Jantar

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Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

Flores de mamãe

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Paulo era um rapaz simples e estava muito ansioso. Mesmo com a casa toda limpa, não parava de conferir tudo a cada minuto. Ele não esperava receber nenhuma visita, muito menos trazer alguém ali, mas em todo caso, era melhor estar preparado.

Ele não tinha nada demais. E quando se olhava no espelho, ele tinha certeza que não tinha nada demais mesmo. Era alto, levemente magro de ombros largos. Seu cabelo castanho com corte baixo, e uma barba rala que quem olhasse de longe tinha a impressão que era aparada constantemente. Pura ilusão, afinal aquilo era o máximo que ela crescia. Seus olhos também castanhos, eram profundos e intensos e por vezes revelava alguma tristeza escondida.

Naquele dia, Paulo havia tomado três banhos para ter certeza de que estava limpo. Além disso, colocou sua melhor roupa, que consistia em uma calça jeans escura, uma camisa preta levemente surrada e uma bota marrom. Depois de dobrar a quantidade de perfume e se olhar no espelho pela sétima vez, estava pronto para seu compromisso especial.

Paulo não tinha amigos, e perdeu o pai muito jovem. Viveu com sua mãe até dois anos atrás e desde seu falecimento, viva sozinho em casa, tentando se acostumar com a falta dela. O lugar em que morava não era muito propício para ninguém morar, mas a casa foi ganhada e ele não precisava pagar as contas. Havia muito barro em volta e por mais tivessem feito mil propostas, ele não estava pronto para seguir a carreira do seu pai. Paulo não se arrependia, afinal Gabriel fazia o trabalho muito bem.

Na rua, esperando o ônibus, limpou o barro de seus pés. Rotina constante para toda vez que ele precisava ir à cidade. Estava ansioso e extremamente inseguro, afinal sua expectativa era imensa. Leu em vários sites dicas e sugestões e com o aplicativo foi fácil achar alguém, e depois de algumas conversas frustradas, sabia que ela seria a eleita. Pelas fotos, ela era realmente linda. Loira, olhos grandes e azuis, com um sinal no rosto perto do nariz. Delicada, gostava de livros e estudava biologia. Morava próximo ao shopping e ia estar esperando ele com um vestido azul.

Paulo nunca teve uma namorada, nem mesmo uma paixonite. Na escola, mal falava com os outros garotos, e tinha o apelido de “fantasma”, devido a sua palidez, somado a sua timidez. O bullying piorou depois que descobriram onde ele morava, mas com o tempo ele aprendeu a ignorar tudo, da mesma forma que o ignoravam.

No shopping, esperou na praça de alimentação como haviam combinado. Ao ver famílias reunidas, se divertindo, almoçando juntas, lembrou de sua mãe. Ela adorava flores e as colocava sempre sobre a mesa antes das refeições. Gostava das cores simples como branco e amarelo. “Tenho que pegar flores para mamãe” ele pensou. Lembrou-se da última refeição juntos. Ele mesmo havia preparado para fazer uma surpresa a ela, que mesmo com o rosto inexpressivo pelas ações do tempo, tinha um amor e carinho imenso por ele.

– Oi – Ela disse timidamente, interrompendo seus pensamentos. Pessoalmente ela era mais linda do que ele havia imaginado. De estatura mediana, além do vestido azul, estava usando um colar simples com uma pedra azul ciano.

– Ah, Oi! – Ele respondeu nervoso, se levantando para cumprimenta-la. Ele ergueu a mão, mas ela lhe deu um beijo no rosto. Paulo não conseguiu esconder a surpresa e ficou corado. Ela reparou, afinal ele ficou bem vermelho e riu baixinho, ficando com as bochechas rosadas também.

Ele puxou a cadeira para ela, com uma delicadeza de um lorde. Ela ficou encantada com a gentileza. Começaram uma conversa animada sobre os estudos dela e as últimas provas. Ele gostava de saber como era o dia dela, e seus projetos de vida, porém quando ela perguntava os dele, sempre dava um jeito de escapar com outro assunto. Ele tinha seus objetivos, mas achava-os muito vazios e sem graça perto dos dela.

