Aposta

Sua respiração pesada e contínua era tão forte que parecia que podia ser ouvida a quilômetros de distância. Seus olhos bem abertos e as pupilas dilatadas, tal como um bicho assustado fazia com que seu sangue circulasse tão depressa que era quase impossível pensar direito ao sentir seu corpo todo trabalhando ao mesmo tempo. Será que tinha ouvido um ruído, ou era apenas coisa de sua cabeça? Será que era hora de correr novamente ou não se tratava de outro truque para revelar a sua localização?

Tentou se acalmar, era preciso deixar os ouvidos aguçados e a respiração amena para que conseguisse ao menos tomar uma decisão certa. Parou para pensar em tudo, e em como havia parado naquela situação. Lembrou de sua família e dos momentos felizes. Pensou em seus amigos e no caos que aquela simples brincadeira havia se tornado. Por um momento lágrimas deram sinal de vida, mas logo outro estalo chamou sua atenção.

Segurou o ar o máximo que pode, para que ficasse totalmente inaudível. Longo segundos se passaram como horas e quando ouviu o barulho do motor se distanciando, respirou fundo num suspiro de alívio. Olhou para o céu que dava sinais de que iria anoitecer e depois de mais um tempo, saiu de seu lugar.

Se livrou das folhas e galhos que estavam ao seu redor e presos em seu cabelo e logo estava na rua, andando quase tranquilamente se não fosse as olhadelas para trás e para os lados a cada ruído que considerasse estranho.

Quando já começava a respirar aliviado e até mesmo a admirar a natureza ao seu redor, olhou para trás por distração e viu o objeto alvo se aproximando. Não havia escapatória a não ser correr o mais rápido que conseguisse. O veículo se aproximava cada vez mais rápido, e após uma tentativa de atropelamento frustrada, conseguiu se jogar novamente em meio as folhagens e a correr feito louco sem noção alguma de direção.

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Quando seus pés já não suportavam mais e o ar parecia que ia explodir seus pulmões e seu coração, encostou em um tronco com as mãos apoiadas no joelho e ofegante, tentava focalizar o ambiente ao seu redor. Quando enfim voltou a enxergar as formas, notou que já era tarde.

Num único movimento, estava com o corpo pressionado contra o tronco, e com aquelas mãos em seu pescoço. Não era mãos grandes, tão pouco fortes para destruir qualquer coisa com apenas um movimento, mas eram precisas o suficiente para não te dar escapatória.

Pedidos desesperados de perdão e qualquer tentativa de persuasão, se misturavam com soluços e choros implorados de uma chance de sair vivo. Porém, os olhos assustados só conseguiam enxergar um olhar gélido, sem nenhuma alteração de expressão ou até mesmo compaixão, o que aumentava mais e mais o seu medo.

Depois de uma pressão mais forte e quase ficar sem ar, seu corpo foi empurrado contra o chão, coberto de lama e folhas secas que como uma pedra lançada, não conseguia se mover para fugir ou se defender. Sentiu o corpo subir sobre o seu e a lâmina perfurar seu pescoço e logo depois seu estômago.

Nada mais que um corpo sangrando compulsivamente e olhos assustados perdendo seu brilho. Nada mais que uma faca manchada ao lado de um corpo que pouco a pouco ia perdendo seu calor.

O céu já estava escuro e apenas as estrelas como testemunhas podiam depor contra sua versão. Ao entrar no carro, o olhar gélido foi de encontro ao espelho e depois de um tempo ainda parado por cautela, tomou o rumo contrário admirando a paisagem sinistra que se formou com o breu do anoitecer.

“Apostas são apostas”, dizia para si mesma, com um leve sorriso de canto de boca. “E eu nunca perco uma”, disse por fim antes de tomar o caminho para auto estrada e sumir em meio aos outros carros.

 

juhliana_lopes 29-03-2014

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Depoimento

– Podemos começar novamente?

– Sim senhor.

– Só quero que entenda que este é um procedimento padrão…

– Sim senhor.

– Vamos começar, ok?

– Sim senhor.

– Então me diga, o que exatamente, aconteceu aquela noite.

