Quem é o assassino? #8

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Liam precisava pensar rápido, mas ao mesmo tempo precisava agir com cautela. Cada vez mais que tentava fazer com que Boris parecesse ter razão naquela história toda, se distanciava do que realmente queria. Enquanto isso, Adam permanecia na cadeira principal, sem qualquer problema. A morte de Manoela foi o suficiente para que a polícia começasse a fazer perguntas demais, e a ausência de Adam naquele dia foi o suficiente para que eles ficassem por lá tempo demais. Além disso, ainda precisava se preocupar com Isaque que poderia denunciar Boris após a sua tentativa de assassinato. E o envolvimento dele com Anne, com uma carona aparentemente informal em um horário estranho, era extremamente peculiar…. “Só pode ser isso! ”, pensou consigo.

Boris espumava de raiva. Além de Isaque não ter morrido e levado sua arma, ainda tinha a polícia investigando a morte da moça para completar. Ele estava irritado, e completamente ansioso para que eles fossem embora. Adam havia se ausentado. Ele achava que tinha esse direito. Ele, o velho que deveria estar com a empresa toda para si, tinha que assumir os problemas, enquanto o garotão tirava um dia de folga. Respondeu a todas as perguntas dos policiais da forma mais mal-humorada que podia e esperou pacientemente que eles fossem embora depois que fazer a perícia e interrogar mais alguns funcionários.

– Com licença. Boris, posso conversar com você um minuto? – Disse Liam batendo na porta com um tom de voz tímido e submisso.

– Não é uma boa hora. – Boris respondeu seco, virando-se para a janela com as mãos para trás.

– É que tem uma coisa que você precisa saber…. – Insistiu Liam.

– Fale logo.

– Acredito que Isaque tenha ficado abalado com a sua investida. Ele procurou Anne, e eles vieram para o trabalho juntos essa manhã.

– E o que eu tenho com isso? Se ele tiver contado para ela, não vai ter como provar…. Não havia câmeras. Posso dizer que a arma é dele e ele que me ameaçou. Ela não viu, não pode testemunhar a favor dele, e mesmo que ela faça isso, você pode testemunhar a meu favor…. – Respondeu Boris de uma vez. Liam ficou levemente surpreso com todo o raciocínio de escape do velho. Julgava que ele fosse um pouco mais burro. Em todo caso, resolveu ir além.

– Não Boris, você não entendeu. Anne é perigosa. Logo depois que Clara foi encontrada enforcada, eu desconfiei de algumas atitudes dela. Resolvi investigar por conta, pois Clara era muito minha amiga e aquela história de que ela havia se matado por amor, ficou muito mal contada. Descobri isso no armário de Anne…. – Disse Liam colocando sobre a mesa uma garrafa pequena de vidro, com um líquido transparente dentro.

Boris olhou com cara de paisagem. Estava nítido que ele ainda não havia comprado aquela história.

– Isso Boris – Explicou Liam – É usado para dopar as pessoas. Um pouco disso num pano faz a pessoa dormir. Eu acho que Anne matou Clara. E também acho que ela tenha matado a Meg, a primeira funcionária, afinal elas viviam juntas.

– Liam…. – Disse Boris pensativo – Onde, exatamente você quer chegar?

– Como pode ser tão ingênuo meu amor? – Disse Liam, com um leve refluxo no estômago ao dizer aquelas palavras – Você ameaçou Isaque de frente, e ele com medo, deve ter contado para Anne o que aconteceu e deve ter pedido ajuda a ela. Você corre perigo! – Liam disse em tom de suplica pegando as mãos de Boris. – Ela vai matar você!

– Liam…. – Disse Boris acariciando o rosto do rapaz – Fico extremamente tocado com sua preocupação comigo. Mas, acho que está indo um pouco longe demais com seus pensamentos. Deve ter alguma outra explicação para esse líquido no armário dela. – Ele disse tentando tranquilizar Liam.

Boris então, deu uma volta pela sala, certificando-se que a porta estava fechada.

– Em todo caso…. – Ele continuou – Se os dois apareceram juntos, logo depois da minha ameaça, e se suas suspeitas estiverem certas, acredito que eu precise me ter um pouco mais de cautela mesmo.

