Fácil demais

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Ele estava obcecado. Não sabia de onde ela vinha, nem para onde ia, mas era quase impossível ignorar a presença dela. Era alta, tinha uma bela postura e curvas leves. Devia ser modelo talvez. Roupas sociais, cabelo impecável. Executiva talvez. Bolsa ao lado do corpo e celular quase sempre na mão. Muito ocupada talvez. Uma vez, ele passou por ela e viu uma foto de criança no celular dela, que logo deu lugar para uma tela de aplicativo de mensagens. Deve ser mãe talvez.

Não importava, ele só queria saber o nome dela, se estava bem, alguma coisa. Qualquer coisa. Eles se encontravam sempre no ponto de ônibus, porém ela pegava uma linha e ele outra. A dela sempre vinha primeiro. Ele ficava feito um bobo olhando pela janela, e ela com os olhos na tela, nem lhe dava atenção.

Pensou em abordá-la, falar banalidades, mas poderia ser interpretado mal. Afinal ele só a encontrava tarde da noite quando estava voltando do trabalho. Pensou em mil maneiras de esbarrar com ela para ter uma desculpa de pelo menos tocá-la. Mas não. Melhor esquecer.

Todo homem precisa de uma motivação e com ele não seria diferente. Sua maior fraqueza era o álcool e em um dia qualquer ele, a convite de amigos, bebeu algumas doses que viraram muitas em um aniversário. Voltando para casa, estava alto, atordoado e ao vê-la, seu pensamento ganhou uma direção.

Talvez por coincidência, o ônibus dele veio primeiro naquele mesmo dia, e talvez por acaso ela pegou o mesmo ônibus que ele. Suas mãos suavam. Ele não sabia o que fazer. Sabia que o que ele queria era errado, mas sabia que não tinha condições de conduzir uma conversa normal. Já havia esperado muito e tantos outros faziam, qual seria o problema? Ela nunca seria dele por vias normais.

Percebeu então que ela não morava tão longe e que só pegava o outro ônibus porque ele passava primeiro mesmo, afinal os dois faziam a mesma parte do caminho. Ele, sentado no fundo no ônibus, estralando os dedos e balançando a perna direita, ainda pensava que estava louco e não devia agir assim. Mas ele se arrependeria muito mais se não fizesse nada e talvez demorasse um bom tempo para usar o álcool como desculpa.

Desceu atrás dela e foi seguindo cauteloso, se esgueirando pelas sombras. Mantendo uma distância segura, percebeu que logo ela estaria em casa e ele perderia sua chance. Era preciso um segundo de coragem insana. Um segundo de loucura absurda. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Observou ela caminhando calmamente, com o celular na mão e então foi.

Se aproximou depressa e lhe deu uma chave de braço. Arrastou ela para o primeiro canto escuro que achou. Pressionou ela contra a parede e começou a beijar seu pescoço. Ela tentava em vão resistir. Ele a virou de frente para ele, e rasgou a sua blusa. Arrancando dois ou três botões. Com as mãos, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com força. Mordia seu pescoço e seu colo, e revezava suas mãos entre segurar as mãos dela e apalpar seu corpo. Estava se dando bem afinal, ele pensou. Mas faltava algo. Ele apertava, mordia e lhe deixava marcas. Não ousava olhar no rosto dela, apenas para o seu corpo que era alvo e delicado. Mas ainda faltava algo.

Quando ele começou a passar a mão pelas suas coxas, ela parou de resistir e puxava o corpo dele contra o dela. Ela estava gostando? Olhou finalmente para o rosto dela que estava de olhos fechados e um sorriso de satisfação. Ela estava realmente gostando. Resolveu então lhe dar um beijo na boca que foi correspondido com luxúria. Ele foi ficando cada vez mais animado, e suando com o álcool que reagia em seu corpo, se forçava mais contra o corpo da moça, tentando rasgar as roupas que ainda restavam. A camisa dele já estava no chão amassada, quando o sangue espirrou nela.

Ele ficou um tempo parado, olhando para ela que agora encarava seus olhos profundamente. Olhos castanhos, mais escuros ainda com a noite. Ele não sentiu dor quando a lâmina entrou, mas sentiu a profundidade do corte quando a lâmina saiu. Antes que ele pudesse sair do estado de choque e se manifestar sobre o acontecido, ela enfiou a faca novamente, desta vez no estômago. Agora ele se sentia mais fraco e fica uma quantidade de sangue absurda sair de si mesmo. Ela, agora olhava para ele com um sorriso. O mesmo sorriso de satisfação de quando ele estava tomando seu corpo. Ele caiu no chão e começou a agonizar. Ela, pegou sua bolsa, tirou uma camisa e uma toalha. Limpo o sangue dele que havia sujado a sua barriga e se vestiu. Ele, se debatia no chão, ainda olhando para ela. Seus pensamentos confusos não permitiam que ele pudesse manter uma linha de raciocínio, ele só sabia que estava morrendo.

Ela usava um salto, que não era tão alto, afinal ela mesmo era um pouco mais alta que as outras mulheres. Ela usou esse mesmo salto para enfiar a ponta no ferimento que ela havia aberto no seu estômago. Pisando literalmente sobre ele, observava com asco, enquanto ele gemia de dor, sem poder reagir, fraco com a perda de sangue.

Tirando o pé de cima dele, ela caminhou até a rua, pegou um cigarro e começou a fumar, observando a rua vazia. Maldita rua vazia. Quando estava quase terminando, apagou o cigarro na testa dele, e com a faca, abriu um corte profundo na sua garganta, sem acertar a jugular. Como um açougueiro, ela só desceu com a faca no pescoço do pobre homem e deixou a faca lá, fincada. Ele não se mexeu mais. Ela pegou a camisa dele com cuidado para não se sujar, e cobriu o seu rosto. Se levantou com leveza e seguiu andando até um ponto de ônibus próximo de uma avenida. Sozinha, pegou outro cigarro e o celular enquanto observava os carros. “Fácil demais”, ela pensou.

juhliana_lopes 10-10-2016

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Sem pressa

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É noite e a lua esta alta.

A brisa sopra leve, fazendo as folhas dançarem.

Pelas sombras você se aproxima,

Pois como um demônio,

Você vem me possuir.

Tu, minha serpente,

Que se enrola em minhas pernas

E sobe pela minha cintura,

Com seu corpo frio e esguio,

Me arrepiando pouco a pouco,

Me fazendo delirar em mil devaneios,

Me fazendo me perder de mim mesmo.

Tu, minha vampira,

Que me morde o pescoço,

E pouco a pouco suga minha alma,

Me arranhando lentamente,

Abrindo minha carne,

Expondo meu ser.

