olhar meigo que ao mesmo tempo o provocava não o deixava se concentrar.

Já ela, estava começando a ficar com fome, o clima já estava perfeito, mas tinha que ser cautelosa afinal, qualquer passo errado e o encanto iria se perder. Então se aproximou de Jaime. Homem bonito, viril, o cara da balada de fim de semana, porém excelente profissional. Quase um galã. Respeitava todas as mulheres no ambiente de trabalho como se fossem suas mães, mas ao ficar preso – sem entender como – no estoque com a nova secretária, e ela ficar lhe abraçando com medo de locais fechados, não se conteve e teve que se aproveitar da situação. Ela é claro, pareceu ofendida, mas quando ele teria uma oportunidade daquelas de novo? Prometeu a si mesmo manter discrição e ela também não parecia à vontade para lhe denunciar. Acabou ficando por isso mesmo.

Mesmo que ele quisesse, não poderia ter contado, afinal, no dia seguinte estava com uma forte gripe que lhe deixou de molho por uma semana. Sentia-se um pouco desmotivado também, o trabalho já não atendia suas expectativas, mas preferiu manter o foco em seu trabalho como sempre para ver se as coisas melhoravam.

Adriano foi o mais sortudo. Ficar três horas com ela preso no elevador por causa da falta de luz foi o melhor momento de sua vida. Nunca pensou que uma pessoa tão tímida poderia ser um furacão com aquele. Sobretudo como foi rápida em colocar a roupa de volta quando o elevador voltou a funcionar. Realmente, segundo ele, daria uma obra prima se alguém pintasse um quadro sobre o assunto. Assim como Jaime, não conseguiu contar a ninguém, e nesse caso nem foi uma gripe, mas uma fatalidade que lhe tirou do seu rumo. Atropelado quando estava indo ao trabalho no outro dia, encontrava-se em coma no hospital.

Anderson seria o próximo. Estava contente porque ela respondeu seu bilhete durante a festa da empresa. Estaria esperando por ele na sacada do andar de cima. Subiu as escadas assobiando e lá estava ela, linda, com um vestido branco que marcava a cintura e deixava as costas nuas. Ficaram ali conversando por um bom tempo, e enfim, um beijo apaixonado se seguiu. Em seguida, como dois adolescentes já estavam se enroscando, com medo de serem pegos.

Depois do êxtase, ele parou para admirar a lua e ela seguiu para a escada.

– Ei, não vai me esperar linda?

– Talvez… Acho que você não vai mais querer nada comigo não é? – Ela parecia abatida, triste, com lágrimas juntando aos olhos.

– E porque não iria querer? Eu adorei nossa primeira noite, escondido, com perigo sempre dá mais prazer…

– Mas eu não acabei sendo fácil demais?

– Claro que não. Você acha que eu não vou querer mais nada com você porque já fiz o que a maioria dos homens quer fazer? Eu não sou como eles… Eu quero ficar com você, namorar, quero ter você pra mim! – Ele dizia segurando suas mãos. Secou suas lágrimas e lhe deu mais um beijo, e então juntos desceram as escadas.

Aproveitaram o resto da festa e então foram embora. Para não ficar chato na frente da turma, ele subiu mais uma vez, pois ela já estava lá esperando para uma despedida.

– E quando vamos assumir? – agora ela falava num tom manhoso.

– Quando você quiser meu amor!

– Amanhã então, quando você chegar!

– Tudo bem! Até amanhã meu amor! – Ele disse lhe beijando a última vez.

Ao descer as escadas, só teve tempo de ouvir um barulho forte e desviar quando algo veio rolando atrás dele. O desespero tomou conta quando percebeu que quem estava lá embaixo no fim da escadaria ela sua musa. Olhou para cima assustado e viu uma figura tirando os óculos e segurando no corrimão. Desceu correndo para verificar o estado de sua amada.

– Largue-a!

– Do que você está falando Walter? – Ele gritou quando seu colega de trabalho lhe puxava para longe da bela dama.

– Você não vê? Ela ia te empurrar! Ela é um demônio!

– Você é imbecil? Está ficando louco? – Anderson se soltou e correu mais uma vez para sua amada, mas quando chegou perto, sentiu um arrepio profundo que fez a nuca eriçar.

Ela estava torta por causa da queda, mas tinha um sorriso maligno no rosto. Seus olhos que eram de um verde delicado, agora estavam vermelhos e as unhas pareciam ter dobrado de tamanho como garras.

– Walter seu maldito, porque tinha que estragar tudo? – Ela se levantou mesmo torta falando com uma voz forte que nada lembrava a mocinha delicada como criança.

– Volte para o inferno! Não precisamos de súcubos aqui!

– Eu vou te matar! – Disse ela partindo para cima dele como uma besta feroz. Anderson mal podia acreditar em seus olhos. Parecia uma fera selvagem atrás de uma caça, mas antes que conseguisse se aproximar demais, Walter sacou um revólver e a derrubou.

– O que você fez? O que está acontecendo afinal? – Disse Anderson tremendo.

– Vamos embora daqui, ela não morreu, e quando acordar vai vir com uma fúria ainda maior!

– E como você sabia que ela era… Aquilo? – Disse Anderson ofegante enquanto corria.

– Porque eu também não sou humano…

 

juhliana_lopes 23-07-2014