Olhos verdes

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Era um ambiente novo, bem equipado e com cheiro de tinta. Camas devidamente arrumadas, lençóis limpos e refeitórios organizados. Estava tudo pronto. Andaram por mais alguns corredores, com os passos ecoando entre os espaços vazios. Pararam então no pátio, onde o sol entrava pela janela, iluminando parte do ambiente.

– Acho que não dura uma semana. – disse um dos doutores.

– O que disse? – respondeu o outro com a cabeça baixa.

– Bem Andy, é só você ver. Limpinho demais, organizado demais, pra quando eles chegarem bagunçarem tudo. Devemos admitir, são piores que crianças nesse quesito.

– Regis, olha eu não acho que devemos pensar assim. Estamos aqui para ajudar não é mesmo? – respondeu Andrew colocando a mão no ombro de seu amigo.

– Sim, mas isso não impede deles fazerem bagunça. E cara, meu nome nem é Reginaldo para você ficar me chamando de Regis… – respondeu Regulus dando as costas para o amigo.

– Sei lá cara. Fica estranho te chamar de “Reg”, parece que to falando de música de reggae… – Respondeu Andrew rindo.

Ouviram então o barulho no portão. Os primeiros pacientes estavam chegando e eles ajudaram as enfermeiras a acomodá-los. Alguns estavam assustados e foi preciso sedá-los para que se acalmasse. Outros, ficaram quietos, observando todos os detalhes. Alguns puxaram conversa, perguntaram tudo sobre o local, e ficaram animados em caminhar pelo pátio e aproveitar o sol ameno da manhã.

Porém, havia um que estava quieto demais. Entrou no quarto, sentou no chão e ali ficou. As enfermeiras estranharam e chamaram o Dr. Regulus. Ele entrou, se abaixou próximo do paciente, falou algumas coisas e saiu, dizendo para elas que não precisavam se preocupar.

O dia então se passou. Regulus atendia outro paciente quando as enfermeiras procuraram o Dr. Andrew.

– Doutor, estamos preocupadas.

– O que aconteceu?

– É o paciente do quarto 225. Ele chegou, sentou no chão e esta lá até agora. Não quis comer, não quer falar. Já chamamos o Doutor Regulus, e ele disse que não precisava a gente se preocupar, mas ele está quieto demais…

– Entendo. Vou dar uma olhada.

E então Andrew seguiu as moças até o quarto do paciente.

O paciente, que aparentava ser alto, quase 1,90, sentado no chão com as pernas cruzadas como se estivesse em posição de lótus, não gesticulava, não se mexia e nem resmungava. Mal respirava. Não quis trocar de roupa. Seu cabelo escuro na altura do pescoço, ocultava parte do rosto já que estava com a cabeça levemente baixa. Andrew entrou, com um sonoro boa noite e aguardou. Quando ia dar um passo para se aproximar, ouviu o paciente dizer em um tom de voz rouco e grave.

– Quem é você?

Surpreso, pois ele continuava de costas para a porta, respondeu.

– Sou o novo doutor. Andrew é o meu nome, mas pode me chamar de Andy se quiser.

– Não há nada para você aqui Andy.

A voz dele era profunda e pesada. A resposta era curta e grossa, mas mesmo assim Andrew se aproximou e sentou-se no chão, de frente para o paciente. Ele não levantou a cabeça, mas mesmo assim o bom doutor insistiu em falar com ele.

– Você gostou do seu quarto novo? Devia ver a cama, é bem macia! E você vai ter roupas limpas também, vai ser bem melhor. Gostaria de experimentar?

Andrew viu então o rapaz levantar levemente a cabeça e abrir a boca para lhe dizer alguma coisa, mas ele parou e ficou lhe encarando. Animado, tentou puxar novamente um assunto, mas logo foi surpreendido pelo paciente. Em um movimento rápido, ele levou a sua mão até o pescoço, e o prensou com o braço contra a parede, o levantando para deixar seus olhos na sua altura. O doutor, desesperado com a força do paciente, gesticulou para que as enfermeiras buscassem ajuda, já que ele não conseguia gritar. Andrew então viu que o paciente tinha olhos verdes. Grandes olhos verdes raivosos, semicerrados. Sua força era extrema e aos poucos ele sentia que perderia a consciência.

Regulus entrou batendo com o pé na porta e gritando:

– Diego, solta ele agora!

