Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017

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Reflexo

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Já fazia mais de dois anos que havia saído para curtir uma noite de festa. Na última, nada havia saído muito bem, afinal, além de ser roubado depois de achar que havia conquistado uma garota dos sonhos, ainda teve que cuidar de seus amigos bêbados e seu amigo com transtorno de personalidade que fez questão de dar um show particular. Depois daquilo, decidiu se dedicar ao trabalho e aos estudos e hoje, finalmente formado e com estabilidade financeira, era hora de comemorar a conquista. Sua roda de amigos havia mudado em partes. Outros rostos, outras vozes; novos perfumes e claro, o mesmo gosto insano pelo álcool.

Estava precisando mesmo sair e ver gente, afinal, nos últimos dias não estava dormindo direito. Além da insônia pelos trabalhos de conclusão de curso, quando conseguia um tempo para descansar, sempre tinha sonhos ruins. Sim, sonhos, pois ele não chamava aquilo de pesadelos ainda. Ele costumava sonhar com frequência, mesmo em curtos períodos. Sempre foi uma criança sonhadora como sua mãe dizia. Sonhos alegres ou enigmáticos, todos traziam boas lembranças ou até mesmo algum presságio. Mas estes…

Voltou sua atenção para uma colega de classe que se juntou ao grupo para comemorar a formação. Ela tinha grandes olhos escuros, que a luz natural pareciam negros, mas sob a luz do sol era possível enxergar uma camada marrom levemente avermelhada em volta de sua pupila. Seus cabelos na altura do ombro, em um loiro acinzentado com algumas mechas em azul ciano davam um ar descolado e ao mesmo tempo um toque diferenciado.

Ela era inteligente, extrovertida e se comunicava bem, e sempre que podia dava dicas de bons livros e filmes para que ele pudesse ler e assistir. Estava realmente encantado e ali era a oportunidade para que talvez, pelo menos tivesse uma boa lembrança.

Sentou ao lado dela e assim como todos participou da conversa animadamente, e notou os olhares dela curiosos sobre ele.

– O que foi? – Ele perguntou com um sorriso.

– Você não bebe? – Ela ergueu seu próprio copo.

– Não, eu dirijo, normalmente levo os bêbados para casa… – respondeu ele, rindo.

– Que ótimo! Já tenho carona então. – ela replicou com uma piscada delicada.

A noite passou depressa e a madrugava os lembravam de que já era hora de se retirarem. Depois de levar todos para casa, ela estava ali, no banco da frente, dormindo sem preocupações com a cabeça torta para o lado direito. Ele encostou o carro, acariciou seu rosto e lhe deu um beijo delicado na face. Ela despertou devagar e perguntou onde estavam.

– Na verdade, no centro. Não sei onde é sua casa. – ele disse soltando o volante.

– Não é muito longe, é só seguir a avenida e virar após um outdoor de uma loja de travesseiros. Ai é só seguir e parar em frente a uma casa azul. – ela respondeu sem olhar muito, se encolhendo para cochilar novamente.

Seguiram então pelas ruas escuras. Chegaram sem problemas a casa e então ele descobriu que ela morava sozinha. Muito gentil e cheia de segundas intenções, ela o convidou para entrar e quando perceberam, já estavam se jogando ofegantes na cama, cada um de um lado. Ela, agora cansada, dormiu do jeito que estava. Ele, carinhoso, a cobriu, e levantou para procurar algo pra comer.

– Edgar… Edgaaar… Ed… Edgar…

– O que foi linda? – Ele voltou para o quarto correndo ao ouvir o chamado.

Ela ainda dormia sem sequer ter se mexido. Voltando a cozinha, ouviu novamente um sussurro…

– Ei… Edgar… Ed…

Balançou a cabeça, confuso. Resolveu então ir ao banheiro para lavar o rosto.

