Pergaminho perdido sobre a Grande Ameaça

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Esse é mais um dos muitos pergaminhos que irão descrever para as futuras gerações estes tempos de trevas. Eles existirão para que nos momentos de paz, nossos filhos e netos nunca se esqueçam do sofrimento que eles foram poupados e aprendam a se defender antes de sucumbirem diante de um ataque. Já são 50 dias desde que saímos de nosso reino a mando do rei, para dar o alerta e ajudar a proteger os outros reinos. O Rei Gorgo do reino do Oeste, nos recebeu muito bem e conseguiu se preparar pouco antes da grande ameaça chegar. As baixas foram poucas e com uma muralha reforçada graças a nossa lastimável experiência, conseguiram manter a situação estável. Assim como os alquimistas do Sul, os do Oeste começaram a trabalhar sem pausas, em busca de mais materiais, que possam quebrar este grande mal.

Após a derrota das primeiras hordas, com a situação sob controle, seguimos então pela fronteira, passando pelas lagoas e os rios da floresta da Meia Noite, em direção ao reino do Norte, com os cavalos acelerados para ganhar tempo e assim evitar que mais um reino seja pego de surpresa. Os cavaleiros e todos nós estamos cansados e com medo. Quando a grande Ameaça chegou no reino do Sul, ninguém sabia dizer exatamente o que era e muito menos como seria possível enfrentar aquilo. No início, surgiu como uma mancha escura no mármore da fonte principal da cidade que então, ao cair da noite, se abriu em um buraco com uma espécie de gosma escura ao redor. De lá, saíram três hordas de cavaleiros negros que em pouco menos de uma hora, tomaram conta de todo o vilarejo principal, seguindo em direção ao castelo.

As espadas comuns não faziam efeito, pois todos os cortes abertos se fechavam no mesmo instante como mágica. Os cavaleiros negros não caíam e seguiam indestrutíveis, até que Joshua, o Intocado, surgiu em meio a destruição com sua espada forjada com ouro antigo, e derrubou o primeiro cavaleiro das trevas. A sua lâmina era capaz de decapitar os inimigos sombrios com um só golpe. Foi visto que em todo o reino do Sul, considerando a espada de Joshua, só haviam 5 espadas de ouro, que estavam na sala de arma do rei, e no momento da batalha, sob seu comando, foram confiadas ao príncipe, e a mais três cavaleiros.

Então, juntos e com muita exaustão conseguiram conter as hordas das trevas. O dia já amanhecia quando a primeira batalha acabou e então o buraco da fonte se fechou sozinho, restando apenas a mancha negra. Percebemos então que eles só saíam a noite e assim, foram dias e mais dias trabalhando para conter as hordas e encerrar a entrada. O rei, preocupado com os reinos vizinhos, designou uma caravana, liderada por Joshua para avisar os outros reinos, começando pelo reino do Oeste, para que nenhum povo sofresse como nós havíamos sofrido e assim juntar nossas tropas para evitar que este grande mal crescesse. Hoje, 50 dias depois desse acontecimento, estamos indo em direção ao reino do Norte, esperando que ainda tenha um reino para avisar e proteger.

(…)

Já passava da hora do sol a pino, quando paramos para acampar perto de uma clareira no meio da floresta. Estávamos em 14 homens. Havia uma grande lagoa cristalina, e muitos animais selvagens ao redor. Joshua nos acompanhava e parou em uma árvore para descansar os olhos. Outros dois cavaleiros foram caçar um cervo, enquanto eu e o outro escrivão e soldado do reino preparávamos a fogueira. Então, Hélio, nosso cavaleiro mensageiro seguiu em direção a água, olhando alguma coisa. Os outros nove soldados que descansavam no chão ficaram nervosos, com medo de ser algum sinal da grande Ameaça. Porém, um canto doce tomou conta de nossos ouvidos, e logo estávamos todos em volta da água, procurando aquele som maravilhoso.