Tu, meu doce erro,

Que pesa seu corpo sobre o meu,

Que me impede de fugir,

Que me prende com seus abraços,

Deixando meu corpo dormente,

Me fazendo esquecer das horas.

Tu, minha ninfa travessa,

Que brinca com meus sentimentos,

Que me ilude com seus beijos,

E me tem por completo com seu olhar.

Peço-te que devolvas meu coração,

Pois preciso dele para viver.

Porém, não tenha pressa.

Devolva-me apenas,

Depois que usares completamente meu corpo,

Para seu bel-prazer.

juhliana_lopes 08-08-2016

Quem é o Assassino? #Final

Boris pediu um momento com Adam para conversarem e então ele sugeriu que fossem para os corredores próximos as salas, pois além de vazios, ficavam longe de todo o barulho. Boris o seguiu apreensivo e então começou a falar.

– Primeiro eu gostaria de te agradecer…. Agradecer pela homenagem e pelas belas palavras, mas eu preciso saber…. – Boris engoliu seco. – São sinceras?

Adam deu um sorriso de canto. Ele tinha mordido a isca. Estava claramente apreensivo e parecia escolher com cuidado as palavras, com medo de falar algo errado. Agora era a sua chance para continuar com o teatro.

– Claro Boris. Por que acha que não são? – Respondeu Adam se mostrando visivelmente preocupado.

– Bem, é que com os números da empresa que não fechavam, imaginei que você pudesse achar que fosse culpa minha ou algo do tipo. Incompetência da minha parte, não sei…. – Boris tentou se explicar, sem graça.

– De maneira nenhuma Boris…. – Disse Adam pegando as mãos de Boris. – Eu tenho trabalhado com Isaque direto para descobrir o erro, mas nenhum deles aponta para você. Acho que se não fosse pela sua experiência, talvez eu já tivesse afundado a empresa, nunca administrei algo deste tamanho. É tudo novo para mim.

– Acho que criei uma confusão em minha cabeça, eu peço desculpas…. – Disse Boris com um tom suave, porém ainda confuso. – Mas talvez fosse melhor rever o seu secretário. Acredito que Isaque seja uma má influência.

A mente de Boris havia dado um nó e agora ele resolverá apelar para não acabar se entregando. Estava nervoso e despreparado. Suas mãos suavam e sentia suas pernas tremerem. Era preciso falar devagar para conseguir falar corretamente, sem que o seu estado de choque o afetasse mais do que já havia mostrado.

– Como assim? – Perguntou Adam com um tom curioso.

– Ora, eu não iria falar nada, afinal estava com medo de que você também estivesse contra mim, mas agora percebo que ele é o verdadeiro culpado de tudo. – Disse Boris, engolindo seco mais uma vez, tentando fingir surpresa.

– O que está acontecendo Boris? – Perguntou Adam em um tom mais sério. Percebeu logo a manobra do velho e resolveu incentivar para ver até onde aquela cobra traiçoeira iria.

– Isaque quer roubar o seu lugar. Ele me ameaçou há alguns dias no vestiário com uma arma. Alguns documentos importantes sumiram e eu tive que refazer tudo para lhe apresentar. Eu tive medo do impacto que isso poderia trazer para a empresa, ainda mais depois das mortes que tivemos, então não falei nada. Ele insinuou que você estivesse por trás disso, mas agora eu vejo que ele foi o grande culpado de tudo. Você corre perigo Adam! – Explicou Boris, falando tudo de uma vez um pouco embolado. Estava começando a perder o autocontrole. Sua cabeça doía com o esforço que fazia para não deixar seus pensamentos o atropelarem.

– Olha, você sabe que esta história é muito difícil para eu acreditar. Isaque sempre foi o meu homem de confiança, assim como Liam é o seu. – Disse Adam com um leve tom transparente de deboche, parecendo desinteressado com aquela conversa.

– Liam? Meu homem de confiança? – Perguntou Boris assustado. Será que de fato Adam não sabia ou desconfiava de nada? Essa pergunta martelava sua mente permanentemente agora e ele sentia sua visão ficar turva e voltar ao normal várias vezes.

– Ora Boris, notei que vocês são muito próximos desde o primeiro dia. Ele pode não ser seu secretário, mas sei que são bons amigos e ele deve lhe dar ótimos conselhos. – Respondeu Adam com um tom mais tranquilo, ainda para incentivar a loucura de Boris.

– Realmente…. – Boris disse um pouco mais aliviado. – Mas Isaque não é como Liam, acredite. Ele não está interessado em fazer as coisas certas, ele quer te prejudicar! – Disse Boris recobrando seus pensamentos insanos. A verdade é que agora nem ele conseguia mais acreditar nas coisas que dizia. Será que este era o grande plano de Adam? Fingir aquilo tudo para vê-lo fraco e amedrontado e assim fazê-lo confessar tudo? Não, isso não estava certo. Ele mesmo havia convidado Adam para conversarem a sós. A festa era apenas uma distração para os últimos problemas da empresa…. Ou talvez fossem uma distração para ele mesmo? Agora era tarde e ele precisava continuar com aquilo. Precisava insanamente convencer Adam de que Isaque era o culpado por qualquer coisa e que ele não tinha nada a ver com isso.  Depois de um breve tempo em silêncio, enquanto Adam o olhava com olhos grandes e atentos esperando a sua explicação, ele tornou a falar.

– Adam, meu Deus! Nós dois corremos perigo! – O velho disse em um tom que pareceu mais desesperado do que ele pretendia insinuar. Talvez não precisasse mais fingir desespero. Estava completamente em choque. Era preciso ousar mais. – Acredito que Isaque não esteja sozinho nessa.

– Como assim? – Perguntou Adam ligeiramente interessado, esperando qual seria a próxima história que Boris inventaria.

– Acredito que Isaque esteja tramando algo junto com Anne, e então os dois irão assumir a empresa. Precisamos demiti-los imediatamente! – Disse Boris assustadoramente sério.

– Olha, você já me disse seus motivos com Isaque, que sinceramente Boris, eu ainda acho pouco provável, mas agora Anne? O que ela tem a ver com isso? – Respondeu Adam tentando não fazer piada com a situação. Estava difícil controlar o seu humor com aquele circo de Boris.

– Ora, não se lembra do velório que teve aqui na empresa quando você veio com o Léo? Clara se suicidou no estoque, mas a perícia achou vestígios de um material que é usado para dopar as pessoas de forma quase instantânea. Antes disso, houve Meg que foi encontrada morta em um beco, e que depois alguns acharam que Clara havia matado. Mas eu sei de toda a verdade. Foi Anne. – Disse Boris em um tom mais alto. Mais uma vez acabou falando tudo de uma forma atropelada, ofegando bastante.