Diego, o paciente, assustado com o barulho tirou o braço, fazendo o doutor cair no chão. Regulus se aproximou de Andrew que ainda estava consciente. Quando se virou novamente para Diego, recebeu um golpe no estômago, caindo em cima da cama. Enquanto isso, Diego se voltou novamente para Andrew, montando sobre ele com as mãos em seus ombros.

– Onde está ela? – Diego falou alto.

– Eu… Eu não sei… De quem você está falando? – respondeu Andrew assustado.

– Ela está no outro prédio Diego! Solta ele, eu já te disse! – respondeu Regulus, tentando dar uma chave de braço no paciente.

– Por que ele tem os olhos dela? Você disse que só eu tinha os olhos dela! – disse Diego, um pouco choroso, enquanto Regulus o puxava para a cama para sedá-lo.

– Andrew, sai daqui! – ordenou Regulus. – Ele não tem os olhos dela. Os olhos dele não são verdes como os dela e nem como os seus. Só você tem, me ouviu? – Regulus disse, agora com um tom mais doce, olhando para Diego, enquanto preparava o remédio.

– Eu quero ela aqui. Eu quero vê-la! – Diego, ainda com o tom grave, falava como uma criança mimada.

– Ela vai vir te ver ok? Mas não hoje e nem amanhã, mas eu prometo pra você que quando ela vir, você vai ser o primeiro a saber. Agora dorme… – Disse Regulus calmamente enquanto aplicava a injeção.

Enquanto isso, do lado de fora, Andrew esperava assustado, sem entender muita coisa. Regulus saiu, e o levou até o refeitório.

– Quem é esse cara? – perguntou Andrew enquanto tomava um copo de água.

– Um paciente antigo do outro prédio. Tivemos que tirar ele de lá.

– Quem é a moça dos olhos verdes que ele falou?

– Uma paciente. Da ala feminina, os dois ficavam próximos no eventos de família que fazíamos com os pacientes bonzinhos.  Ela adorava ele, e os dois estavam realmente progredindo. Até que um dia apareceu um outro paciente de olhos claros, mas os dele não eram verdes de verdade. Esse cara começou a perseguir a moça nas festas e Diego percebeu. Quando ele viu que o cara tinha olhos claros, associou que era verde e tentou arrancá-los, dizendo que somente ele poderia ter os olhos dela. Ali ainda conseguimos controlar a situação, mas então… – Regulus fez uma pausa fechando os olhos.

– O que aconteceu Regis?

– Bem, esse paciente novo, tentou prender a moça no quarto dele. Diego ouviu os gritos dela e ficou completamente insano. Ele salvou a moça, entregando ela sã e logicamente muito assustada para as enfermeiras. Já o rapaz…

– O que ele fez? Conta logo cara! – disse Andrew ansioso.

– Ele quebrou os braços do outro cara Andy. Mas não quebrou como qualquer um quebraria. O ortopedista que examinou disse que parecia que um caminhão havia passado por cima dos ossos dele. Tiveram que colocar uma placa de titânio para tentar consertar. Além disso, ele tentou arrancar os olhos do cara de novo e não conseguiu, mas deixou cicatrizes pelo rosto do paciente. Por isso que esse novo espaço foi agilizado. Para que ele pudesse ficar longe.

– Regis, eu… Eu podia ter morrido ali.

– Por isso eu falei pras enfermeiras pra ficar tranquilas que iria ficar tudo bem, só esqueci de avisar a você pra ficar longe dali.

– Agora eu já aprendi a lição.

– Espero que sim.

Andrew terminou a sua água e continuou a olhar os outros pacientes. Regulus verificou como Diego estava e conversou com as enfermeiras.

No fim da noite, Andrew passou pelos corredores para ver quais pacientes estavam dormindo. Passou então pelo quarto de Diego e olhou rapidamente pela janela da porta. Não havia ninguém. Pensou em chamar Regulus para olhar, mas talvez não houvesse tempo. Abriu a porta rapidamente para ver se não tinha sido apenas impressão mas não havia ninguém.

– Ah, merda! Onde ele foi parar? – Andrew falou baixinho, olhando embaixo da cama e no banheiro. – Onde será que ele está?

– Aqui. – respondeu Diego, dando uma chave de braço em Andrew e tampando seu nariz e boca com a outra mão. – Agora fica quietinho que eu prometo que não vai doer nada.

