Olhos verdes

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Era um ambiente novo, bem equipado e com cheiro de tinta. Camas devidamente arrumadas, lençóis limpos e refeitórios organizados. Estava tudo pronto. Andaram por mais alguns corredores, com os passos ecoando entre os espaços vazios. Pararam então no pátio, onde o sol entrava pela janela, iluminando parte do ambiente.

– Acho que não dura uma semana. – disse um dos doutores.

– O que disse? – respondeu o outro com a cabeça baixa.

– Bem Andy, é só você ver. Limpinho demais, organizado demais, pra quando eles chegarem bagunçarem tudo. Devemos admitir, são piores que crianças nesse quesito.

– Regis, olha eu não acho que devemos pensar assim. Estamos aqui para ajudar não é mesmo? – respondeu Andrew colocando a mão no ombro de seu amigo.

– Sim, mas isso não impede deles fazerem bagunça. E cara, meu nome nem é Reginaldo para você ficar me chamando de Regis… – respondeu Regulus dando as costas para o amigo.

– Sei lá cara. Fica estranho te chamar de “Reg”, parece que to falando de música de reggae… – Respondeu Andrew rindo.

Ouviram então o barulho no portão. Os primeiros pacientes estavam chegando e eles ajudaram as enfermeiras a acomodá-los. Alguns estavam assustados e foi preciso sedá-los para que se acalmasse. Outros, ficaram quietos, observando todos os detalhes. Alguns puxaram conversa, perguntaram tudo sobre o local, e ficaram animados em caminhar pelo pátio e aproveitar o sol ameno da manhã.

Porém, havia um que estava quieto demais. Entrou no quarto, sentou no chão e ali ficou. As enfermeiras estranharam e chamaram o Dr. Regulus. Ele entrou, se abaixou próximo do paciente, falou algumas coisas e saiu, dizendo para elas que não precisavam se preocupar.

O dia então se passou. Regulus atendia outro paciente quando as enfermeiras procuraram o Dr. Andrew.

– Doutor, estamos preocupadas.

– O que aconteceu?

– É o paciente do quarto 225. Ele chegou, sentou no chão e esta lá até agora. Não quis comer, não quer falar. Já chamamos o Doutor Regulus, e ele disse que não precisava a gente se preocupar, mas ele está quieto demais…

– Entendo. Vou dar uma olhada.

E então Andrew seguiu as moças até o quarto do paciente.

O paciente, que aparentava ser alto, quase 1,90, sentado no chão com as pernas cruzadas como se estivesse em posição de lótus, não gesticulava, não se mexia e nem resmungava. Mal respirava. Não quis trocar de roupa. Seu cabelo escuro na altura do pescoço, ocultava parte do rosto já que estava com a cabeça levemente baixa. Andrew entrou, com um sonoro boa noite e aguardou. Quando ia dar um passo para se aproximar, ouviu o paciente dizer em um tom de voz rouco e grave.

– Quem é você?

Surpreso, pois ele continuava de costas para a porta, respondeu.

– Sou o novo doutor. Andrew é o meu nome, mas pode me chamar de Andy se quiser.

– Não há nada para você aqui Andy.

A voz dele era profunda e pesada. A resposta era curta e grossa, mas mesmo assim Andrew se aproximou e sentou-se no chão, de frente para o paciente. Ele não levantou a cabeça, mas mesmo assim o bom doutor insistiu em falar com ele.

– Você gostou do seu quarto novo? Devia ver a cama, é bem macia! E você vai ter roupas limpas também, vai ser bem melhor. Gostaria de experimentar?

Andrew viu então o rapaz levantar levemente a cabeça e abrir a boca para lhe dizer alguma coisa, mas ele parou e ficou lhe encarando. Animado, tentou puxar novamente um assunto, mas logo foi surpreendido pelo paciente. Em um movimento rápido, ele levou a sua mão até o pescoço, e o prensou com o braço contra a parede, o levantando para deixar seus olhos na sua altura. O doutor, desesperado com a força do paciente, gesticulou para que as enfermeiras buscassem ajuda, já que ele não conseguia gritar. Andrew então viu que o paciente tinha olhos verdes. Grandes olhos verdes raivosos, semicerrados. Sua força era extrema e aos poucos ele sentia que perderia a consciência.

Regulus entrou batendo com o pé na porta e gritando:

– Diego, solta ele agora!

