Mais um louco – A despedida

janela

Fiquei surpresa, a verdade é que nas conversas que tive com todos os meus pacientes, nunca ninguém havia perguntando algo sobre mim.

– Ah… Eu estou bem…

– Mesmo? Seu olho tá meio inchado… Andou chorando?

– Sim… Mas não é nada importante…

– Fala…

– Tudo bem, vai… Também estou passando por uma separação… Meu marido não concorda com a minha profissão, acha que posso trazer perigo a nossa filha. Já faz um tempo que eu parei, justamente pra cuidar dela quando começou os ataques de asmas…

– E mesmo assim seu marido acha que você oferece perigo? Eu não tive filhos, mas se eu tivesse e minha esposa largasse o emprego pra cuidar da nossa filha eu iria ficar bem mais aliviado do que deixar ela na mão de uma babá… E asma sempre é um problema…

– Pois é… Mas voltando a você, vou ver o que posso fazer. Mas preciso saber você prefere a cadeia ou aqui?

– Aqui. Pelo menos terei paz.

– Certo. Fica bem, eu volto pra te visitar algum dia…

– Obrigado. E obrigado por me ouvir…

– Não há de quê. Obrigada também por perguntar… Ninguém nunca faz isso…

– Então estamos empatados. – Ele sorriu e me acompanhou até a porta. Bati e os médicos abriram. Ele me olhou uma ultima vez e voltou a se sentar no cantinho. Eu fui falar com os policiais.

Conversei com o delegado, com os policiais, com todos que eram possíveis. Ele ficaria no sanatório a contragosto dos familiares da senhora.

Naquela mesma noite, curiosamente o sanatório foi incendiado, e as investigações posteriores mostraram que foi causado por um grupo de policiais pelo lado de fora.

Alguns loucos sumiram, outros foram salvos e pelo menos três tiveram o corpo carbonizado.

Naquela noite, meu marido estava saindo de casa e eu chorando na sala, sem saber o que fazer. Tentei dormir, mas não conseguia… Desci para beber água, e ouvi uns barulhos estranhos. Ignorei e voltei pro quarto. Quando eu estava quase pegando no sono, corri para o quarto de minha filha.

– Oi mamãe!

– Mas… Você… Como?

– Oi, eu achei que uma visita seria adequado…

– Senta mamãe, ele está contando uma história…

Minha filha estava sentada na cama e ele num banquinho de frente pra ela, com um livro da coleção dela. Minha filha sempre tentava fazer o pai dela ler pra ela, mas ele “nunca tinha tempo”… Sentei do outro lado da cama e quando ele terminou de ler (coisa que fazia muito bem para criança, gesticulando, e fazendo caras e bocas quando falava dos personagens e suas reações), minha filha havia caído no sono.

Levei até a cozinha e conversamos.

– O que aconteceu no sanatório?

– Pegou fogo.

– Mas…

– Não fui eu. Veio de fora. Uns caras morreram, então coloquei a minha roupa num deles, e sai. Alguns fugiram e eu aproveitei a oportunidade.

– O que pretende fazer agora?

– Não sei. Vou ter que ficar um tempo escondido. Vou tentar ir pra outra cidade, até mesmo outro estado. Tentar refazer a minha vida.

– Entendo. Como você entrou aqui?

– A janela estava aberta. Pensei que era seu quarto. Quando entrei, a menina acordou com um livro na mão, dizendo: lê pra mim papai… Respondi que não era o pai dela, que era seu amigo e estava fazendo uma visita. Ela não ligou muito e pediu pra eu ler. Ela gosta dos livros né?

– Sim. Sempre que posso eu leio. Mas o pai dela… Ele foi embora hoje…

– Entendo. Você vai ficar bem?

– Vou sim.

– Então eu posso ir mais tranquilo.

– Qual seu nome? Nós conversamos tanto e eu não sei seu nome… Se bem que agora isto não vai importar muito…

– É Henrique. Mas se quiser me procurar pra conversar, vou me chamar Fernando. Era o nome do meu irmão. Provavelmente estarei na cidade vizinha, aquela que ninguém vai, trabalhando em algum mecânico.

– Certo. Meu nome é Amanda. Eu não vou mudar de casa. Pode me visitar quando quiser. O nome da minha filha é Alice.

– Bonito nome. E ela também é linda. Deve ter puxado a mãe…

Continuamos conversando e tomando café. Já estava amanhecendo quando ele foi embora. Naquele mesmo dia fiquei sabendo da morte do “Henrique” e de mais dois internados do sanatório. Passei a ficar em casa com minha filha e quando ela estava na escola, eu dava aulas particulares de piano. Logo precisaria de alguém para ficar com ela e trabalhar para sustentar a casa. A vida aos poucos voltava ao normal para mim. Pergunto-me às vezes se para “Fernando” também. Faz tempo que não o vejo, mas minha filha me conta que ele a visita às vezes para lhe contar histórias e juntos os dois me observam dormindo. Sei que não é sonho dela, porque além trazer bichinhos e bonecas, ele sempre deixa uma rosa num copo com água em cima da mesa da cozinha.