Eis que na outra margem, apareceram três donzelas desnudas, com os cabelos cor de mel, molhados e colados ao corpo. Sua pele levemente corada do sol reluzia com o brilho da tarde. Eu mesmo já havia ouvido muitas histórias, mas ali, diante dos meus pobres olhos mortais, estavam três ninfas de água doce. Três demônios sereias como os livros diziam. Confesso que no meu íntimo, não compreendia e praguejava quem as havia lhe dado tal alcunha, pois ali, não havia nada de demônio e sim, apenas uma beleza pura e que dê certo, deveria ser divina.

Aquele canto agradável, atraiu então Hélio para a lagoa que decidiu ir de encontro as belas damas do outro lado. Ele, nadava desesperado e as ninfas o incentivavam com gritos e risos alegres, espirrando água com suas mãos. Ao chegar no meio do lago, ele perdeu o chão e só então percebeu o quão profundo eram aquelas águas. Além disso, ele havia entrado de armadura e agora ela lhe pesava o corpo, o fazendo afundar e se afogar. Hélio, temendo a morte, pedia ajuda as ninfas que se quer se mexiam em seu socorro e cantavam mais canções, fazendo com que também ignorássemos o sofrimento de nosso companheiro.

Eis que do meio das águas, em uma onda incomum que arrastou Hélio de volta para a margem e interrompeu o canto doce das sereias, surgiu um ser que à primeira vista imaginei ser uma deusa reluzente, porém, era também uma sereia, mas não como as outras. Ela apareceu com um brilho incomum e tinha placas de ferro presas em seu corpo, como uma armadura. Usava um elmo prateado que cobria parte do seu rosto, deixando sua boca a mostra. Conforme ia se aproximando de nossa margem, sua cauda se desfazia, revelando suas pernas que também estavam cobertas com uma espécie de armadura que lembrava as grandes saias das princesas. Mesmo parecendo ser de ferro, o material era leve e maleável o bastante para que ela andasse sem qualquer dificuldade.

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Na margem, ela observou todos nós sem dizer uma só palavra. Então, em uma língua estranha, gritou alguma coisa para as outras ninfas que debandaram para dentro da água. Os soldados mais uma vez se encheram de medo e ficaram atentos. Já Hélio, com toda sua raiva e coragem, empunhou sua espada e avançou. Ela, com uma espada que parecia ser de prata, porém era levemente verde como alga, cortou o golpe, o derrubando no chão e jogando a espada simples para o outro lado, com apenas uma mão. Ela, guardou a espada na bainha e com uma voz suave perguntou quem era o nosso líder.

Joshua que continuava deitado na árvore, se levantou e se apresentou. A moça então tirou o seu elmo, revelando uma beleza ainda maior que a das sereias do outro lado. Ela tinha olhos de duas cores, um azul e outro amarelo, além de uma leve cicatriz sobre a sobrancelha direita. Parecia que tinha sido esculpida no mais belo mármore, e a água que lhe corria pelo rosto dos cabelos molhados, a fazia parecer uma pintura perfeita. Seu cabelo, era um castanho claro, quase mel, e também do lado direito, tinha três tranças pequenas, que se misturavam com o resto do cabelo solto.

– O que vocês fazem aqui? Não deviam estar aqui. – Ela disse em um tom severo.

– Estamos a caminho do reino do Norte. Somos do Sul. Estamos em caravana para avisar sobre um grande mal.

– Vocês poderiam ter ido pela estrada. Por que vir por aqui? – Ela perguntou com autoridade.

– Para ganharmos tempo. Existe um mal que aparece toda noite, e entra pelo reino através de um buraco negro nas pedras de mármore. Até agora, sabemos apenas que o ouro é capaz de parar essas criaturas, por isso estamos a caminho dos reinos, a pedido do rei do Sul, para lhes avisar e lhes dar uma chance de salvar o seu povo de grandes baixas. A chance que não tivemos. – Explicou Joshua com paciência. – E qual a sua graça? Quem é você? – Ele disse fazendo uma reverência irônica.