Diego, o paciente, assustado com o barulho tirou o braço, fazendo o doutor cair no chão. Regulus se aproximou de Andrew que ainda estava consciente. Quando se virou novamente para Diego, recebeu um golpe no estômago, caindo em cima da cama. Enquanto isso, Diego se voltou novamente para Andrew, montando sobre ele com as mãos em seus ombros.

– Onde está ela? – Diego falou alto.

– Eu… Eu não sei… De quem você está falando? – respondeu Andrew assustado.

– Ela está no outro prédio Diego! Solta ele, eu já te disse! – respondeu Regulus, tentando dar uma chave de braço no paciente.

– Por que ele tem os olhos dela? Você disse que só eu tinha os olhos dela! – disse Diego, um pouco choroso, enquanto Regulus o puxava para a cama para sedá-lo.

– Andrew, sai daqui! – ordenou Regulus. – Ele não tem os olhos dela. Os olhos dele não são verdes como os dela e nem como os seus. Só você tem, me ouviu? – Regulus disse, agora com um tom mais doce, olhando para Diego, enquanto preparava o remédio.

– Eu quero ela aqui. Eu quero vê-la! – Diego, ainda com o tom grave, falava como uma criança mimada.

– Ela vai vir te ver ok? Mas não hoje e nem amanhã, mas eu prometo pra você que quando ela vir, você vai ser o primeiro a saber. Agora dorme… – Disse Regulus calmamente enquanto aplicava a injeção.

Enquanto isso, do lado de fora, Andrew esperava assustado, sem entender muita coisa. Regulus saiu, e o levou até o refeitório.

– Quem é esse cara? – perguntou Andrew enquanto tomava um copo de água.

– Um paciente antigo do outro prédio. Tivemos que tirar ele de lá.

– Quem é a moça dos olhos verdes que ele falou?

– Uma paciente. Da ala feminina, os dois ficavam próximos no eventos de família que fazíamos com os pacientes bonzinhos.  Ela adorava ele, e os dois estavam realmente progredindo. Até que um dia apareceu um outro paciente de olhos claros, mas os dele não eram verdes de verdade. Esse cara começou a perseguir a moça nas festas e Diego percebeu. Quando ele viu que o cara tinha olhos claros, associou que era verde e tentou arrancá-los, dizendo que somente ele poderia ter os olhos dela. Ali ainda conseguimos controlar a situação, mas então… – Regulus fez uma pausa fechando os olhos.

– O que aconteceu Regis?

– Bem, esse paciente novo, tentou prender a moça no quarto dele. Diego ouviu os gritos dela e ficou completamente insano. Ele salvou a moça, entregando ela sã e logicamente muito assustada para as enfermeiras. Já o rapaz…

– O que ele fez? Conta logo cara! – disse Andrew ansioso.

– Ele quebrou os braços do outro cara Andy. Mas não quebrou como qualquer um quebraria. O ortopedista que examinou disse que parecia que um caminhão havia passado por cima dos ossos dele. Tiveram que colocar uma placa de titânio para tentar consertar. Além disso, ele tentou arrancar os olhos do cara de novo e não conseguiu, mas deixou cicatrizes pelo rosto do paciente. Por isso que esse novo espaço foi agilizado. Para que ele pudesse ficar longe.

– Regis, eu… Eu podia ter morrido ali.

– Por isso eu falei pras enfermeiras pra ficar tranquilas que iria ficar tudo bem, só esqueci de avisar a você pra ficar longe dali.

– Agora eu já aprendi a lição.

– Espero que sim.

Andrew terminou a sua água e continuou a olhar os outros pacientes. Regulus verificou como Diego estava e conversou com as enfermeiras.

No fim da noite, Andrew passou pelos corredores para ver quais pacientes estavam dormindo. Passou então pelo quarto de Diego e olhou rapidamente pela janela da porta. Não havia ninguém. Pensou em chamar Regulus para olhar, mas talvez não houvesse tempo. Abriu a porta rapidamente para ver se não tinha sido apenas impressão mas não havia ninguém.

– Ah, merda! Onde ele foi parar? – Andrew falou baixinho, olhando embaixo da cama e no banheiro. – Onde será que ele está?

– Aqui. – respondeu Diego, dando uma chave de braço em Andrew e tampando seu nariz e boca com a outra mão. – Agora fica quietinho que eu prometo que não vai doer nada.