– Não pode ser… Era um sonho, me chamavam no sonho e eu não conseguia ver, eu só devo ter ficado impressionado, é isso… Chamavam-me, gritavam, mas eu não conseguia ver quem me chamava…

– Porque você nunca levantou para olhar no espelho…

Edgar então deu um pulo que derrubou um vasinho que sua bela deixou no banheiro. Ele olhava fixamente, assustado para o espelho, se beliscando discretamente.

– Pare com essa tolice de se beliscar, sim, eu estou falando com você… Chamando-te, clamando, implorando por um pouco de atenção… Você é realmente um cara difícil. As garotas gostam disso sabia?

– Eu…

– Eu sinceramente não sei por que o espanto, você já viu isso acontecer antes, a diferença, é que não era com você…

– Estou ficando louco, só pode… – Edgar soltou o ar que prendia sem perceber em um só desabafo andando em círculos pelo banheiro, atordoado.

– Está me deixando tonto sabia… Vai me deixar falar, ou não?

– Falar o que? O que você quer dizer? O que eu estou dizendo? Não posso alimentar essa loucura… – Edgar saiu do banheiro fechando a porta, voltando para o quarto.

Ela estava ali, tão linda, dormindo com uma inocência de criança. Quando estava se deitando para ficar ao lado dela, ouviu um “toc, toc” vindo da porta do guarda-roupa. Fechou os olhos na esperança de ter ouvido errado, mas novamente ouviu a leve batida de quem pede permissão para entrar. Apertou os olhos então, escondendo o rosto atrás do ombro dela, esperando pelo silêncio mórbido da noite. Após um período quase sepulcral foi surpreendido por um grito em seu ouvido. “Abre!”.

Atordoado, abriu a porta e lá estava um espelho enorme de corpo inteiro, e ninguém menos que ele novamente.

– Pensei que não ia abrir. Sério, nós precisamos conversar, eu quero ter uma relação boa com você, por isso quero te mostrar uma coisa…

Edgar apenas observava em silêncio, como quem se deixa levar por uma nova sensação.

– Ei, para de ficar com essa cara porque você não tá drogado.

– O que significa tudo isso afinal? Por que eu te vejo, porque você está falando comigo? O que você quer afinal? – Ele enfim respondeu como quem está sem forças.

– Isso, é a vida, duplicada. Sempre existiu sabe, mas ninguém para pra prestar atenção. Você fala de mim como se eu fosse um estranho, mas eu sou você Edgar. Sou você, aqui do outro lado, onde tudo acontece de outra forma, do mesmo jeito. Onde os pontos finais são iguais, mesmo indo por outros meios.

– O que? – Edgar parecia confuso.

– Esta é uma das coisas que faz parte da grande verdade. Aquela que apenas um homem descobriu, e quando tentou contar as pessoas ninguém deu atenção. Esta é só um dos pontos. O que vocês ai desse lado chamam de loucura, vozes, esquizofrenia, nada mais é do que pessoas que nasceram com capacidade de ter um contato direto aqui do outro lado.

– Do que você está falando? – Agora Edgar estava realmente disposto a entender.

– Raciona criatura! Esta situação não te lembra de nada? Ou melhor, não lembra ninguém? – A pessoa no espelho gesticulava animada. De fato, o corpo, a altura, o porte e até as roupas eram suas características, mas o rosto estava oculto pela escuridão. Então lhe veio à lembrança, de dois anos atrás, seu amigo perturbado, seu amigo bêbado, seu amigo…

– Hugo! – Edgar disse por fim. – Ele estava falando com…

– Com o espelho aquele dia. Ele estava falando com ele mesmo, o lado mais divertido e perigoso dele, diga-se de passagem.