– Não foi nada demais na verdade. Era uma festa, alguns estavam bêbados, mas eu e meus amigos só estávamos rindo e nos divertindo. Já devia ser mais de duas horas da madrugada e os bêbados começaram a encher o saco. Sabe como é, alguns choram, outros ligam pras exs, outros começam a tirar as roupas… Essas coisas. Não tínhamos muito o que fazer senão apreciar o show, então ele chegou. Eu pensei que ele nem viria mais, ainda mais pelo horário. Chegou cheio de marra e provocando todo mundo e então começou a pegar pesado comigo.

– E o que ele fez a você?

– Bem, primeiro começou as com as provocações verbais. Me chamando de idiota, medíocre e humilhando a minha amiga, chamando-a de vadia e perguntando quanto ela cobrava por noite. Depois jogou um copo de bebida em um amigo meu, mas não foi daquele jeito de derrabar o líquido sobre a pessoa, ele jogou o copo de longe e acertou o rosto dele. Claro que nem eu e nem outros caras presentes na festa gostaram a atitude e então um grupo se juntou para pedir educadamente que ele se retirasse da festa. Ele se virou e tudo indicava que a paz iria voltar, até que ele voltou correndo, pegou minha amiga pelos cabelos e começou a esfregar dinheiro no rosto dela falando que queria serviço completo aquela noite.

– Ele estava bêbado?

– Não sei. Não parecia. Acredito que não, quem o conhece a tanto tempo como eu, sabe que ele consegue ser ruim naturalmente.

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– Quando ele agarrou a sua amiga…

– Eu agi. Francamente senhor, já que estamos aqui e esta é a terceira vez que eu conto a mesma coisa, vou ser bem sincero. De uma forma ou de outra eu queria que acontecesse. Sério. Juro que desejei algo desagradável assim só para eu ter um motivo. Eu não queria machucar ninguém, é verdade, pelo menos não comigo tomando a iniciativa, mas no caso dele… Ele já havia feito muito, humilhado muitas pessoas, precisava de uma lição. Eu tinha dado o recado. Quando eu vi ele com a minha amiga, eu simplesmente empurrei os dois ao chão. Ela levantou logo e correu e ele ao se levantar veio em minha direção. Tentou me acertar um soco só que logo outros caras seguraram ele e levaram em direção a porta, eu peguei uma garrafa, quebrei no chão, e antes que outros pudessem me impedir, gravei a parte com o caco mais pontiagudo no braço. Não havia nenhum médico no local ou alguém que estudasse enfermagem então, tiraram a garrafa do braço dele de modo que aumentou mais a ferida. Agora era a mim que seguravam e ele chorava ao ver o sangue escorrendo.

– Você considera que agiu por instinto de defesa?

– Não. Seria se eu não tivesse pensado nisso antes, mas eu pensei. Como eu disse, desejei uma situação assim só para poder agir. Confiei na fraqueza dele em não cumprir o “não vou fazer de novo” e consegui. Ganhei. Não agi por instinto. Sabia exatamente o que eu estava fazendo, e mais uma vez sendo bem sincero, eu já tinha planejado pelo menos três formas diferentes de agredi-lo sem matá-lo. Sim, eu não queria matar, só machucar. Desculpe a minha frieza, mas se ele não tivesse agredido a minha amiga, eu seria capaz de entrar em alguma provocação dele só para empurrá-lo da escada. Esse era um dos planos. O outro era aproveitar quando ele tivesse brigando com alguém, dar uma chave de braço e quebrar uma garrafa na cabeça dele de modo que abri-se um corte considerável. Não foi instinto, eu queria e eu fiz. Mas ainda fiz por defesa, no caso da minha amiga.

– Você sabe que pode ser preso por tentativa de homicídio?

– Sei. Já sabia na verdade e mesmo sabendo eu continuei querendo. É difícil de explicar senhor, no fim pode ser que me considere um louco, mas no fim das contas sou apenas um psicopata mesmo, um psicopata são.

– Bem, você disse que não queria matá-lo, só machucá-lo, mesmo sabendo das consequências… Sabendo que você poderia enfrentar uma cadeia de qualquer forma, por que não matar?