Ela, observando o gesto com frieza, deu um leve sorriso de canto. Enquanto isso, todos nós ficamos apreensivos com o gesto do Intocado, e com medo de que a aquele ser ficasse zangada.

– Sou Maena. 1º General do reino de Cyperus, sob a ordem do Rei Chez. E você?

– Sou Joshua. 1º Cavaleiro do Reino do Sul sob missão. – Respondeu Joshua engolindo seco. – Eu peço desculpas caso…

– Eu nunca ouvi falar desse reino… – Interrompeu Hélio, ainda zangado com o quase afogamento e a investida da General contra o seu ataque.

– É porque fica debaixo da água. Se você aprender a respirar embaixo d’água, eu ficarei lisonjeada em te mostrar tudo um dia. – Maena respondeu com o mais profundo sarcasmo.

– Como eu estava dizendo…. – Disse Joshua sério, olhando para Hélio. – Peço desculpas pela minha falta de jeito e por termos provocado algum incômodo. Não era a nossa intenção. Em todo caso não sei como esse mal se comportaria na água, então agora que sabemos da existência de vocês, espero que possam se preparar. – Ele terminou com um tom cortês.

– Eu agradeço. – Ela respondeu ainda com um tom sério. – E peço desculpa pelas meninas. Há muito tempo elas não se alimentam de nada humano, apenas animais da floresta mesmo. Sentiram cheiro de carne nova e resolveram ver do que se tratava. Peço para que vocês também tomem cuidado, pois não posso protegê-los toda hora. Ainda assim, lhes darei a ordem para que não se alimentem de caravanas nos próximos dias.

A reunião estava enfim, sendo perfeitamente bem-sucedida, e a fogueira já estava alta. Antes, porém que os soldados pudessem chegar com o cervo para assar, fomos surpreendidos por ladrões. Eles eram altos e bárbaros, e conseguiram derrubar e ferir pelo menos três de nossos soldados. Joshua e Maena lutaram lado a lado, e sozinhos, eles conseguiram derrubar mais ladrões que o resto de nós. Era realmente uma luta incrível e uma graça ver a sereia general manejar a sua espada, parecia não haver qualquer peso em suas mãos.

Os bárbaros então fizeram uma emboscada, e prenderam Joshua com uma rede. Parecia que seríamos dominados, pois muitos de nós já estávamos amarrados. Eles eram realmente mais fortes e extremamente habilidosos, além de trapaceiros em suas lutas. Apenas a general ainda estava de pé, lutando sozinha e ainda conseguindo conter muitos. Com um golpe traiçoeiro, conseguiram tomar a espada de suas mãos e então percebemos que havia magia nela. Na mão da sereia, ela parecia não ter peso algum, porém quando o ladrão imundo a tocou, ela caiu pesada no chão e nenhum deles conseguia levantá-la para lutar, apenas arrastá-la para longe de sua dona.

Apontaram uma espada para o meu pescoço, e então imaginei que estava tudo perdido, até ouvir um canto, ainda mais bonito que os das ninfas. Maena começou a cantar, não uma música de sereia, mas uma música antiga que muitas vezes tocávamos em festa. A música é tão antiga, que há muitos anos é passada de geração em geração, e eu mesmo confesso que nunca havia ouvido a letra completa. Logos os bárbaros estavam calmos e indo em direção a água, mas não eram só eles que se encantaram. Todos nós queríamos nos desfazer das amarradas e segui-los como se aquilo fosse mais forte que tudo. Hélio conseguiu se soltar e foi correndo em direção a água. Joshua também se soltou e o segurou o mais firme que pode, o arrastando de volta e o amarrando. Um a um, ele conferia as amarras, para que não entrássemos na água. Uma vez dentro, podíamos ver os bárbaros virarem comida, como se houvesse mil crocodilos os devorando, mas não eram crocodilos. Como se eu estivesse despertando de um sonho, pude ver a carnificina e descobri enfim por que o nome de “demônios sereias”. Maena parou de cantar e não entrou na água. Apenas observava de longe, ainda em terra firme.