– E como você sabe? – Perguntou Adam em um tom sério. Seus olhos o fitavam para não perder nenhum detalhe daquele teatro.

– Ela é uma assassina cruel que finge ser uma moça normal! Isaque deve ter descoberto e a procurado depois de me ameaçar…. Agora os dois vão se preparar para nos matar Adam! – Boris respondeu, porém não parecia mais estar falando para Adam e sim para o vento ou mesmo as paredes. Seus olhos estavam vermelhos pela pressão do estresse envolvido. Sua boca tremia e ele babava um pouco ao falar.

– Boris, se acalma. Isso está me parecendo muito fantasioso.  Como sabe de tudo isso? – Perguntou Adam demonstrando um pouco de preocupação. Se não tomasse cuidado, aquele velho teria um infarto ali mesmo.

– Ora, Liam me contou e…. – Boris parou subitamente. Falou demais. Não queria arriscar a reputação de Liam, mas já estava feito. Não havia desculpa para retirar o que ele havia dito.

– Boris, desculpa, mas o que você está falando não está fazendo o menor sentido. Acho que a emoção da festa lhe fez mal ou a pressão dos últimos dias mexeu com a sua cabeça. Vamos voltar a festa…. – Disse Adam colocando a mão no seu ombro, ignorando a revelação que agora fazia todas as outras coisas fazerem um pouco de sentido. Pelo menos no sentido das acusações. Talvez ele tenha ensaiado aquele texto por muitas vezes com ajuda de Liam, para escapar das investigações caso houvessem. Talvez Liam tenha lhe dado a arma para que ele fosse ameaçar Isaque…. De qualquer forma, já tinha a sua certeza e a essa altura, esperava que Felipe já estivesse com tudo pronto.

– Não! – Disse Boris alto, tirando a mão de Adam de si. – Eu cansei disso ok? Cansei de bancar o tolo! Cansei de aguentar um menino mimado cheirando a leite sentado em minha cadeira! Cansei do seu tio caduco que acha que pode fazer o que quiser com um trabalho que foi uma parceria produtiva durante anos! Cansei de fingir simpatia por um moleque que acha que pode mandar no mundo! NO MEU MUNDO! Eu cansei! A empresa vai ser minha, e vai ser agora! – Boris enfim explodiu, falando tudo que já devia ter falado a meia hora atrás. Explodiu palavras e baba na cara de Adam, que além das ofensas, agora tinha também uma arma apontada para ele.

– Boris o que você está fazendo? – Disse Adam sinceramente surpreso erguendo as mãos e dando alguns passos para trás. O velho enlouquecera afinal.

– Eu vou te matar Adam, agora! – Disse Boris, efetuando o primeiro disparo.

Liam seguiu os dois pois sabia que aquela conversa poderia lhe custar alguma coisa. Se posicionou então em um corredor próximo, mas ainda não era o suficiente para ouvir a conversa. Entrou então em uma sala que dava acesso a outra onde o pessoal do design poderia trabalhar livremente. De lá, além de ouvir bem a conversa, tinha uma ótima visão dos dois, sem que eles o vissem.

Ao ver Adam tecendo elogios para Boris, percebeu então a sua estratégia suja do jovem sócio, e se surpreendeu com a jogada rápida e desesperada de Boris em colocar a culpa no assistente. Colocou a mão no bolso para confortar seu coração, porém quando percebeu o descontrole de Boris, que começava a falar de Anne, o sangue começou a lhe subir à cabeça. Seria possível que aquele velho maldito estragaria tudo? Sim, mais do que possível. Adam provavelmente achava agora que o velho estava demente, e Boris ia perdendo o controle a cada palavra que dizia a seu favor. Decidiu pôr um ponto final quando ouviu seu nome. A raiva ia lhe consumindo por dentro, enquanto estava de plateia e não iria aplaudir enquanto Boris lhe entregava. Puxou a arma de seu bolso e se preparou para atirar, porém hesitou surpreso ao ver que Boris também puxou uma. Onde ele havia conseguido aquela afinal? Ele não tinha perdido a dele para o Isaque? De qualquer forma, se preparou para puxar o gatilho, logo depois que Boris puxasse o dele, acabando com dois coelhos com uma cajadada só. O velho, já estava na mira.

Anne terminou sua taça ao perceber que Liam seguiu Boris e Adam pelos corredores. Era a sua chance de pegar Liam desprevenido e mostrar e lhe dar o que ele merecia. Aprendeu cedo que os mortos não contam histórias e Liam seria mais um a ficar calado. Ao deixar sua taça sobre uma mesa, tropeçou em um convidado de fora. Lhe pediu desculpas, mas mal olhou para ver em quem tinha esbarrado. Estava apressada. Precisava ser rápida. Havia muitas salas vazias e indo por um corredor paralelo, ela conseguiu a acesso a antiga sala de Manoela que ainda não havia sido ocupada. Lembrou da conversa fiada sobre fantasmas na empresa e riu ao pensar nas besteiras que as pessoas inventam para justificar seus medos. Da sala de Manoela, ela pode ouvir toda discussão, e esperou pacientemente que Liam aparecesse para então dar um jeito nele. Porém, ele havia sumido e não parecia que ia interromper a conversa tão cedo. Será que além de fofoqueiro ele também era covarde? Será que ele estaria roubando a sala de Adam enquanto aquela discussão tola de Boris e Adam fosse só uma distração? Anne já começava a se distrair com as próprias pernas, que balançavam com a ansiedade do momento quando ouviu Boris dizer seu nome. Só então prestou atenção no que o velho dizia. Viu então que realmente Liam havia contado a ele quando Boris falou demais, porém para sua sorte Adam não estava lhe dando muito crédito, provavelmente achando que o velho estava louco ou inventando qualquer coisa para não se ferrar. Quando Adam estava se preparando para convencer Boris a voltar para festa, viu Boris o velho puxar uma arma para Adam, que recuou assustado. Olhando com atenção pela persiana, percebeu uma figura nas sombras, apontando algo para Boris na sala do outro lado do corredor. Anne então se posicionou confortavelmente para apreciar o show.

Assim que Adam e Boris entraram corredor a dentro, Felipe também os seguiu, porém virou para o outro lado. Ele tinha que ser rápido e chegar na sala de Boris. Rapidamente começou a plantar evidências simples como documentos falsificados, além de papéis com assinaturas faltas. Ele teve cinco dias para aprender a assinatura do velho e como um bom designer, não decepcionou. Com alguns amigos, conseguiu também algumas drogas leves e as escondeu em cantos estratégicos de quem não quer ser descoberto. Com tudo pronto, saiu com cuidado e se encontrou com Isaque. Tudo estava andando conforme o plano.