No fim daquele dia, antes de ir embora, ela lhe roubou um beijo, que o fez ficar muito mais vermelho. Ele começou a gaguejar, tentando perguntar porque ela havia feito aquilo, mas ela o calou com outro beijo. Agora, mais tranquilo, ele correspondeu, lhe tomando em seus braços.

– Paulo… – Ela começou. – Eu não sei se você acredita nisso, e eu vou estar me arriscando muito dizendo isso, mas… acho que estou apaixonada por você…. Assim, à primeira vista! Quero muito ficar com você!

Seus olhos tinham um brilho diferente e ela estava com um sorriso lindo ao dizer essas palavras. Paulo por sua vez, além de feliz estava preocupado. Será que ele seria capaz de retribuir esse amor?

– Eu também gosto muito de você…. Mas não sei se você vai gostar tanto de mim assim…. Você sabe, eu não tenho um trabalho fixo, moro longe da cidade…. Eu não sei nem se tenho futuro….

– Paulo, – ela disse baixinho – eu te amo! Eu quero ficar com você do jeito que você é!

Paulo a abraçou forte e depois lhe deu um beijo. Desta vez, ele tomou a iniciativa e sentia como se algo estivesse queimando por dentro dele com tanta emoção.

Ele queria levar a moça para casa, mas ela queria conhecer a casa dele primeiro.  Mais uma vez ele ficou preocupado, em todo caso resolveu leva-la, afinal, caso ela não gostasse, poderia desistir dele naquele momento e evitar um sofrimento maior.

Já era noite quando eles chegaram e Gabriel já havia ido embora pois, não haveria trabalho naquela noite. Ela ficou calada quando viu o lugar e ele apreensivo não se atrevia a trocar olhares com ela.

– Bem, eu moro aqui… – Paulo disse, sem graça.

– Você mora em um cemitério? – Ela respondeu abismada.

– Sim. – Paulo respondeu sério. – Se você quiser eu posso levar você para sua casa e a gente não se fala nunca mais…

– E por que eu faria isso? – Ela respondeu ainda surpresa. – Deve ser o máximo morar aqui! Essa terra toda para estudo sobre decomposição e ação natural, os nutrientes das plantas que nascem aqui…. Por que não me contou que morava aqui?

– Eu achei que você fosse achar estranho e me rejeitar… – Ele respondeu com a cabeça baixa.

– Claro que não! – Ela disse levantando a cabeça dele para olhá-lo nos olhos. – Você é incrível!

Ele nunca achou alguém que pudesse dar valor a ele e ao lugar que morava além de sua mãe. Resolveu então convidá-la para jantar. Em casa, ele a deixou à vontade na sala. Preparou uma comida rápida, porém deliciosa, e trancou as portas e as janelas. Colocou a mesa, foi até o quarto para trocar de camisa e a chamou para cozinha.

Assim que entrou na cozinha deixou sua bolsa cair. Seus olhos arregalados demonstravam mais do que uma simples surpresa e sim um leve terror.

– O que é isso? – Ela disse pausadamente.

– O que? As flores? Mamãe gostava delas na mesa, por isso resolvi colocar, você não gosta de flores? – Ele perguntou confuso.

– Paulo, o que esse corpo está fazendo aí sentado?

– Ah sim, deixe-me apresentar…. Essa é minha mãe. Mamãe, essa é a moça que eu falei. – Ele disse satisfeito, colocando a comida no prato para o cadáver.

– Paulo, você é louco? Por que você tem o cadáver da sua mãe em casa? – Ela disse em tom alto e desesperado.

– Eu fico muito sozinho aqui sabia? Não enterrei mamãe para que eu pudesse conversar com alguém, afinal ela gosta muito de conversar…. Meu pai era coveiro aqui e ganhou a casa quando casou com a minha mãe. Ela não se importou. Quando ele morreu, contrataram o Gabriel para trabalhar aqui, mas ele não gosta muito de ficar aqui, então ele só vem trabalhar e vai embora. Eu troquei o corpo de mamãe no enterro e conservo ela no quarto, e jantamos juntos todos os dias.

