Sem escuridão

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Minha mente roda sem parar,

E antes que eu possa entender,

Já me vejo de novo a contar,

Estrelas perdidas que não brilham mais.

 

Não há mais escuridão,

Não há sonhos nem o repouso merecido.

Não há conforto e nem mesmo um chão.

Não há companhia e nem a solidão.

 

A visão fica turva,

A audição mais alta,

Não há palavras para dizer,

Mas a boca insiste em salivar,

Preparando discursos e respostas,

Para pessoas que não vão perguntar.

 

O silêncio constante trás dor aos ouvidos.

Crio vozes que me dizem o que eu gostaria de ouvir,

Vozes que me dizem o que eu não quero escutar,

Vozes que me dão conselhos vãos,

E vozes que me alertam o perigo.

E aquelas vozes que não dizem nada,

Mas estão ali, apenas esperando a sua vez.

 

Perdi o tato e o movimento dos braços,

Que apesar de ligados ao meu corpo não podem se mexer,

Amarrados constantemente, onde eu não posso ver.

 

Não deito ou levanto, pois as pernas não me obedecem mais.

Não há impulso ou alongamento,

Nem exercício ou caminhada,

Apenas um lugar “macio” para repousar,

Um lugar “de paz”.

 

A luz machuca meus olhos e o branco me perturba.

Às vezes imagino outras cores para me distrair,

Mas quando tento dormir, o branco me mantém acordada, atenta.

Quando tento esquecer, o branco volta como uma tela,

Uma galeria das minhas tragédias.

 

Uma camisa de força,

Alguns remédios

E um manicômio.

 

Alguns sonhos,

Uma pessoa

E um pensamento.

 

A sede,

O desejo

E uma oportunidade.

 

Uma resposta,

Uma réplica

E o fim.  

 

29-03-2015 juhliana_lopes

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Enfim, de volta

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– Segundo o último relatório, não houve mais surtos, os níveis estão se normalizando, os remédios foram diminuídos e agora ela está tomando só alguns naturais para controle da ansiedade.
– Acha q ela esta pronta para voltar a vida em sociedade?
– Acredito que ela esta pronta até para voltar ao trabalho se quiser.
E assim saíram da sala em direção ao quarto para dar a boa notícia. Com a alta assinada, seguiram pelo corredor, onde no final a mãe já aguardava com a neta. Conversaram com ela, explicaram a situação e seguiram os quatro para o quarto da paciente.
Ao abrir a porta, ela estava escrevendo com giz de cera em alguns papeis para passar o tempo, mas ao ouvir a voz de sua filha, se virou sorridente e lhe deu um grande abraço. Depois, da levantou e abraçou sua mãe, ficando ali por um tempo.

A levaram para casa, e enfim ela pôde descansar. Dormiu durante um dia inteiro, e no dia seguinte passou o dia brincando com sua filhinha. Estava feliz, enfim em casa, enfim longe daquele lugar e longe dos pesadelos.

– Pensei que não fosse voltar…

– Pensou errado, sabe que não fico longe do trabalho.

– É mas você devia procurar outra coisa com o que trabalhar, só passou um mês fora…

– Olha, se for pra ficar medindo o que eu tenho ou não que fazer, me sustenta e sustenta a minha filha, ai eu fico em casa bonitinha sem encher o saco.

– Tudo bem, tudo bem, é só um conselho de amigo…

– Eu fiquei muito tempo aqui pra descobrir quem eram os meus amigos e de quem eu devia ouvir conselhos. Bom dia Dr. Felipe.

Ela estava enfim de volta, ao seu lar, ao seu posto, ao seu local de trabalho. Sempre foi a doutora maravilha que conseguia resolver todos os problemas, desde o consultório ao pacientes nervosos. Estava mais firme, com mais garra e quem sabe até o mesmo brilho de quando entrou naquele local a primeira vez.

Jamais imaginou que tentar viver fora dali lhe trouxesse tantos problemas como a um ano e meio. Depois da brincadeira dos pacientes no Halloween, onde por um segundo achou que estivesse perdida na mão de loucos insanos e estupradores, quando na verdade eles só estavam preparando uma festa de aniversário surpresa, pensou que não teria mais sustos por um longo prazo.