– Tudo pronto, agora eu vou por esse lado e você vai até eles. Quando me der o sinal, eu dou um jeito de segurar a fera. – Disse Felipe quase em um sussurro.

– Certo, irei para lá imediatamente. – Respondeu Isaque.

Isaque ofegava e respirava fundo para tentar controlar a sua respiração. Estava visivelmente com medo e nervoso. Raramente se sentia assim, mas agora era diferente. Não estava só roubando carteiras, estava cada vez mais metido em algo grande. Em todo caso sabia que precisava chegar logo, afinal Boris não pensava bem sob pressão e ele não poderia garantir que ele também não tivesse comprado uma arma. E Liam? Enquanto ainda estava no salão, percebeu que Liam havia sumido. Será que Boris pediu para ele comprar a arma e fazer algo com Adam? A ideia de que esse plano doentio poderia estar acontecendo corroeu ainda mais seu coração. Sua respiração ainda falhava e andava apressado com os punhos cerrados, esperando que nada desse errado. Ninguém nunca lhe dava uma chance, ainda mais depois de que descobriam seu vício. Adam foi o primeiro que mesmo sendo prejudicado acreditou no seu potencial, era um bom amigo e um ótimo patrão. Não queria perder isso. Quando enfim chegou no corredor onde os dois estavam, ainda oculto pelas sombras, ouviu Boris dizer em alto e bom som que mataria Adam. Mesmo desesperado, deu alguns passos cautelosos a frente e viu a arma reluzir em meio a pouca luz do ambiente, o que tornava a cena ainda mais macabra. Em um impulso de coragem, não pensou duas vezes quando ouviu o disparo, se jogando na frente de Adam.

O jovem empresário ficou surpreso. Por um momento viu a morte em seus olhos, de maneira clara e direta. Estava começando a pensar se não tinha ido longe demais com aquele plano maluco, mas de repente Isaque estava ali, jogado no chão sangrando. Se ele estava ali, queria dizer que Felipe obteve sucesso, mas agora de que isso adiantaria? Sua mente ficou anestesiada e levemente perturbada. Depois desse leve estado de choque, como se acordando de um sonho, se abaixou para tentar acudir o rapaz e ouviu o segundo disparo. Ao olhar rapidamente para cima, viu Boris cair e o sangue escorrer lentamente pelo chão. Adam não conseguia ver muito bem, mas o tiro tinha vindo pelas costas de Boris. Isaque, ainda estava vivo, porém o tiro o havia acertado próximo da costela.

– Senhor… – disse Isaque baixinho com dificuldade. – Obrigado por confiar em mim….

– Fique quieto Isaque, vou conseguir ajuda para você. Não durma, ok? – Adam tentava tranquiliza-lo enquanto olhava ao redor. Felipe se aproximou logo em seguida com uma expressão de pavor do outro lado do corredor, por onde o tiro que acertou Boris veio.

– Felipe, foi você? – Adam o questionou com a voz trêmula, apontando para Boris.

– Lógico que não Adam, eu nem estava aqui, e você sabe que eu não sei atirar. Vi alguém apontando a arma de lá, oculto no escuro e depois sair correndo. Eu pensei em segui-lo, mas fiquei preocupado. – Felipe falava afobado tão surpreso quanto Adam com a situação. – Eu…. Eu vou chamar uma ambulância, já volto. – Ele disse por fim correndo em direção ao salão.

– Adam…. – Chamou Isaque, tossindo – É melhor você sair daqui…. Liam…. Liam deve estar com uma arma também….

– Não vou te deixar aqui sozinho Isaque. Não neste estado. Agora, quieto. – Adam tentou tranquiliza-lo novamente, mas agora, também estava morrendo de medo com a possibilidade eminente de ser morto.

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Anne ficou surpresa por Boris ter tido coragem de atirar realmente e mais surpresa ainda quando Isaque apareceu do nada e protegeu Adam. Não teve tempo de imaginar qual trama já estava planejada, pois logo viu outro tiro acertar Boris que caiu duro no chão, porém o tiro que o matou não veio de Liam. Anne então pensou um pouco, tentando buscar algo em sua mente em uma surpresa quase infantil se pegou pensando alto “Era ele”. Correu para fora da sala antes da chegada de Felipe que para a sua sorte não a viu correr pelos corredores.

Liam, pela outra sala também ficou perplexo. Ainda tinha sua arma apontada agora para o vácuo sem acreditar no que havia acontecido. Sua mão tremia e o coração estava acelerado. Quem havia atirado naquele velho maldito? Será que Anne resolveu se vingar pela investida dele no banheiro? Não…. Ela era discreta demais para tentar uma coisa dessas, não parecia ser algo vindo dela. Mas então quem poderia ter feito isso? Acordando de seu momento de espanto, se encolheu atrás de uma mesa quando ouviu Felipe chegar. Ele tremia e deixava seus pensamentos rápidos especularem, tentando descobrir quem poderia ter feitos o disparo. Para ele, ficou claro que Felipe tinha cometido este crime, afinal porque ele estaria vindo todos esses dias? Ele ouviu o rapaz negar quando Adam perguntou, mas ainda assim, Liam não conseguia acreditar. Em todo caso precisava sair dali antes que o resgate chegasse e alguém descobrisse o seu esconderijo. Agora era mais do que hora para ele sumir.

Conseguiu sair pelo mesmo caminho que veio, sem ser visto e correu para a sala de Adam. Lá havia uma janela grande de vidro, que tinha a vista para a avenida na frente do prédio. Precisava abrir sua mente um pouco e respirar. Estaria seguro e de lá seria um esconderijo melhor, já que Adam estava preocupado com Isaque.

Chegou na sala correndo e fechou a porta. Não conseguiu trancar, pois as chaves não estavam lá. De qualquer forma, agora seu coração começava a se acalmar e ele parou para admirar a paisagem. As luzes da noite se confundiam com as luzes do carro e a escuridão da noite, quase não era notada em meio a toda claridade da cidade.

– Que merda vai acontecer agora? – Liam disse para si mesmo, suspirando vendo as ambulâncias chegarem.

– Você morre. – Disse uma voz, na escuridão.

Liam atordoado, tremeu com um arrepio estranho. Não sabia se estava ouvindo coisas ou se havia mais alguém ali com ele. Ficou com medo de descobrir. O medo tomava conta de cada parte do seu ser.  Aos poucos estava enlouquecendo também, como Boris. Depois de olhar ao redor, percebeu uma sombra que apontava uma arma para ele. A figura então deu dois passos à frente, se revelando por completo. Era um rapaz distinto, barbado e com poucas palavras. Seu olhar era frio e ele lhe encarava com pesar, como se olhasse para sua alma.

