18 Anos

 

Os raios de sol começavam a passar pela janela, indo em direção ao seu rosto. Despertou, esfregou os olhos e começou a se arrumar. De fato seria um belo dia, um maravilhoso dia se assim ela desejasse. Aprendeu cedo que deveria desejar coisas boas para que elas acontecessem. Aprendeu cedo que era preciso manter a cabeça bem e fresca para conseguir foco em outras coisas.

Após pentear os cabelos, colocou a escova sobre a penteadeira. Ficou um tempo olhando sua imagem no espelho, percebendo cada detalhe do seu rosto. Talvez estivesse mais alinhado, levemente mais comprido. Quem sabe a primeira ruga havia surgido, ou ainda um indício de espinha. Nada. Seu rosto estava limpo como todos os dias, sem qualquer mancha ou imperfeição.

Deixou um suspiro leve escapar de seus lábios enquanto terminava de passar uma camada fina de pó sobre o rosto para finalizar a base. Depois de aplicar uma sombra leve, procurou em seu estojo o melhor batom para a ocasião.

Gostava do roxo. Lhe trazia lembranças boas, além de lhe deixar um ar de sexy. Não que buscasse isso, mas gostava de brincar com a situação. Aquele não era um dia para roxo. Precisava de um destaque, de algo que a marcasse não só pelo dia, mas pela sua fase. Escolheu então.

150329_605027342910324_1223066616_nDepois de manchar seus lábios em rubro vivo, vestiu uma roupa que ela mesma havia comprado. A ideia de independência a satisfazia, afinal, foi comprado com seu próprio ganho, e  aquele, era um dia especial.

Mesmo depois de pronta, sentiu falta de algo. Olhou pela janela, o céu estava azul, os pássaros cantavam forte e com alegria. A vida parecia ter acordado mais feliz aquele dia, mas ainda lhe faltava algo. Não sabia dizer o que era, e apesar de insignificante, não conseguia desviar sua atenção para outra coisa que não aquela falta.

Quando saiu para viver o seu dia, notou olhares e cobiça. Comentários puros e alguns até maldosos, mas foi em um comentário despretensioso de uma tia qualquer que percebeu o que não achava.

“Nossa, agora é uma mulher!” – Alguém disse. Mas afinal, era mesmo? Não se sentia assim. Aliás, 18 anos não lhe parecia tão mágico afinal. Esperou tanto por algo seu, mas percebeu enfim que essa magia só existe quando ainda somos crianças. “Ser de maior”, “Ser uma  mulher” lhe parecia a mesma coisa de ser o que já era no dia anterior.

Mas afinal, se agora é uma mulher, o que foi antes de se tornar uma se não era mais uma menina? O que somos até a vida nos definir por inteiro? Realmente a idade estava chegando. Preferiu não se preocupar com questões filosóficas, afinal, aquele era um ótimo dia, e mesmo que não fosse comemorar a altura, ela ainda tinha um dia inteiro pela frente. Um dia lindo de céu azul, com seu batom vermelho.

05-10-2014 /juhliana_lopes

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Provocação

img_179839523_1316273019_abigAntes de fechar a porta deu mais um daqueles sorrisos encantadores e saiu deixando seu perfume. Estava contratada, mas se quisesse nem precisava trabalhar, afinal, sempre conseguia o que queria. Sempre caprichando na cruzada de pernas, percebeu enfim que foi uma boa hora de investir naquela saia com dois dedos a menos, imperceptíveis com a postura correta, mas bastante revelador em uma posição mais ousada. Seu chefe também era um bobo. Casado, casamento com rotina, foi fácil mostrar a carne ao lobo faminto, seria uma questão de tempo até acontecer às primeiras reuniões à noite.

Com seu charme, não havia chamado atenção apenas de seu superior. Os outros homens do setor também caíam de suspiros ao vê-la passar, e com um jeito tímido, porém extremamente sensual, ia partindo mais corações.

Mas o que um demônio poderia querer numa empresa tão simplória que cuidava da produção de jarras e taças de cristal? O que um ser como ela poderia querer em algo que já havia alcançado o ápice, e dali não poderia ir para nenhum lugar a não ser para baixo?

Mais do que dinheiro, ela procurava a força vital, os sonhos, aquilo que alimentava os homens e lhes dava forças para viver. Queria tudo até ficar sem nada. Começaria por um e aos poucos tomaria conta de todos.