– Com certeza! – Disse Liam, levemente animado com seu plano. – Eu não posso falar nada. Tenho medo de que ela tenha visto que eu a vi com Isaque. Mas você pode tirar suas próprias conclusões. Pergunte sobre Meg, de forma desinteressada, e veja sua reação. Ela não vai desconfiar de você, por que qualquer coisa você só está tentando puxar assunto para diminuir o clima ruim da empresa e ter mais amizade com os funcionários antigos…. – Disse Liam torcendo para que Boris mordesse a isca.

– Irei tentar. Agora saia, é melhor para você. – Disse Boris sem paciência.

Liam saiu sem dizer mais nada, com um sorriso triunfante. Arriscou muito com seus detalhes, mas era preciso colocar mais gente na mira de Boris. Foi surpreendido por Adam virando o corredor com outro rapaz.

– Ah, olá Liam. – Disse Adam, enquanto andava com pressa.

Liam não respondeu, apenas acenou com a cabeça. O rapaz que estava atrás dele, mal o olhou e seguiu Adam com pressa até a sua sala. Enquanto estava no bebedouro, logo viu Isaque seguir para a sala dele também acompanhado dos policiais.

Boris ficou digerindo as informações de Liam. Será mesmo que corria perigo? Em todo caso precisava arriscar um pouco para ter mais informações. Não seguiu o conselho de Liam e resolveu intimidá-la, acreditando ser uma forma melhor afinal, ela era só uma mulher e qualquer coisa poderia demiti-la facilmente. Após dar uma volta pela empresa, percebeu que ela não estava nas salas e nem no refeitório. Resolveu procura-la no vestiário e viu que havia alguém tomando banho. Se escondeu em um dos privados e esperou.

Anne, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Esqueceu de deixar sua roupa mais próximo, mas não havia problema. Saiu descalça, pisando com cuidado no chão liso. Ao ouvir seu nome, parou subitamente perto dos armários.

“Anne”, uma voz masculina chamou novamente. Ela não respondeu e também não se virou. Ouviu então uma porta abrir atrás dela.

– Como está a Meg? – Boris disse com um tom ameaçador, indo na direção dela.

– Morta. Não lembra senhor? – Respondeu Anne friamente reconhecendo a voz do seu patrão.

– Claro que está não é mesmo? – Disse Boris, sussurrando agora próximo do seu pescoço.

– O que o senhor está fazendo no vestiário feminino? – Perguntou Anne com a mesma frieza de antes.

– Eu só vim ver se estava tudo bem. Com tantas mortes acontecendo, eu iria odiar que mais uma acontecesse…. Assim, por acaso… – Boris agora falava próximo do ouvido de Anne, acariciando os braços dela.

– Não vai acontecer nada comigo senhor. – Respondeu Anne. – Pode ficar tranquilo.

– Assim espero. – O velho respondeu agora segurando a cintura de Anne. – Não importa o que o Isaque tenha lhe falado, ou…. Lhe pedido. Ninguém mais vai morrer aqui, certo?

– Senhor, poderia por favor tirar as mãos de mim? – Pediu Anne virando o rosto levemente para o lado.

– Claro…. Talvez você prefira um toque diferente…. – Disse Boris levando as mãos até o seu quadril, apertando levemente as suas coxas enquanto respirava forte em seu pescoço.

Anne então se virou para lhe dar um tapa na cara, mas ele segurou uma de suas mãos, a fazendo inclinar para trás. Anne tentou manter o equilíbrio e com a outra mão segurou sua toalha. Boris então lhe deu um soco no estomago, fazendo a moça cair e saiu devagar.

– Nada aconteceu aqui Anne. Assim como nada vai acontecer, por que toda ação tem uma reação, e você não vai querer ver o que vai te acontecer caso queira inventar alguma coisa. – Disse Boris antes de sair e ir para sua sala.

Anne se levantou devagar e se vestiu. O soco não havia doído, porém seu pensamento estava a mil. Boris havia enlouquecido? O que havia dado naquele veado velho para lhe ameaçar daquela forma? E porque havia citado Meg depois de tanto tempo? Saiu do vestiário e foi para sua sala, porém ao passar pelo corredor, percebeu que Liam estava seguindo Isaque, logo depois dele deixar a sala de Adam. Seu olhar escureceu e soube o motivo para aquilo tudo, e soube também que não poderia deixar barato.

