A nova doutora

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Desde o afastamento da última doutora que além da sua loucura visível, também foi diagnosticada com vários transtornos pós-estresse. Além disso, foi acusada de introduzir remédios controlados em alguns colegas de trabalho, misturados com outras substâncias, fazendo com que sua saúde também ficasse debilitada.

O hospital e manicômio passaram então por uma reforma e sob a nova direção, agora sob o comando do diretor Doutor Rodrigo, eu fui contratada.

A rotina era simples na ala que fiquei responsável, afinal, as moças em sua maioria eram quietas, e as mais agitadas estavam ocupadas bordando ou fazendo algum tipo de trabalho artístico.

Todas as terças, sempre que podia, reunia os internos e tocava algumas músicas para eles em meu violão. Era gratificante vê-los interagir e muitas vezes relembrar coisas boas de seu passado são.

Ainda sim, o marasmo me deixava inquieta. Queria fazer mais e sempre tentava entrar na ala masculina ou na recepção dos pacientes mais nervosos. Mantinham-me afastada, pois apesar dos meus anos de experiências, eles queriam deixar cada um em seu lugar.

Foi num dia se sol e festa que conheci a doutora que um dia foi uma das mais respeitadas do hospital. A única que conseguia controlar os loucos mais violentos, sem precisar tocar em um só membro. A única que tinha o respeito de todos. Estava visivelmente fraca, e apesar do assédio de todos que buscavam notícias ou simplesmente uma conversa sem importância, procurava se isolar sempre que podia.

A festa era em comemoração ao dia de São Patrício, e o local estava todo decorado de verde e laranja. Além de comidas típicas, a equipe do hospital distribuiu algumas fantasias aos internos, muitos estavam contentes com a festa, outros pareciam um pouco perturbados pelas cores fortes e ficavam pelos cantos.

Deram-me uma fantasia também, mas preferi manter minhas vestes brancas.

Mais tarde, quase no fim da festa, resolvi tentar conversar com a doutora tão famosa.

Para minha surpresa ela foi muito gentil, e nem de longe parecia estar doente como foi diagnosticada. Em todo caso, esta era uma das características particulares que já me avisaram sobre ela, afinal, foi por acharem que ela estava boa que a deixaram voltar ao trabalho, e foi por esse mesmo motivo que ela acabou causando um caos quase que irreversível.

Um dos meus problemas sempre foi à curiosidade, e ela não deixou de me incomodar quando a doutora me entregou uma chave, e disse apenas que se eu quisesse conhecer o hospital todo, aquela chave abriria tudo. Guardei tentando ignorar o significado, tentando fingir que poderia ser mais um delírio, mas eu sabia que não era. E ela sabia que eu sabia.

Ela sabia mais. Sabia que eu queria conhecer a ala masculina. Sabia que eu queria conhecer a parte dos violentos. Sabia que eu queria poder tomar conta de tudo como um dia ela tomou. Sabia que no meu íntimo eu desejava ter o mesmo controle e respeito que um dia ele teve.

Guardei a chave comigo e fiz um cordão com ele, deixando no meu pescoço, oculto pelas minhas roupas. Três dias depois, na minha folga, resolvi dar uma volta sem compromisso pelo hospital. Eu tinha autorização de sair pela cidade ou qualquer lugar que fosse quando não estivesse no meu horário de trabalho depois que escolhi morar lá, mas ainda sim, gostava de ficar naquele ambiente que muitos não pensariam duas vezes em ficar longe.

Passei pelo portão da ala masculina. Senti a chave fria em meu pescoço, mas não arrisquei. Perdida em meus pensamentos fui surpreendida pelo Doutor Rogério, irmão e braço direito do Diretor Rodrigo. Ele me convidou para um café em sua sala enquanto perguntava sobre o hospital e como estava sendo minha experiência no local. A conversa estava boa e amistosa, até ele fechar a porta da sua sala e trancá-la sutilmente, agindo como se não tivesse feito nada.

Então, ele mudou a pose e ficou levemente mais grosseiro e bonachão. Disse que pretendia assumir a direção do hospital e cortar muitos “privilégios” que ele acreditava que existia no local, começando pelas festas de interação e o horário estendido de visitas nos fins de semana. Para ele, tudo aquilo não passava de perda de tempo, e nenhum daqueles “trastes” muitos deles “assassinos cruéis” não mereciam o menor apreço.

Ele começou a me olhar mais profundamente e a acariciar meus ombros. Falava coisas em meu ouvido e então começou a ousar mais passando a mão pelo meu corpo. No início meu sangue gelou e eu fiquei paralisada sem reação. Eu queria sair dali, mas não sabia como. Eu queria entrega-lo a todos, mas sabia que ninguém acreditaria em mim.

Ainda surpresa, ele pediu que eu me levantasse e me despisse para um “exame especial”. Meio hipnotizada, eu levantei-me, porém quando ele começou a desabotoar a minha blusa eu o empurrei. Ele, obviamente não gostou e se aproximou novamente, lentamente, tentando tirar a minha blusa. Mais uma vez o joguei para longe e me afastei indo em direção à porta.

