Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017

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Quem é o assassino? (parte 2)

principe-gales02– A verdade é que todos tem uma visão extremamente errada sobre as coisas e no fim, não enxergam as pessoas a sua volta. Somente quando é tarde demais. – Ele dizia enquanto andava de um lado para o outro, com passos marcados. Elegante, usava um terno cinza, com uma gravata preta. Gesticulava poucas vezes enquanto falava, e vez ou outra arrumava seu cabelo castanho claro que insistia em cair sobre o olho.

Qualquer mulher ficaria encantada em ouvi-lo falar, pois além da sua beleza e porte físico, sua voz também era hipnotizante, mas nada disso importa quando se está na mira de um assassino.

– Aquela menina nova mesmo, nem lembro qual era o nome dela… Ela vivia com medo de tudo, e o pior não sabia nem disfarçar, e no fim deu no que deu. E agora, veja só você…

Ele fez uma pausa e a olhou da cabeça aos pés. Ela, sentiu um frio na espinha que jamais havia sentido, e percebeu que sua vida e também a sua vã esperança de aquilo fosse apenas uma brincadeira de mal gosto, estavam indo embora mais rápido que o espaço de tempo entre um passo e outro que ele dava.

Ela, amarrada em uma cadeira no estoque não podia fazer muito a não ser ouvir o seu discurso interminável. Nesta hora ela pensava: “Por que fui querer ser proativa? Por que fui me meter em um assunto que não era meu, só pra fazer o certo? Por que não deixei ele roubar a porra dos documentos fingindo que não vi nada? Por quê?” E sim, ele não parava de falar. Entre coisas direcionadas a ela e a sociedade injusta que não compreende as coisas corretamente, falava muitas coisas sem sentido, direcionadas a ele mesmo. Além de psicopata, era esquizofrênico… Para ela, foi uma pena que este último pensamento acabou saindo alto demais.

– Psicopata sim minha querida, mas não pelo motivo que você acha.

– Ah, claro que não. Você é psicopata porque dá doce pras crianças nos parquinhos, sem querer nada em troca.

– Poderia, mas não é esse caso. E respondendo sua pergunta de uma forma menos irônica, eu não sou um psicopata porque vou te matar. Eu sou um psicopata porque vou atrás do meu objetivo.

– Que ótima mudança de termos. Me sinto até mais confortável para morrer assim.

– Mas eu não vou matar você. Esse não é e nunca foi o meu objetivo. Não se sinta tão especial a esse ponto. – Ele respondeu sério com os olhos semicerrados.
Ela estava realmente cansada de ficar ouvindo e ouvindo, e sabia que debater não ia adiantar nada, mas era a deixa para que alguém pudesse lhe ouvir e quem sabe lhe ajudar…

– Não vai? Então pra que tudo isso?

– Eu quero ser sócio majoritário da empresa, mas não tenho dinheiro pra isso, afinal não me pagam o suficiente para ter reservas. Com isso fiz um caminho mais longo e muito mais rentável. Primeiro a confiança do sócio majoritário, porém ele não confia em mim tanto assim a ponto de fazer um testamento com meu nome, então preciso incriminar o seu parceiro, e depois de mais umas saídas intimas, vou ficar mais próximo da cadeira principal. Não é simples?

– Você esta saindo com o Boris? – Havia muito mais coisas naquela informação pra ela se surpreender do que o roteiro de novela que ele descreveu, mas aquela era uma informação curiosa, afinal, todas as meninas eram loucas para ficar com ele e muitas haviam de fato conseguido uma noite.

– Infelizmente estou. É preciso pro meu objetivo. – ele assumiu, virando as costas.

– Então, você não vai mesmo me matar?

– Claro que não querida. – Ele disse com o rosto perto do dela e um sorriso enorme que fez com que ela se arrepiasse de medo.

– Então… O que… O que vai fazer comigo? – Ela gaguejou. – Me solte, e eu prometo que não conto nada pra ninguém. Na verdade eu nem vou me lembrar de nada! – Ela tentou barganhar desesperada.

– Uma das coisas mais frágeis no ser humano, além do próprio corpo, são as suas promessas. – Ele disse virando de costas. – Por que você resolveu perguntar sobre os documentos?

– Por nada, eu… Eu só achei que… – Ela não queria admitir pra si mesma, mas o medo estava tomando conta de seus pensamentos. Talvez a ideia da morte era mais fácil de aceitar do que a da possível tortura.

– Não minta pra mim! – Disse ele em seu ouvido, ao se virar depressa. Ficou ali, com o rosto colado no dela esperando a resposta.

– Eu só achei que não era certo você pegar os documentos, porque não era do seu setor. Só achei sua atitude estranha e quis entender o que estava acontecendo… Eu só… Eu só queria ajudar… – Ela respondeu chorando, se entregando completamente ao medo.

– Achou que não era o certo. – Ele repetiu devagar. – Queria ajudar… – Então ele andou até um balcão.

Ela tremia, e se sentia culpada por cair no jogo dele. Sempre foi tão forte e agora estava ali, entregue a um doido qualquer que gostava de fazer jogos psicológicos. Resolveu fazer um último apelo.

– Por favor… Me solta! – Ela disse chorando. – Eu já aprendi que não devo ficar xeretando em nada. Por favor…

– Calma bebê… – Ele disse de costas para ela. – Eu já vou te soltar logo, mas como eu disse as promessas são coisas muito frágeis. Meu objetivo é ser chefe. Mandar em tudo. E eu infelizmente não posso deixar nada no meu caminho, nada que possa me atrapalhar agora ou quem sabe no futuro em um momento de crise…

– Então… Você… Vai me matar? – Ela disse por fim, pausadamente.