– Respeito.

– Respeito?

– Sim. Respeito. Aos familiares dele, lógico. Conheço os pais dele e algumas tias. Na festa havia duas primas e um sobrinho. Apesar da família conhecer o gênio ruim dele, não ia querer vê-lo morto, e eu não ia querer comprar uma briga tão grande com a família dele, pois no fim, ele se tornaria uma vítima mártir. Eu só queria fazê-lo sentir um pouco da dor que ele faz as outras pessoas sentirem.

– E fez.

– Sim, porque eu quis.

– Bem garoto, me dê um minuto sim, vou analisar os papéis do escrivão e já volto para conversarmos. Pode tomar um café, se quiser ligar para seu advogado ou algum parente você tem alguns minutos.

– Obrigado. Ah… Oi, por favor o Henrique está? Obrigado… Ah, oi, então, eu fiz… Não, não morreu, eu disse que não ia matar. É… Sim… Olha, você pode vir até a delegacia, eu to com fome, acho que vai demorar, aproveita e chama o Joaquim, ele ainda é advogado não é? Sim. Já disse… Olha, vem logo, antes que eu mate o delegado se ele me pedir uma quarta versão…

– Licença?

– Ah, sim, oi delegado. Já terminei.

 

juhliana_lopes 04-11-2013

Dolls Maker

Era o cara dos sonhos. Gentil, educado, um verdadeiro lorde. Nunca foi em sua casa pois ele morava sozinho e “não ficava bem pra uma moça de família ir na casa de um homem solteiro”. Ela amava isso nele, mas também estranhava. As vezes queria ir mais longe mas ele sempre muito respeitador não permitia. Se acostumou com isso enfim.

As amigas perguntavam, instigavam e ela sempre escapava das respostas. Não queria decepcioná-lo, mas um dia não aguentou e pediu para ir em sua casa.

– Ainda não amor… – ele dizia. – Um dia vamos ficar juntos para sempre.

– Mas amor… Eu confio em você. Sei que nunca fará nada que eu não queira. Me deixe ver pelo menos como é…

Passou a noite insistindo mas não houve jeito. Ele a deixou na porta de casa para ter certeza que ela não o seguiria depois e assim passaram-se os dias.

Ela se irritou. Em um dia de feriado, levantou cedo e foi. Sabia que ele estaria em casa afinal, no dia anterior houve uma festa da empresa. Sabia onde era mas nunca tinha entrado e nesse dia tocou a campainha e fez praticamente uma vigília do lado de fora. Ele ligou para ela, pediu que fosse embora, mas ela não queria conversa. Nem as dores de cabeça q ele sentia devido a leve ressaca foram suficientes e então ela entrou.

Viu vários papéis e anotações sobre a mesa de centro e alguns aparelhos cirúrgicos sobre o sofá. Ele a olhava com aquela cara que as pessoas fazem quando estão com dor e ela não reparou quando ele trancou a porta.

– Pronto. Você queria entrar. Entrou. Satisfeita?

– Nossa amor. Pra quê tanto mistério? E por que esses aparelhos se você nem é médico?

– Você pergunta demais… Quer saber coisas demais.  – Agora ele estava próximo da mesa e recolhia e organizava alguns papéis.

– O que você está me escondendo?

– Isso.

Ele lhe deu os papéis e foi para a cozinha. Ela notou que ele tinha anotado toda a sua rotina e medidas do corpo, desde o peso ao tamanho do pulso e comprimento do cabelo. Quando ele voltou, ela sentiu apenas uma forte dor de cabeça e não viu mais nada.

Ao acordar viu um taco de beisebol no chão e sentiu um lado da cabeça latejar. Com a consciência retomada percebeu que estava amarrada em uma cadeira e ele estava sentado em outra a sua frente. Ele olhava para ela com olhos famintos e inquietos, olhos grandes de um bicho que está prestes a atacar.

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– Você sabe o que são os Dolls Makers?

– O que está acontecendo?

Dolls Makers, são uma organização que produz bonecas sexuais. Porém, só quem tem muito dinheiro mesmo consegue adquirir o material deles afinal, o processo de fabricação é longo, mas o material é de excelente qualidade.