Adam estava preocupado. Primeiro os policiais, e depois a história que Isaque lhe contou. Não sabia até que ponto aquilo poderia ser verdade, mas em todo caso era um sinal de que tudo aquilo estava indo longe demais. Depois que os policiais foram embora, Felipe tentou puxar assunto.

– Sua empresa é legal até. Prédio bonito.

– Você acha? Pena que todo mundo que entra aqui morre. – Disse Adam desinteressado.

– Você parece arrependido. – Argumentou Felipe.

– E não era para estar? De um lado pessoas morrendo e você correndo o risco de responder por isso. Do outro um velho nojento que quer roubar seu lugar na empresa, e pelo visto a todo custo. A minha vontade é dar essa merda para ele e voltar para nossa vida de antes. – Disse Adam frustrado.

– Qual é Adam? Você lucrou aqui em alguns meses mais que o triplo que toda a nossa renda até agora. Tudo bem que as coisas andam pesadas aqui, mas ainda vale a pena. – Encorajou Felipe.

– Você tem razão. – Respondeu Adam. – Mas o que eu posso fazer com Boris? – Ele disse mais para si mesmo do que como uma pergunta de verdade.

– Não há uma forma de denunciá-lo por fraude? Deve ter um jeito e….

– Senhor, mandou me chamar? – Disse Isaque interrompendo Felipe ao entrar na sala.

– Sim. Preciso que você pegue a nossa lista de fornecedores e clientes. Preciso dos endereços de todos eles para que eu possa mandar os convites. – Respondeu Adam.

– Convites? – Perguntaram Isaque e Felipe juntos.

– Sim. Vou fazer um coquetel para todos. Eu estava planejando isso antes da morte da moça, então não vou deixar de fazer. Em todo caso, agora tenho um motivo mais forte para fazer. – Explicou Adam.

– Como assim Adam? – Perguntou Felipe.

– Vou achar uma forma de manchar a imagem de Boris e tirar ele daqui, e claro, achar uma forma de denunciá-lo, porém, antes disso vou manipular algumas coisas para que ele ache que tudo não passa de paranoia da cabeça dele, dessa forma ele não vai desconfiar de nada. O coquetel será em homenagem a ele, pelos longos anos de serviço por ele dedicados a empresa…. – Respondeu Adam com um sorriso de canto.

– Acho que sei o que pretende…. – Disse Isaque. – Vou preparar tudo agora mesmo. – Ele disse saindo da sala.

– Eu ainda estou boiando, mas tudo bem. – Disse Felipe dando os ombros.

– Você vai entender amigo. Vai entender e eu vou precisar da sua ajuda…. – Respondeu Adam com tom sombrio.

– Eu já vi esta expressão antes Adam…. – Disse Felipe preocupado e ao mesmo tempo interessado. – O que pretende, realmente?

– Ouça bem amigo, pois só vou explicar uma vez. – Respondeu Adam com frieza.

juhliana_lopes 19-07-2016

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Mais um louco – A despedida

janela

Fiquei surpresa, a verdade é que nas conversas que tive com todos os meus pacientes, nunca ninguém havia perguntando algo sobre mim.

– Ah… Eu estou bem…

– Mesmo? Seu olho tá meio inchado… Andou chorando?

– Sim… Mas não é nada importante…

– Fala…

– Tudo bem, vai… Também estou passando por uma separação… Meu marido não concorda com a minha profissão, acha que posso trazer perigo a nossa filha. Já faz um tempo que eu parei, justamente pra cuidar dela quando começou os ataques de asmas…

– E mesmo assim seu marido acha que você oferece perigo? Eu não tive filhos, mas se eu tivesse e minha esposa largasse o emprego pra cuidar da nossa filha eu iria ficar bem mais aliviado do que deixar ela na mão de uma babá… E asma sempre é um problema…

– Pois é… Mas voltando a você, vou ver o que posso fazer. Mas preciso saber você prefere a cadeia ou aqui?

– Aqui. Pelo menos terei paz.