– Não amor… Eu não vou matar você. – Ele disse se virando com um pano molhado nas mãos e um sorriso no rosto – Você vai.

juhliana_lopes 27-03-2016

 

 

Mulher perfeita

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Depois de sair do banho, ela passou o seu perfume favorito. Pegou o celular e se deitou na cama, ainda de toalha. Ficou observando a foto dele mais uma vez, e era realmente um cavalheiro. Olhos de mel, lábios desenhados com uma barba levemente cerrada, revelando suas vaidades. Haviam se conhecido há um tempo pela internet, e se encontraram algumas vezes em eventos com amigos. Sempre muito educado, era também um comediante nato com suas piadas inteligentes. Não precisava fazer nenhum esforço para chamar atenção pois, só com a sua presença ele já era notado. Foi só há três meses que começaram a ficar mais próximos e então resolveram marcar um encontro, só os dois, para “se conhecer melhor”.

Ela estava animada, afinal ele era perfeito e a noite prometia. Levantou-se, e começou a se vestir. Escolheu um vestido azul para a noite, que além de uma cor forte, marcava bem o seu corpo, valorizando suas curvas. Depois, foi se maquiar, de olho no relógio para não se atrasar. Gostava de se admirar no espelho antes de um encontro, e fazia muito tempo que ela não tinha nenhum. Seus cabelos negros, presos estrategicamente para parecer bagunçados, de um jeito levemente sensual. A sombra degrade indo do preto ao lilás, deixando seus olhos em destaque, e um leve blush rosa para dar uma leve tonalizada em sua pele alva. Finalizou então com um batom vermelho, que ela esperava que não durasse a noite inteira.

Levou um leve susto com a buzina, mas desceu alegre por ele também ser extremamente pontual. Ele, estava perfumado e muito bem arrumado em trajes sociais, e abriu a porta para ela com delicadeza. Usava uma camisa social  cinza chumbo, com uma calça preta, que além de dar a impressão que ele era mais alto, o deixava extremamente sexy. Não quis deixar claro as suas intenções, e muito menos parecer desesperada olhando para ele toda hora, mas percebeu que ele também não conseguia ficar sem admirá-la por muito tempo.

Durante o jantar a troca de olhares ficou constante, mas aos poucos ela percebeu que sem os amigos, eles não tinham tanto assunto assim, em todo caso, ela sempre puxava outros assuntos animada, na esperança de não deixar a noite morrer. Ele também não estava disposto em deixar a desejar, e tentava impressioná-la com pedidos elaborados e muito vinho. Quando o jantar terminou, ele a convidou para ir em sua casa, e ela sem fazer nenhum charme, aceitou, afinal a noite não poderia terminar ali de maneira nenhuma. No carro novamente, ele olhava descaradamente com desejo para ela, e isso estava fazendo ela sentir calor, pois seu desejo também estava escancarado, só esperando um lugar adequado. No fim das contas, era muita expectativa e ela esperava que nada desse errado.

Na casa dele, ficou feliz em ter a certeza de que ele morava sozinho e a noite seria só deles. Acompanhado de mais vinho, ele a beijou suavemente pela primeira vez. O corpo dela estremeceu e se arrepiou, e logo os beijos foram ficando mais intensos e íntimos. As mãos dele começavam a explorar o corpo dela, e ela ia se entregando cada vez mais. Deitados no sofá, o corpo dela ia ficando pequeno para o tamanho dele, que a apertava forte em sua cintura, e entre os beijos, mordia levemente o seu pescoço. Ela começava a gemer baixinho e ficando mais a mercê. Ele a virou de bruços no sofá, deitando-se sobre ela e enquanto uma mão puxava seu cabelo, a outra acariciava a sua coxa. Ela mordia os lábios e ele mordia a sua nuca com os corpos colados, desejando cada vez mais se livrar das roupas.

De repente, ele parou e pediu para que ela esperasse um pouco, e correu para o quarto. Ela já estava muito excitada com a situação, mas esperou, afinal, é sempre bom ir devagar. Logo ele pediu para que ela entrasse no quarto também, e ela foi. Ele estava no banheiro e pediu para ela ficar a vontade no quarto. Ela viu pétalas de rosas no chão, e não quis comentar sobre um vidro de álcool comum deixado em cima do criado mudo. Ela sentou-se na cama e logo ele voltou com a camisa aberta. Tomou os pequenos pés em suas mãos e foi tirando as sandálias dela enquanto beijava seus pés. Ela agora se deitava na cama, gemendo um pouco mais alto, querendo arrancar logo as roupas de ansiedade.

Quando finalmente ele tirou o seu vestido, revelando uma lingerie roxa de renda, ela resolveu tomar conta da situação e o deitou na cama, se livrando da camisa dele, e abrindo seu cinto. Ele então se permitiu a um gemido abafado enquanto ela beijava a sua barriga, lambendo com movimentos circulares. Porém, antes que ela pudesse deixá-lo nu, ele pediu um momento novamente, e foi ao banheiro. Ela estranhou mas esperou, paciente.

Ele retornou então com uma corda e uma faca na mão, junto com um sorriso maníaco. Ela, levemente pálida de susto, deu um riso nervoso, perguntando o porquê daquilo. Ele riu com ela e colocou as coisas em seu colo, perguntando a ela o que poderia doer mais.

– Como assim Rafa? Você está louco?

– É sério Beck, me diz. Qual você acha que machuca mais? Por que ó, se você reparar, a faca abre uns cortes né? Então dói, mas a corda, colocando direitinho no pescoço, faz a pessoa sufocar, com isso ela acaba sofrendo mais pra morrer… Não quero te influenciar, mas escolhe um que você achar mais legal! – Rafael dizia animado colocando as mãos sobre as coxas dela.

– Rafa tira isso daqui! – Respondeu Rebeca tirando a corda e a faca de seu colo, jogando para o lado. – Eu vou embora! – Disse ela pegando suas roupas do chão.