– Ele não. – Disse Anne entrando na sala de repente. – Esse eu vou matar. – Ela disse em um tom sério que Liam nunca ouviu. Observou quando ela se aproximou do rapaz com uma determinação estranha. O rapaz não desviou o foco da arma e dos olhos nem um milímetro. Apesar de não dar a devida atenção a moça, ele parecia obedecê-la.

– O que significa isso Anne? – Perguntou Liam, sendo tomado pelo seu próprio desespero.

– Um delicioso acaso que eu vou ter o prazer de aproveitar. – Respondeu Anne com um tom insano e de deboche anormal. Seu olhar era tão frio quanto o do rapaz, porém ela tinha um brilho diferente, como de quem está saboreando cada momento. O rapaz barbado, não desviou os olhos e atirou, porém, desviou a arma no último momento, acertando o joelho de Liam. Não houve tempo para qualquer defesa, pois Liam se distraiu com aqueles olhos vazios em meio ao seu desespero e declínio pessoal.

Ele caiu com o joelho sangrando e espatifado. Gritava de dor, rolando no chão. Seus olhos se encheram de lágrimas, em uma mistura de raiva e impotência.

Anne com uma expressão vazia, olhava Liam como um predador ao olhar sua caça que tenta debilmente escapar depois de ser ferida. Liam não tentava fugir, mas procurava em seus olhos, algum tipo de redenção inútil.

Anne levantou a saia revelando sua coxa que parecia mais branca com as luzes da janela. Usava uma cinta liga e de lá, tirou uma faca, grande demais para ser um simples canivete. Aquilo era um punhal, talhado com belos desenhos em sua lateral. Seu fio, afiado, reluzia em meios as luzes, assim como a pele da moça.

Liam nada pode fazer, pois a perda de sangue e a dor infernal do joelho espatifado lhe deixava sem forças para lutar. Anne se ajoelhou perto de sua cabeça e lhe cortou a garganta. Foi um corte rápido, porém profundo que fez seu sangue esguichar e escorrer ensopando o tapete.

Ela se levantou e se aproximou de Santiago que observava tudo, com a mesma expressão vazia que a dela.

– Não imaginei que fosse te encontrar tão cedo. – Ela disse quando o corpo de Liam terminou de agonizar dando o último espasmo.

– Eu imaginei. – Ele respondeu com sua voz grossa, que parecia mais grossa que da última vez, em meio àquela sala vazia e escura, exceto pelas luzes que traziam uma penumbra para o ambiente.

– Eu preciso ir embora. Isso vai virar um pandemônio. – Anne respondeu, se aproximando da janela observando mais uma vez as luzes confusas da cidade, pulando o corpo de Liam.

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– E eu preciso ma… matar mais algumas pessoas. Está na hora do ma… massacre. – Ele respondeu, com uma voz sutil, como quem está com pensamentos distante, revirando uma bolsa que ele havia deixado no canto da sala. De lá tirou uma metralhadora.

Anne se aproximou da porta e observou o corpo de Liam mais uma vez. Então se surpreendeu com Santiago tão próximo dela, vindo por trás.

– Você é boazinha? – Perguntou ele ainda apático.

A pergunta não fazia o menor sentido, mas mesmo assim Anne respondeu:

– Talvez um dia. Quando eu era uma criança e inocente.

– Você ainda é inocente? – Ele perguntou novamente em um tom mais pesado, se aproximando mais.

– Acredito que não… – Anne respondeu com um medo visível nos olhos, segurando o cabo de sua faca com um pouco mais de força.

– Eu acho que ainda é. E isso é o que importa. Agora, se me dá licença, eu preciso fazer uns.… trabalhos. – Santiago respondeu tentando colocar um papel no bolso que caiu debilmente no chão sem ele perceber.

Anne viu então quando ele sumiu pelo corredor. Era possível ouvir também a correria dos paramédicos com suas macas. Se sentia anestesiada e com uma sensação de dever cumprido. Precisava muito de um banho quente, porém ela não pode conter a sua curiosidade e então pegou o papel que Santigado havia derrubado para ler.  Havia alguns itens escritos e alguns riscados de vermelho. Roubo, sequestro e assassinato eram alguns itens que estavam riscados, assim como “assassinato pelas costas (aleatório) ”. Logo abaixo estava massacre, terror psicológico, estupro e necrofilia. Massacre estava riscado com uma cor diferente, que ao reparar, Anne viu que era a mesma de uma caneta que estava sem tampa sobre a mesa de Adam. Anne engoliu seco e saiu apressada, ao perceber que com essa caneta também estava escrito “Anne” ao lado de estupro e necrofilia.

Foram cerca de 30 mortos e pelo menos 10 feridos naquela noite. Funcionários e convidados aleatórios, sem qualquer tipo de ligação. Pela manhã, as testemunhas dos arredores ainda estavam sendo ouvidas. A maioria não percebeu nenhuma movimentação estranha antes da festa, mas duas relataram ver um homem sair com uma mochila preta, carregando o que parecia ser uma moça de vestido preto nos ombros e entrar em um carro.

Quem é o assassino? #7

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Anne ficou levemente preocupada naquele dia. Além da conversa estranha de Adam, Manoela estava muito nervosa por ter flagrado Lara aos beijos com Liam. Em todo caso, foi para casa sozinha aquele dia. Durante o caminho, um carro encostou lhe oferendo carona. O nome do rapaz era Henrique e ele insistia que a conhecia dos tempos da escola. Ela tentou se lembrar dele, mas realmente não conseguiu. Quando o rapaz começou a insistir mais pela carona, ela se afastou preparando a sua defensiva, até que outro rapaz se aproximou. Ele veio cheio de intimidades a beijando no rosto, e encarou o rapaz. Perguntou de uma forma fria se estava tudo bem, e o louco do carro foi obrigado a ir embora frustrado. Depois, o bom samaritano foi com Anne até o ponto de ônibus.

– Obrigada pela ajuda. – Anne disse depois de um longo tempo em silêncio.

– De nada. – Respondeu o rapaz com uma voz amigável.  – Qual o seu nome?

– Anne, e o seu?

– Felipe. Por acaso eu conheço a empresa onde você trabalha. Um amigo meu está trabalhando lá agora.

Só então Anne percebeu que ainda estava de uniforme.

– Ah sim. Deve ser o Leandro, um dos funcionários novos que entraram junto com as meninas. – Anne respondeu jogando um nome qualquer.