A água ficou em um tom vermelho escuro por causa do sangue dos ladrões. Havia também, boiando na água, partes não devoradas como braços e pernas. Muitos soldados horrorizados, se afastaram da general quando ela caminhou em direção a sua espada. Joshua ajudava os outros soldados a se soltarem e logo eles recolhiam as coisas do acampamento para seguir viagem. Ainda estavam exaustos e com fome, mas nenhum deles queria mais descansar ali.

– Então você é o Intocado? – Perguntou Maena para Joshua, ao perceber que ele não havia sido o único que não foi encantado.

– Dizem que eu sou. – Ele respondeu sem lhe encarar nos olhos, ajudando a desamarrar o último soldado.

– Você conhece a profecia? – Questionou mais uma vez Maena.

– Que profecia? – Ele perguntou curioso, agora encarando a moça. Ela tinha olhos grandes e curiosos para ele, como quem tem um truque na manga e está pronto para usá-lo.

– Se vê logo que não conhece. – Ela disse pegando sua espada do chão – Vá para o reino do Norte e os salve. Depois siga para o reino do Leste pelas colinas e não pelas montanhas, senão vocês podem cair no grande abismo. Quando terminar sua caravana, volte aqui e lhe contarei o que quiser saber. – Ela disse em um som suave, lhe entregando uma peça de prata verde. – Jogue isso na água e eu virei ao seu encontro.

Joshua recebeu a peça, um pouco confuso e era a primeira vez que eu e acredito também que todos os outros, pudemos vê-lo assim. A general, batendo continência, virou-se e seguiu para a água que já estava limpa e cristalina novamente, como se nunca tivesse sido tocada por nenhum homem. Ao entrar na água, sua cauda voltou e ela afundou de volta para o seu reino.

(…)

Foram 55 dias desde a aparição da grande Ameaça e cinco em que nos encontramos com as sereias do Reino de Cyperus. Agora, faltam só mais cinco dias para chegarmos ao reino do Norte para completar metade de nossa missão. Aqui, registramos todos os acontecimentos desse grande mal para que ninguém se esqueça de nós e de nossa história. Aqui deixamos o nosso legado, que será preservado para muitas gerações. Aqui estão todos nossos segredos e dúvidas, além de registros mágicos. Aqui, está tudo o que fomos um dia e tudo o que somos.

juhliana_lopes 27-08-2016

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Só mais uma história: O Nerd

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Edgar acordou cedo, mas ainda estava deitado na cama. Era preciso levantar logo, afinal hoje era dia de prova. Apesar da importância do dia ele não via a necessidade de fazer uma prova na qual ele já soubesse todas as respostas. Não que ele tenha tido acesso ao gabarito antes, mas era fato que sua inteligência estava superior até mesmo ao dos professores. Em todo caso, era preciso passar por essas meras formalidades.

Mas outra coisa também o angustiava. Conforme estava chegando o fim do ano, o bullying havia aumentado de modo significativo. Não que ele ligasse também, aprendeu cedo a ignorar xingamento ou qualquer coisa que pudessem fazer para tentar diminuí-lo, mas ultimamente estava ficando cada vez mais chato aguentar aqueles moleques. De qualquer forma, se arrumou e foi, pois apesar de todos os contras, a menina bonita que nunca lhe dava uma chance e ajudava em grande parte nas ofensas a ele, ia estar na sala e provavelmente se lembraria dele para pedir ajuda na prova.

Ele sabia que não tinha chance, ela mesma já havia deixado bem claro pra ele isso de todas as formas possíveis e até mesmo algumas impossíveis de se imaginar. Ainda sim, ele gostava de admirá-la como algo raro que ele jamais pudesse tocar.

O momento da prova chegou e todos estavam muito concentrados, mas ele se sentia apenas entediado mesmo. Enquanto o professor não olhava, Edgar foi atingido por uma bolinha de papel. Quando se virou irritado pra ver de onde veio, deu um sorriso sem graça. Era Jack, seu amigo “popular” que estava pedindo ajuda numa das questões mais fáceis. Aproveitou outra distração do professor e jogou o papel de volta.