Regulus correu o mais rápido que pôde quando ouviu os gritos dos pacientes da ala leste. Apertou o passo quando ouviu os gritos de Andrew e parou subitamente quando ouviu a risada macabra de Diego.  De fato, os olhos dela eram somente dele.

juhliana_lopes 03-04-2016

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Reflexo

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Já fazia mais de dois anos que havia saído para curtir uma noite de festa. Na última, nada havia saído muito bem, afinal, além de ser roubado depois de achar que havia conquistado uma garota dos sonhos, ainda teve que cuidar de seus amigos bêbados e seu amigo com transtorno de personalidade que fez questão de dar um show particular. Depois daquilo, decidiu se dedicar ao trabalho e aos estudos e hoje, finalmente formado e com estabilidade financeira, era hora de comemorar a conquista. Sua roda de amigos havia mudado em partes. Outros rostos, outras vozes; novos perfumes e claro, o mesmo gosto insano pelo álcool.

Estava precisando mesmo sair e ver gente, afinal, nos últimos dias não estava dormindo direito. Além da insônia pelos trabalhos de conclusão de curso, quando conseguia um tempo para descansar, sempre tinha sonhos ruins. Sim, sonhos, pois ele não chamava aquilo de pesadelos ainda. Ele costumava sonhar com frequência, mesmo em curtos períodos. Sempre foi uma criança sonhadora como sua mãe dizia. Sonhos alegres ou enigmáticos, todos traziam boas lembranças ou até mesmo algum presságio. Mas estes…

Voltou sua atenção para uma colega de classe que se juntou ao grupo para comemorar a formação. Ela tinha grandes olhos escuros, que a luz natural pareciam negros, mas sob a luz do sol era possível enxergar uma camada marrom levemente avermelhada em volta de sua pupila. Seus cabelos na altura do ombro, em um loiro acinzentado com algumas mechas em azul ciano davam um ar descolado e ao mesmo tempo um toque diferenciado.

Ela era inteligente, extrovertida e se comunicava bem, e sempre que podia dava dicas de bons livros e filmes para que ele pudesse ler e assistir. Estava realmente encantado e ali era a oportunidade para que talvez, pelo menos tivesse uma boa lembrança.

Sentou ao lado dela e assim como todos participou da conversa animadamente, e notou os olhares dela curiosos sobre ele.

– O que foi? – Ele perguntou com um sorriso.

– Você não bebe? – Ela ergueu seu próprio copo.

– Não, eu dirijo, normalmente levo os bêbados para casa… – respondeu ele, rindo.

– Que ótimo! Já tenho carona então. – ela replicou com uma piscada delicada.

A noite passou depressa e a madrugava os lembravam de que já era hora de se retirarem. Depois de levar todos para casa, ela estava ali, no banco da frente, dormindo sem preocupações com a cabeça torta para o lado direito. Ele encostou o carro, acariciou seu rosto e lhe deu um beijo delicado na face. Ela despertou devagar e perguntou onde estavam.

– Na verdade, no centro. Não sei onde é sua casa. – ele disse soltando o volante.

– Não é muito longe, é só seguir a avenida e virar após um outdoor de uma loja de travesseiros. Ai é só seguir e parar em frente a uma casa azul. – ela respondeu sem olhar muito, se encolhendo para cochilar novamente.

Seguiram então pelas ruas escuras. Chegaram sem problemas a casa e então ele descobriu que ela morava sozinha. Muito gentil e cheia de segundas intenções, ela o convidou para entrar e quando perceberam, já estavam se jogando ofegantes na cama, cada um de um lado. Ela, agora cansada, dormiu do jeito que estava. Ele, carinhoso, a cobriu, e levantou para procurar algo pra comer.

– Edgar… Edgaaar… Ed… Edgar…

– O que foi linda? – Ele voltou para o quarto correndo ao ouvir o chamado.

Ela ainda dormia sem sequer ter se mexido. Voltando a cozinha, ouviu novamente um sussurro…

– Ei… Edgar… Ed…

Balançou a cabeça, confuso. Resolveu então ir ao banheiro para lavar o rosto.