Foi por um enfermeiro que se apaixonou e pensou que poderia ser um ótimo padrasto para sua filhinha. Arthur era seu nome e foi com que ele com quem marcou o casamento no meio do ano passado e foi no dia do casamento que houve o surto geral. Alguns pacientes não gostaram da ideia de sua principal tutora se casar e dedicar seu tempo a outro homem que não eles. Odiaram mais ainda quando descobriram segredos sobre esse homem e então fizeram de tudo para alertá-la.

Vestida de noiva, teve seu casamento invadido por eles antes do sim, com gritos e agressões ao noivo. Pedindo entre lágrimas para que parassem, eles jogaram algumas fotos que conseguiram de forma totalmente clandestina antes que fossem retirados da igreja. Ela, pegou as fotos e gritou em seguida para que os soltassem. Seus olhos agora jorravam lágrimas entre soluços assustados sem crer no que seus olhos viam.

Abraçou a sua filha e perguntou em seu ouvido se ela gostava do “tio” e se ele realmente fazia o que estava ali na foto. Ela, chorosa, esfregou os pequenos olhos e balançou a cabeça que sim. Ele, tentando acusar os loucos, disse que eles o obrigaram a fazer aquilo, que nunca se quer tocou em uma criança e que tudo aquilo era só uma maneira de estragar a felicidade dos dois.

Enfermeiro, pedófilo e agressor de pacientes nas horas vagas, teve seu rosto arranhado com tamanha fúria que foi preciso dar pontos em alguns locais. Além disso, recebeu muitos hematomas dos pacientes que costumava espancar. Foi internado com hemorragia interna, e atualmente está preso.

Ela, além de ter sangue nas mãos, agora corria pelas ruas sem direção, gritando e agredindo qualquer um que chegasse perto, assustada como um bicho, alguns doutores como Bruno e Felipe corriam atrás dela tentando detê-la. Conseguiram contê-la em um beco, mas ao segurarem seus braços, foram jogados contra  a parece com uma força incomum. Seu corpo tremia e ela não conseguia pensar em nada. Sua visão turva a deixava confusa e seus ouvidos, tão atento aos ruídos, fazia sua adrenalina subir e reagir a qualquer brisa mais forte que passasse por perto.

Foi então quando Doutor Francisco se aproximava com uma seringa para tentar dopá-la, ela bateu em sua mão e quebrou a seringa na parede. O segurou pelo ombro e quando estava prestes a lhe dar um soco, foi ouviu um “pare” sonoro e imperativo. Era um dos seus pacientes que a chamava com sua filha no colo. Ela então conseguiu focar no rosto da sua filha que estava chorando e com tanto medo quanto ela. Então, se abaixou e ele a soltou no chão e as duas se abraçaram.

Depois de toda a confusão, ela foi internada e tomava remédios muito fortes. Descobriu depois que os próprios doutores Bruno e Felipe aumentavam as doses que o Doutor Francisco receitava para que ela não desse trabalho a eles.

Seus pacientes tentavam visitá-la, mas não podiam entrar na ala feminina, mas sempre mandavam cartas e presentes pelas enfermeiras para que ela nunca esquecesse deles.

Enfim se sentia melhor. Enfim estava boa, e pronta para voltar o trabalho. E como esteve fora por tanto tempo, havia ainda algumas coisas que precisava por em ordem…

– Ei, porque está aqui, pensei que ia estar lá embaixo medicando o pessoal, está na hora.

– Onde está o Bruno?

– Ele está de férias. Eu estou cobrindo o turno dele esqueceu? Sente-se bem, acha que pode trabalhar mesmo?

– Sim Felipe… Estou bem. Mas e você, acha que pode trabalhar desse jeito?

– Do que você está falando? Que seringa é essa? Ei, me largue!

– Medicação Dr. Felipe. Como você mesmo me orientou. Agora relaxe…

– Ei, me solta, socorr…

– Durma Dr. Felipe. Agora é hora do seu tratamento. Depois é hora de curar o Bruno e o Dr. Francisco. Mas primeiro, temos que curar você… – Ela disse com um sorriso levemente sádico preparando outra seringa. – Vamos ver quanto você aguenta…

 

juhliana_lopes 01-03-2015

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Sem efeito

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Era o terceiro caso só aquela semana. Era simplesmente estranho. Foi só voltar das férias que seu consultório estava um caos. Pra tornar tudo mais bizarro, aparentemente todos os seus pacientes estavam passando pela mesma virose.

Os sintomas eram sempre parecidos, dor no estômago, diarreia, vômitos… Por mais remédios que receitasse, só havia uma pequena calmaria, porém depois os sintomas voltavam com força.