Regulus correu o mais rápido que pôde quando ouviu os gritos dos pacientes da ala leste. Apertou o passo quando ouviu os gritos de Andrew e parou subitamente quando ouviu a risada macabra de Diego.  De fato, os olhos dela eram somente dele.

juhliana_lopes 03-04-2016

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A nova doutora

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Desde o afastamento da última doutora que além da sua loucura visível, também foi diagnosticada com vários transtornos pós-estresse. Além disso, foi acusada de introduzir remédios controlados em alguns colegas de trabalho, misturados com outras substâncias, fazendo com que sua saúde também ficasse debilitada.

O hospital e manicômio passaram então por uma reforma e sob a nova direção, agora sob o comando do diretor Doutor Rodrigo, eu fui contratada.

A rotina era simples na ala que fiquei responsável, afinal, as moças em sua maioria eram quietas, e as mais agitadas estavam ocupadas bordando ou fazendo algum tipo de trabalho artístico.

Todas as terças, sempre que podia, reunia os internos e tocava algumas músicas para eles em meu violão. Era gratificante vê-los interagir e muitas vezes relembrar coisas boas de seu passado são.

Ainda sim, o marasmo me deixava inquieta. Queria fazer mais e sempre tentava entrar na ala masculina ou na recepção dos pacientes mais nervosos. Mantinham-me afastada, pois apesar dos meus anos de experiências, eles queriam deixar cada um em seu lugar.

Foi num dia se sol e festa que conheci a doutora que um dia foi uma das mais respeitadas do hospital. A única que conseguia controlar os loucos mais violentos, sem precisar tocar em um só membro. A única que tinha o respeito de todos. Estava visivelmente fraca, e apesar do assédio de todos que buscavam notícias ou simplesmente uma conversa sem importância, procurava se isolar sempre que podia.

A festa era em comemoração ao dia de São Patrício, e o local estava todo decorado de verde e laranja. Além de comidas típicas, a equipe do hospital distribuiu algumas fantasias aos internos, muitos estavam contentes com a festa, outros pareciam um pouco perturbados pelas cores fortes e ficavam pelos cantos.

Deram-me uma fantasia também, mas preferi manter minhas vestes brancas.

Mais tarde, quase no fim da festa, resolvi tentar conversar com a doutora tão famosa.

Para minha surpresa ela foi muito gentil, e nem de longe parecia estar doente como foi diagnosticada. Em todo caso, esta era uma das características particulares que já me avisaram sobre ela, afinal, foi por acharem que ela estava boa que a deixaram voltar ao trabalho, e foi por esse mesmo motivo que ela acabou causando um caos quase que irreversível.

Um dos meus problemas sempre foi à curiosidade, e ela não deixou de me incomodar quando a doutora me entregou uma chave, e disse apenas que se eu quisesse conhecer o hospital todo, aquela chave abriria tudo. Guardei tentando ignorar o significado, tentando fingir que poderia ser mais um delírio, mas eu sabia que não era. E ela sabia que eu sabia.

Ela sabia mais. Sabia que eu queria conhecer a ala masculina. Sabia que eu queria conhecer a parte dos violentos. Sabia que eu queria poder tomar conta de tudo como um dia ela tomou. Sabia que no meu íntimo eu desejava ter o mesmo controle e respeito que um dia ele teve.

Guardei a chave comigo e fiz um cordão com ele, deixando no meu pescoço, oculto pelas minhas roupas. Três dias depois, na minha folga, resolvi dar uma volta sem compromisso pelo hospital. Eu tinha autorização de sair pela cidade ou qualquer lugar que fosse quando não estivesse no meu horário de trabalho depois que escolhi morar lá, mas ainda sim, gostava de ficar naquele ambiente que muitos não pensariam duas vezes em ficar longe.

Passei pelo portão da ala masculina. Senti a chave fria em meu pescoço, mas não arrisquei. Perdida em meus pensamentos fui surpreendida pelo Doutor Rogério, irmão e braço direito do Diretor Rodrigo. Ele me convidou para um café em sua sala enquanto perguntava sobre o hospital e como estava sendo minha experiência no local. A conversa estava boa e amistosa, até ele fechar a porta da sua sala e trancá-la sutilmente, agindo como se não tivesse feito nada.

Então, ele mudou a pose e ficou levemente mais grosseiro e bonachão. Disse que pretendia assumir a direção do hospital e cortar muitos “privilégios” que ele acreditava que existia no local, começando pelas festas de interação e o horário estendido de visitas nos fins de semana. Para ele, tudo aquilo não passava de perda de tempo, e nenhum daqueles “trastes” muitos deles “assassinos cruéis” não mereciam o menor apreço.