Desta vez, ele segurou meu braço e me debruçou sobre a mesa, segurando minhas mãos nas costas e com a outra mão, tentando rasgar minhas roupas. Como não conseguia me segurar e me despir ao mesmo tempo, me deu algumas tapas e passava a mão em mim, me ofendendo. Eu tentava em vão me defender, mas era difícil, uma vez q ele tinha quase o dobro do meu tamanho.

Quando ele me virou de frente para rasgar a minha blusa, a porta da sua sala se abriu num golpe forte e então pude ver Rodrigo surpreso acompanhado de dois enfermeiros “armários” e a antiga doutora em seus trajes de paciente encardidos.

Os enfermeiros seguravam Rogério que gritava dizendo que eu havia pedido para ele fazer aquilo, e que eu o havia provocado.

Rodrigo me explicou então que depois que eu entrei na sala, a doutora que estava próxima, pois estava no seu banho de sol, avisou uma enfermeira e insistiu para que eles viessem até ali, pois ela havia ouvido gritos. Primeiro ele pensou que fosse invenção, mas quando passou como quem não queria nada e percebeu que a porta estava trancada, chamou dois enfermeiros que ouviram os meus gemidos e as tapas que ele me deu.

Agradeci muito pela defesa, e agradeci a doutora também que com um rosto sem muita emoção disse que só fez o trabalho dela. Após um mês do ocorrido, fui promovida a “braço direito” do Diretor, e seu irmão foi afastado e encaminhado a uma delegacia onde foi condenado a prestar serviço comunitário em uma escola militar do outro lado da cidade como punição por assédio, tentativa de estupro e desvio de verbas, além de alguns anos de prisão domiciliar.

Agora eu tinha acesso a todo hospital, mas ainda era a principal responsável pela ala feminina. A curiosidade sobre a chave acabou ficando um pouco de lado depois do aumento e algumas vezes, até pelo acúmulo de tarefas.

Um dia, à noite, após uma comemoração da administração pelos bons resultados, com uma dor de cabeça aguda causada pela leve ressaca de algumas bebidas, fiquei observando a lua que estava alta e cheia e era muito nítida da minha janela. Coloquei uma roupa qualquer e fui dar uma volta pelo hospital.

Com a chave em meu pescoço fui até o portão da ala masculina. Quando a chave girou sem sofrimento e abriu o portão em um click suave, abri com todo cuidado e entrei. O local era muito silencioso e calmo, nada diferente das outras alas do hospital.

Voltei para o meu quarto e dormi como uma pedra, dopada pelos vários remédios para aliviar a dor de cabeça.

Pela manhã, acordei ainda com um pouco de dor aguda, e um bilhete no chão, escrito com uma letra bem desenhada “Eu sabia que você ia lá. Agora vamos ao segundo passo… É preciso aprender mais.”.

Eu sabia de quem era aquele bilhete. Eu sabia o que ela queria que eu fizesse e o que ela esperava acontecer. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia o que eu não sabia, o que eu jamais imaginaria…

 

juhliana_lopes 17-04-2015

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Pré-Morte: A agonia final

parte3Parecia realmente que tudo estava normal. Minha mãe ao meu lado, segurando minhas mãos e falando palavras doces em meu ouvido. Os médicos examinando e com um sorriso calmo como se dissesse: “Está tudo bem.” Tudo ia muito bem…

– Como eu sou bonzinho, eu vou deixar você ver a sua agonia durante há primeira hora. Apenas seu corpo irá sentir e você vai poder assistir a tudo. Depois da primeira hora, você vai voltar pro seu corpo e sentir tudo que merece antes do seu descanso.

– Angel…

Angel estava linda como sempre. Realmente grávida, e ela havia ganhado alguns presentes para o bebê. Entre eles uma toalhinha com meu nome bordado e depois dele um “júnior”.

Como pude ser tão idiota, como pude não ver a verdade. Agora era tarde, ou talvez não.

– Há alguma forma para que eu sobreviva? Eu gostaria muito de voltar e concertar tudo.

– Sempre me pedem isso. Mas nunca aceitam o preço. Para que você viva sua namorada e seu filho têm que ficar no seu lugar e sentir a agonia que você sentiria. Topa?

Aquilo me deixou claramente sem chão. Não havia jeito. Apenas respondi com a cabeça que não. Quando ouvi o choro de minha mãe, notei que a agonia havia começado. A máquina registrava um grande aumento dos batimentos cardíacos, mais rápido que qualquer ser poderia suportar. No mesmo momento os batimentos ficaram fracos, quase parando, e novamente foram as alturas. A expressão de dor em meu rosto era explícita e eu começava a me contorcer. Vi quando Angel e minha mãe saíram do quarto a pedido dos médicos. A porta se abriu, mas ninguém saiu. Pelo vidro, elas não estavam mais no quarto.

Senti todo o peso dos meus atos.  A certeza de que não haveria uma segunda chance, tudo tão claro quanto o dia. O tempo passou tão rápido que só deu tempo de ouvir:

– Adeus Vágner. Seu filho será um grande homem.