– Não pode ser… Era um sonho, me chamavam no sonho e eu não conseguia ver, eu só devo ter ficado impressionado, é isso… Chamavam-me, gritavam, mas eu não conseguia ver quem me chamava…

– Porque você nunca levantou para olhar no espelho…

Edgar então deu um pulo que derrubou um vasinho que sua bela deixou no banheiro. Ele olhava fixamente, assustado para o espelho, se beliscando discretamente.

– Pare com essa tolice de se beliscar, sim, eu estou falando com você… Chamando-te, clamando, implorando por um pouco de atenção… Você é realmente um cara difícil. As garotas gostam disso sabia?

– Eu…

– Eu sinceramente não sei por que o espanto, você já viu isso acontecer antes, a diferença, é que não era com você…

– Estou ficando louco, só pode… – Edgar soltou o ar que prendia sem perceber em um só desabafo andando em círculos pelo banheiro, atordoado.

– Está me deixando tonto sabia… Vai me deixar falar, ou não?

– Falar o que? O que você quer dizer? O que eu estou dizendo? Não posso alimentar essa loucura… – Edgar saiu do banheiro fechando a porta, voltando para o quarto.

Ela estava ali, tão linda, dormindo com uma inocência de criança. Quando estava se deitando para ficar ao lado dela, ouviu um “toc, toc” vindo da porta do guarda-roupa. Fechou os olhos na esperança de ter ouvido errado, mas novamente ouviu a leve batida de quem pede permissão para entrar. Apertou os olhos então, escondendo o rosto atrás do ombro dela, esperando pelo silêncio mórbido da noite. Após um período quase sepulcral foi surpreendido por um grito em seu ouvido. “Abre!”.

Atordoado, abriu a porta e lá estava um espelho enorme de corpo inteiro, e ninguém menos que ele novamente.

– Pensei que não ia abrir. Sério, nós precisamos conversar, eu quero ter uma relação boa com você, por isso quero te mostrar uma coisa…

Edgar apenas observava em silêncio, como quem se deixa levar por uma nova sensação.

– Ei, para de ficar com essa cara porque você não tá drogado.

– O que significa tudo isso afinal? Por que eu te vejo, porque você está falando comigo? O que você quer afinal? – Ele enfim respondeu como quem está sem forças.

– Isso, é a vida, duplicada. Sempre existiu sabe, mas ninguém para pra prestar atenção. Você fala de mim como se eu fosse um estranho, mas eu sou você Edgar. Sou você, aqui do outro lado, onde tudo acontece de outra forma, do mesmo jeito. Onde os pontos finais são iguais, mesmo indo por outros meios.

– O que? – Edgar parecia confuso.

– Esta é uma das coisas que faz parte da grande verdade. Aquela que apenas um homem descobriu, e quando tentou contar as pessoas ninguém deu atenção. Esta é só um dos pontos. O que vocês ai desse lado chamam de loucura, vozes, esquizofrenia, nada mais é do que pessoas que nasceram com capacidade de ter um contato direto aqui do outro lado.

– Do que você está falando? – Agora Edgar estava realmente disposto a entender.

– Raciona criatura! Esta situação não te lembra de nada? Ou melhor, não lembra ninguém? – A pessoa no espelho gesticulava animada. De fato, o corpo, a altura, o porte e até as roupas eram suas características, mas o rosto estava oculto pela escuridão. Então lhe veio à lembrança, de dois anos atrás, seu amigo perturbado, seu amigo bêbado, seu amigo…

– Hugo! – Edgar disse por fim. – Ele estava falando com…

– Com o espelho aquele dia. Ele estava falando com ele mesmo, o lado mais divertido e perigoso dele, diga-se de passagem.

– Mas…

– Vamos simplificar? Tá vendo essa linda menina deitadinha ai na cama? Você a conquistou, ela te chamou pra casa dela e ela quis fazer tudo certo? Aqui, bem… Foi assim…

Agora a imagem do espelho se mexia e mostrava o mesmo quarto, porém a menina estava torna na cama de barriga pra cima, as mãos amarradas, e claramente desacordada. Então, ele aparecia em cena. Mesmo cabelo, mesma roupa, tudo. Ele a pegava e a despia e então possuía o corpo da bela dama. Ela acordava assustada em meio ao processo, e mesmo gritando pedindo para que ele parasse, ele continuava sem pudores. Só restou a ela se render, na esperança que acabasse logo. A imagem tremeu e então mostrou um momento antes, quando estavam no carro e ela agradecia sóbria e timidamente a carona, enquanto ele avançava sobre ela tentando lhe roubar um beijo. Então, antes de sair do carro, ele lhe ofereceu uma água, já que ela não havia bebido nada a noite toda. Ela negou, mas como ele insistiu, ela tomou alguns goles na esperança de sair logo do carro.