– Do que você está falando?

– Preste atenção meu amor, senão você se perde… Eu pensei em adquirir uma boneca por eles, mas eu ainda não tenho muito dinheiro e percebi que era mais barato aprender a técnica deles do que comprar feita. Claro que a qualidade não vai ficar tão boa mas… Vai servir.

– Por que está me olhando assim?

– Sabe como as bonecas são fabricadas? Os Dolls Makers que caso você queira saber, não existem por aqui, pegam meninas de orfanatos, entre 9 e 10 anos e as levam para suas casas. Lá eles lhes dão banhos e depois várias anestesias. Depois eles amputam seus braços um pouco acima dos cotovelos e as penas bem acima dos joelhos, assim elas jamais poderão fugir deles. Mas como esteticamente, tocos de braços e pernas são feios, eles anexam uma barra de metal de pelo menos cinco centímetros bem firme ao osso antes de costurarem as feridas. A outra ponta da barra é em formato de rosca de parafuso para que se possa colocar qualquer coisa ali e pendurar a boneca onde quiser…

– Pare, me solte! Eu não quero ouvir mais! Você é louco.

– Calma meu bem! – Ele agora segurava seu queixo com a mão firme. – Você não queria entrar? Então vai ouvir até o fim!

Ele tremia mas a mão segurava seu rosto frágil extremamente forte. Ela sentia sua respiração quente a frente do rosto e notou como seus olhos brilhavam.

– Eles cuidam das feridas para não infeccionarem e uma vez curadas, são colocadas bases de silicone e veludo branco para ficar mais bonito visualmente. Uma vez com os braços e pernas completamente recuperados, se as meninas sobreviverem, é hora de cortar suas cordas vocais e tirar seus dentes, e pra não deixar elas simplesmente banguelas, é colocado uma prótese de silicone, assim, se tentarem morder não machuca. Seus olhos também são danificados de forma que ela não vai conseguir enxergar mais que vultos e luz. Depois de toda a recuperação é feito todo um treinamento e assim elas se tornam brinquedos sexuais vivos.

– Isso é… Doentio. Me solta agora! – Ela começou a gritar.

– Já disse. Cala a boca! – Ele se aproximou tanto de seu rosto que teve medo de levar um soco. – Como eu ia dizendo, além de todo esse processo, quem compra a boneca fica totalmente responsável por ela pois ela vai precisar de ajuda para comer e para todas as suas necessidades. Eu adoraria comprar uma mas… Não tenho dinheiro para comprar e nem dinheiro para ir no lugar onde são fabricadas, então, resolvi fazer uma pra mim, só que já crescidinha. – Ele deu um sorriso bem aberto onde era possível ver todos os seus dentes. Era um sorriso insano e ao olhar em suas mãos, ela percebeu que ele agora segurava uma seringa e se aproximava dela novamente.

– Você vai ser minha boneca meu amor… Eu queria esperar mais, para conseguir uma desculpa convincente para seus pais e amigos, mas você, não me deixa outra escolha…

– Me solta, por favor! – Ela chorava. – Eu prometo que não conto nada pra ninguém e nunca mais te procuro. Prometo de não vou te denunciar pelas suas insanidades mas por favor, me deixa ir embora!

– Meu amor… – disse ele suavemente passando a mão em seu rosto – Você que quis entrar aqui. Eu não ia deixar, mas você insistiu. Minha dor de cabeça ainda não passou. Você queria entrar e entrou, mas agora não vai sair mais. – sua voz era grave e pesada e só fez com que ela chorasse mais e mais alto, com isso, levou um tapa forte na boca e logo em seguida sentiu a agulha em seu braço.

Ao acordar, estava deitada e amarrada numa maca, e ele com um jaleco branco preparando mais seringas.

– Agora que você já está mais calma, vamos começar o procedimento. Se meninas de nove e dez anos aguentam, tenho certeza que você meu bem também vai aguentar. – ele dizia isso com o mesmo sorriso insano de satisfação no rosto. Ela ia tentar gritar mas quando percebeu já estava adormecendo de novo e então, o processo começou.