Não acho que estou louca. Não acho que os loucos são “loucos”. São apenas pessoas que precisam de atenção. São apenas pessoas que precisam de alguém que lhes pergunte: “O que aconteceu? Diga-me, você está bem?”. Falando nisso, você, está bem?

/juhliana_lopes 29-01-2013

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Mais um louco

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Sempre me chamaram de louca por querer trabalhar com loucos. Ora, não é porque são loucos que não precisem de ajuda… Meu trabalho consistia apenas em ouvi-los. Eu sentava perto deles, conversava e ouvia todas as suas angústias e devaneios. Eles sentiam uma confiança tão grande em mim, que minha fama se espalhou.

Quando houve aquele caso do assassinato, me indicaram para ouvir o assassino. Disseram que precisavam saber se ele era louco ou fez aquilo por vontade própria. Ele se recusava a ouvir a todos e era extremamente agressivo quando alguém tentava. Colocaram no sanatório um tempo, e o assédio dos médicos era tão grande que a situação só piorava. Fui fazer uma visita. O terror de todos era visível e eu soube o porquê quando entrei. Havia um psiquiatra com ele na sala, e quando eu cheguei havia outros médicos tentando evitar a sua morte. O assassino havia se irritado com a presença persistente dele e estava sufocando-o contra a parede. Muitos pareciam baratas tontas e não sabiam como reagir. Eu já havia ouvido casos assim, e agi por instinto.

Entrei na sala e disse:

– Larga!

Todos me olharam na mesma hora, inclusive o assassino. Ele largou, olhou em volta e sentou-se num canto olhando pra parede. O psiquiatra recuperava o ar e tentava dizer algo sobre denúncias. Os médicos o retiraram da sala e tentaram me tirar também. Com a mesma autoridade de quando eu entre, eu respondi:

– Me solta.

Os médicos não ousaram dizer nada. Deixaram-me sozinha com o assassino, e como se quisessem testa a situação, trancaram a porta por fora. Quando deixei a bolsa em um canto da sala, vi quando ele me olhou rápido e deu um sorriso de canto de boca. Sentei ao seu lado e perguntei:

– O que aconteceu?

– Nada.

– O que aconteceu?

– Já disse moça. Nada.

– O que aconteceu?

– Nada…

– O que aconteceu? – eu disse mais uma vez. Todas às vezes, serena e calmamente o bastante para irritar qualquer um… Percebi que estava dando certo, porque desta vez ele olhou em meus olhos e disse pausadamente enquanto cerrava o punho.

– Na – da.

– O que aconteceu?

– EU JÁ DISSE, NÃO FOI NADA! – ele gritou, socando a parede próxima ao meu rosto. Na verdade nossos rostos ficaram bem perto um do outro. Seu olhar era de um bicho acuado e a respiração era forte. Arrumei meu cabelo, colocando atrás da orelha e dei um sorriso meio sem graça, desviando levemente o rosto. Ele notando a situação, também ficou sem graça. Recolheu o braço e pediu desculpas.

– Agora me conta. O que aconteceu com você? E se você disser nada de novo, quem vai socar a parede sou eu…

Ele riu. Acho que há muito tempo não fazia isso. Não era um riso escandaloso, mas lembrava duma criança feliz, só que versão adulta.

– Não disseram a você?

– Disseram. Mas quero ouvir o que fizeram com você e não o que você fez ou deixou de fazer…

Um pouco surpreso ele respondeu:

– Me bateram um pouco na cadeia. Os policiais. Os outros presos tinham medo de mim. No começo tentaram me intimidar, outros fazer amizade. Mas quando viram que os guardas me pegavam toda hora para interrogatórios e eu voltava mancando, perceberam que eu tinha feito algo grave. Foi um gordo que perguntou o que eu fiz e eu disse que tinha matado alguém…

– E como foi à reação deles?

– Desacreditaram lógico. Muitos ali haviam matado e ninguém ficava indo ter “conversinhas” toda hora. Foi quando eu disse como eu matei que eles me deixaram quieto.

– E como foi essa morte? Quero saber de você, porque eu sei que eles lá fora, distorcem tudo…

– Bem… Não era ninguém importante. Uma senhora devia ter uns 50… Ela não tinha feito nada sabe… Já ouviu aquela de “estar no lugar errado, na hora errada?” então… Foi o que aconteceu com ela… Eu não estava num dia bom…

– E por que seu dia não estava bom?

– Ah… Minha mulher… Queria se separar. Acho que a essa altura ela já deve ter conseguido os papéis e ido pra outro país. Eu não queria sabe… Achava que ainda podíamos dar um jeito. Eu gostava dela… A única coisa que me incomodava era a futilidade dela… Mas ainda sim, era uma ótima esposa…

– Naquele dia vocês tinham brigado?