Rafael a puxou então, jogando-a na cama, subindo sobre ela, beijado-lhe o pescoço. Ela queria resistir, afinal que palhaçada era aquela? Alguma tara sexual grotesca? Mas a verdade é que ela estava rendida pelos seus beijos.

Podia-se dizer que estava em verdadeiro transe mental com ele por cima, em contato com seu corpo quente, prestes a unir seus corpos, mas quando ele sussurrou em seu ouvido, ela ficou tão aterrorizada que esqueceu completamente de qualquer tesão que havia.

– Eu quero que você me mate. Quando eu gozar, assim que eu terminar, você vai pegar a faca e me degolar. Eu esperei muito tempo por isso, confio em você. Curta o momento, eu preparei tudo e ninguém vai desconfiar de você.

– Rafa, me solta, que conversa é essa? Me solta! Você é louco? Já perdi o clima, me larga! – Ela gritava tentando se livrar dele.

– Você não entende não é? Você é a mulher perfeita! E eu quero morrer, só você pode me matar!

– Rafa, me larga! – Ela tentava em vão se soltar.

Ele então tentou virá-la de costas para penetrá-la. Ela, percebendo sua intenção, lutou mais até conseguir acertar um chute nele. Enquanto ele reclamava de dor, ela se soltou pegou seu vestido e correu para a rua. Assustada e seminua, correu até um beco para então se vestir.

Controlou sua respiração, pois não sabia se ele havia ido atrás dela, e aquele era o bairro dele, devia conhecer tudo por ali, mesmo a noite. Ouviu então a batida de uma porta. Do beco era possível observar a frente de sua casa. Ele estava descalço e sem camisa, com um pano branco em uma das mãos. “O álcool” , ela pensou. Se escondeu mais na escuridão do beco, rezando para que ele não a achasse. Para sua sorte, ele foi correndo para o outro lado, procurando ela entre as outras casas. Ela permaneceu ali, imóvel e ficaria até o amanhecer se fosse preciso. “Droga!”, ela pensou. “Nem na minha casa eu posso me esconder, ele vai me procurar lá, ou pior, vai me esperar lá!”. Ouviu então ele ligar o carro que estava estacionado do lado de fora e sair em disparada para qualquer lugar. Então, depois de um tempo, ela saiu de seu esconderijo com cuidado.

Ligou para sua amiga que a buscou e jurou que contaria tudo quando tivesse certeza de que estava segura. Na antiga república da amiga, onde agora só ela dormia mesmo, começou a falar sobre Rafael.

– Ah, mas o Rafa tem uns gostos estranhos mesmo…

– Como assim Ruth? – perguntou Rebeca surpresa.

– Eu não sei Beck, só sei que uma colega que dividia quarto comigo saiu com ele uma vez. Faz um bom tempo isso. Ela tava toda animada achando que ia finalmente namorar alguém, mas ai depois que eles saíram umas três vezes, ela se afastou dele, disse que ele era maluco. Ainda tentei saber o que havia acontecido mas ela não falou, só disse que ele era doido e logo depois ela sumiu sem dar mais explicações. Esses dias fiquei sabendo que ela mudou de estado, mas me fez jurar que eu não contaria nada para ele. – Respondeu Ruth dando ombros.

Rebeca então ficou pensativa. Será que se ela contasse tudo para Ruth, colocaria ela em risco também. E se ele resolvesse matar as duas. Talvez devesse se mudar também, voltar a morar com os pais, ou quem sabe para uma cidade nova… Ou então contar tudo a polícia e assim não precisar se esconder…

– Beck, o que ele fez com você que te assustou tanto? – Ruth perguntou ao perceber a distração da amiga.

– Nada demais Ruth… Ele só é estranho mesmo… – respondeu Rebeca, disfarçando.

– Beck, você me prometeu que contaria tudo… O que aconteceu? – Intimou Ruth.

– Ruth… Eu não quero te envolver nisso. Não quero que você se machuque, então se alguém te perguntar você por favor, finja que não sabe de nada! Para o seu próprio bem! – respondeu por fim Rebeca chorando.

– O que ele fez com você Beck?

– Ele… Ele me pediu pra matar ele. Ele queria morrer Ruth! Disse que eu era a mulher perfeita para isso! E não é “matar de prazer”. Ele colocou uma faca e uma corda no meu colo! – Rebeca começo a soluçar. – Eu me recusei, lógico. Tentei ir embora, ele não queria deixar e ainda tentou me estuprar… Eu consegui fugir, mas ele saiu com um pano que devia ter álcool pra me desacordar caso conseguisse me achar. Eu estou com medo Ruth! Ele deve estar na frente da minha casa me esperando a uma hora dessas. Eu não sei o que fazer Ruth! – chorou por fim no colo dela.

– Beck, tenta dormir um pouco… – Disse Ruth acariciando os cabelos de Rebeca. – Você está muito impressionada com toda situação. Amanhã a gente pensa com calma o que pode fazer, tudo bem?

– Tudo bem… – respondeu Rebeca, por fim.

No dia seguinte, mais calma, as duas foram ao shopping para comprar algumas roupas para Rebeca. Ainda assustada, não conseguia parar de olhar para os lados com medo de que Rafael fosse aparecer. Ruth tentava fazê-la relaxar, mostrando mil roupas e sapatos diferentes. No meio do percurso, quando pararam para um sorvete, o grupo de amigos de sempre estava caminhando próximo e pararam para uma conversa.

O sangue de Rebeca gelou quando viu Rafael se aproximando, como todos os outros dias, naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Tentou correr mas isso chamaria atenção dos outros. Ruth, percebendo a sua chegada, tomou conta da situação para que Rebeca não entrasse em pânico.