 

juhliana_lopes 25-09-2013

REFERÊNCIAS: Dolls Maker: Inspirado no artigo “Lolita Slave Toys – Dolls Maker”, do site EUTANÁSIA MENTAL (clique aqui)

Dia Agradável

Acordei relativamente bem hoje. O sol estava brilhando logo cedo e a brisa deixava o tempo fresco. Os pássaros cantavam e o dia prometia ser amistoso. Levantei e fui tomar café. Algo estava com um cheiro esquisito e ao abrir a geladeira descobri o que era. Limpei tudo, peguei um pão e comecei a comer.

Saí para o meu passeio matinal e antes de chegar no meu portão tropecei em alguma coisa. Ignorei, na volta eu arrumaria tudo. Caminhando, notei que esqueci de trocar de camisa e a minha estava manchada. Agora não tinha mais jeito e ninguém iria notar de verdade.

O ar puro da manhã entrava em meus pulmões me trazendo um vigor que me deixava mais animado. As pessoas caminhando, os carros passando, a vida seguindo da forma como devia trazia até um certo nível de esperança na humanidade.

Parei próximo do lago e me perdi em horas observando o movimento da água. O patinhos já estavam nadando e algumas pessoas jogavam pedaços e pães para eles. Senti algo tocar a minha perna, uma bola. Ao olhar em volta, vi um menininho me olhando desconfiado de longe e então toquei a bola em sua direção. Ele se abaixou meio desajeitado, pegou a bola com as mãos e saiu correndo com um sorriso no rosto.

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Voltei pra casa também com um sorriso bobo. Este leve contato com as pessoas fazia com que eu me sentisse mais pleno e tranquilo. O que aconteceu poderia ter tirado toda esta calma, mas se tratando de quem era, não tinha com que me preocupar.

Cheguei e ela me esperava na porta de casa, olhando com ar de desaprovação e apontando para o quintal.

– Ah, para. Eu ia limpar isso quando chegasse…

– Você tinha me prometido que ia parar…

– Eu sei mas dessa vez era ele ou eu…

– Enterra logo isso direito e depois chama aquele seu amigo pra fazer as cinzas… Você consegue ser tão desligado que eu não sei como ainda não te pegaram… E também não sei por que eu não te denuncio…

– Porque você sabe que no fundo eu faço isso com as pessoas certas.

Peguei a pá e comecei a cavar atrás da minha casa. Uma melodia começou a tocar vinda da sala e me motivou mais para o serviço. Arrastei o corpo que estava apenas coberto com folhas e o enterrei. Agora, observando bem, acho que peguei pesado ao quebrar seu pescoço, mas o serviço já estava feito.

Quando terminei tudo, ela me esperava na sala. Seguimos para a cozinha onde ela começou a procurar algo pra comer enquanto eu bebia um pouco de água.

– Tem algo aqui na geladeira… Sério. Você precisa de tratamento.

– O que foi agora?

– Essa cabeça aqui na geladeira… Custava colocar no formol? Sentiu o cheiro disso? Quanto tempo tá aqui?

– Acho que desde semana passada. O corpo já era…

– Ainda bem, pra variar. Ai credo e esse cabelo seboso… Toma, coloca em um daqueles vidros que você tem e enche de formol, pelo menos fica pra sua coleção.

– Sim senhora…

Ela era uma garota legal. Já quase me denunciara duas vezes mas ainda sim ficava ao meu lado. Ela sabia que eu nunca ia tentar nada contra inocentes e que era discreto o bastante para que ninguém percebesse. Fiz exatamente como ela disse e coloquei o vidro junto com os outros num quarto oculto.

Ao voltar, mais um sermão…

– Você saiu com essa camisa?

– Sim. Por quê?

– Com essa mancha de sangue?