– Sim. Então eu saí pra esfriar a cabeça. A senhora, a que eu matei, passou por mim. Ela estava com um bolinho de papel na mão. Ofereceu-me um eu não aceitei… Depois nos encontramos de novo e ela tornou a me oferecer… Ai eu explodi.

– E o que aconteceu?

– Eu tomei o bolo de papel da mão dela, segurei seu pescoço e enfiei o bolo na garganta dela. Essa parte foi fácil… Ela começou a engasgar e a ficar roxa. Eu pensei em tirar os papéis… Ajudá-la sabe… Ela não tinha culpa pela minha vida estar uma droga. Mas ai eu olhei em volta e vi que muita gente já tinha visto e estava com cara de “nossa, olha o que ele fez…”. Resolvi terminar o que comecei, já estava tudo na merda mesmo… Segurei os ombros dela e esperei um caminhão passar. Naquele pedaço passavam muitos caminhões. Quando um passou, joguei-a, que estrategicamente caiu onde o eixo ia passar. Ai foi pedaço de “senhora” pra todo lado…

– Entendo. Ai eles te levaram?

– Sim. Na hora do papel, alguém já tinha ligado pra policia certamente. Quando viram os pedaços, nem perderam tempo. Eu também não ofereci resistência… Sabia que estava ferrado mesmo…

– Eles te machucaram muito?

– Nas “conversinhas” eles bem que tentavam. Mas desde criança eu tenho uma resistência natural a ferimentos. Posso me cortar, levar pancada… Dói na hora e depois passa. Até pra cicatrizar é mais rápido do que normalmente deveria ser.

– E o que você pretende agora?

– Eu sei que vou apodrecer na cadeia, mas ainda posso tentar ficar aqui. Sinceramente não sei onde é pior. Na cadeia corro o risco de morrer por causa dos policiais. Aqui posso acabar ficando louco junto com os outros… Entre a minha sanidade e a minha vida, ainda não sei qual escolher…

– Acho que você é inteligente o bastante para manter-se são.

– Talvez… Mas e você?

juhliana_lopes 23-01-2012

Quem seria o louco?

Assim que chegou o tumulto se formou. Era capaz de ouvir seus gritos do outro lado do corredor. Eu tentava chegar mais perto mas, ninguém me permitia; “É perigoso”; não importava eu tinha que chegar. Aproveitei uma brecha e então eu pude ver o horror. Seus gritos eram tão fortes que até os seguranças saiam de perto.
04Apesar de todas as amarras, era como se tudo fosse explodir a qualquer momento, libertando a fera. Era o verdadeiro retrato da agonia, com algumas gotas sarcasmo.
Quando conseguiu se levantar, todos correram… Tolos, por que correm? Não percebem que ficar em pé, encostado na parede é o máximo que ele pode fazer? Como alguém corre com os pés amarrados?

Novamente ele caiu, porém não houve mais gritos, parecia que havia “caído errado” e estava de mal jeito. Precisava respirar mas, ninguém era capaz de ajudá-lo ou ninguém queria mesmo.
Lembro de alguém puxando meu braço para não me deixar entrar no quarto, que havia se transformado em um picadeiro do circo dos horrores.
Tranquei a porta e fechei as cortinas, se ninguém ia ajudar, não tinha por que assistir. Cheguei perto e confesso que estava com um pouco de receio, mas era preciso ajudar, então o ajudei a se sentar e pude ver seu olhos.
Ali estava toda a verdade, uma mistura de medo de criança com raiva do mundo e um pedido de socorro. Comecei a desamarrá-lo e, apesar de não falar nada, seu olhar mostrava claramente que estava confuso afinal, todo sabiam o que ele havia acabado de fazer…
Uma vez solto, sua reação foi a inércia. Não quis levantar, não quis gritar, apenas ficou ali, sentado, olhando fixamente para o chão. Peguei um copo de água, sentei-me ao seu lado e ofereci. Ele não me olhou mas pegou o copo, tomando tudo num só gole. Perguntei se queria mais e ele sinalizando com a cabeça, disse que sim. Foram cinco copos de água.
Levantei e falei pra ele que podia dormir quando quisesse e que o interruptor estava perto da cama para que não precisasse levantar para apagar a luz. Foi então, que ouvi a sua voz pela primeira vez no momento que ele disse um tímido “Obrigado”.
Antes que eu chegasse a porta, ele tocou em meu braço, como alguém podia se levantar tão rápido?
Olhou em meus olhos, tão profundo como se buscasse a minha alma. Pude ouvir sua voz claramente ao dizer: “não deixa eles entrarem aqui de novo, por favor?” Sua mão estava fria, percebi sua fragilidade como se fosse uma criança que não quer ir ao médico, com medo de uma injeção.
Eu prometi que ninguém lhe faria mal e que amanhã voltaria para conversarmos. Eu abri a porta e sai, e antes de fechá-la novamente vi que ele se dirigia lentamente para a cama.

Não sei ele, mas naquela noite, a insônia veio me visitar…

24-09-2012 /juhliana_lopes