Ele, por sua vez, cumprimentou o pessoal e sentou-se longe das meninas. Elogiou o vestido de Rebeca com um sorriso levemente sarcástico, e perguntou se ela e os outros tinham algum programa para mais tarde. Ruth respondeu que Rebeca a ajudaria em um trabalho da faculdade, enquanto os outros iam descrevendo suas tarefas. Aproveitando uma distração dele, elas se afastaram com a desculpa de quem jogariam a casquinha do sorvete no lixo.

Já no carro, longe do shopping, Rebeca olhava para trás desesperada.

– Tem certeza que ele não viu a gente?

– Tenho Beck, fica calma!

Então Ruth freou de repente. A sua frente estava um carro fechando o caminho e do lado de fora, com um sorriso maníaco, estava ele, que se aproximou do carro de Ruth, lentamente. Rebeca estava em pânico e mal conseguia respirar. Ruth travou as portas do carro, mas com um pé de cabra, Rafael quebrou o vidro do lado do passageiro e a abriu por dentro. Rebeca só dizia “não” em sussurros, e agora ofegava, completamente pálida com cacos de vidro sobre o corpo. Ruth tentou intervir, mas ele a ameaçou com um pé de cabra. Arrastando Rebeca pelo braço que olhava desolada para Ruth, lutava para não ir. Ele, sem olhar para trás apenas disse:

– Você vai me matar! Eu quero morrer pelas suas mãos! Aceite isso, e será tudo mais fácil!

E fechou a porta do carro. Olhou uma última vez para Ruth e entrou também, saindo em disparada.

juhliana_lopes 11-01-2016

A massagista

sexo07

Depois de uma pré avaliação, disseram que eu estava liberada pois tudo não passou de um susto, um pequeno lapso que podia ser facilmente controlado com calmantes. O diagnóstico estava errado, pois eu sinto que está errado. As pessoas podem manifestar distúrbios e até mesmo doenças mais graves de formas sutis inicialmente que, normalmente, são ignoradas ou cuidadas com pouco caso por se tratar de algo “pequeno” ou “só isso” que “logo passa”… Mas não passa.

A maioria das pessoas também convive bem com isso, escondendo seus medos e anseios em alguma coisa, seja trabalhando demais ou bebendo demais. O vício, seja ele no que for, entra como uma válvula de escape, mas ao mesmo tempo é seu maior veneno pois vai matando e sufocando a vítima aos poucos e então, ela surta de vez liberando aquele problema ou se mata sozinha quando a doença se expande.

No meu caso, ainda não tenho um vício propriamente dito, mas meu trabalho é o meu pior castigo. Como conviver com aquilo que você deveria evitar? É como um pedófilo que quer “se curar” na Disney, um alcoólatra trabalhando como provador de vinhos, ou qualquer coisa do gênero… Não presta entende? Uma hora vai dar merda, mas eu pelo menos sigo firme e forte, pelo menos por enquanto.

Não existe nada demais em trabalhar onde eu trabalho, afinal, eu ajudo as pessoas, elas vem cansadas, estressadas em sua maioria e buscam apenas relaxar. Pelo menos eu não tenho que usar roupas sensuais como é o desejo de alguns marmanjos que por aqui aparecem, mas ainda sim, não é isso que me incomoda.

Fazer massagens nos outros não é ruim. É um bom exercício pra mente. Você consegue atingir pontos específicos que mexem com os nervos das pessoas. Pontos nos braços que atingem o emocional da pessoa diretamente no pulmão ou no coração por exemplo. Pontos que mesmo que doam um pouco ao apertar, trazem um alívio enorme depois. Já cansei de contar as pessoas que chegam com os ombros duros como pedra saírem molinhos como travesseiros.

Já vi pessoas desesperadas encontrarem soluções geniais para seus problemas depois de um tempinho relaxando, e até pessoas que aparentemente estavam completamente “zens”, perceberem que na verdade o problema só estava oculto.

Como vê, não há nada demais na minha vida, no meu trabalho, e em tudo mais. Talvez seja um exagero meu me achar uma louca em potencial, talvez realmente tenha sido algo pequeno como o médico disse… Poderia, claro, por que não? Não, não pode, simplesmente porque eu tenho um gosto insaciável em apertar pescoços, segurá-los e só soltar quando o corpo estiver mole em minhas mãos. Não pode porque cada vez que eu vejo um pescoço vulnerável, indefeso, minha boca enche de água e minhas mãos coçam como um cão sarnento e meu sangue ferve me deixando em um ponto além do ponto de ebulição de uma jarra de água qualquer. O suor frio que corre em minhas costas a cada vez que alguém está sonado, curtindo seu momento relaxante me faz tremer e sangrar por dentro, e apenas respirar fundo e morder os lábios por fora.

 

Se eu já esganei alguém? Sim, mas não sei mais dizer quantos. A primeira vez foi pra me defender de um assalto e eu acho que o bandido nem morreu, só desmaiou mesmo, mas a segunda pessoa eu tenho certeza que se foi, afinal, eu ouvi e senti um estralo profundo em seu pescoço. O que eu fiz com o corpo? Bem, digamos que ele ficou escondido em algum lugar.

Nesse meio tempo ocorreram outras e nem todas eu tenho certeza se matei como o meu segundo, e desde então só acontecia quando eu resolvia sair sozinha para curtir baladas em outras cidades onde ninguém me conhecia. Se tornou algo bom de se fazer pois eu podia me sentir livre e ainda curtir meu estranho prazer em paz. Tudo ia bem e eu poderia ter levado isso pra frente por muito tempo se não fosse uma discussão na casa de um amigo meu.

Eu só fui defender ele, mas no fim das contas acabei com o pescoço do cara que estava discutindo com ele nas mãos. Não morreu, mas ficou em coma por uns dias. Como o meu segredo que ninguém sabia nem que existia um segredo foi revelado, me levaram para um médico que diagnosticou apenas como um leve surto pós estresse, sem risco, pois eu era uma menina de boa família, boa educação e desde que eu me acalmasse, não aconteceria novamente.

