Mais uma!

cigarro-e-bebida

Devia estar no quinto cigarro seguido. A fumaça tomava conta do lugar, mas ninguém se incomodava, na verdade, ali era o único lugar onde ainda se podia fumar com conforto. Assim como o cigarro, a cerveja já havia ultrapassado seus limites e já era possível sentir seu cheiro à distância. Como quem acorda de um sono bom, daqueles últimos da manhã, ele se levantou e saiu pela porta dos fundos onde havia uma pequena área. Precisava esticar as pernas antes que o sangue parasse de circular.

No horizonte o sol começava a se por, pintando o céu quase por completo em um tom de laranja forte, quase como a cor de madeira em brasa. A brisa soprava leve carregando a poeira para todos os lugares. Com a mão no bolso, terminando seu cigarro, não conseguia pensar em nada além do que fazia para passar o tempo.

Pensou ter ouvido alguma confusão no bar e voltou para ter um pouco de diversão, mas não passava de alguns moleques tentando roubar alguma fruta. Nada que valesse a pena. Jogou seu corpo pesado sobre a cadeira e ao pegar mais um cigarro e quem sabe variar a cerveja com um copo de uísque.

Então ela chegou. Bem vestida e perfumada, com a pele alva e o cabelo ruivo. Era longo, mas estava preso com um rabo de cavalo, de modo que uma franja leve caía aos olhos. Olhos cor de mel, contrariando as expectativas de verde ou azul, mas que davam um toque tão especial que a deixava ainda mais bela. O vestido vermelho solto na cintura dava destaque ao batom de seus lábios num tom carmim, e a bolsa preta que carregava a mão, dava um leve toque de rebeldia em relação à moda.

Não deu atenção aos demais do bar, entrou, foi para o balcão, trocou duas palavras rápidas e saiu apressada. Não deve ter dado mais que alguns minutos, mas para ele, foram os melhores de sua vida.

A noite agora caía sobre todo o ambiente lá fora, e dentro as luzes fracas de lampião ardiam com o querosene. Mais cigarros e bebidas e agora um ou dois petiscos para enganar o estômago. Saiu novamente, desta vez na porta da frente. Apesar de ser uma noite aparentemente fria, não sentia a necessidade de se agasalhar, e mesmo com o vento frio cortando o rosto, não queria voltar para dentro, mas voltou, quando o cigarro mais uma vez acabou e ele se viu forçado a buscar outro.

Um homem baixo limpava o balcão com um pano surrado e encardido. Ele vestia uma camisa branca, social, e um avental tão encardido quanto o pano cobria sua roupa. A testa calva aparente brilhava sobre a luz fraca que iluminava o local, e ao passar o pano com movimentos marcados, cantarolava baixinho uma canção aleatória.

– Quem era ela? – perguntou de cabeça baixa ao rapaz do balcão.

– Quem? – ele respondeu, também sem levantar a cabeça continuando seu trabalho.

– A ruiva.

– Ela? Não era ninguém. Ela foi para baixo.

– Uma pena. – ele respondeu voltando a sentar em sua mesa.

Estava no paraíso, é verdade. Ganhou o privilégio de estar no céu, porém, do que isso adiantava se os escolhidos haviam sido tão poucos. Tinha tudo que queria, mas não podia saciar sua curiosidade de saber como era o outro lado. Como era “lá em baixo”.

– Mais uma! – levantou o caneco em direção do balcão.

Não se lembrava de ter passado tanto tempo pensando, mas agora já estava amanhecendo. Ao pegar mais um cigarro, tinha certeza que já devia estar no décimo ou décimo quinto, mas quando pegou, ainda era o primeiro do maço. O tempo parecia andar depressa mesmo passando lentamente para ele com a falta do que fazer.

– Mais um dia, afinal… – suspirou pesadamente enquanto acendia seu cigarro. – Mais um dia perfeito… Um brinde ao paraíso! – Disse por fim levantando a caneca ao ar, mas ninguém respondeu o brinde ou se quer olhou para ele, como todos os dias, até a eternidade.

 

juhliana_lopes 23-07-2014

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Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013