Edgar enfim terminou a prova, entregou e foi liberado para o desespero dos outros alunos que preparavam suas bolinhas para pedir ajuda a ele. Do lado de fora, esperando paciente até Jack ser liberado para ir pra casa, foi abordado por uns garotos de uma sala mais velha. Eles tentavam intimidá-lo pelos seus óculos, pelas suas roupas, pelo seu cabelo, mas Edgar, imóvel, evitava contato visual. Sabia onde aquilo ia parar. Começou com um empurrão no ombro e um grito de “acorda moleque, não tá ouvindo a gente não?” seguido de uma tapa estralado e ardido nas costas que levou seu corpo à frente, tocando o peito na mesa. Edgar tentava se manter firme, mas mais uma vez os “caras” o provocavam, e agora mexiam com seu cabelo e lhe davam leves tapinhas no rosto. Edgar já estava ficando corado de raiva, mas ainda sim, tentava não fazer nada. Então ouviu o grito de Jack e ao se virar percebeu que a sua musa estava do lado de fora olhando toda situação. Jack correu e tentou intimidar os rapazes, dizendo-lhes para me deixar em paz ou eles teriam problemas. Eles foram embora rindo, mas não iriam desistir tão cedo. Ela, imóvel olhando a situação, foi embora quando outra amiga chegou.

– Jack, há quanto tempo a Débora saiu da sala?

– Depois que você saiu uns 5 minutos depois eu acho…

– Então ela já estava ali vendo o que estava acontecendo e não fez nada… – disse Edgar pensativo.

– Edgar, para de se iludir… O que ela poderia ter feito? Chamado os meninos da nossa sala pra ajudarem a te zoar mais. Esquece essa mina cara, tem muitas outras mais bonitas e que mesmo não sendo fáceis, te dariam uma chance.

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Cinderela – Reiventando Contos de Fadas

tumblr_m4qpzkUeny1qfqtbuo1_500Ela era bonita e delicada como uma boneca. Ele era alto e forte, com um ar aventureiro e curioso. Ela, sempre recatada e tímida sempre ria das aventuras verdadeiras e inventadas que ele, sempre com muita ênfase contava para ela quando voltava de suas viagens.

– Eu sinto muito pelos seus pais querida… – Ele disse segurando suas mãos.

 

– Tudo bem meu amor… – Ela disse baixando os olhos.

– Se tivesse me falado antes, eu não teria insistido tanto, eu teria… Teria feito diferente, me desculpe… – Ele dizia colocando a mão em seu rosto para secar suas lágrimas.

– Não tem problema. Não fez por mal… Mas, isso prejudica os nossos planos? – Ela perguntou levantando o rosto com as lágrimas ainda rolando pelo rosto delicado.

– De maneira nenhuma! Aliás, me deu coragem para uma decisão, vamos adiantar a data. Já está tudo pronto mesmo, nos casaremos amanhã! 

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Melhor sensação

1525493_637627816283631_73225980_nDesde criança notei o quanto era importante valorizar as sensações. Lembro-me de quando meu avô me abraçava forte e me contava histórias para dormir. Muitas vezes eu só conseguia acompanhar até certa parte da história, e depois só conseguia ouvir a sonoridade de sua voz antes de cair no sono completamente. A paz que eu sentia era tão boa que eu poderia dormir a noite toda ouvindo a voz dele. Ele percebia o quanto aquilo me fazia bem e sempre ficava um pouco mais, mesmo sabendo que eu estava dormindo.

Na escola comecei a apreciar o cheiro do giz de cera quando eu o usava para pintar meus desenhos. Por consequência, desenvolvi muito a minha capacidade de desenhar e colorir, indo além de bonecos de palito que a maioria das crianças da minha idade faziam.