Paulo respondia tudo com tranquilidade. Seu olhar era vazio e ele estava completamente à vontade. Ela estava com medo e correu para porta para fugir. Ele não se moveu para impedir, apenas continuou a colocar a comida nos pratos. Com a porta trancada, ela deu um grito desesperado e pediu para ir embora. Ele parecia não se abalar com o seu desespero.

– Não entendo sua reação meu amor… – Ele dizia calmamente. – Você me achou uma pessoa incrível, gosta tanto de estudar sobre reações naturais, não entendo esse desespero. Venha, sente-se. – Ele terminou, puxando a cadeira para ela.

Ela chorava de desespero e correu para sala quando ele tentou puxá-la pelo braço. Lá, conseguiu abrir uma janela e pulou, caindo de joelho na lama. Paulo ficou vermelho novamente, mas desta vez era de raiva.

Ela corria no escuro e começou a tropeçar nas covas que foram cobertas recentemente. Tentou procurar alguma vazia para se esconder, mas ficou com medo dele querer enterrá-la viva. Então correu para o lado da caixa de ossos onde os restos mortais eram guardados depois de exumados, mas antes que pudesse chegar lá, foi surpreendida com uma pá acertando sua cabeça.

Paulo estava suando e nervoso. Ela era mais linda ainda dormindo, porém ela não acordava mais. Além do sangue que saia pela testa do corte que a pá fez, ela caiu com o pescoço torto. Paulo fez de tudo para reanima-la, mas nada adiantou.

– Minha linda adora brincar…. – Ele disse trazendo ela nos braços para dentro de casa novamente. – Achei realmente que iria me deixar.

Em casa ele a deitou no sofá, e foi recolher os pratos da mesa. Depois, pegou o corpo da sua mãe, o despiu e guardou no caixão de vidro com formol que havia sobre a cama, no quarto dela.

Quando voltou, o corpo da moça loira havia rolado do sofá para o chão, deixando-a de pernas abertas com o vestido levemente levantado. Ele ficou por algumas horas ali, admirando-a. Seus lábios estavam brancos e o sangue seco já havia manchado o sofá e o tapete.

– Você é mesmo uma danadinha. – Ele disse com um sorriso insano no rosto. – Me provocando desse jeito… – Ele continuou se ajoelhando na frente do corpo, colocando suas mãos nos joelhos dela. – Não sei se mamãe vai permitir esse tipo de coisa na sala, mas já que vamos morar juntos e ela já está dormindo, acredito que ela não vai se importar…

Na manhã seguinte, Paulo acordou assustado com um celular tocando. Era o da moça na bolsa que estava no chão. Ele quebrou o celular com um martelo e voltou a se deitar sobre o corpo frio e nu da moça, deixando a cabeça debruçada sobre os seios dela. Ele também nu, acariciava as coxas dela, enquanto olhava para o vestido amassado do outro lado da sala.

– Vamos ser muito felizes juntos meu amor…. Pode ter certeza.

 

juhliana_lopes 12-07-2016

 

Mulher perfeita

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Depois de sair do banho, ela passou o seu perfume favorito. Pegou o celular e se deitou na cama, ainda de toalha. Ficou observando a foto dele mais uma vez, e era realmente um cavalheiro. Olhos de mel, lábios desenhados com uma barba levemente cerrada, revelando suas vaidades. Haviam se conhecido há um tempo pela internet, e se encontraram algumas vezes em eventos com amigos. Sempre muito educado, era também um comediante nato com suas piadas inteligentes. Não precisava fazer nenhum esforço para chamar atenção pois, só com a sua presença ele já era notado. Foi só há três meses que começaram a ficar mais próximos e então resolveram marcar um encontro, só os dois, para “se conhecer melhor”.