Senti minha cabeça pesando. Quando abri os olhos senti toda a dor e agonia de meu corpo, os médicos ao meu redor tentando me ajudar. O ar não chegava aos meus pulmões, e quanto mais eu tentava respirar, mais o ar me faltava. Meu corpo tremia e tinha fortes convulsões, a dor era imensa. Era como se alguém estivesse rasgando cada músculo do meu corpo e quebrando cada osso com um martelo em várias partes. Sentia minha carne se abrindo como se toda a pele fosse se desprender do meu corpo. Meus olhos queriam pular para fora, minha língua parecia um demônio incontrolável. Senti agulhadas em meu corpo, provavelmente sedativos. Sentia o líquido percorrendo minhas veias, mas nada aliviaria aquela tempestade. As convulsões iam ficando mais fortes e agora sentia os médicos me amarrarem para que eu não caísse da cama. Senti minha cabeça inchar. Meu cérebro parecia que ia explodir, meus ouvidos podiam estourar a qualquer momento, e tudo parecia não ter fim. Eu realmente queria morrer para que aquilo se acabasse, mas sabia que ainda tinha muito por vir. Levantei um pouco a cabeça no meio ao tormento e vi a toalha bordada novamente. Pelo menos algo valeria a pena. No fundo eu tinha esperança que meu filho fosse realmente uma boa pessoa, para que não passasse nem metade do que eu estava passando agora. Choques percorriam meu corpo, e sentia meus pulmões atrofiando assim como o coração.

14 horas de agonia, até o momento do suspiro final. Enfim meu corpo estava em paz.

 

/juhliana_lopes 14-01-2013

Pré-morte

parte1Eram 13h quando aconteceu. Eu estava na minha, esperando a minha mãe como sempre, gostava de ouvir a voz dela. Mas ela não apareceu. Comecei a ficar ansioso, por que ela estaria demorando tanto? Foi na minha ansiedade que notei a ausência dos médicos. Eles sempre vêm me ver a cada hora. Mas já faziam três e ninguém apareceu.

Um leve formigamento tomou meu corpo e aos poucos os movimentos do meu corpo foram voltando. Lágrimas de alegria percorreram meu rosto, um verdadeiro milagre estava acontecendo. Sentei-me na cama sozinho. Era divino. Onde estariam todos para ver esta maravilha! Tentei falar, mas as palavras não saiam da minha boca. Apenas gemidos e pouca coisa compreensível. Tudo estava voltando ao normal. Já que ninguém ia aparecer pra me ver, porque não ir atrás deles e fazer uma surpresa? A sala do médico não devia ser tão longe assim.

Primeiro tentei ficar em pé. No começo parecia fácil, mas o peso do tempo parecia ter travado minhas pernas. O primeiro passo foi uma coisa horrorosa. E assim eu fui cada passo mais horroroso que o outro, porém, eu não cai. Fui me apoiando nas coisas até chegar a porta. Quando eu abri, minha surpresa foi maior ainda. Ninguém nos corredores. Eu nunca tinha visto o corredor exatamente, mas tinha certeza que tinha muita gente, o barulho de macas e pessoas andando de um lado para o outro era constante.

Tentei chamar alguém. Andei pelo corredor, olhando os quartos. Todos vazios. O que estava acontecendo afinal. Fui até a janela, o sol brilhava forte e a brisa agitava as folhas das árvores. Olhei com atenção todos os cantos. Não havia ninguém. Nem carros, nem crianças, nem cachorros, nem aves. Nenhum ser. O desespero começou a tomar conta de mim e andei o mais rápido que pude até a recepção. Havia papéis sobre a mesa, café quente na cafeteira e pão para as visitas, mas não havia ninguém.  Sentei nas cadeiras de espera. Apoiei os cotovelos sobre os joelhos e minha cabeça foi de encontro as minhas mãos. Agora o choro era de agonia. A alegria do retorno estava totalmente desfeita com aquela confusão. Onde estaria todo mundo? O que estava acontecendo?

– Acalme-se.  – Uma voz me veio à cabeça, então olhei rapidamente ao redor procurando quem poderia estar falando. Tentei chamar, mas eu ainda não sabia falar.

– Acalme-se – disse a voz novamente. Eu juro que estava tentando, mas a ideia de que ninguém estava falando comigo era assustadora.

– Veja bem, eu também não consigo falar. Apenas em sua mente. Você pode fazer o mesmo, respondendo em pensamentos. Agora se acalme.

Eu estava gelado. Um leve arrepio tomou minha coluna. Quando me dei conta havia alguém sentado ao meu lado. Uma figura peculiar, toda de branco, com uma bengala. Sua pele era branca como a roupa, e os olhos completamente negros. Olhava para mim como se pudesse ver a minha alma.

– Onde está todo mundo? – pensei. Eis que a voz em minha cabeça respondeu:

– No mesmo lugar de sempre.

– Como assim? Já andei esse hospital todo e não achei ninguém.

– Elas estão ai. Você que não consegue ver.

– E por que eu não consigo?

– Por que você está quase morrendo…

 

/juhliana_lopes 14-01-2013