Na fase da escola, ainda no período infantil, senti a sensação de um abraço amigo, mesmo que por vezes eu ainda ficasse sem graça quando estes vinham do nada, sem um motivo aparente. Também senti a sensação da vergonha e desconfiança pela primeira vez – ainda que eu não soubesse nomeá-las ainda – quando algumas crianças riam de mim e cochichavam umas com as outras quando eu me isolava com meus desenhos.

Na pré-adolescência descobri mais sensações. A primeira cólica, a sensação de estranheza de acordar num belo dia e enfim se tocar que tem algo diferente. Sentir na pele a falsidade daqueles que eram “amigos de verdade”. Perceber que você realmente confiou em alguém errado. Agora, além dos desenhos, eu também havia me dedicado a instrumentos musicais e o violão era o meu companheiro. Os outros ainda me tratavam mal por eu me isolar de vez em quando, porém nem sempre eu me “isolava sozinha”. Quando se cresce, você acaba descobrindo outros parecidos com você. Não estar completamente sozinha agora era um alívio.

Conheci a emoção de receber um bilhete pedindo um encontro, e a decepção de ver que era apenas mais uma brincadeira. Conheci a emoção de ter um beijo roubado de alguém que eu nunca havia reparado e ficar me perguntando o que ele havia visto em mim. Esse amor adolescente não passou de um beijo é claro, ele estava se mudando e como não tinha coragem de falar o que sentia, fez este ato de desespero antes de ir embora.

As coisas pioraram, é verdade. Descobri-me como uma pessoa bonita, mas por causa da minha timidez, as pessoas não olhavam para mim. Tudo piorou quando descobri a tristeza de ter uma família desfeita quando meus pais se separaram. Aquilo me fechou mais para o mundo e agora, além do violão e dos desenhos, encontrava conforto procurando coisas “sombrias”. Nunca quis ser “do mal”, mas ver imagens que a maioria das pessoas renegava como “coisas ruins”, me fazia sentir que eu realmente estava à margem e longe de toda aquela insanidade normal.

Quando meu avô se foi, senti a tristeza profunda, e uma raiva incontrolável, sobretudo ao descobrir que não havia sido uma morte natural como me fizeram acreditar no início. Um bandido tentou assaltar sua casa e ele teve um ataque.  Pegaram o cara uns dias depois, mas depois de uma fiança ridícula, ele foi solto.

Apesar de tudo, minha vida não foi só tristeza. Fui muito feliz também, sobretudo em realizações pessoais. O primeiro trabalho na escola, a primeira apresentação. Mesmo com a timidez, participei de teatros e apresentações de dança. Entre os meus amigos (os isolados), dei boas risadas, contamos boas histórias, e esquecíamos o mundo quando estávamos reunidos.

Comecei a apreciar as sensações como drogas, sempre procurando uma diferente que me despertasse algo novo. De fato, a melhor, foi um misto. Reunida com meus amigos, fomos abordados por um cara armado. Todos ficaram com medo, mas ao olhar nos olhos dele, o reconheci. Talvez tenha sido os filmes ou as histórias que eu já tinha lido, mas com um movimento rápido, consegui tomar a arma de sua mão. Na verdade, foi algo idiota se você for reparar. Eu simplesmente tomei a arma de sua mão como uma mãe toma um brinquedo de uma criança. Ele não esperava e sua cara de espanto foi ainda maior quando eu disparei em seu estômago antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Todos me olhavam alarmados e ele gritava e rolava no chão com a dor.

O cara não estava sozinho afinal de contas, e quando viu o amigo ferido, fez uma amiga minha de refém ordenando que eu largasse a arma. Ele a segurava com uma faca em seu pescoço e ela chorava como uma criança. Os outros – quatro, mais uma menina e três garotos da mesma idade – em choque não conseguiam se mexer. Um dos rapazes ainda tentou dizer algumas palavras, mas então, eu atirei na perna de minha amiga que estava refém.