Um mês depois, já era assunto entre as rodinhas masculinas. Sobre como a blusa se ajusta bem ao seu corpo, deixando escapar um decote generoso de vez em quando. Em como a saia que ajusta em suas coxas e vai subindo aos poucos conforme o seu rebolado enquanto caminha. E que mesmo com toda sensualidade, como nenhum homem tinha coragem de chegar nela e lhe falar todas as coisas insanas que tinham vontade, por causa daquele rostinho tímido e lindo de menina, que fazia parecer um anjo tão inocente que seria um pecado mortal se referir a ela com qualquer coisa maldosa.

Na sala do chefe, ele sempre dava um jeito de encostar ou se esfregar nela. Já estava até sentando no colo dele de vez em quando, com algum papinho mole no ouvido, mas nada de avançar demais, afinal, aquele olhar meigo que ao mesmo tempo o provocava não o deixava se concentrar.

Já ela, estava começando a ficar com fome, o clima já estava perfeito, mas tinha que ser cautelosa afinal, qualquer passo errado e o encanto iria se perder. Então se aproximou de Jaime. Homem bonito, viril, o cara da balada de fim de semana, porém excelente profissional. Quase um galã. Respeitava todas as mulheres no ambiente de trabalho como se fossem suas mães, mas ao ficar preso – sem entender como – no estoque com a nova secretária, e ela ficar lhe abraçando com medo de locais fechados, não se conteve e teve que se aproveitar da situação. Ela é claro, pareceu ofendida, mas quando ele teria uma oportunidade daquelas de novo? Prometeu a si mesmo manter discrição e ela também não parecia à vontade para lhe denunciar. Acabou ficando por isso mesmo.

Mesmo que ele quisesse, não poderia ter contado, afinal, no dia seguinte estava com uma forte gripe que lhe deixou de molho por uma semana. Sentia-se um pouco desmotivado também, o trabalho já não atendia suas expectativas, mas preferiu manter o foco em seu trabalho como sempre para ver se as coisas melhoravam.

Adriano foi o mais sortudo. Ficar três horas com ela preso no elevador por causa da falta de luz foi o melhor momento de sua vida. Nunca pensou que uma pessoa tão tímida poderia ser um furacão com aquele. Sobretudo como foi rápida em colocar a roupa de volta quando o elevador voltou a funcionar. Realmente, segundo ele, daria uma obra prima se alguém pintasse um quadro sobre o assunto. Assim como Jaime, não conseguiu contar a ninguém, e nesse caso nem foi uma gripe, mas uma fatalidade que lhe tirou do seu rumo. Atropelado quando estava indo ao trabalho no outro dia, encontrava-se em coma no hospital.

Anderson seria o próximo. Estava contente porque ela respondeu seu bilhete durante a festa da empresa. Estaria esperando por ele na sacada do andar de cima. Subiu as escadas assobiando e lá estava ela, linda, com um vestido branco que marcava a cintura e deixava as costas nuas. Ficaram ali conversando por um bom tempo, e enfim, um beijo apaixonado se seguiu. Em seguida, como dois adolescentes já estavam se enroscando, com medo de serem pegos.

Depois do êxtase, ele parou para admirar a lua e ela seguiu para a escada.

– Ei, não vai me esperar linda?

– Talvez… Acho que você não vai mais querer nada comigo não é? – Ela parecia abatida, triste, com lágrimas juntando aos olhos.

– E porque não iria querer? Eu adorei nossa primeira noite, escondido, com perigo sempre dá mais prazer…

– Mas eu não acabei sendo fácil demais?

– Claro que não. Você acha que eu não vou querer mais nada com você porque já fiz o que a maioria dos homens quer fazer? Eu não sou como eles… Eu quero ficar com você, namorar, quero ter você pra mim! – Ele dizia segurando suas mãos. Secou suas lágrimas e lhe deu mais um beijo, e então juntos desceram as escadas.

Aproveitaram o resto da festa e então foram embora. Para não ficar chato na frente da turma, ele subiu mais uma vez, pois ela já estava lá esperando para uma despedida.

– E quando vamos assumir? – agora ela falava num tom manhoso.

– Quando você quiser meu amor!

– Amanhã então, quando você chegar!

– Tudo bem! Até amanhã meu amor! – Ele disse lhe beijando a última vez.

Ao descer as escadas, só teve tempo de ouvir um barulho forte e desviar quando algo veio rolando atrás dele. O desespero tomou conta quando percebeu que quem estava lá embaixo no fim da escadaria ela sua musa. Olhou para cima assustado e viu uma figura tirando os óculos e segurando no corrimão. Desceu correndo para verificar o estado de sua amada.