Mas acontece. Todos os dias, pelo menos um pouquinho, sem danos é claro, de forma mais disfarçada possível entre um movimento e outro durante as massagens. Ninguém até hoje reclamou ou percebeu, ninguém pediu pra parar ou pra continuar, e então eu sigo nesse disfarce, mas só leves apertos não me satisfazem.

Com o tempo e com alguns parceiros descobri que também gosto deste tipo de “carinho”, as vezes, até mesmo pra me acalmar um pouco depois de um longo dia com vários pescoços , eu mesma me enforco, buscando quem sabe sanar um pouco desta loucura. Um dia quem sabe, quando eu não tiver mais nada a perder, eu me acabe no meu prazer, e destrua tudo com as minhas mãos, apertando, segurando, sentindo cada pulsação, cada alma se esvaindo, cada sonho se acabando… Quem sabe um dia, eu respire enquanto os outros não podem mais respirar…

/juhliana_lopes 28-12-2014

Coração

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A primeira vista ninguém acreditou muito menos o delegado. Era impossível atribuir tantas coisas a uma pessoa tão frágil. A promotora também não apostava, mas pela cara dos guardas que a trouxeram com muito custo, algo horrível tinha acontecido lá fora.

– Vocês estão me zoando? Eu tenho cara de otário? – Dizia o delegado irritado. – Nós temos o retrato falado do sujeito de acordo com o que as vítimas relataram e vocês me trazem a primeira pessoa que acham na rua, achando que vão me convencer de que ela é a pessoa certa na verdade? Que merda vocês tem na cabeça?

O delegado já estava ficando vermelho e andava impaciente de um lado para o outro. Sua camisa social amarelada no colarinho e justa por causa da barriga saliente, já estava amassada e com manchas de café.

A promotora se aproximou tentando acalmá-lo. Ela observou os guardas mais uma vez com ar de desconfiança. A lógica diria que não, mas ela mesma já foi surpreendida com casos que estavam praticamente ganhos que tiveram uma reviravolta impressionante nos últimos minutos, mudando o rumo de tudo.

– Vamos com calma. É óbvio que talvez o criminoso não trabalhe sozinho e o que aconteceu foi que ele distraiu os guardas deixando uma isca para trás. Tenho certeza que se interrogarmos ela e os guardas tudo vai se esclarecer.

A promotora mantinha seu tom de voz firme e calmo como se estivesse em tribunal, mas a verdade que nem tudo lhe parecia tão óbvio e certo assim. Na verdade uma ponta de medo estava crescendo dentro dela, deixando seu peito angustiado.

Os guardas por sua vez estavam em choque. Desde que ela havia entrado na sala, não se atreveram a falar uma só palavra e o suor frio lhes descia pelas costas trazendo um arrepio gélido como o beijo da morte.

Ela. Quieta, não levantava a cabeça pra olhar nada. Não dava pra dizer se ela também estava ouvindo a conversa toda ao seu redor, ou sentido o clima pesado que estava cada vez mais insuportável. Ali, parada, parecia uma surda-muda, que provavelmente seria cega também.

Enfim, o médico legista saiu de sua sala. Sua roupa branca agora estava com manchas de sangue e a máscara de seu rosto balançava forte com o ar forte que respirava. A promotora olhava apreensiva, e os guardas com seu olhar estático, já esperavam as palavras que viriam.

– Eu preciso falar algo… – começou ele com a voz baixa.

– O que foi? Mais alguma evidência? – perguntou o delegado impaciente.

– Eu… Bem, ocultei uma coisa. Em todas as vítimas que foram achadas, havia cortes na barriga…

– Como outros cortes no corpo, mas o que você quer dizer com “ocultei uma coisa”, acha que estamos de brincadeira rapaz? – o delegado ia falando enquanto andava de um lado para o outro.

– Deixe o rapaz terminar! – interrompeu a promotora falando alto.

– Bem… Eu abri esses cortes pra saber por que havia sido cortado… Eu achei… – o médico suspirou fundo. – Em cada corpo há objetos guardados.

– Objetos? – questionou a promotora pensativa.

– Sim. E mesmo eu não sendo investigador nem nada, eu resolvi tentar resolver esse quebra cabeça. – O médico respirou fundo mais uma vez e começou a falar sem parar. – Todas as pessoas mortas trabalhavam em empresas grandes, e poucos dias antes da morte, os funcionários reclamavam do sumiço de alguns objetos. Canetas, blocos de nota, tesouras, entre outros acessórios de escritório. Na última antes dessa, um funcionário comentou que sentia muito, pois, pouco antes dele sumir, uma caneta que o morto adorava havia sumido e ele se sentia culpado por isso. Quando examinei o corpo, a caneta estava lá, “guardada” dentro dele. Como os outros corpos estavam guardados para mais averiguações, comecei a verificar e todos tinham alguns objetos.

Ele falava mexendo as mãos e tentando não parecer abismado, mas a cor de seu rosto entregava seu temor.

– O que você achou nesse corpo? – disse a promotora com um tom desesperado.

– Dinheiro.

– Dinheiro? – questionou o delegado abismado.

– Sim. A mesma quantidade que vocês haviam falado que tinha sumido hoje pela manhã…

A promotora deixou o corpo cair sobre uma cadeira. Sentada, colocou a mão sobrea cabeça pensativa. O delegado que antes tinha tudo resolvido, por um momento se sentiu sem chão e também se sentou. Os guardas engoliram secos. Deram alguns passos tímidos para se afastar dela, e quem sabe sair antes de responderem alguma pergunta, mas antes que pudessem o delegado levantou a cabeça.

– Vocês… Por que a trouxeram, porque acham que é ela?