– É de manhã. Ninguém sabe distinguir bem uma mancha de sangue pra uma mancha de geleia ou suco natural de qualquer coisa vermelha…

– Pro seu bem, eu espero que ninguém mesmo…

Ficamos um tempo ali, ela terminando de comer, e a música ainda rolando no outro cômodo. Num certo momento, um olha para cara do outro e eu digo:

‘Cause I like…

Birds. – ela responde sorrindo.

juhliana_lopes 03-09-2013

Referências: Música I like Birds (Eels) 

Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013

Espelho

Já passava da 00h quando Hugo pediu um tempo. Sabia que já havia bebido o seu limite e sabia o que poderia acontecer se ultrapassasse. Os outros continuaram o jogo, sempre zombando dele por ter pedido pra sair. Ele não se importou, sabia dos seus limites e queria manter o controle sobre si mesmo.  Além dele, Edgar também não participava do jogo, ele na verdade estava só a base de água já que teria que levar todos para casa ao amanhecer. Edgar permanecia calado e apenas ria de algumas besteiras que o grupo falava.

Quando o garçom trouxe mais uma rodada, Hugo sentiu sua visão embaçar e pensou até que fosse desmaiar. Foi ao banheiro lavar o rosto, pensou que talvez fosse a pressão. Assim que chegou o cheiro forte de urina misturada com cigarros irritou suas narinas. Enquanto juntava água com as mãos, ouviu alguns gemidos vindo de algum canto. Jogou a água no rosto e pigarreou, logo saiu um casal, que assim como ele, não fizeram questão de trocas de olhares.

Agora estava sozinho, olhando para o espelho, realmente houve um certo exagero nas bebidas, seus rosto começava a inchar. Jogou água no rosto mais uma vez e molhou os cabelos.

Você devia tomar mais uma dose… Só mais uma…

– E você devia me deixar em paz.

Você sabe que deve, e além de dever, é algo que você quer… Eu sei…

– E você sabe que devia calar a boca?

Não precisa resistir… Aquele cara, o Edgar, ele vai te levar pra casa depois…

– Já disse que não. Eu não to afim de passar vergonha hoje…

E com tantas mulheres bonitas você acha que vai passar vergonha? É mais fácil de prenderem por atentado ao pudor…

– Para, não vai acontecer de novo…

E na cadeia, os presos vão ficar com medo de você… Sempre tão…

– JÁ DISSE, CHEGA!

– Hugo, tá tudo bem cara?

– Ah, Edgar, to bem sim, acho que bebi demais, só isso…

– Ok. Vou lá ficar de olho naquele povo, o garçom tá cansando de ir na nossa mesa já…

– Coitado… Logo mais eu vou.

Ele é gay? Acho que ele curte você…

– Para, o Edgar já foi casado…

O que não impede dele ser gay

– E qual o seu interesse que ele seja gay ou não?

Isso é você que tem que me responder, afinal pra você qualquer um serve…

– Foi só uma vez e não fui eu, foi você!

Isso, continua colocando a culpa dos seus desejos insanos em mim…

– Eu só posso estar ficando louco!

andyEstá, louquinho para beber mais uma dose e me libertar, libertar seu verdadeiro eu!

– Eu não vou beber mais. Não hoje.

Olhe bem pra mim, e agora olhe pra você… Descolado, careta. Popular, Alone. Você gosta deste tipo de atenção, você gosta deste tipo de força…

– Me larga, aliás, larga a minha imagem!

Ouça bem o que vamos fazer hoje, você vai até aquela mesa, vai beber mais uma única dose, e vai dançar com uma mulher loira de vestido verde. Vai colar o seu corpo no dela, e sussurrar aquelas coisas no ouvido dela. Depois, pegue-a pelo braço, e a leve lá pra fora. Pegue-a com força, e quando terminar, a jogue no chão e entre. Pegue a morena de vestido vermelho, e faça a mesma coisa. Pegue quantas você puder, mas nunca jamais encoste um dedo naquela moça de vestido preto…

– Isso é insa… Por que não?

Você não vê? Ela é pior que você! Uma psicopata disfarçada entre as pessoas… Engana todo mundo, talvez até ela mesma, mas eu consigo ver tudo esqueceu! Agora vai lá, garanhão, vá quebrar alguns corações com um pouco da sua selvageria…

– Sai da minha mente, por favor…

Você pode terminar o dia pegando aquela sua amiga, aquela que está jogando, do jeito que ela está altinha, nem vai ligar… Veja é isso, você vai deitar ela na mesa no meio do jogo e…

– SAI DA MINHA CABEÇA!