– Largue-a!

– Do que você está falando Walter? – Ele gritou quando seu colega de trabalho lhe puxava para longe da bela dama.

– Você não vê? Ela ia te empurrar! Ela é um demônio!

– Você é imbecil? Está ficando louco? – Anderson se soltou e correu mais uma vez para sua amada, mas quando chegou perto, sentiu um arrepio profundo que fez a nuca eriçar.

Ela estava torta por causa da queda, mas tinha um sorriso maligno no rosto. Seus olhos que eram de um verde delicado, agora estavam vermelhos e as unhas pareciam ter dobrado de tamanho como garras.

– Walter seu maldito, porque tinha que estragar tudo? – Ela se levantou mesmo torta falando com uma voz forte que nada lembrava a mocinha delicada como criança.

– Volte para o inferno! Não precisamos de súcubos aqui!

– Eu vou te matar! – Disse ela partindo para cima dele como uma besta feroz. Anderson mal podia acreditar em seus olhos. Parecia uma fera selvagem atrás de uma caça, mas antes que conseguisse se aproximar demais, Walter sacou um revólver e a derrubou.

– O que você fez? O que está acontecendo afinal? – Disse Anderson tremendo.

– Vamos embora daqui, ela não morreu, e quando acordar vai vir com uma fúria ainda maior!

– E como você sabia que ela era… Aquilo? – Disse Anderson ofegante enquanto corria.

– Porque eu também não sou humano…

 

juhliana_lopes 23-07-2014

 

Sem explicação

Ele não conseguia responder. A respiração forte, o gosto de sangue na boca e a visão turva também atrapalhava, os ouvidos estavam abafados e seus rosto todo formigava. Caiu de cara num tapete fino, do qual o tecido ele jamais saberia identificar qual era. Ao tentar se levantar sentiu uma dor aguda no estômago e viu seu corpo ser jogado para o outro lado. Outro chute e agora ele sentia como se a cada toque da bota, sua carne se abrisse um pouco mais. Tentou colocar os braços no rosto, mas sentiu as mãos fortes pegarem seus pulsos e afastá-las.

Era uma luta covarde, ele mais conseguia se colocar de quatro, quanto mais de pé, e mal podia reagir que era atingido por algum golpe. Ele tentou gritar, pedir que parasse, mas sua garganta estava bloqueada e a falta de ar estava começando a ficar mais forte. Também não conseguia ver quem estava lhe batendo. Desde que entrou ali, só havia levado golpes, sem qualquer som por parte do agressor.

Houve um momento que o silêncio ficou insuportável, mas foi nesta hora também que ele pode enfim cuspir. Sangue e saliva misturadas mancharam o tapete e ele pode enfim se apoiar sobre os braços. Balançou a cabeça e piscou os olhos repetidamente para tenta enxergar. Olhou em volta e não viu ninguém. Não sabia dizer se estava sozinho, mas aquela paz o deixava aliviado e ao mesmo tempo assustado.

Quanto tempo havia passado? Há quanto tempo ele estava apanhando sem parar? Sentou-se desajeitado no chão e encostou a cabeça na parede. Aos poucos sua respiração estava voltando ao normal, e conforme o sangue esfriava as dores iam aumentando.  Ergueu a cabeça pra cima e ficou olhando o teto, respirou fundo e fechou os olhos.

Seu alívio foi interrompido por uma dor forte em sua cabeça, como se estivessem puxando seus cabelos e se viu abraçado ao chão novamente. Pancadas nas costas, ora com as mãos e ora com algum objeto duro o suficiente para deixar marcas. Depois, sentiu dores nas pernas e nos joelho, um taco com certeza, agora ele era um brinquedo de bater.

Não conseguia mais reagir. Primeiro pensou que poderia ser uma estratégia para apanhar menos, mas no fim percebeu que seu corpo não conseguia reagir mesmo, não conseguia nem mover um dedo. Depois de sentir uma última pancada forte próximo a coluna, ouviu um suspiro e o barulho de algo caindo no chão. Sentiu seu corpo sendo arrastado até sair num lugar onde havia grama.

As pequenas folhas, ao passar pelos ferimentos dos braços, faziam com que eles ardessem mais. Foi erguido e se viu olhando para o céu e para um rosto familiar. O lugar era meio úmido e apertado, havia muita terra em volta… Uma cova!