Ela estava no chão sangrando e o bandido amigo me olhava com uma cara de quem não sabia o que estava acontecendo, mas de certo me achava retardada. Ele não sabia se pegava outra pessoa de refém ou não, e minha amiga chorava de dor mais do que quando estava só sendo ameaçada. Os outros amigos me olhavam horrorizados e suas pernas tremiam tanto que não conseguiam correr.

– Você é louca garota? – Enfim falou o homem com a faca.

– O que você quer afinal? Já atirei no seu amigo. Já atirei na minha amiga. E vou atirar em qualquer um que você pegar de refém pra tentar me abalar. O que você está esperando afinal?

– Por que…

– Eu não me importo, não percebeu? A única pessoa com quem eu me importava me foi tirada pelo seu amiguinho. Vou te dar uma última chance, o que você está esperando?

Ele ainda me olhava surpreso quando tomou um tiro no joelho. Confesso que era a primeira vez que eu usava uma arma, mas por algum motivo minha precisão era ótima.

Ele tentou correr, mas não foi muito longe por causa da dor. Um amigo meu enfim tirou a pistola de minha mão e jogou no chão. Ele gritava no meu rosto enquanto segurava meus braços como quem balança uma boneca.

– O que está acontecendo com você?

– Sinceramente? Nada.

– Como você tem coragem de dizer “nada”? Olha o que você fez! – respondeu a outra amiga indignada.

– Gente, sério. Não sinto nada. Apenas me defendi e defendi vocês. – Apesar destas palavras, a “defesa” não era bem uma motivação. Na verdade, o nada era a absoluta verdade. Sensações como medo, angústia, raiva, vingança, surpresa, amor e dor estavam tão bagunçadas que era como se eu não estivesse sentindo nada. Na verdade, eu realmente não me importava.

– Defendendo? Você atirou na Ana sem mais nem menos? Isso é defesa? – minha amiga gritava enquanto apontava para Ana. Um dos rapazes ainda me segurava e os outros dois tentavam ajudar Ana que já estava desmaiando pela perda de sangue. O cara que chegou com a arma já estava desacordado em uma poça de sangue, provavelmente morto ou quase, já que não havia movimentos de respiração.

– Ele queria me abalar. Mostrei que ele teria que fazer melhor. – Respondi sem pensar.

– Você está louca? Como assim fazer melhor? Tá achando que isso é uma das histórias que você fica lendo? Você machucou a nossa amiga pra ele não machuca-la e nem machucar você? Você tá ouvindo a idiotice que você tá falando?

– Para gente, nem foi tão sério assim, antes eu machucar ela do que ele. Ele não teria pena… Afinal… – Eu falava até ser interrompida por um “click”.

Quando olhamos, o cara do joelho estourado havia conseguido se arrastar até a pistola, porém, não havia mais balas. Soltei-me das mãos do meu amigo, peguei a faca que não estava tão longe e antes que ele pudesse se defender, cravei na sua barriga. Não sei se acertei algum órgão vital, mas agora ele sangrava e gritava de dor. Meu amigo tentou me segurar de novo, mas com o susto, abri um corte em seu braço. Não havia sido profundo, mas o suficiente pra rasgar sua roupa.

O medo estava nos olhos de todos que não sabiam se podiam se aproximar ou falar alguma coisa. Chegaram então mais dois homens, armados chamando pelos amigos que estavam no chão. Os meus, já estavam com as mãos para o alto.

– É ela… – gemeu o cara do joelho.

Apontaram a arma para mim então, porém o segundo homem abaixou e correu para socorrer o outro que já devia estar esfriando. Meus amigos agora tremiam dos pés a cabeça e quando a minha amiga da perna gritou de dor, o homem a chutou na costela para que se calasse. Os dois amigos que a socorriam, tentaram afastá-lo, mas logo paralisaram com a arma apontada. Com a distração, cravei a faca (com uma força que até hoje não sei como consegui) em suas costas, próximo do ombro. Ele se virou para atirar em mim, mas errou, e se distraiu com a própria dor ao tentar tirar a faca. Tomei a arma assim como havia tomado do primeiro e atirei em sua cabeça. Sujei-me com o sangue que espirrou e agora ouvia os gritos do outro cara me chamando de louca e o disparo feito contra a minha outra amiga que estava em pé de costas pra ele. Ela caiu imediatamente no chão.

