Olhos verdes

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Era um ambiente novo, bem equipado e com cheiro de tinta. Camas devidamente arrumadas, lençóis limpos e refeitórios organizados. Estava tudo pronto. Andaram por mais alguns corredores, com os passos ecoando entre os espaços vazios. Pararam então no pátio, onde o sol entrava pela janela, iluminando parte do ambiente.

– Acho que não dura uma semana. – disse um dos doutores.

– O que disse? – respondeu o outro com a cabeça baixa.

– Bem Andy, é só você ver. Limpinho demais, organizado demais, pra quando eles chegarem bagunçarem tudo. Devemos admitir, são piores que crianças nesse quesito.

– Regis, olha eu não acho que devemos pensar assim. Estamos aqui para ajudar não é mesmo? – respondeu Andrew colocando a mão no ombro de seu amigo.

– Sim, mas isso não impede deles fazerem bagunça. E cara, meu nome nem é Reginaldo para você ficar me chamando de Regis… – respondeu Regulus dando as costas para o amigo.

– Sei lá cara. Fica estranho te chamar de “Reg”, parece que to falando de música de reggae… – Respondeu Andrew rindo.

Ouviram então o barulho no portão. Os primeiros pacientes estavam chegando e eles ajudaram as enfermeiras a acomodá-los. Alguns estavam assustados e foi preciso sedá-los para que se acalmasse. Outros, ficaram quietos, observando todos os detalhes. Alguns puxaram conversa, perguntaram tudo sobre o local, e ficaram animados em caminhar pelo pátio e aproveitar o sol ameno da manhã.

Porém, havia um que estava quieto demais. Entrou no quarto, sentou no chão e ali ficou. As enfermeiras estranharam e chamaram o Dr. Regulus. Ele entrou, se abaixou próximo do paciente, falou algumas coisas e saiu, dizendo para elas que não precisavam se preocupar.

O dia então se passou. Regulus atendia outro paciente quando as enfermeiras procuraram o Dr. Andrew.

– Doutor, estamos preocupadas.

– O que aconteceu?

– É o paciente do quarto 225. Ele chegou, sentou no chão e esta lá até agora. Não quis comer, não quer falar. Já chamamos o Doutor Regulus, e ele disse que não precisava a gente se preocupar, mas ele está quieto demais…

– Entendo. Vou dar uma olhada.

E então Andrew seguiu as moças até o quarto do paciente.

O paciente, que aparentava ser alto, quase 1,90, sentado no chão com as pernas cruzadas como se estivesse em posição de lótus, não gesticulava, não se mexia e nem resmungava. Mal respirava. Não quis trocar de roupa. Seu cabelo escuro na altura do pescoço, ocultava parte do rosto já que estava com a cabeça levemente baixa. Andrew entrou, com um sonoro boa noite e aguardou. Quando ia dar um passo para se aproximar, ouviu o paciente dizer em um tom de voz rouco e grave.

– Quem é você?

Surpreso, pois ele continuava de costas para a porta, respondeu.

– Sou o novo doutor. Andrew é o meu nome, mas pode me chamar de Andy se quiser.

– Não há nada para você aqui Andy.

A voz dele era profunda e pesada. A resposta era curta e grossa, mas mesmo assim Andrew se aproximou e sentou-se no chão, de frente para o paciente. Ele não levantou a cabeça, mas mesmo assim o bom doutor insistiu em falar com ele.

– Você gostou do seu quarto novo? Devia ver a cama, é bem macia! E você vai ter roupas limpas também, vai ser bem melhor. Gostaria de experimentar?

Andrew viu então o rapaz levantar levemente a cabeça e abrir a boca para lhe dizer alguma coisa, mas ele parou e ficou lhe encarando. Animado, tentou puxar novamente um assunto, mas logo foi surpreendido pelo paciente. Em um movimento rápido, ele levou a sua mão até o pescoço, e o prensou com o braço contra a parede, o levantando para deixar seus olhos na sua altura. O doutor, desesperado com a força do paciente, gesticulou para que as enfermeiras buscassem ajuda, já que ele não conseguia gritar. Andrew então viu que o paciente tinha olhos verdes. Grandes olhos verdes raivosos, semicerrados. Sua força era extrema e aos poucos ele sentia que perderia a consciência.

Regulus entrou batendo com o pé na porta e gritando:

– Diego, solta ele agora!

Diego, o paciente, assustado com o barulho tirou o braço, fazendo o doutor cair no chão. Regulus se aproximou de Andrew que ainda estava consciente. Quando se virou novamente para Diego, recebeu um golpe no estômago, caindo em cima da cama. Enquanto isso, Diego se voltou novamente para Andrew, montando sobre ele com as mãos em seus ombros.

– Onde está ela? – Diego falou alto.

– Eu… Eu não sei… De quem você está falando? – respondeu Andrew assustado.

– Ela está no outro prédio Diego! Solta ele, eu já te disse! – respondeu Regulus, tentando dar uma chave de braço no paciente.