Seus olhos se arregalaram mas ele não conseguia falar, com muito esforço ergueu o dedo mindinho mas logo sentiu as porções de terra caírem sobre seu corpo. O rosto familiar tinha um sorriso bobo, e nos olhos a satisfação.

rosa_brancaLogo sentiu o peso da terra contra o seu corpo que aumentava conforme seu algoz subia e pulava para acomodar mais terra. Deixou para cobrir o rosto por último e quando o fez ele enfim lembrou de onde a conhecia, e antes que pudesse falar, sentiu a terra sobre seus olhos sem poder ao menos erguer as mãos para tirar. Enfim enterrado, sobrou apenas a noite fria, uma rosa branca sobre o “túmulo” e uma moça de rosto angelical, porém manchado de sangue e lama, assim como as suas roupas. Ela deu mais um suspiro e enfim foi embora com o mesmo sorriso bobo no rosto.

A menina – O Lapso e a Certeza

Naquela mesma semana meus pais se mudaram. Nunca contei a eles o que tinha acontecido,  e acredito que tenha sido melhor assim.

Queria esquecer tudo aquilo. As surras na escola, os becos, os caras, os olhos negros… Aqueles olhos me atormentaram durante meses. Acordava várias vezes durante a noite assustado, como se aqueles olhos estivesse ali, velando meu sono. Era só uma criança, porque eu me sentia assim?

Os anos passaram e eu passei da fase “adolescente bobão que tenta chamar atenção das meninas”, para focar mais em trabalho. A verdade é que eu nunca fui muito galã, pois além de desajeitado, as espinhas e a barba atrapalhavam muito.

Outro fato era “aquele acontecido”. Sentia-me mal às vezes, como se alguém fosse perceber que eu tinha matado alguns caras.

Enfim, quando comprei meu carro, trabalhei que nem um cavalo para quitar as dívidas e foi quando conheci o Albert. Fui trabalhar na empresa dele por causa do meu desempenho nos computadores, era um serviço bom, que me dava abertura para uma vida social, apesar de que eu a evitasse bastante.

Só depois de “velho” comecei a sair. Confesso que em grande parte eu era arrastado por Albert. Ele curtia baladas, dizia que estava de olho “nas novinhas”. Sempre achei ridículo esse tipo de atitude. Garanto que se fosse filha dele, ele não permitiria que um cara chegasse perto com as mesmas intenções que ele ia.

Não gosto de lugares cheios, mais uma vez pela minha cisma em relação ao que tinha ocorrido. Eu me sentia torturado nesses lugares, mas era o único jeito de me tirar do trabalho.

Eu estava distraído com uma cerveja na mão, apenas observando a dancinha ridícula que Albert fazia para se “aproximar” das meninas, e em um leve lapso passei os olhos rapidamente por todo ambiente e voltei a minha cerveja, porém algo havia me chamado a atenção. Eu estava ficando louco? Talvez fosse só a minha imaginação, porém arrisquei em olhar novamente, desta vez com mais atenção, observando cada detalhe.

Era uma moça bonita, parecia tão deslocada quanto eu. Arrastada pelas amigas talvez… Isso pouco me importava, pois eu estava ocupado demais olhando para os seus olhos… Acho que fiquei tão surpreso e abalado com a situação, que não percebi que ela havia ficado sozinha do outro lado do bar e também estava me encarando.

Desviei o olhar rapidamente, mas acho que ela percebeu. Terminei minha bebida, falei com Albert rapidamente e sai sem olhar para trás. Eu estava eufórico e ao mesmo tempo incrédulo. “Foi apenas impressão” eu dizia a mim mesmo. Meus pensamentos estavam me levando para tão longe que esbarrei em um armário ambulante, que estava doido por uma briga. Tentei me desculpar, mas logo mais alguns caras chegaram e eu fiquei cercado.

“Agora não…” pensei. Quando eu ia tomar o primeiro soco, sem nenhuma chance de argumentação, veio um carro em alta velocidade que por pouco não atropelou a mim e aos outros caras. A porta abriu e só consegui ouvir um “Entra!”. Não questionei e obedeci. Mal entrei no carro e senti a arrancada, ficando para trás apenas palavrões e armários frustrados por não terem a sua briga.

Quando olhei para o motorista, vi aqueles olhos negros que me atormentaram durante tanto tempo. Agora eu tinha certeza! Confesso que me perdi admirando aqueles olhos, observando a beleza que se encontrava neles, e ao mesmo tempo duvidando se tudo aquilo era realidade.

Só lembro-me de ouvir um “Tá tudo bem com você?” antes do carro frear bruscamente.

 

/juhliana_lopes 21-11-2012