Mais uma vez a imagem tremeu, mostrando mais uma vez a imagem de antes, quando ainda estavam no bar. Ela tímida com algumas amigas e ele com alguns amigos, cada um puxando uma menina para um lado, e ela assustada pedindo para ele ir embora.

A imagem tremeu pela última vez, voltando a sua imagem com o rosto oculto.

– Eu não sou esse monstro que você é… – Edgar respondia colocando as mãos na cabeça.

– Realmente não é. Por isso que eu fazia isso. Mas lembre-se, se um dia você precisar, um dia você estiver sozinho, lembre-se que sempre pode contar comigo. Eu estou aqui, sempre com você, tão certo como a sua sombra…

– Eu nunca iria precisar de um maníaco como você! – Edgar falou alto, dando um passo a frente para ficar mais perto do espelho, mas ainda sem olhar o rosto oculto do reflexo.

– Por que não olha em meus olhos?

– Não tenho porque encarar um monstro… – Disse Edgar disfarçando com a cabeça para a direita, para não admitir seu medo.

– Um monstro… E quem você acha que é o monstro mesmo?

– Não há dúvidas de que é você!

– E quem sou eu?

– Você… – Edgar então olhou diretamente para o espelho. Não havia mais nada ocultando a face e então viu seu rosto, um pouco mais ávido, com olhos acesos e espertos, com uma expressão mais forte de quem está atento a tudo.

– Eu sou você Edgar… – algo sussurrou em seu ouvido. – Eu sou você…

Edgar então fechou a porta do guarda roupa com força. Sua respiração era forte, como quem correu uma maratona para estar ali. Virou-se para tentar dormir ao lado de sua bela, mas acabou abafando seu grito com sua própria mão.

Ela não estava mais deitada carinhosamente como ele havia deixado. Ela estava amarrada, dopada com as roupas rasgadas, em volta de várias garrafas de bebida e alguns comprimidos. Correu para o banheiro novamente, lavou o rosto e olhou fixamente para o espelho.

– Mas que merda é essa? – Ele gritou pra si mesmo. Ninguém respondeu e ele não esperou resposta. Desamarrou a moça e correu pela rua escura, deixando seu carro para trás. Uma faixa laranja se formava no horizonte anunciando um novo dia, mas Edgar não parou para reparar, pois corria em meio a uma confusão de sussurros.

No quarto, a bela dama acordou tonta, se equilibrando da maneira que pôde. Abriu a porta do guarda roupa com dificuldade e sentou na cama. E falou com uma voz trêmula:

– Ei, eu quero trocar de lado, por favor…

 

juhliana_lopes 04-07-2015

Então gente, este texto foi inspirado na música Reflexo Inverso, da Banda Burlesca do meu amigo Jedai! Eu amei a música e ela foi realmente o impulso para um texto que já tinha um bom tempo que eu estava tentando escrever. Talvez tenha saído mais perturbado do que eu imaginei, mas ainda sim, espero que gostem, e claro, não deixem de ouvir a música logo abaixo e curtir a page da banda clicando AQUI. o/

Sem escuridão

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Minha mente roda sem parar,

E antes que eu possa entender,

Já me vejo de novo a contar,

Estrelas perdidas que não brilham mais.

 

Não há mais escuridão,

Não há sonhos nem o repouso merecido.

Não há conforto e nem mesmo um chão.

Não há companhia e nem a solidão.

 

A visão fica turva,

A audição mais alta,

Não há palavras para dizer,

Mas a boca insiste em salivar,

Preparando discursos e respostas,

Para pessoas que não vão perguntar.

 

O silêncio constante trás dor aos ouvidos.

Crio vozes que me dizem o que eu gostaria de ouvir,

Vozes que me dizem o que eu não quero escutar,

Vozes que me dão conselhos vãos,

E vozes que me alertam o perigo.

E aquelas vozes que não dizem nada,

Mas estão ali, apenas esperando a sua vez.

 

Perdi o tato e o movimento dos braços,

Que apesar de ligados ao meu corpo não podem se mexer,

Amarrados constantemente, onde eu não posso ver.