Ela estava animada, afinal ele era perfeito e a noite prometia. Levantou-se, e começou a se vestir. Escolheu um vestido azul para a noite, que além de uma cor forte, marcava bem o seu corpo, valorizando suas curvas. Depois, foi se maquiar, de olho no relógio para não se atrasar. Gostava de se admirar no espelho antes de um encontro, e fazia muito tempo que ela não tinha nenhum. Seus cabelos negros, presos estrategicamente para parecer bagunçados, de um jeito levemente sensual. A sombra degrade indo do preto ao lilás, deixando seus olhos em destaque, e um leve blush rosa para dar uma leve tonalizada em sua pele alva. Finalizou então com um batom vermelho, que ela esperava que não durasse a noite inteira.

Levou um leve susto com a buzina, mas desceu alegre por ele também ser extremamente pontual. Ele, estava perfumado e muito bem arrumado em trajes sociais, e abriu a porta para ela com delicadeza. Usava uma camisa social  cinza chumbo, com uma calça preta, que além de dar a impressão que ele era mais alto, o deixava extremamente sexy. Não quis deixar claro as suas intenções, e muito menos parecer desesperada olhando para ele toda hora, mas percebeu que ele também não conseguia ficar sem admirá-la por muito tempo.

Durante o jantar a troca de olhares ficou constante, mas aos poucos ela percebeu que sem os amigos, eles não tinham tanto assunto assim, em todo caso, ela sempre puxava outros assuntos animada, na esperança de não deixar a noite morrer. Ele também não estava disposto em deixar a desejar, e tentava impressioná-la com pedidos elaborados e muito vinho. Quando o jantar terminou, ele a convidou para ir em sua casa, e ela sem fazer nenhum charme, aceitou, afinal a noite não poderia terminar ali de maneira nenhuma. No carro novamente, ele olhava descaradamente com desejo para ela, e isso estava fazendo ela sentir calor, pois seu desejo também estava escancarado, só esperando um lugar adequado. No fim das contas, era muita expectativa e ela esperava que nada desse errado.

Na casa dele, ficou feliz em ter a certeza de que ele morava sozinho e a noite seria só deles. Acompanhado de mais vinho, ele a beijou suavemente pela primeira vez. O corpo dela estremeceu e se arrepiou, e logo os beijos foram ficando mais intensos e íntimos. As mãos dele começavam a explorar o corpo dela, e ela ia se entregando cada vez mais. Deitados no sofá, o corpo dela ia ficando pequeno para o tamanho dele, que a apertava forte em sua cintura, e entre os beijos, mordia levemente o seu pescoço. Ela começava a gemer baixinho e ficando mais a mercê. Ele a virou de bruços no sofá, deitando-se sobre ela e enquanto uma mão puxava seu cabelo, a outra acariciava a sua coxa. Ela mordia os lábios e ele mordia a sua nuca com os corpos colados, desejando cada vez mais se livrar das roupas.

De repente, ele parou e pediu para que ela esperasse um pouco, e correu para o quarto. Ela já estava muito excitada com a situação, mas esperou, afinal, é sempre bom ir devagar. Logo ele pediu para que ela entrasse no quarto também, e ela foi. Ele estava no banheiro e pediu para ela ficar a vontade no quarto. Ela viu pétalas de rosas no chão, e não quis comentar sobre um vidro de álcool comum deixado em cima do criado mudo. Ela sentou-se na cama e logo ele voltou com a camisa aberta. Tomou os pequenos pés em suas mãos e foi tirando as sandálias dela enquanto beijava seus pés. Ela agora se deitava na cama, gemendo um pouco mais alto, querendo arrancar logo as roupas de ansiedade.

Quando finalmente ele tirou o seu vestido, revelando uma lingerie roxa de renda, ela resolveu tomar conta da situação e o deitou na cama, se livrando da camisa dele, e abrindo seu cinto. Ele então se permitiu a um gemido abafado enquanto ela beijava a sua barriga, lambendo com movimentos circulares. Porém, antes que ela pudesse deixá-lo nu, ele pediu um momento novamente, e foi ao banheiro. Ela estranhou mas esperou, paciente.