Eles se olhavam nervosos. Não queriam falar, não podiam falar. O guarda da esquerda começou a chorar com soluços disfarçados. O outro respirava forte tentando se segurar, mas logo estava berrando desesperado como uma criança com medo de médico.

– ELA ESTAVA COMENDO O CORAÇÃO DE UM CARA LÁ FORA!             ELA MATOU, ARRANCOU O CORAÇÃO E COMEÇOU A COMER, NO MEIO DE UMA PRAÇA! MATOU DA MESMA FORMA QUE OS OUTROS CORPOS FORAM ENCONTRADOS!

Ele estava respirando forte, quase sem ar. Antes de mais alguma explicação, desmaio cansado no chão com o pescoço torto. O outro trancou os lábios e cerrou os punhos. A promotora tentou ajudar o guarda e o delegado tentou arrancar mais alguma explicação. O outro não queria responder, mas também não suportou o silêncio.

– Quando nos viu, ela parou de comer o coração. Largou na calçada e “se entregou” pra gente. Veio sem a gente fazer força, sem nenhuma objeção… – Ele suspirou profundamente e enfim falou. – Ela veio nos matar.

O delegado abriu bem os olhos depois da afirmação, mas antes de qualquer objeção viu o sangue jorrar na sala. Ela tinha uma força incrível e uma faca afiada. Como um bicho, abriu o peito do guarda “mensageiro” e começou a comer seu coração.

Em seguida atacou à promotora, que tentou se defender, mas logo foi degolada. O delegado, apavorado, sofreu um ataque cardíaco, se tornando um peso morto que não chamou atenção para ser outra vítima da canibal. Com o outro guarda com o pescoço quebrado, sobrou somente o médico que em choque não conseguia se mexer.

– Você vai me usar pra guardar algum objeto não é? Por que você faz isso? – Ele dizia em pânico.

Ela se aproximou mancando, e pela primeira vez levantou a cabeça para encará-lo. Seu rosto era angelical apesar da boca manchada de sangue, e seus olhos era um tom de mel quase amarelo. Por um momento se viu encantado pela beleza dela, mas não a ponto de esquecer seu pavor.

– Não vou guardar em você. – disse ela por fim, num tom de voz calmo e suave. – Você parece ser legal. – ela falou ainda olhando fixamente para ele. Depois, se virou e começou a abrir o estomago do guarda com o pescoço quebrado. Tirou um DVD envolvido num plástico do bolso e colocou em sua barriga através da abertura que havia feito.

– O… Que tem nesse DVD? – ele disse atordoado.

– Imagens da promotora e do delegado, usando a sala da delegacia para outros fins, se é que você me entende… – Ela disse enquanto deixava o cadáver de forma confortável no chão. Então se levantou, aproximando-se do médico novamente.

– O que você quer? – Ele disse por fim.

– Agora? Você… – Ela respondeu, roubando-lhe um beijo longo e demorado, que apesar das evidências não foi rejeitado. Pela primeira vez ele beijava alguém com tanta volúpia. Pela primeira vez sentia o gosto de sangue. E apesar de toda a lógica e ética lhe mostrar que não, sentiu que gostava daquilo, tanto quanto a sua profissão.

 

juhliana_lopes 16-10-2014

Paciente

10494863_732063346852960_6922425367116091794_nEle estava aflito. Ainda não sabia bem como havia se metido naquela confusão, mas sabia que não havia feito nada de errado. Aquilo estava consumindo suas ideias e então quando se deu conta, estava tão frágil que precisou ser internado. Aproveitou a estadia para descansar. Não era tão ruim quanto achava, pelo menos não naquela parte de “internos temporários”.

Quando a agonia não cabia mais no peito, resolveu ir até a sala que era temida por muitos para tentar desabafar.

– Eu tenho muitos sonhos sabe? A melhor parte de dormir é sonhar. Eu pareço e me vejo como uma criança porque tenho muitos sonhos bobos. Eu acho incrível, eu gosto muito. Esses dias mesmo, eu sonhei que havia uma bola num pedestal. Eu simplesmente chegava perto, ficava olhando, e depois com uma tapinha leve, fazia a bola bater na parede. Depois, quando ela parava no chão, eu ficava chutando de um lado para o outro brincando feliz. Hilário. Outro dia, sonhei que estava numa rua com outras crianças, e então, surgiam algumas trincheiras e tudo parecia ter sido transformado num campo de batalha. Nós havíamos nos transformado em soldados, e estávamos lutando por nossas vidas, porém as armas eram de água. Era como se a brincadeira tivesse ganhado mais realidade, mas ainda éramos crianças brincando com arminhas de água. Foi muito divertido, lembro que consegui render um amigo meu e jogar água molhando o rosto dele, e logo depois eu batia com a arma na cabeça dele bem fraquinho, imitando os caras dos filmes quando querem que o outro desmaie. – dizia ele um pouco sem graça.

– Você se sente bem com esses sonhos? – ela olhava em seus olhos quando perguntava, com um tom imparcial. Não estava ali para julgar, muito menos questionar, seu trabalho era apenas ouvir.

– Sim, muito, acho que nunca tive um pesadelo, nada nunca dá errado nesses sonhos, é muito bom, sobretudo brincar sem se preocupar…

– Você levanta durante a noite ou dorme direto? Já aconteceu algo de estranho?

– Não senhora. Tenho o sono pesado, então quando eu durmo, não levanto mais pra nada. A única coisa estranha que acontece é que eu nunca acordo do mesmo lado que eu fui dormir. Acho que me mexo muito a noite, mas nunca percebi nada… Acho que é algo normal, considerando que muitas pessoas… – ele dizia até que foi interrompido por homens grandes que entraram na sala como furacões já o agarrando pelos braços.

– PRENDAM ESSE ANIMAL! – dizia um homem baixinho meio gordo com óculos no meio do nariz.