 

Não deito ou levanto, pois as pernas não me obedecem mais.

Não há impulso ou alongamento,

Nem exercício ou caminhada,

Apenas um lugar “macio” para repousar,

Um lugar “de paz”.

 

A luz machuca meus olhos e o branco me perturba.

Às vezes imagino outras cores para me distrair,

Mas quando tento dormir, o branco me mantém acordada, atenta.

Quando tento esquecer, o branco volta como uma tela,

Uma galeria das minhas tragédias.

 

Uma camisa de força,

Alguns remédios

E um manicômio.

 

Alguns sonhos,

Uma pessoa

E um pensamento.

 

A sede,

O desejo

E uma oportunidade.

 

Uma resposta,

Uma réplica

E o fim.  

 

29-03-2015 juhliana_lopes

Insatisfeita

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Em um quarto com paredes encardidas, ela estava sentada sobre a cama com as pernas quase em posição de lótus e as mãos sobre os pés. Observava em silêncio a movimentação dos enfermeiros que entraram para retirar as roupas espalhadas pelo quarto para lavar. Saíram e ela continuou na mesma posição, olhando fixamente para frente, concentrada em alguma coisa.

Eu já disse, por que você não me escuta?

Eu não fiz nada demais, apenas segui meu instinto.

Mas toda vez que você segue seu instinto, eu que levo bronca. Você nunca espera pra encarar a verdadeira responsabilidade, sabe muito bem o que ela acha das suas atitudes, mas sempre deixa que eu leve a culpa.

Meu único dever é fazer o que eu faço.

Mas não pode ser assim, já passou da hora de você perceber que isso que você faz…

O que aconteceu aqui afinal? Vocês ficaram loucas?

Bem, eu não tive… Ei, aonde você vai?

Não tenho nada para fazer aqui, já estou satisfeita, com licença essa briga é de vocês.

Mas você não pode…

Quantas vezes eu já falei, vocês são surdas?

Eu tentei evitar, você sabe! Eu juro que eu tentei… Eu…

Você sempre tenta isso, tenta aquilo, não acha que tá na hora de parar de tentar pra e correr atrás de realmente conseguir alguma coisa? De me apresentar um resultado satisfatório?

Eu… Eu tento… Digo, eu estou correndo atrás, mas você sabe que não depende só de mim, eu não consigo segurar sozinha se ela não…

Desculpas furadas e esfarrapadas, só isso que você sabe me apresentar. Sabe o que você é? Uma incompetente que não consegue ter responsabilidade sobre você mesma e muito menos sobre os outros. É óbvio que não vai conseguir jamais controlar aquele ser imundo, não consegue nem se controlar. Eu devia tomar conta disso, mas sou ocupada demais para parar tudo o que eu tenho para olhar crianças levadas. Vocês nunca vão crescer enquanto não conseguirem sucesso nessa missão idiota que eu dei pra vocês. Algo tão simples e você sempre inútil não consegue…

Eu não sou inútil, eu faço meu trabalho, mas não dependo só de mim, eu sempre sigo o correto conforme as regras e restrições que você me passa. Todo mês acompanho a cartilha e reviso sempre tudo o que me passa para ter certeza de que nada mudou ou o que sofreu alteração, está sendo devidamente seguido, mas ela… Ela é complicada, não quer seguir o que eu falo, só pensa nela mesma, como eu posso fazer alguma coisa?

Já desaprendeu a sua função? Eu tenho mesmo que ficar repetindo mil vezes o que é certo e o que é errado? Percebe o quão inútil que você é e se assume ser a ponto de me perguntar o que fazer como se esperasse eu fosse fazer por você? Entenda, você é o responsável por manter o controle, eu sou pago apenas para ditar as regras. Se eu tiver que fazer o seu serviço, você não precisaria estar aqui, pois eu mesma já teria me livrado de você faz tempo.

Isso é pressão. Eu não aguento tudo sozinha sabia? Afinal, não é só um lado que eu preciso controlar.

Está me chamando por acaso de descontrolada? Está insinuando o que?

Nada, não insinuei nada senhora.

Você mente muito mal. Está dizendo que eu estou ficando louca? Que eu tenho que ser controlada? É isso que está dizendo?