– Na verdade não. Meu amigo meio que se tornou dono da empresa. Nem ele está acreditando ainda.

– Adam?

– Sim. Ele mesmo. Somos sócios. Já tínhamos uma empresa antes dele assumir a do tio.

– Interessante. Bem, adoraria conversar mais, mas meu ônibus está vindo. – Anne disse dando sinal para o primeiro ônibus que passou.

– Ah sim, tenha uma ótima noite. – Felipe respondeu educado.

No ônibus, Anne começou a pensar como o mundo era pequeno, e como de uma hora para outra sua vida estava interligada com a de tanta gente. Pensou tanto que não prestou atenção nos pontos e foi parar do outro lado da cidade. Desceu, mesmo sendo avisada pelo motorista que não havia mais ônibus naquele horário. Ela não se importou. Estava precisando de um tempo sozinha.

No ponto de ônibus, ficou quase duas horas curtindo sua solidão, observando a escuridão tomando conta da madrugada. Reparou que havia um beco próximo do ponto, mas não foi examiná-lo. Em meio aos barulhos noturnos, pegou seu livro que começou a ler tranquilamente, até ser surpreendida por um assaltante.

“Hoje é dia”, Anne pensou.

Ele não era do tipo carinhoso. Chegou jogando seu livro no chão e lhe dando um tapa no rosto. Depois a empurrou no chão e tentou pegar sua bolsa. Anne lhe deu um chute no meio das pernas e enquanto ele se contorcia de dor, se levantou e procurou seu canivete na bolsa. Antes que pudesse atingir o bandido, viu um machado descer no pescoço dele. O golpe não conseguiu mata-lo de uma vez e ele ficou se debatendo no chão. Novamente o machado desceu, desta vez separando a cabeça do corpo. O sangue lavava a calçada e ela pode ouvir uma voz grossa dizer: “Até que é interessante”.

O autor dos golpes era um rapaz meio alto, que devia ter pelo menos 1,80. Tinha uma barba grande, e o machado em sua mão o fazia parecer um lenhador. Ele usava uma jaqueta aberta, e uma camiseta branca que agora estava machada de sangue. Seu olhar era vazio, mas sua expressão era curiosa. Ele, lembrando-se da moça, lhe encarou intimamente.

– Bonito canivete, bem desenhado. – Ele disse com um tom de voz frio.

– Obrigada. É de família. Bonito machado, anodizado? – Anne perguntou, também com um tom de voz frio.

– Sim. – Ele pareceu levemente surpreso. – Demora para enferrujar.

– Um dos melhores. O que a gente faz com isso? – Anne apontou para o corpo.

– Bem…. É a primeira vez que eu… eu faço isso. O que su… sugere? – Ele respondeu gaguejando.

– Nervoso? Para sua sorte o beco é um bom lugar para esconder. Você estava lá?

– Eu sou ga… Gago mesmo. – Ele respondeu limpando o machado com os dedos. – Sim. Tem uns latões de lixo ali. – Ele disse arrastando o corpo. – Pega a cabeça por favor.

Anne pegou a cabeça pelos cabelos. O rosto ainda trazia uma expressão de horror. Anne riu. O homem, pegou o corpo e colocou dentro do latão. A cabeça não coube, então Anne ocultou com outras sacolas de lixo que estavam próximas.

– O lixeiro vai ter uma boa surpresa. – Anne disse rindo baixinho.

– Realmente. – Ele concordou. – Qual o seu nome?

– Anne. E o seu?

– Santiago. E pensar que eu quase te matei.

– Que ótimo. – Anne respondeu com deboche. – Mais um dia viva. Obrigada.

O rapaz não parecia ser muito de falar. Ele já estava virando as costas para ir embora quando Anne o chamou.

– Primeira vez? Por que?

– Bem, queria ver como era. Faz parte de algumas metas. – Ele respondeu, amigável apesar da voz grave.

– Quais são? Se você quiser falar é claro.

– Roubo, sequestro, assassinato, estupro, terror psicológico, perseguição, massacres… A lista aumenta as vezes.

– Interessante – respondeu Anne pensativa. – E dessa lista, o que você já cumpriu?

– Roubo, sequestro e assassinato. O próximo é estupro. – Ele respondeu, com um tom frio novamente. Só então Anne percebeu como ele estava a encarando. Não era mais somente o olhar frio. Era um olhar tímido, medindo tudo que podia ser medido. Pela primeira vez, ela sentiu um leve arrepio na espinha.

– Mas prefiro uma coisa de cada vez. Por hoje já deu para me divertir. – Ele disse em um tom mais suave, percebendo que havia a intimidado. Não era a sua intenção. Não naquele momento. – Bem, está tarde. Vou indo. Você devia ir também.

– Estou esperando meu ônibus. – Anne respondeu friamente, ainda desconfiada sobre o próximo item da lista.

– Boa sorte. – Ele respondeu, se afastando e sumindo na escuridão.

O sangue secou, parecendo apenas uma enorme mancha de sujeira na calçada na escuridão. Quando acabou o livro, o dia estava amanhecendo. Ela não sabia bem qual ônibus poderia pegar para ir ao trabalho. Com os sapatos sujos, foi até o beco procurar algum jornal para tentar limpar um pouco do sangue. Estava levemente cansada, afinal, não havia dormido e iria trabalhar. “Preciso de um banho, tomara que tenha água quente na empresa…” pensou Anne até se surpreender com a buzina. Era Isaque, o assistente de Adam, lhe oferecendo uma carona. Não pensou duas vezes e entrou. O mundo era realmente pequeno, Anne pensou. Não tinha como aquilo ficar mais estranho. Além disso, Isaque também era curioso demais, mas aceitava qualquer desculpa fácil. Na empresa, ignorou o escândalo da empresa em relação a morte de Lara, cometida por Manoela. “Ela realmente fez o que disse. Quem diria…” pensou Anne seguindo para o vestiário. Ao ligar o chuveiro, deixou a água correr por um tempo até juntar vapor. “Era disso que eu precisava”, ela pensou por fim, ficando embaixo do chuveiro, deixando a água cair em seu rosto com os olhos fechados.

juhliana_lopes 23-05-2016

Fome

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Hoje vaguei pelas ruas vazias a sua procura. Pela noite adentro iluminada pela lua, segui por ruas e becos, desviando de gatos e sacos de lixo. Ocultando-me nas sombras, observei o movimento dos andarilhos noturnos. Não te encontrei e nem poderia. Um cheiro de cigarro me atraiu, me fazendo suspirar fundo. Não era seu e nem poderia, afinal, nem fumar você fuma. Caminhei mais um pouco, me equilibrando no meio fio com a brisa leve da noite bagunçando meus cabelos. Com mãos leves tirei as mechas de cabelo do rosto, sem parar com meus passos silenciosos. Parei então sob uma ponte, observando o vazio da avenida abaixo. Mais cedo, havia muitos carros que quase não se podia ver o asfalto, mas àquela hora, não havia ninguém.