Ele retornou então com uma corda e uma faca na mão, junto com um sorriso maníaco. Ela, levemente pálida de susto, deu um riso nervoso, perguntando o porquê daquilo. Ele riu com ela e colocou as coisas em seu colo, perguntando a ela o que poderia doer mais.

– Como assim Rafa? Você está louco?

– É sério Beck, me diz. Qual você acha que machuca mais? Por que ó, se você reparar, a faca abre uns cortes né? Então dói, mas a corda, colocando direitinho no pescoço, faz a pessoa sufocar, com isso ela acaba sofrendo mais pra morrer… Não quero te influenciar, mas escolhe um que você achar mais legal! – Rafael dizia animado colocando as mãos sobre as coxas dela.

– Rafa tira isso daqui! – Respondeu Rebeca tirando a corda e a faca de seu colo, jogando para o lado. – Eu vou embora! – Disse ela pegando suas roupas do chão.

Rafael a puxou então, jogando-a na cama, subindo sobre ela, beijado-lhe o pescoço. Ela queria resistir, afinal que palhaçada era aquela? Alguma tara sexual grotesca? Mas a verdade é que ela estava rendida pelos seus beijos.

Podia-se dizer que estava em verdadeiro transe mental com ele por cima, em contato com seu corpo quente, prestes a unir seus corpos, mas quando ele sussurrou em seu ouvido, ela ficou tão aterrorizada que esqueceu completamente de qualquer tesão que havia.

– Eu quero que você me mate. Quando eu gozar, assim que eu terminar, você vai pegar a faca e me degolar. Eu esperei muito tempo por isso, confio em você. Curta o momento, eu preparei tudo e ninguém vai desconfiar de você.

– Rafa, me solta, que conversa é essa? Me solta! Você é louco? Já perdi o clima, me larga! – Ela gritava tentando se livrar dele.

– Você não entende não é? Você é a mulher perfeita! E eu quero morrer, só você pode me matar!

– Rafa, me larga! – Ela tentava em vão se soltar.

Ele então tentou virá-la de costas para penetrá-la. Ela, percebendo sua intenção, lutou mais até conseguir acertar um chute nele. Enquanto ele reclamava de dor, ela se soltou pegou seu vestido e correu para a rua. Assustada e seminua, correu até um beco para então se vestir.

Controlou sua respiração, pois não sabia se ele havia ido atrás dela, e aquele era o bairro dele, devia conhecer tudo por ali, mesmo a noite. Ouviu então a batida de uma porta. Do beco era possível observar a frente de sua casa. Ele estava descalço e sem camisa, com um pano branco em uma das mãos. “O álcool” , ela pensou. Se escondeu mais na escuridão do beco, rezando para que ele não a achasse. Para sua sorte, ele foi correndo para o outro lado, procurando ela entre as outras casas. Ela permaneceu ali, imóvel e ficaria até o amanhecer se fosse preciso. “Droga!”, ela pensou. “Nem na minha casa eu posso me esconder, ele vai me procurar lá, ou pior, vai me esperar lá!”. Ouviu então ele ligar o carro que estava estacionado do lado de fora e sair em disparada para qualquer lugar. Então, depois de um tempo, ela saiu de seu esconderijo com cuidado.

Ligou para sua amiga que a buscou e jurou que contaria tudo quando tivesse certeza de que estava segura. Na antiga república da amiga, onde agora só ela dormia mesmo, começou a falar sobre Rafael.

– Ah, mas o Rafa tem uns gostos estranhos mesmo…

– Como assim Ruth? – perguntou Rebeca surpresa.

– Eu não sei Beck, só sei que uma colega que dividia quarto comigo saiu com ele uma vez. Faz um bom tempo isso. Ela tava toda animada achando que ia finalmente namorar alguém, mas ai depois que eles saíram umas três vezes, ela se afastou dele, disse que ele era maluco. Ainda tentei saber o que havia acontecido mas ela não falou, só disse que ele era doido e logo depois ela sumiu sem dar mais explicações. Esses dias fiquei sabendo que ela mudou de estado, mas me fez jurar que eu não contaria nada para ele. – Respondeu Ruth dando ombros.