Ele começou a me olhar mais profundamente e a acariciar meus ombros. Falava coisas em meu ouvido e então começou a ousar mais passando a mão pelo meu corpo. No início meu sangue gelou e eu fiquei paralisada sem reação. Eu queria sair dali, mas não sabia como. Eu queria entrega-lo a todos, mas sabia que ninguém acreditaria em mim.

Ainda surpresa, ele pediu que eu me levantasse e me despisse para um “exame especial”. Meio hipnotizada, eu levantei-me, porém quando ele começou a desabotoar a minha blusa eu o empurrei. Ele, obviamente não gostou e se aproximou novamente, lentamente, tentando tirar a minha blusa. Mais uma vez o joguei para longe e me afastei indo em direção à porta.

Desta vez, ele segurou meu braço e me debruçou sobre a mesa, segurando minhas mãos nas costas e com a outra mão, tentando rasgar minhas roupas. Como não conseguia me segurar e me despir ao mesmo tempo, me deu algumas tapas e passava a mão em mim, me ofendendo. Eu tentava em vão me defender, mas era difícil, uma vez q ele tinha quase o dobro do meu tamanho.

Quando ele me virou de frente para rasgar a minha blusa, a porta da sua sala se abriu num golpe forte e então pude ver Rodrigo surpreso acompanhado de dois enfermeiros “armários” e a antiga doutora em seus trajes de paciente encardidos.

Os enfermeiros seguravam Rogério que gritava dizendo que eu havia pedido para ele fazer aquilo, e que eu o havia provocado.

Rodrigo me explicou então que depois que eu entrei na sala, a doutora que estava próxima, pois estava no seu banho de sol, avisou uma enfermeira e insistiu para que eles viessem até ali, pois ela havia ouvido gritos. Primeiro ele pensou que fosse invenção, mas quando passou como quem não queria nada e percebeu que a porta estava trancada, chamou dois enfermeiros que ouviram os meus gemidos e as tapas que ele me deu.

Agradeci muito pela defesa, e agradeci a doutora também que com um rosto sem muita emoção disse que só fez o trabalho dela. Após um mês do ocorrido, fui promovida a “braço direito” do Diretor, e seu irmão foi afastado e encaminhado a uma delegacia onde foi condenado a prestar serviço comunitário em uma escola militar do outro lado da cidade como punição por assédio, tentativa de estupro e desvio de verbas, além de alguns anos de prisão domiciliar.

Agora eu tinha acesso a todo hospital, mas ainda era a principal responsável pela ala feminina. A curiosidade sobre a chave acabou ficando um pouco de lado depois do aumento e algumas vezes, até pelo acúmulo de tarefas.

Um dia, à noite, após uma comemoração da administração pelos bons resultados, com uma dor de cabeça aguda causada pela leve ressaca de algumas bebidas, fiquei observando a lua que estava alta e cheia e era muito nítida da minha janela. Coloquei uma roupa qualquer e fui dar uma volta pelo hospital.

Com a chave em meu pescoço fui até o portão da ala masculina. Quando a chave girou sem sofrimento e abriu o portão em um click suave, abri com todo cuidado e entrei. O local era muito silencioso e calmo, nada diferente das outras alas do hospital.

Voltei para o meu quarto e dormi como uma pedra, dopada pelos vários remédios para aliviar a dor de cabeça.

Pela manhã, acordei ainda com um pouco de dor aguda, e um bilhete no chão, escrito com uma letra bem desenhada “Eu sabia que você ia lá. Agora vamos ao segundo passo… É preciso aprender mais.”.

Eu sabia de quem era aquele bilhete. Eu sabia o que ela queria que eu fizesse e o que ela esperava acontecer. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia o que eu não sabia, o que eu jamais imaginaria…

 

juhliana_lopes 17-04-2015

Enfim, de volta

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– Segundo o último relatório, não houve mais surtos, os níveis estão se normalizando, os remédios foram diminuídos e agora ela está tomando só alguns naturais para controle da ansiedade.
– Acha q ela esta pronta para voltar a vida em sociedade?
– Acredito que ela esta pronta até para voltar ao trabalho se quiser.
E assim saíram da sala em direção ao quarto para dar a boa notícia. Com a alta assinada, seguiram pelo corredor, onde no final a mãe já aguardava com a neta. Conversaram com ela, explicaram a situação e seguiram os quatro para o quarto da paciente.
Ao abrir a porta, ela estava escrevendo com giz de cera em alguns papeis para passar o tempo, mas ao ouvir a voz de sua filha, se virou sorridente e lhe deu um grande abraço. Depois, da levantou e abraçou sua mãe, ficando ali por um tempo.