Senti fome. A mesma fome que me fez sair à noite à sua procura. Continuei a caminhar até voltar para minha casa. Abri a janela de modo que o luar pudesse iluminar o ambiente com sua luz tênue e delicada. Sentei-me no chão e com o celular observei suas fotos. A linha leve do rosto, a curvatura dos ombros, e os seus olhos inebriantes.

Minha fome era maior, e meus instintos selvagens. E só você poderia saciá-la. Fui até a janela novamente, olhei a rua escura e ouvi um cachorro uivando. Libertei-me da forma mortal e voei pela noite, até a sua casa. Sua janela não estava totalmente fechada, então abri com cuidado para não te acordar e comecei a observar seu sono.

Sua respiração tranquila, sua feição de paz. Totalmente vulnerável, totalmente a mercê de qualquer um que pudesse estar ali naquele momento. Seus olhos fechados ocultavam a cor de mel, escura à noite e totalmente clara durante o dia. Um anjo, inocente e sozinho, dormindo calmamente.

Poderia te observar até o amanhecer, mas eu estava com fome. Poderia te poupar, mas minha vontade era maior. Tive todo o tempo do mundo para guardar suas lembranças, e o seu jeito, agora era a minha hora de me saciar.

Subi sobre você com cuidado, pois queria prolongar o momento. Com o rosto perto do seu, senti sua respiração em meu pescoço, e respirei fundo para que sentisse a minha também. Distrai-me e então quando olhei para o seu rosto, seus olhos me encaravam sem qualquer surpresa. Tentei sair e te atacar, mas seus braços já me envolviam e fui tomada por seus lábios em um beijo ardente. Você sabia que aquela seria a última noite, então procurou aproveitar da melhor forma.

Explorando seu corpo, sentia seus arrepios a cada toque, principalmente quando minhas unhas arranhavam levemente a sua pele. Você mordia meus ombros com delicadeza, e puxava meus cabelos pela nuca com um toque único e forte. Peguei então seu braço, e mordi seu pulso. Seu sangue começou a jorrar e me deliciei com aquele néctar dos deuses.

Minha fome só aumentava, me fazendo ficar mais ansiosa e desesperada. Entreguei-me completamente a você e depois de te saciar, foi a minha vez de ficar satisfeita. Comecei pelos olhos, que me encaravam enxergando o mais fundo de minha alma vazia. Os mesmo olhos que já haviam visto tantas histórias. Os mesmo olhos que me encararam pela primeira vez, e não se perdeu dos meus nunca mais. Depois abri seu peito, separando as costelas para tirar seu coração. Seu corpo ainda quente fazia o sangue jorrar por toda parte e com cuidado, recolhia boa parte dele em minha taça. Aquele sangue mais doce que um vinho envelhecido, que agora a pouco fervia de prazer, saciava por fim a minha sede. Seu coração eu guardei com cuidado em uma caixa com seu nome, o mesmo coração que você outrora me prometera. Agora ele era meu, para todo o sempre. Suas vísceras, sua carne e sua pele, saciaram então, por completo a minha fome pelo seu ser. Enfim saciada, e com o nascer do sol era hora de retornar a forma mortal e começar uma nova caçada. Era preciso um novo voo para buscar um novo você, para buscar novos olhos cor de mel. Uma nova caçada, para saciar a fome que em breve voltará.

juhliana_lopes 24-03-2016

A bebida, o cigarro e o motivo

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A meia noite após um dia quente, a noite seguia abafada, e o céu limpo com as estrelas vivas, enfeitando a escuridão. Ao som dos grilos e dos cachorros latindo, viro mais um copo para aquecer minha alma tão fria. O líquido desce rasgando pela garganta, como um veneno que penetra as veias, desativando todas as funções importantes do corpo. O líquido desce esquentando-me por dentro e esfriando a minha mente, fazendo-me lembrar de quem eu sou. Quem vê de longe logo percebe que não existem só as estrelas que iluminam as trevas deste dia. Há também um ponto amarelo vindo da minha janela. Um ponto luminoso por onde sai uma fumaça fina e tóxica, que invade os meus pulmões, bloqueando meus brônquios e alterando minha corrente sanguínea, fazendo com que meu cérebro se agite, pedindo por mais. Meus pensamentos vão e voltam com uma velocidade tão imensa que me atropelam internamente, deixando-me com um leve enjoo, além da tontura e a dor de cabeça. Sinto-me inebriado pelas suas últimas palavras e violado pelos seus olhares. Não sei dizer o porquê, mas ao pensar em você, cada sensação se torna tão intensa que quase me faz querer repetir nosso ato. Um ato tão sublime que só permite sentir estas sensações tão magníficas somente uma vez. A arma ainda está com uma bala faltando, a mesma que invadiu seu corpo, dilacerando sua carne e se alojando em seu músculo, deixando a ferida aberta e o sangue livre para correr como bem entendesse. Ainda lembro-me de seus espasmos causados pela mistura da dor do corte com a perda de sangue pela hemorragia, além da sensação estranha de ter um objeto metálico em meio as suas entranhas. Minha mão ainda está seca com o seu sangue quente que sujou minhas roupas quando tentava em vão me fazer algum mal para compensar a desgraça que havia baixado sobre ti. O motivo para o fato ter ocorrido pouco importa, uma vez que as sensações foram tão superiores e realizadoras. Você ter me traído, me levando a te matar pouco importa, sabendo que você sempre foi meu, desde as formas mais banais, até o instante derradeiro, desde o toque mais leve, até a forma mais íntima e profunda que pode haver. Tendo a certeza que você sempre será meu, no amor e no inferno.

juhliana_lopes 21-04-2015

Olhos secos

OLHAR FEMININO 053

A capacidade humana às vezes pode surpreender. O que as pessoas farão para se proteger? O que elas farão para proteger alguém querido ou as pessoas que dependem dela? Existem muitas formas de reação, mas nenhuma delas me chamou mais atenção como esses dias.

Estava eu, levando meu filho para o curso, onde até pouco tempo atrás eu também já estudei. Era uma tarde quente de terça feira, e apesar das férias estarem próximas, a escola estava cheia. Na recepção, havia alguns pais esperando os filhos saírem e outros como eu que estava trazendo os filhos.