Confesso que não sei quanto tempo se passou, nem as horas em que tudo ocorreu, mas estranhei principalmente o fato que ninguém passava naquela rua, nem para ver o que estava acontecendo. Talvez estivéssemos perdidos, ou as pessoas estivessem tão desinteressadas quanto eu.

Minha amiga não se mexia, mas o sangue mais uma vez tomava conta da rua. Então, dei mais um tiro nela.  O cara que estava pronto para atirar em mim não entendeu o que estava acontecendo, e então com o tempo que ganhei, disparei contra ele, o tiro acertou seu peito. Meu amigo, o que me segurou a primeira vez agora tentava me segurar novamente, mas então me virei e acertei um tiro em seu braço. Os outros tentaram correr, mas levaram tiros de raspão nas coxas. Uma vez no chão, atirei mais uma vez em suas pernas, no local onde o tiro havia acertado a primeira vez, apenas para abrir mais o ferimento.

Com todos no chão – alguns mortos – me sentei no chão, sob o sangue, e peguei o celular. Liguei para a polícia.

– Central de emergência.

– Oi, eu preciso de algumas ambulâncias.

– Qual o problema?

– Bem, eu estava com meus amigos e fomos abordados por quatro bandidos. Eles estavam armados e meus amigos estão feridos. É meio urgente, tem muito sangue aqui.

– Sim senhora, me informe o endereço para que eu possa estar enviando o carro imediatamente.

– Sim, Rua Cardeal Mourinho, na Praça das Marrecas. São pelo menos nove corpos, acredito que cinco estão mortos. Duas moças e três bandidos.

– Senhora, me desculpe a pergunta, estou lhe achando muito calma. Preciso me certificar que não é um trote. Você está sozinha, só você não foi acertada?

– Sim. Eu que disparei contra a maioria para autodefesa. Venham rápido antes que tenham que buscar mais mortos por causa da perda de sangue. Sim, fui eu que atirei. E talvez eu tenha matado alguns deles. De qualquer forma, precisamos de socorro.

O silêncio do outro lado da linha ficou evidente e um: “Ok, estamos indo para ir. Exijo que a senhora espere no local” foi tudo antes da linha cair. Não esperei. Fui embora pra casa, mesmo com a roupa suja de sangue. Fiz outro caminho pra casa e quando cheguei, minha mãe me questionou. Respondi apenas, apática, que estava suja de tinta. Ela, que não parecia se importar, voltou a seus afazeres.

Troquei de roupa e sai àquela noite. Sabia que uma hora ou outra iam me encontrar e mesmo não sentindo nada, não estava a fim de responder perguntas.

O que eu senti com tudo isso? Nada. Realmente um nada profundo e libertador. Pode parecer insano, e muitas pessoas não vão entender ou vão me classificar, porém não existe sensação melhor do que sentir nada. As coisas acontecem na sua frente e mesmo sendo absurdo, você continua não se importando. Não que eu não gostasse dos meus amigos, eu gosto deles, e muito. Nunca tive amigos tão verdadeiros como eles, porém naquele momento, não havia outra coisa a se fazer. É por estar preso a sentimentos que as pessoas sofrem e eu não queria sofrer mais. Meus sentimentos são totalmente verdadeiros por eles, e espero sinceramente que estejam bem, os que restaram vivos. Fui ao enterro das minhas amigas, depois na verdade, afinal não podia ser vista, e realmente, sinto muito por elas. E não, não vou dizer que não sabia o que estava fazendo, nem que fui possuída e muito menos que agi por impulso. Eu sei que atirei naquelas pessoas. Sei que matei pessoas, e fiz porque me deu vontade. Vontade de sentir algo novo, algo que não havia experimentado. E mais uma vez, eu digo, a melhor sensação que existe, é o Nada.

Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013