– Certo. Fica bem, eu volto pra te visitar algum dia…

– Obrigado. E obrigado por me ouvir…

– Não há de quê. Obrigada também por perguntar… Ninguém nunca faz isso…

– Então estamos empatados. – Ele sorriu e me acompanhou até a porta. Bati e os médicos abriram. Ele me olhou uma ultima vez e voltou a se sentar no cantinho. Eu fui falar com os policiais.

Conversei com o delegado, com os policiais, com todos que eram possíveis. Ele ficaria no sanatório a contragosto dos familiares da senhora.

Naquela mesma noite, curiosamente o sanatório foi incendiado, e as investigações posteriores mostraram que foi causado por um grupo de policiais pelo lado de fora.

Alguns loucos sumiram, outros foram salvos e pelo menos três tiveram o corpo carbonizado.

Naquela noite, meu marido estava saindo de casa e eu chorando na sala, sem saber o que fazer. Tentei dormir, mas não conseguia… Desci para beber água, e ouvi uns barulhos estranhos. Ignorei e voltei pro quarto. Quando eu estava quase pegando no sono, corri para o quarto de minha filha.

– Oi mamãe!

– Mas… Você… Como?

– Oi, eu achei que uma visita seria adequado…

– Senta mamãe, ele está contando uma história…

Minha filha estava sentada na cama e ele num banquinho de frente pra ela, com um livro da coleção dela. Minha filha sempre tentava fazer o pai dela ler pra ela, mas ele “nunca tinha tempo”… Sentei do outro lado da cama e quando ele terminou de ler (coisa que fazia muito bem para criança, gesticulando, e fazendo caras e bocas quando falava dos personagens e suas reações), minha filha havia caído no sono.

Levei até a cozinha e conversamos.

– O que aconteceu no sanatório?

– Pegou fogo.

– Mas…

– Não fui eu. Veio de fora. Uns caras morreram, então coloquei a minha roupa num deles, e sai. Alguns fugiram e eu aproveitei a oportunidade.

– O que pretende fazer agora?

– Não sei. Vou ter que ficar um tempo escondido. Vou tentar ir pra outra cidade, até mesmo outro estado. Tentar refazer a minha vida.

– Entendo. Como você entrou aqui?

– A janela estava aberta. Pensei que era seu quarto. Quando entrei, a menina acordou com um livro na mão, dizendo: lê pra mim papai… Respondi que não era o pai dela, que era seu amigo e estava fazendo uma visita. Ela não ligou muito e pediu pra eu ler. Ela gosta dos livros né?

– Sim. Sempre que posso eu leio. Mas o pai dela… Ele foi embora hoje…

– Entendo. Você vai ficar bem?

– Vou sim.

– Então eu posso ir mais tranquilo.

– Qual seu nome? Nós conversamos tanto e eu não sei seu nome… Se bem que agora isto não vai importar muito…

– É Henrique. Mas se quiser me procurar pra conversar, vou me chamar Fernando. Era o nome do meu irmão. Provavelmente estarei na cidade vizinha, aquela que ninguém vai, trabalhando em algum mecânico.

– Certo. Meu nome é Amanda. Eu não vou mudar de casa. Pode me visitar quando quiser. O nome da minha filha é Alice.

– Bonito nome. E ela também é linda. Deve ter puxado a mãe…

Continuamos conversando e tomando café. Já estava amanhecendo quando ele foi embora. Naquele mesmo dia fiquei sabendo da morte do “Henrique” e de mais dois internados do sanatório. Passei a ficar em casa com minha filha e quando ela estava na escola, eu dava aulas particulares de piano. Logo precisaria de alguém para ficar com ela e trabalhar para sustentar a casa. A vida aos poucos voltava ao normal para mim. Pergunto-me às vezes se para “Fernando” também. Faz tempo que não o vejo, mas minha filha me conta que ele a visita às vezes para lhe contar histórias e juntos os dois me observam dormindo. Sei que não é sonho dela, porque além trazer bichinhos e bonecas, ele sempre deixa uma rosa num copo com água em cima da mesa da cozinha.

Não acho que estou louca. Não acho que os loucos são “loucos”. São apenas pessoas que precisam de atenção. São apenas pessoas que precisam de alguém que lhes pergunte: “O que aconteceu? Diga-me, você está bem?”. Falando nisso, você, está bem?

/juhliana_lopes 29-01-2013