– Mas o quê? – ele olhava em volta assustado, enquanto a doutora tentava apaziguar.

– Senhor, mantenha a calma, não vejo necessidade para tal ação, acredito que…

– Doutora, como não tem necessidade? Sabe de quais crimes esse seu “paciente” é acusado? – o homem baixinho falava apressado com o dedo apontado para o homem.

– Ei, me solta… – ele tentava se soltar, mais uma vez a doutora tentava falar em seu socorro.

– Senhor, o meu paciente…

– Ele é acusado de agredir uma pessoa na rua, sem motivo aparente, jogando a cabeça dela contra a parede e depois, assim que ela caiu no chão, chutar repetitivamente, deixando o rosto todo machucado. Ele também é acusado de perseguir pessoas na rua e depois de encarar assustadoramente um rapaz, derrubá-lo no chão, apontar uma arma em seu rosto e atirar, explodindo a cabeça do indivíduo. Isso sem falar em vários outros crimes! – dizia o homem ora arrumando os óculos, ora gesticulando como se o mundo fosse acabar.

– Isso é mentira, eu nunca fiz isso! – gritou desesperado, não havia feito àquelas coisas, e estava com medo dos brutamontes que apertavam seus braços com mãos firmes.

– Senhor, ele é sonâmbulo… – disse q doutora calmamente, mantendo o tom imparcial.

– Doutora, com todo respeito, você está brincando comigo? Acha mesmo que eu vou ser que nem você e cair nessa mentira dele?

– Não é mentira senhor. Ele dorme a noite e sonha. Os sonhos se mostram infantis pra ele, mas na verdade refletem as ações que ele realiza durante o sono. – ela tentava explicar.

– Não querendo lhe ofender Doutora…

– Mas já está ofendendo. Você está abusando da sua autoridade, primeiro porque não tem um mandado oficial, segundo porque ele é um paciente em tratamento, logo visto suas condições mentais, a justiça permite que ele cumpra a pena, depois de condenado aqui no hospital. Agora se puder soltar o meu paciente antes que eu chame os seguranças, eu agradeço. – Disse por fim num tom firme e autoritário. Era como uma professora dando uma ordem a um aluno, que não queria lhe dar ouvidos. De certo modo soava ameaçador e fez com que todos se calassem por alguns longos minutos.

– Você vai se arrepender disso… Vamos rapazes, vamos deixar que ele a mate, assim ela aprende a parar de proteger bandido! – Saindo da sala frustrado, com os guardas logo atrás como cães.

Mais sem graça do que quando entrou, não tinha mais coragem de encarar a doutora, mas sabia que precisava falar alguma coisa.

– Ah… Obrigado doutora.

– De nada, mas não tem porque me chamar de doutora. – ela disse num tom amistoso.

– Mas a senhora é a minha médica não é?

– Não. Sou uma interna como você. Eu estava tentando pegar alguns remédios escondidos quando você chegou aflito querendo conversar então eu parei pra te ouvir. Mas cuidado, eles podem voltar…

– Interna?! Por que você está internada aqui? – disse surpreso.

– O mesmo que você, a diferença que é que fazia isso quando estava bêbada, e como eu era uma viciada, isso acontecia com certa frequência…

– O mesmo que eu? Como assim? Quer dizer que eu matei mesmo aquelas pessoas? Eu não matei ninguém, eu… – mais uma vez confuso e sem entender porque estava sendo acusado daquilo sendo que nem havia feito nada, mas ao mesmo tempo com um sentimento de culpa como se por fim percebesse que talvez ele fosse realmente o culpado.

– Relaxa, você acostuma, no seu caso só precisam trancar o seu quarto e fica tudo bem… Olhe, eu mesma… – ela explicava até ser interrompida por outra voz feminina vindo da porta aberta.

– O que você está fazendo com meu jaleco?

– Bem, tenho que ir… – disse ela saindo em disparada.

A outra mulher, se, jaleco e com um crachá nas mãos, o cabelo preso em um coque, olhava abismada para ele e para o corredor por onde a moça havia sumido, falando alto.

– Ei mocinha, espere ai! O que ela aprontou afinal? Ei, o que há com você? Ela fez alguma coisa com você? – disse por fim, se aproximando dele.

– Não… Na verdade, eu só preciso dormir um pouco…

 

juhliana_lopes 27-06-2014

Sonho

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Acordou atordoado. Seu coração quase pulava pra fora da boca e respirar era o ato mais doloroso que conseguia fazer. Colocou as mãos sobre a cama e sentiu os lençóis finos e delicados contornarem suas mãos. Ainda como se só o toque não bastasse, olhou em volta e viu seu quarto amplo e com decoração escolhida a dedo no lugar.

Começou a se levantar devagar, agora mais calmo e mais ciente. Um sonho. Um pesadelo. Nada mais. Lavou o rosto com a água levemente gelada de sua torneira de temperaturas, e usou uma toalha macia para secar. Descalço, caminhou pelo quarto até chegar à janela, e ao abrir, viu o sol que brilhava forte em seu rosto e os pássaros alegres, que anunciavam um novo dia. Na verdade, já não era tão cedo, mas por ali, pelo menos pras pessoas como ele, o dia ainda estava começando.

Vestiu-se com suas roupas sociais, afinal, era preciso esquecer suas lamúrias da madrugada e trabalhar. Sentou-se a mesa para tomar o seu café e comer qualquer coisa rápida como de costume. Não entendia bem porque, mesmo comendo apenas uma fatia de pão ou até mesmo só uma torrada, a cozinheira deixava a mesa cheia de guloseimas, desde bolos até mousses e frutas que pareciam que haviam sido escolhidas no mesmo dia.