Hugo deu um murro no espelho que o rachou quase por completo. Sua mão sangrava, e sua respiração estava ofegante.

– Hugo, está tudo bem? Com quem você estava gritando? – disse Edgar que ouviu o grito pois estava próximo do banheiro.

– Nada, era só… – disse ele olhando para o espelho. – Só estava pensando alto, falando comigo mesmo…

– Você está ficando viciado em bebidas? Quer parar, é isso?

– Estou viciado sim amigo, mas é com preocupações. Vamos voltar pro jogo…

Ao saírem, tudo estava normal, a festa continuava e a mesa estava cada vez mais bêbada.

– Hugo, sabe alguma coisa sobre aquela moça de preto?

– Moça de preto… Não, não sei mas parece ser interessante, por que você não tenta?

– Vou lá. E você juízo com a bebida, não vai cair nas graças do povo.

– Pode deixar… Eu sei como vai terminar a noite…

 

/juhliana_lopes 10-06-2013

Quem seria o louco?

Assim que chegou o tumulto se formou. Era capaz de ouvir seus gritos do outro lado do corredor. Eu tentava chegar mais perto mas, ninguém me permitia; “É perigoso”; não importava eu tinha que chegar. Aproveitei uma brecha e então eu pude ver o horror. Seus gritos eram tão fortes que até os seguranças saiam de perto.
04Apesar de todas as amarras, era como se tudo fosse explodir a qualquer momento, libertando a fera. Era o verdadeiro retrato da agonia, com algumas gotas sarcasmo.
Quando conseguiu se levantar, todos correram… Tolos, por que correm? Não percebem que ficar em pé, encostado na parede é o máximo que ele pode fazer? Como alguém corre com os pés amarrados?

Novamente ele caiu, porém não houve mais gritos, parecia que havia “caído errado” e estava de mal jeito. Precisava respirar mas, ninguém era capaz de ajudá-lo ou ninguém queria mesmo.
Lembro de alguém puxando meu braço para não me deixar entrar no quarto, que havia se transformado em um picadeiro do circo dos horrores.
Tranquei a porta e fechei as cortinas, se ninguém ia ajudar, não tinha por que assistir. Cheguei perto e confesso que estava com um pouco de receio, mas era preciso ajudar, então o ajudei a se sentar e pude ver seu olhos.
Ali estava toda a verdade, uma mistura de medo de criança com raiva do mundo e um pedido de socorro. Comecei a desamarrá-lo e, apesar de não falar nada, seu olhar mostrava claramente que estava confuso afinal, todo sabiam o que ele havia acabado de fazer…
Uma vez solto, sua reação foi a inércia. Não quis levantar, não quis gritar, apenas ficou ali, sentado, olhando fixamente para o chão. Peguei um copo de água, sentei-me ao seu lado e ofereci. Ele não me olhou mas pegou o copo, tomando tudo num só gole. Perguntei se queria mais e ele sinalizando com a cabeça, disse que sim. Foram cinco copos de água.
Levantei e falei pra ele que podia dormir quando quisesse e que o interruptor estava perto da cama para que não precisasse levantar para apagar a luz. Foi então, que ouvi a sua voz pela primeira vez no momento que ele disse um tímido “Obrigado”.
Antes que eu chegasse a porta, ele tocou em meu braço, como alguém podia se levantar tão rápido?
Olhou em meus olhos, tão profundo como se buscasse a minha alma. Pude ouvir sua voz claramente ao dizer: “não deixa eles entrarem aqui de novo, por favor?” Sua mão estava fria, percebi sua fragilidade como se fosse uma criança que não quer ir ao médico, com medo de uma injeção.
Eu prometi que ninguém lhe faria mal e que amanhã voltaria para conversarmos. Eu abri a porta e sai, e antes de fechá-la novamente vi que ele se dirigia lentamente para a cama.

Não sei ele, mas naquela noite, a insônia veio me visitar…

24-09-2012 /juhliana_lopes