A levaram para casa, e enfim ela pôde descansar. Dormiu durante um dia inteiro, e no dia seguinte passou o dia brincando com sua filhinha. Estava feliz, enfim em casa, enfim longe daquele lugar e longe dos pesadelos.

– Pensei que não fosse voltar…

– Pensou errado, sabe que não fico longe do trabalho.

– É mas você devia procurar outra coisa com o que trabalhar, só passou um mês fora…

– Olha, se for pra ficar medindo o que eu tenho ou não que fazer, me sustenta e sustenta a minha filha, ai eu fico em casa bonitinha sem encher o saco.

– Tudo bem, tudo bem, é só um conselho de amigo…

– Eu fiquei muito tempo aqui pra descobrir quem eram os meus amigos e de quem eu devia ouvir conselhos. Bom dia Dr. Felipe.

Ela estava enfim de volta, ao seu lar, ao seu posto, ao seu local de trabalho. Sempre foi a doutora maravilha que conseguia resolver todos os problemas, desde o consultório ao pacientes nervosos. Estava mais firme, com mais garra e quem sabe até o mesmo brilho de quando entrou naquele local a primeira vez.

Jamais imaginou que tentar viver fora dali lhe trouxesse tantos problemas como a um ano e meio. Depois da brincadeira dos pacientes no Halloween, onde por um segundo achou que estivesse perdida na mão de loucos insanos e estupradores, quando na verdade eles só estavam preparando uma festa de aniversário surpresa, pensou que não teria mais sustos por um longo prazo.

Foi por um enfermeiro que se apaixonou e pensou que poderia ser um ótimo padrasto para sua filhinha. Arthur era seu nome e foi com que ele com quem marcou o casamento no meio do ano passado e foi no dia do casamento que houve o surto geral. Alguns pacientes não gostaram da ideia de sua principal tutora se casar e dedicar seu tempo a outro homem que não eles. Odiaram mais ainda quando descobriram segredos sobre esse homem e então fizeram de tudo para alertá-la.

Vestida de noiva, teve seu casamento invadido por eles antes do sim, com gritos e agressões ao noivo. Pedindo entre lágrimas para que parassem, eles jogaram algumas fotos que conseguiram de forma totalmente clandestina antes que fossem retirados da igreja. Ela, pegou as fotos e gritou em seguida para que os soltassem. Seus olhos agora jorravam lágrimas entre soluços assustados sem crer no que seus olhos viam.

Abraçou a sua filha e perguntou em seu ouvido se ela gostava do “tio” e se ele realmente fazia o que estava ali na foto. Ela, chorosa, esfregou os pequenos olhos e balançou a cabeça que sim. Ele, tentando acusar os loucos, disse que eles o obrigaram a fazer aquilo, que nunca se quer tocou em uma criança e que tudo aquilo era só uma maneira de estragar a felicidade dos dois.

Enfermeiro, pedófilo e agressor de pacientes nas horas vagas, teve seu rosto arranhado com tamanha fúria que foi preciso dar pontos em alguns locais. Além disso, recebeu muitos hematomas dos pacientes que costumava espancar. Foi internado com hemorragia interna, e atualmente está preso.

Ela, além de ter sangue nas mãos, agora corria pelas ruas sem direção, gritando e agredindo qualquer um que chegasse perto, assustada como um bicho, alguns doutores como Bruno e Felipe corriam atrás dela tentando detê-la. Conseguiram contê-la em um beco, mas ao segurarem seus braços, foram jogados contra  a parece com uma força incomum. Seu corpo tremia e ela não conseguia pensar em nada. Sua visão turva a deixava confusa e seus ouvidos, tão atento aos ruídos, fazia sua adrenalina subir e reagir a qualquer brisa mais forte que passasse por perto.