Rebeca então ficou pensativa. Será que se ela contasse tudo para Ruth, colocaria ela em risco também. E se ele resolvesse matar as duas. Talvez devesse se mudar também, voltar a morar com os pais, ou quem sabe para uma cidade nova… Ou então contar tudo a polícia e assim não precisar se esconder…

– Beck, o que ele fez com você que te assustou tanto? – Ruth perguntou ao perceber a distração da amiga.

– Nada demais Ruth… Ele só é estranho mesmo… – respondeu Rebeca, disfarçando.

– Beck, você me prometeu que contaria tudo… O que aconteceu? – Intimou Ruth.

– Ruth… Eu não quero te envolver nisso. Não quero que você se machuque, então se alguém te perguntar você por favor, finja que não sabe de nada! Para o seu próprio bem! – respondeu por fim Rebeca chorando.

– O que ele fez com você Beck?

– Ele… Ele me pediu pra matar ele. Ele queria morrer Ruth! Disse que eu era a mulher perfeita para isso! E não é “matar de prazer”. Ele colocou uma faca e uma corda no meu colo! – Rebeca começo a soluçar. – Eu me recusei, lógico. Tentei ir embora, ele não queria deixar e ainda tentou me estuprar… Eu consegui fugir, mas ele saiu com um pano que devia ter álcool pra me desacordar caso conseguisse me achar. Eu estou com medo Ruth! Ele deve estar na frente da minha casa me esperando a uma hora dessas. Eu não sei o que fazer Ruth! – chorou por fim no colo dela.

– Beck, tenta dormir um pouco… – Disse Ruth acariciando os cabelos de Rebeca. – Você está muito impressionada com toda situação. Amanhã a gente pensa com calma o que pode fazer, tudo bem?

– Tudo bem… – respondeu Rebeca, por fim.

No dia seguinte, mais calma, as duas foram ao shopping para comprar algumas roupas para Rebeca. Ainda assustada, não conseguia parar de olhar para os lados com medo de que Rafael fosse aparecer. Ruth tentava fazê-la relaxar, mostrando mil roupas e sapatos diferentes. No meio do percurso, quando pararam para um sorvete, o grupo de amigos de sempre estava caminhando próximo e pararam para uma conversa.

O sangue de Rebeca gelou quando viu Rafael se aproximando, como todos os outros dias, naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Tentou correr mas isso chamaria atenção dos outros. Ruth, percebendo a sua chegada, tomou conta da situação para que Rebeca não entrasse em pânico.

Ele, por sua vez, cumprimentou o pessoal e sentou-se longe das meninas. Elogiou o vestido de Rebeca com um sorriso levemente sarcástico, e perguntou se ela e os outros tinham algum programa para mais tarde. Ruth respondeu que Rebeca a ajudaria em um trabalho da faculdade, enquanto os outros iam descrevendo suas tarefas. Aproveitando uma distração dele, elas se afastaram com a desculpa de quem jogariam a casquinha do sorvete no lixo.

Já no carro, longe do shopping, Rebeca olhava para trás desesperada.

– Tem certeza que ele não viu a gente?

– Tenho Beck, fica calma!

Então Ruth freou de repente. A sua frente estava um carro fechando o caminho e do lado de fora, com um sorriso maníaco, estava ele, que se aproximou do carro de Ruth, lentamente. Rebeca estava em pânico e mal conseguia respirar. Ruth travou as portas do carro, mas com um pé de cabra, Rafael quebrou o vidro do lado do passageiro e a abriu por dentro. Rebeca só dizia “não” em sussurros, e agora ofegava, completamente pálida com cacos de vidro sobre o corpo. Ruth tentou intervir, mas ele a ameaçou com um pé de cabra. Arrastando Rebeca pelo braço que olhava desolada para Ruth, lutava para não ir. Ele, sem olhar para trás apenas disse:

– Você vai me matar! Eu quero morrer pelas suas mãos! Aceite isso, e será tudo mais fácil!

E fechou a porta do carro. Olhou uma última vez para Ruth e entrou também, saindo em disparada.

juhliana_lopes 11-01-2016