E pensar que há alguns dias ele estava numa praia com a família curtindo tranquilamente. Passou anos extremamente ocupado com seus afazeres, contado com a ajuda apenas do seu melhor amigo para atender os pacientes e finalmente conseguiu um descanso. Foi notável seu amigo se oferecer para ficar cuidando de seus pacientes para que ele pudesse descansar. Agora seu amigo merecia a folga e ele iria trabalhar dia e noite para descobrir o que estava causando aquela contaminação geral.

Por mais que perguntasse, todos negavam ter comido algo diferente ou estragado. Um ou outro assumia que tinha comido algo na rua, porém, não parecia ser apenas uma intoxicação alimentar. Ainda que fosse, como aquilo afetaria todos de uma vez?

Resolveu então procurar alguns pontos em comum, lugares onde as pessoas mais frequentavam que pudesse ser igual ao de outras pessoas assim e talvez com isso definir um mapa de lugares “estragados”.

Estava exausto, não conseguiu parar um só minuto em seu primeiro dia depois da folga. Lembrou de quando estava se formando com seu melhor amigo. Das promessas, expectativas. Claro que no começo não foi aquilo tudo que ele esperava, mas ainda sim, conseguiu ser melhor do que ele poderia ter imaginado. Mesmo quando tudo parecia que ia dar errado, ele e seu amigo conseguiam dar um jeito.

Sentou sem postura e colocou as mãos sobre a cabeça respirando fundo olhando para o alto. As férias tinham sido perfeitas. Desde que comprou o espaço e montou o consultório, não havia tido mais tempo pros filhos e nem pra mulher. As férias, vieram em boa hora e serviram para compensar de certa forma todo o tempo perdido. Conseguiu conhecer seus filhos novamente, saber do que eles gostavam e apoiá-los.

Conseguiu reconquistar a sua mulher também, o amor dos dois que antes estava frio, agora voltou a queimar em paixão como sempre foi. Tudo estava perfeito. Ou deveria estar. O cansaço estava vencendo e então resolveu tomar alguns dos seus comprimidos pessoais para relaxar e foi para casa.

Mais uma árdua semana trabalhando para tentar descobrir o que estava acontecendo com seus pacientes, porém, agora ele também começava a ficar doente. Contagioso? Como se não conseguia descobrir nem a causa. Se medicava e medicava os outros. Assim como todos, tinha dias que parecia que ia melhorar, enquanto outros estava ruim de novo.

Quando o mês acabou, mesmo tão doente como seus pacientes, continuava atendendo e ficou feliz por saber que seu amigo voltaria das férias dele e poderia lhe ajudar.

Mais um dia se passou, e agora trabalhando juntos, eles tentavam descobrir a cura, porém ao fim de mais um dia, quando o nobre doutor sentou para descansar e tomou um de seus remédios, percebeu o olhar sério de seu amigo.

– O que foi?

– Desde quando você tá tomando isso?

– Desde que voltei, eu sempre tomei eles pra relaxar, são fracos lembra?

– Sei…

– Para, não vai querer dizer agora que eu to viciado…

– Não é isso, é que eu não queria atingir você…

– Como assim me atingir?

Foi realmente um susto. A frieza com que ele falava, parecia que tudo era tão simples e fácil, e ao perceber e analisar, foi realmente e agora ele também estava combinado.

Enquanto estava fora, seu amigo se encheu dos pacientes sempre bondosos e adoráveis, e então, alterou todas as composições de seus remédios, fazendo placebos com doses pequenas, abaixo da dose letal de ricina, e misturando os comprimidos modificados aos comprimidos normais de seus pacientes. Passou dias apenas alterando todos os remédios e os distribuindo. Porém esqueceu que um deles era o que seu amigo tomava.

Agora ele estava condenado assim como todos os outros paciente e seu amigo, não parecia nem um pouco preocupado.

– Seu monstro, como você pôde!

– Pelo menos você aprendeu a tomar remédios direito. E eles também.

Antes que ele pudesse sair pela porta para denunciá-lo, sentiu seu estômago sendo perfurado e depois vários outros golpes de faca até ficar desacordado.

Hoje, os pacientes continuam doentes. Outros morreram e a mulher ainda procura seu marido desaparecido, seu amado doutor, enquanto outros pacientes continuam recebendo os remédios sem efeito.

 

juhliana_lopes 22-01-2014