Pegou sua pasta e saiu apressado, pois sabia que mesmo de carro, não escapava de correr o risco de se atrasar, ainda mais considerando o trânsito atual. Colocou suas músicas favoritas, e respirou o “puro” ar do seu sistema de ar-condicionado no carro, afinal, não se dava ao luxo de andar de janela aberta, pois além do ar carregado de fumaça, havia também o risco de roubos naquela área.

Chegou à empresa a tempo, e tratou logo de fazer o que mais gostava. Ou pelo menos fazia um esforço para fingir que gostava para se sentir melhor.  Afinal, o serviço não era ruim, mas ainda não era ali que ele queria estar. Para sua sorte, caiu nas graças do chefe, e sempre que ele chamava, deixava seu trabalho de lado para participar das reuniões que poucos tinham acesso.

Na hora do almoço, saiu com alguns amigos para o restaurante de sempre. Fazia muito tempo que não se preocupava com a conta, afinal, um dos amigos presentes era o próprio chefe e hoje não seria diferente. Antes de voltar ao trabalho, sentiu uma leve dor de cabeça, uma pontada de repente, mas não poderia ser nada demais, apenas o calor; mesmo assim, seu chefe, amigo, o deixou ficar em casa o resto do dia para ficar bem recuperado, com a promessa de que pediria a alguém que estivesse com o serviço adiantado para fazer um pouco do dele.

Foi para casa tranquilamente e ao chegar, se deitou para descansar. Teve a impressão de sonhar novamente com aquele lugar… Sujo, nojento, pior que a sarjeta. Sentiu o cheiro forte de algo podre, e um som ensurdecedor. Novamente com o coração acelerado, abriu os olhos.

Já estava escuro do lado de fora, porém sua casa estava quieta demais. Saiu do quarto, ainda abalado, e cada vez mais desconfiado. Todas as luzes de casa estavam apagadas, como se a empregada simplesmente não estivesse lá para acendê-las. Chamou-a, porém apenas o silêncio estava presente. Deu mais alguns gritos, porém nada acontecia. Andou pela casa, e depois de tropeçar em algumas coisas, conseguiu acender o lustre principal.

Horror. Alguns móveis revirados, e rastros de sangue que levavam até a escada como se alguém tivesse tomado banho com ele e subido as escadas. Mesmo sentindo as piores náuseas com a cena, seguiu para a cozinha, pois aparentemente os rastros começavam de lá. Suas pernas tremiam de medo, e não conseguia pensar direito. Sentiu o suor frio descer pelas costas, e notou que seja lá o que tinha feito aquilo, poderia pegá-lo a qualquer momento, afinal, ele não tinha nenhum segurança em casa naquele dia.

Quando chegou a cozinha, abafou um gemido mórbido com a mão e de repente, lembrou-se do nome da empregada. De nada adiantaria chama-la pelo nome agora, afinal, ela não tinha condições de responder. Pensou que talvez pudesse ser uma brincadeira, extremamente sem graça de halloween, afinal, sua empregada era jovem, e vivia comentando na cozinha com outras empregadas sobre festas que ele jamais iria devido a sua condição social. Apenas ela ficava durante a noite quando os seguranças estavam de folga.

Aproximou-se do corpo que estava pendurado pelas mãos, num objeto onde se pendurava alguns talheres, de forma que ela estava de frente para parede com as pernas flexionadas para trás, quase como se estivesse ajoelhada em um banco. Sua roupa toda manchada de sangue já produzia um cheiro horrível e a hemorragia que vinha do pescoço brilhava sob a luz do lustre da cozinha. Quando tocou em sua cabeça, teve todas suas dúvidas e certezas extintas como fumaça ao vento.

A cabeça rolou pelo corpo, quicando no chão como uma fruta madura quando cai do pé. A boca levemente aberta, completamente tomada por um tom vermelho quase preto, e os olhos semiabertos, deixando a situação ainda mais macabra.

Percebeu que agora ele estava chorando como criança, com medo do bicho papão que jurou ter visto embaixo da cama. Quando colocou suas mãos no rosto para enxugar as lágrimas, notou que elas estavam grudentas. Mais sangue. Era como se ele tivesse pegado a cabeça e brincado com ela até que suas mãos ficassem naquele estado. Como havia chegado naquele ponto? Havia apenas tocado com um dedo e não com a mão inteira, muito menos com as duas. Há quanto tempo suas mãos estavam daquele jeito e não havia percebido? Olhou mais uma vez horrorizado para o ambiente em sua volta. A cozinha estava tão bagunçada quanto o resto da casa, e praticamente todas as facas estavam cobertas de sangue. Percebeu então que não só suas mãos estavam sujas, como suas roupas também.

Saiu caminhando pela casa atordoado, a cabeça rodando e os olhos sem conseguir focar em nada. Tropeçou em outro móvel jogado e caiu sob um tapete dobrado, e a única coisa q conseguiu fazer foi virar de barriga pra cima e olhar o teto com o lustre luminoso da sala que brilhava forte, iluminando o local do terror. As lágrimas vieram, embaçando mais a sua visão, e logo o cheiro de podridão tomou conta de suas narinas novamente.

Uma rua suja, e apenas a luz da rua sob sua cabeça. Deitado num beco, próximo de uma parede pegajosa de lodo, levantou e se sentou na calçada. Olhou a rua e os carros passando, as pessoas que por ele passavam muitas vezes o chutando como se fosse um lixo.

“Um sonho…” Murmurou… A vida que tinha os sonhos que tinha, destruídos naquela noite, e toda vez que dormia, só conseguia sonhar com sua vida boa, e que a sua situação atual era um sonho ruim…

“Malditos sonhos…” disse ao se levantar e cuspir no chão. “Até que eu gostava da empregada…” disse a si mesmo ao sair caminhando mais uma vez sem rumo pela cidade, em busca de outro lugar para dormir em paz.

 

juhliana_lopes