– Mas…

– Vamos simplificar? Tá vendo essa linda menina deitadinha ai na cama? Você a conquistou, ela te chamou pra casa dela e ela quis fazer tudo certo? Aqui, bem… Foi assim…

Agora a imagem do espelho se mexia e mostrava o mesmo quarto, porém a menina estava torna na cama de barriga pra cima, as mãos amarradas, e claramente desacordada. Então, ele aparecia em cena. Mesmo cabelo, mesma roupa, tudo. Ele a pegava e a despia e então possuía o corpo da bela dama. Ela acordava assustada em meio ao processo, e mesmo gritando pedindo para que ele parasse, ele continuava sem pudores. Só restou a ela se render, na esperança que acabasse logo. A imagem tremeu e então mostrou um momento antes, quando estavam no carro e ela agradecia sóbria e timidamente a carona, enquanto ele avançava sobre ela tentando lhe roubar um beijo. Então, antes de sair do carro, ele lhe ofereceu uma água, já que ela não havia bebido nada a noite toda. Ela negou, mas como ele insistiu, ela tomou alguns goles na esperança de sair logo do carro.

Mais uma vez a imagem tremeu, mostrando mais uma vez a imagem de antes, quando ainda estavam no bar. Ela tímida com algumas amigas e ele com alguns amigos, cada um puxando uma menina para um lado, e ela assustada pedindo para ele ir embora.

A imagem tremeu pela última vez, voltando a sua imagem com o rosto oculto.

– Eu não sou esse monstro que você é… – Edgar respondia colocando as mãos na cabeça.

– Realmente não é. Por isso que eu fazia isso. Mas lembre-se, se um dia você precisar, um dia você estiver sozinho, lembre-se que sempre pode contar comigo. Eu estou aqui, sempre com você, tão certo como a sua sombra…

– Eu nunca iria precisar de um maníaco como você! – Edgar falou alto, dando um passo a frente para ficar mais perto do espelho, mas ainda sem olhar o rosto oculto do reflexo.

– Por que não olha em meus olhos?

– Não tenho porque encarar um monstro… – Disse Edgar disfarçando com a cabeça para a direita, para não admitir seu medo.

– Um monstro… E quem você acha que é o monstro mesmo?

– Não há dúvidas de que é você!

– E quem sou eu?

– Você… – Edgar então olhou diretamente para o espelho. Não havia mais nada ocultando a face e então viu seu rosto, um pouco mais ávido, com olhos acesos e espertos, com uma expressão mais forte de quem está atento a tudo.

– Eu sou você Edgar… – algo sussurrou em seu ouvido. – Eu sou você…

Edgar então fechou a porta do guarda roupa com força. Sua respiração era forte, como quem correu uma maratona para estar ali. Virou-se para tentar dormir ao lado de sua bela, mas acabou abafando seu grito com sua própria mão.

Ela não estava mais deitada carinhosamente como ele havia deixado. Ela estava amarrada, dopada com as roupas rasgadas, em volta de várias garrafas de bebida e alguns comprimidos. Correu para o banheiro novamente, lavou o rosto e olhou fixamente para o espelho.

– Mas que merda é essa? – Ele gritou pra si mesmo. Ninguém respondeu e ele não esperou resposta. Desamarrou a moça e correu pela rua escura, deixando seu carro para trás. Uma faixa laranja se formava no horizonte anunciando um novo dia, mas Edgar não parou para reparar, pois corria em meio a uma confusão de sussurros.

No quarto, a bela dama acordou tonta, se equilibrando da maneira que pôde. Abriu a porta do guarda roupa com dificuldade e sentou na cama. E falou com uma voz trêmula:

– Ei, eu quero trocar de lado, por favor…

 

juhliana_lopes 04-07-2015

Então gente, este texto foi inspirado na música Reflexo Inverso, da Banda Burlesca do meu amigo Jedai! Eu amei a música e ela foi realmente o impulso para um texto que já tinha um bom tempo que eu estava tentando escrever. Talvez tenha saído mais perturbado do que eu imaginei, mas ainda sim, espero que gostem, e claro, não deixem de ouvir a música logo abaixo e curtir a page da banda clicando AQUI. o/