Não senhora. Só estou dizendo que eu não consigo controlar tudo sozinha…

Dê um jeito, se vira você não nasceu quadrada, você mais do que ninguém tem a consciência do que é certo e do que é errado. Faça seu emprego valer a pena.

Espere não me deixe aqui, eu preciso de um conselho, uma ajuda pelo menos…

Ai, ai…

Ei, espere, onde você pensa que vai?

Eu estou com fome ué. Aliás, uma fome diferente daquela primeira, e acho que vou precisar de algo a mais hoje se é que você me entende.

Não vai não. Ah não vai mesmo. Não vou permitir isso!

Em algum momento eu perguntei se eu podia ir?

Não, não perguntou, mas você…

Então, eu não preciso da sua autorização. Eu não sei por que você insiste. Parece que não sabe que eu sempre faço o que eu quero.

Custa ser moderada pelo menos, sem violência, sem indecência…

Custa, o meu prazer. E você sabe que eu não abro mão disso por nada por que…

– Falando sozinha de novo? Você tomou os remédios hoje? – Disse o enfermeiro entrando na sala, abrindo a cortina velha para que a luz do sol pudesse aquecer o quarto.

– Eu não falo sozinha. – Disse ela encolhendo as pernas com os joelhos próximos do peito.

– Então fala com quem? Com o papai Noel? – Respondeu o enfermeiro com tom irônico.

– Não.

Mais uma morte, como você acha que eu posso administrar isso perante os outros?

Eu falhei de novo, fiz de tudo pra impedir, mas ela me empurrou, não pude fazer nada…

Pare de chorar como uma idiota. Onde ela está? Vou ter que tomar as rédeas por aqui, tudo isso está indo longe demais!

Qual é a honra da visita?

Não me olhe com esse riso bobo no rosto, você sabe muito bem o que fez e que tudo o que você faz é errado. TUDO!

Por que você não me escuta… Era fome que você estava sentindo, por que não esperou ele deixar a bandeja com o café?

E quem disse que eu estava com fome de café? Eu queria carne ué. Leve, suculenta e mal passada. Claro que seria melhor se estivesse passado pelo menos no óleo, mas pelo menos estava fresca e quente…

Mas tinha que ser logo a carne do enfermeiro? Precisava abrir a barriga dele com as unhas?

VOCÊ É UMA INÚTIL! UM MONSTRO! UMA ABERRAÇÃO! COMO PODE AGIR ASSIM?

Eu acabei com o meu desejo certo? Estou feliz certo? Vocês deviam relaxar e ficar satisfeitas também, afinal…

– Oh meu Deus! O que aconteceu aqui? Chamem mais enfermeiros, rápido! Úrsula, o que você fez?!

Eu? Eu nada.

 

/juhliana_lopes 04-12-2014

Amante

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E então você aparece.

Com movimentos leves e envolventes,

Passos certos e um calor intenso,

enlaça seus braços delicados sobre meu pescoço,

e com movimentos sutis me puxa para junto de seu corpo.

Me largue!

Não quero o seu abraço, muito menos o seu beijo.

Não quero saber de seu feitiço!

Mas nada disso é capaz de te parar.

Novamente você vem,

como uma serpente se enrola em minha perna,

logo, está tomando meu ar,

me deixando sem jeito.

Saia! Não preciso do seu apreço,

muito menos dos seus carinhos.

Já é tarde, e eu não consigo me livrar,

você domina a situação,

agora jogando seu peso sobre meu corpo,

Me rouba mais um beijo demorado de meus lábios,

e sussurra em meu ouvido: “Faça”,

e então eu faço.

Quando amanhece, você já se foi,

e resta apenas eu e um corpo morto ao meu lado.

Doce loucura, que me perturba,

por que se aproveita assim de mim?

Não poderia me levar para o outro lado?

Me faça seu marido, cansei de ser seu amante.

 

juhliana_lopes 17-11-2013

Pré-morte

parte1Eram 13h quando aconteceu. Eu estava na minha, esperando a minha mãe como sempre, gostava de ouvir a voz dela. Mas ela não apareceu. Comecei a ficar ansioso, por que ela estaria demorando tanto? Foi na minha ansiedade que notei a ausência dos médicos. Eles sempre vêm me ver a cada hora. Mas já faziam três e ninguém apareceu.