Foi então quando Doutor Francisco se aproximava com uma seringa para tentar dopá-la, ela bateu em sua mão e quebrou a seringa na parede. O segurou pelo ombro e quando estava prestes a lhe dar um soco, foi ouviu um “pare” sonoro e imperativo. Era um dos seus pacientes que a chamava com sua filha no colo. Ela então conseguiu focar no rosto da sua filha que estava chorando e com tanto medo quanto ela. Então, se abaixou e ele a soltou no chão e as duas se abraçaram.

Depois de toda a confusão, ela foi internada e tomava remédios muito fortes. Descobriu depois que os próprios doutores Bruno e Felipe aumentavam as doses que o Doutor Francisco receitava para que ela não desse trabalho a eles.

Seus pacientes tentavam visitá-la, mas não podiam entrar na ala feminina, mas sempre mandavam cartas e presentes pelas enfermeiras para que ela nunca esquecesse deles.

Enfim se sentia melhor. Enfim estava boa, e pronta para voltar o trabalho. E como esteve fora por tanto tempo, havia ainda algumas coisas que precisava por em ordem…

– Ei, porque está aqui, pensei que ia estar lá embaixo medicando o pessoal, está na hora.

– Onde está o Bruno?

– Ele está de férias. Eu estou cobrindo o turno dele esqueceu? Sente-se bem, acha que pode trabalhar mesmo?

– Sim Felipe… Estou bem. Mas e você, acha que pode trabalhar desse jeito?

– Do que você está falando? Que seringa é essa? Ei, me largue!

– Medicação Dr. Felipe. Como você mesmo me orientou. Agora relaxe…

– Ei, me solta, socorr…

– Durma Dr. Felipe. Agora é hora do seu tratamento. Depois é hora de curar o Bruno e o Dr. Francisco. Mas primeiro, temos que curar você… – Ela disse com um sorriso levemente sádico preparando outra seringa. – Vamos ver quanto você aguenta…

 

juhliana_lopes 01-03-2015

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Paciente

10494863_732063346852960_6922425367116091794_nEle estava aflito. Ainda não sabia bem como havia se metido naquela confusão, mas sabia que não havia feito nada de errado. Aquilo estava consumindo suas ideias e então quando se deu conta, estava tão frágil que precisou ser internado. Aproveitou a estadia para descansar. Não era tão ruim quanto achava, pelo menos não naquela parte de “internos temporários”.

Quando a agonia não cabia mais no peito, resolveu ir até a sala que era temida por muitos para tentar desabafar.

– Eu tenho muitos sonhos sabe? A melhor parte de dormir é sonhar. Eu pareço e me vejo como uma criança porque tenho muitos sonhos bobos. Eu acho incrível, eu gosto muito. Esses dias mesmo, eu sonhei que havia uma bola num pedestal. Eu simplesmente chegava perto, ficava olhando, e depois com uma tapinha leve, fazia a bola bater na parede. Depois, quando ela parava no chão, eu ficava chutando de um lado para o outro brincando feliz. Hilário. Outro dia, sonhei que estava numa rua com outras crianças, e então, surgiam algumas trincheiras e tudo parecia ter sido transformado num campo de batalha. Nós havíamos nos transformado em soldados, e estávamos lutando por nossas vidas, porém as armas eram de água. Era como se a brincadeira tivesse ganhado mais realidade, mas ainda éramos crianças brincando com arminhas de água. Foi muito divertido, lembro que consegui render um amigo meu e jogar água molhando o rosto dele, e logo depois eu batia com a arma na cabeça dele bem fraquinho, imitando os caras dos filmes quando querem que o outro desmaie. – dizia ele um pouco sem graça.

– Você se sente bem com esses sonhos? – ela olhava em seus olhos quando perguntava, com um tom imparcial. Não estava ali para julgar, muito menos questionar, seu trabalho era apenas ouvir.

– Sim, muito, acho que nunca tive um pesadelo, nada nunca dá errado nesses sonhos, é muito bom, sobretudo brincar sem se preocupar…

– Você levanta durante a noite ou dorme direto? Já aconteceu algo de estranho?

– Não senhora. Tenho o sono pesado, então quando eu durmo, não levanto mais pra nada. A única coisa estranha que acontece é que eu nunca acordo do mesmo lado que eu fui dormir. Acho que me mexo muito a noite, mas nunca percebi nada… Acho que é algo normal, considerando que muitas pessoas… – ele dizia até que foi interrompido por homens grandes que entraram na sala como furacões já o agarrando pelos braços.