Nas salas, os professores orientavam os alunos, e davam uma olhada na recepção, ajudando a secretária que como sempre estava atolada de serviço. As salas também eram auxiliadas pelos monitores que como antigos alunos, sabiam todo o esquema de cursos.

Um dia normal como todos os outros, dia de calor, onde normalmente a maioria das pessoas fica um pouco irritadiça por conta do tempo abafado, ou com tendência ao estresse rápido. Um dia em que nada poderia dar errado exceto por um detalhe. Um assalto.

O bandido entrou rápido enquanto uma mãe que tinha acabado de tocar a campainha entrava. Ele a arrastou pelo braço subindo as escadas depressa, a mandando ficar quieta. Ao chegar à recepção, avisou aos berros que se tratava de um roubo e com xingamentos e agressões físicas começou a hostilizar todos ali.

Uma professora, que já havia dado aulas pra mim e agora auxiliava meu filho, ouviu os gritos. Como primeira ação instintiva, ela pediu para todos os alunos ficarem na sala e não saírem por nada. Pediu que os monitores cuidassem da sala e não abrissem a sala, por mais barulho que estivesse fazendo lá fora. Então, foi à sala ao lado e deu as mesmas ordens, explicando o que estava acontecendo.

Seguiu então para a recepção e presenciou o momento em que o bandido, hostilizando a todos, me agredia, batendo em meu rosto e me empurrando, me fazendo cair da cadeira. Meu filho assustado segurava o choro, e outras mães também.

A secretária estava em choque, sem reação, apenas fazendo movimentos mecânicos para pegar o dinheiro e entregar para o assaltante. Ninguém poderia ter uma reação tão rápida como ela teve quando o bandido para forçar a secretária ir mais rápido, bateu forte em sua cabeça. Ele estava armado apenas com uma faca aparentemente, pois a sacudia na mão em nossa frente o tempo todo.

No minuto seguinte, ela o acertou com um soco na boca do estômago e quando ele se abaixou de dor, ela levou a outra mão ao seu pescoço dando uma pancada forte que aparentemente havia acertado o pomo de adão. Enquanto tomava ar, ela o agarrou na nuca e bateu com sua cabeça na beirada no balcão com uma habilidade absurda.

Agora ele gemia de dor no chão, e em volta só havia silêncio. Com os olhos secos, ela subiu sobre ele, colocando os joelhos sobre seus antebraços de forma que ele não conseguia dobrar o braço. Agora meu filho me abraçava, mas não chorava mais. Todos olhavam apreensivos, pois algo parecia estar fora do controle.

Ela tirou um canivete do bolso, encostou sobre o pescoço dele. Foi falando num tom assustadoramente calmo, alternando entre baixo e alto para que ele pudesse ouvir com atenção.

“Você vai levantar e vai embora, vai pedir desculpas e nunca mais vai voltar aqui. Se você me vir na rua, você vai continuar andando mais vai abaixar a cabeça e NUNCA me encarar nos olhos. Você vai embora e se eu vir você ao menos passando aqui perto de novo ou se qualquer merdinha como você tentar entrar aqui de novo, EU VOU TE CAÇAR, VOU SANGRAR SEU PESCOÇO E BEBER SEU SANGUE NUMA TAÇA, você me entendeu?”

Ele ouviu tudo atentamente, agora mais assustado que as próprias mães que estavam no local. A secretária permanecia paralisada, apenas observando a situação.

“Você vai descer as escadas devagar, SEM olhar pra trás e eu vou acompanha-lo até chegar ao portão. SE você correr, SE olhar pra trás, eu vou te empurrar da escada e te arrastar até a delegacia. Estamos entendidos?”

Ao terminar suas palavras e levantou. Ele com medo, levantou o mais rápido que a dor lhe permitia, mas estava pálido de medo. Em algum momento talvez, ele achou que ainda pudesse virar o jogo e então como último golpe de misericórdia, tentou pegar o dinheiro que agora estava em cima do balcão e correr. Antes, porém, encontrou um pé certeiro no caminho e tropeçou, deixando o dinheiro cair e ficando de quatro no chão.

Foi pego pelo colarinho e arrastado até a escada, lá se podia ouvir apenas o barulho de algo caindo e os gritos de dor. Como se não bastasse, antes de descer, ela me chamou, e falou para eu ir junto, fingindo a maior dor que eu pudesse. Vi quando ele conseguiu parar de rolar e tentava se levantar. Antes de ganhar firmeza, ela colocou o pé nas suas costas e o empurrou novamente. Ele terminou de descer as escadas rolando e gritando muito.

Lá embaixo, ela agarrou seu braço direito pelo cotovelo, e o arrastou pela rua. Todos olhavam, estranhando a situação, sem perceber do que se tratava. A delegacia era próxima, e então, após alguns metros, largou o homem na frente próximo de uns policiais. Eles olhavam com indiferença, talvez achando que se tratava de alguma briga de casal. Então ela explicou que ele havia tentando assaltar a escola, que havia ameaçado a segurança de crianças e gestantes, que agrediu os funcionários e havia me agredido gravemente também. Cheguei com cara de dor, não pelo empurrão que havia levado, mas pelo esforço rápido de acompanhar correndo. Os policiais em questão me conheciam e então, não pensaram duas vezes em leva-lo para dentro. Um terceiro guarda, porém, questionou a professora sobre os métodos que ela usou para se defender. Nesta hora, ela começou a chorar e a bater contra a própria cabeça, repetindo que tentou apenas defender todo mundo, que não queria ver ninguém machucado. Chorava e soluçava. O guarda percebendo o desequilíbrio emocional por conta do estresse envolvido pediu para que ela retornasse mais tarde para um depoimento contra o acusado.

Saímos então, em direção à escola. Agora ela não chorava mais e tinha um sorriso sádico no rosto. Seus olhos estavam secos e não brilhavam como costumava fazer todos os dias. Questionei sobre o choro, e as batidas na cabeça. Ela disse que de fato havia exagerado um pouco, porém realmente sentiu vontade de chorar, mas claro não com aquela intensidade. O tom calmo de sua voz era de trazer calafrios a qualquer um, pois parecia que nada havia acontecido. Ela sorriu e quando se certificou que todos estavam bem, notei que o brilho havia voltado e os olhos estavam molhados novamente. A rotina voltou ao normal, e nunca mais vi os olhos secarem, mas algo me dizia que aquilo que havia saído aquele dia, estava ali, guardado, apenas esperando o momento certo para sair, mesmo que fosse para fazer a coisa certa da forma errada se isso significasse a proteção daqueles que gostava.

/juhliana_lopes 09-12-2014