Um leve formigamento tomou meu corpo e aos poucos os movimentos do meu corpo foram voltando. Lágrimas de alegria percorreram meu rosto, um verdadeiro milagre estava acontecendo. Sentei-me na cama sozinho. Era divino. Onde estariam todos para ver esta maravilha! Tentei falar, mas as palavras não saiam da minha boca. Apenas gemidos e pouca coisa compreensível. Tudo estava voltando ao normal. Já que ninguém ia aparecer pra me ver, porque não ir atrás deles e fazer uma surpresa? A sala do médico não devia ser tão longe assim.

Primeiro tentei ficar em pé. No começo parecia fácil, mas o peso do tempo parecia ter travado minhas pernas. O primeiro passo foi uma coisa horrorosa. E assim eu fui cada passo mais horroroso que o outro, porém, eu não cai. Fui me apoiando nas coisas até chegar a porta. Quando eu abri, minha surpresa foi maior ainda. Ninguém nos corredores. Eu nunca tinha visto o corredor exatamente, mas tinha certeza que tinha muita gente, o barulho de macas e pessoas andando de um lado para o outro era constante.

Tentei chamar alguém. Andei pelo corredor, olhando os quartos. Todos vazios. O que estava acontecendo afinal. Fui até a janela, o sol brilhava forte e a brisa agitava as folhas das árvores. Olhei com atenção todos os cantos. Não havia ninguém. Nem carros, nem crianças, nem cachorros, nem aves. Nenhum ser. O desespero começou a tomar conta de mim e andei o mais rápido que pude até a recepção. Havia papéis sobre a mesa, café quente na cafeteira e pão para as visitas, mas não havia ninguém.  Sentei nas cadeiras de espera. Apoiei os cotovelos sobre os joelhos e minha cabeça foi de encontro as minhas mãos. Agora o choro era de agonia. A alegria do retorno estava totalmente desfeita com aquela confusão. Onde estaria todo mundo? O que estava acontecendo?

– Acalme-se.  – Uma voz me veio à cabeça, então olhei rapidamente ao redor procurando quem poderia estar falando. Tentei chamar, mas eu ainda não sabia falar.

– Acalme-se – disse a voz novamente. Eu juro que estava tentando, mas a ideia de que ninguém estava falando comigo era assustadora.

– Veja bem, eu também não consigo falar. Apenas em sua mente. Você pode fazer o mesmo, respondendo em pensamentos. Agora se acalme.

Eu estava gelado. Um leve arrepio tomou minha coluna. Quando me dei conta havia alguém sentado ao meu lado. Uma figura peculiar, toda de branco, com uma bengala. Sua pele era branca como a roupa, e os olhos completamente negros. Olhava para mim como se pudesse ver a minha alma.

– Onde está todo mundo? – pensei. Eis que a voz em minha cabeça respondeu:

– No mesmo lugar de sempre.

– Como assim? Já andei esse hospital todo e não achei ninguém.

– Elas estão ai. Você que não consegue ver.

– E por que eu não consigo?

– Por que você está quase morrendo…

 

/juhliana_lopes 14-01-2013

Branco – A cor infernal

De todos os lugares do mundo, nada é mais torturante do que um quarto branco, sem janelas, completamente vazio. Apenas você e o quarto. Sua mente não para de trabalhar; ideias mirabolantes, a cura de doenças, tudo ao mesmo tempo porém, nada parece capaz de preencher aquele “branco infernal”.

Você pode imaginar cores, sabores, pessoas… Pode criar um mundo novo mas sempre estará preso no branco. Ninguém te ouve, apenas o vazio que grita em seu ouvido todas as noites e não te deixa dormir. Pior que o limbo, o tempo parece não passar no quarto branco.

Como alguém pode achar que este quarto branco é um lugar para recuperação? Minha mente se volta contra mim como se quisesse também, preencher seu próprio vazio. Tudo que criei, todas as pessoas, todos os personagens, todos me perseguem. Querem espaço, querem liberdade. O quarto branco não permite.

Pior que um labirinto, o quarto branco não dá chances de fuga ou qualquer esperança. Você é o único centro. A dor resolve fazer uma visita, acompanhada da agonia e do medo; logo chegam à raiva e o impulso. Uma reunião adorável, onde o objetivo é acabar com você. O quarto branco sufoca tudo que esta em seu interior.

E pensar que é apenas meu primeiro dia nesse lugar infernal.

 

25-09-2012 /juhliana_lopes