– PRENDAM ESSE ANIMAL! – dizia um homem baixinho meio gordo com óculos no meio do nariz.

– Mas o quê? – ele olhava em volta assustado, enquanto a doutora tentava apaziguar.

– Senhor, mantenha a calma, não vejo necessidade para tal ação, acredito que…

– Doutora, como não tem necessidade? Sabe de quais crimes esse seu “paciente” é acusado? – o homem baixinho falava apressado com o dedo apontado para o homem.

– Ei, me solta… – ele tentava se soltar, mais uma vez a doutora tentava falar em seu socorro.

– Senhor, o meu paciente…

– Ele é acusado de agredir uma pessoa na rua, sem motivo aparente, jogando a cabeça dela contra a parede e depois, assim que ela caiu no chão, chutar repetitivamente, deixando o rosto todo machucado. Ele também é acusado de perseguir pessoas na rua e depois de encarar assustadoramente um rapaz, derrubá-lo no chão, apontar uma arma em seu rosto e atirar, explodindo a cabeça do indivíduo. Isso sem falar em vários outros crimes! – dizia o homem ora arrumando os óculos, ora gesticulando como se o mundo fosse acabar.

– Isso é mentira, eu nunca fiz isso! – gritou desesperado, não havia feito àquelas coisas, e estava com medo dos brutamontes que apertavam seus braços com mãos firmes.

– Senhor, ele é sonâmbulo… – disse q doutora calmamente, mantendo o tom imparcial.

– Doutora, com todo respeito, você está brincando comigo? Acha mesmo que eu vou ser que nem você e cair nessa mentira dele?

– Não é mentira senhor. Ele dorme a noite e sonha. Os sonhos se mostram infantis pra ele, mas na verdade refletem as ações que ele realiza durante o sono. – ela tentava explicar.

– Não querendo lhe ofender Doutora…

– Mas já está ofendendo. Você está abusando da sua autoridade, primeiro porque não tem um mandado oficial, segundo porque ele é um paciente em tratamento, logo visto suas condições mentais, a justiça permite que ele cumpra a pena, depois de condenado aqui no hospital. Agora se puder soltar o meu paciente antes que eu chame os seguranças, eu agradeço. – Disse por fim num tom firme e autoritário. Era como uma professora dando uma ordem a um aluno, que não queria lhe dar ouvidos. De certo modo soava ameaçador e fez com que todos se calassem por alguns longos minutos.

– Você vai se arrepender disso… Vamos rapazes, vamos deixar que ele a mate, assim ela aprende a parar de proteger bandido! – Saindo da sala frustrado, com os guardas logo atrás como cães.

Mais sem graça do que quando entrou, não tinha mais coragem de encarar a doutora, mas sabia que precisava falar alguma coisa.

– Ah… Obrigado doutora.

– De nada, mas não tem porque me chamar de doutora. – ela disse num tom amistoso.

– Mas a senhora é a minha médica não é?

– Não. Sou uma interna como você. Eu estava tentando pegar alguns remédios escondidos quando você chegou aflito querendo conversar então eu parei pra te ouvir. Mas cuidado, eles podem voltar…

– Interna?! Por que você está internada aqui? – disse surpreso.

– O mesmo que você, a diferença que é que fazia isso quando estava bêbada, e como eu era uma viciada, isso acontecia com certa frequência…

– O mesmo que eu? Como assim? Quer dizer que eu matei mesmo aquelas pessoas? Eu não matei ninguém, eu… – mais uma vez confuso e sem entender porque estava sendo acusado daquilo sendo que nem havia feito nada, mas ao mesmo tempo com um sentimento de culpa como se por fim percebesse que talvez ele fosse realmente o culpado.

– Relaxa, você acostuma, no seu caso só precisam trancar o seu quarto e fica tudo bem… Olhe, eu mesma… – ela explicava até ser interrompida por outra voz feminina vindo da porta aberta.

– O que você está fazendo com meu jaleco?

– Bem, tenho que ir… – disse ela saindo em disparada.

A outra mulher, se, jaleco e com um crachá nas mãos, o cabelo preso em um coque, olhava abismada para ele e para o corredor por onde a moça havia sumido, falando alto.

– Ei mocinha, espere ai! O que ela aprontou afinal? Ei, o que há com você? Ela fez alguma coisa com você? – disse por fim, se aproximando dele.

– Não… Na verdade, eu só preciso dormir um pouco…

 

juhliana_lopes 27-06-2014