– Por que ele tem os olhos dela? Você disse que só eu tinha os olhos dela! – disse Diego, um pouco choroso, enquanto Regulus o puxava para a cama para sedá-lo.

– Andrew, sai daqui! – ordenou Regulus. – Ele não tem os olhos dela. Os olhos dele não são verdes como os dela e nem como os seus. Só você tem, me ouviu? – Regulus disse, agora com um tom mais doce, olhando para Diego, enquanto preparava o remédio.

– Eu quero ela aqui. Eu quero vê-la! – Diego, ainda com o tom grave, falava como uma criança mimada.

– Ela vai vir te ver ok? Mas não hoje e nem amanhã, mas eu prometo pra você que quando ela vir, você vai ser o primeiro a saber. Agora dorme… – Disse Regulus calmamente enquanto aplicava a injeção.

Enquanto isso, do lado de fora, Andrew esperava assustado, sem entender muita coisa. Regulus saiu, e o levou até o refeitório.

– Quem é esse cara? – perguntou Andrew enquanto tomava um copo de água.

– Um paciente antigo do outro prédio. Tivemos que tirar ele de lá.

– Quem é a moça dos olhos verdes que ele falou?

– Uma paciente. Da ala feminina, os dois ficavam próximos no eventos de família que fazíamos com os pacientes bonzinhos.  Ela adorava ele, e os dois estavam realmente progredindo. Até que um dia apareceu um outro paciente de olhos claros, mas os dele não eram verdes de verdade. Esse cara começou a perseguir a moça nas festas e Diego percebeu. Quando ele viu que o cara tinha olhos claros, associou que era verde e tentou arrancá-los, dizendo que somente ele poderia ter os olhos dela. Ali ainda conseguimos controlar a situação, mas então… – Regulus fez uma pausa fechando os olhos.

– O que aconteceu Regis?

– Bem, esse paciente novo, tentou prender a moça no quarto dele. Diego ouviu os gritos dela e ficou completamente insano. Ele salvou a moça, entregando ela sã e logicamente muito assustada para as enfermeiras. Já o rapaz…

– O que ele fez? Conta logo cara! – disse Andrew ansioso.

– Ele quebrou os braços do outro cara Andy. Mas não quebrou como qualquer um quebraria. O ortopedista que examinou disse que parecia que um caminhão havia passado por cima dos ossos dele. Tiveram que colocar uma placa de titânio para tentar consertar. Além disso, ele tentou arrancar os olhos do cara de novo e não conseguiu, mas deixou cicatrizes pelo rosto do paciente. Por isso que esse novo espaço foi agilizado. Para que ele pudesse ficar longe.

– Regis, eu… Eu podia ter morrido ali.

– Por isso eu falei pras enfermeiras pra ficar tranquilas que iria ficar tudo bem, só esqueci de avisar a você pra ficar longe dali.

– Agora eu já aprendi a lição.

– Espero que sim.

Andrew terminou a sua água e continuou a olhar os outros pacientes. Regulus verificou como Diego estava e conversou com as enfermeiras.

No fim da noite, Andrew passou pelos corredores para ver quais pacientes estavam dormindo. Passou então pelo quarto de Diego e olhou rapidamente pela janela da porta. Não havia ninguém. Pensou em chamar Regulus para olhar, mas talvez não houvesse tempo. Abriu a porta rapidamente para ver se não tinha sido apenas impressão mas não havia ninguém.

– Ah, merda! Onde ele foi parar? – Andrew falou baixinho, olhando embaixo da cama e no banheiro. – Onde será que ele está?

– Aqui. – respondeu Diego, dando uma chave de braço em Andrew e tampando seu nariz e boca com a outra mão. – Agora fica quietinho que eu prometo que não vai doer nada.

Regulus correu o mais rápido que pôde quando ouviu os gritos dos pacientes da ala leste. Apertou o passo quando ouviu os gritos de Andrew e parou subitamente quando ouviu a risada macabra de Diego.  De fato, os olhos dela eram somente dele.

juhliana_lopes 03-04-2016

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A nova doutora

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Desde o afastamento da última doutora que além da sua loucura visível, também foi diagnosticada com vários transtornos pós-estresse. Além disso, foi acusada de introduzir remédios controlados em alguns colegas de trabalho, misturados com outras substâncias, fazendo com que sua saúde também ficasse debilitada.

O hospital e manicômio passaram então por uma reforma e sob a nova direção, agora sob o comando do diretor Doutor Rodrigo, eu fui contratada.

A rotina era simples na ala que fiquei responsável, afinal, as moças em sua maioria eram quietas, e as mais agitadas estavam ocupadas bordando ou fazendo algum tipo de trabalho artístico.

Todas as terças, sempre que podia, reunia os internos e tocava algumas músicas para eles em meu violão. Era gratificante vê-los interagir e muitas vezes relembrar coisas boas de seu passado são.

Ainda sim, o marasmo me deixava inquieta. Queria fazer mais e sempre tentava entrar na ala masculina ou na recepção dos pacientes mais nervosos. Mantinham-me afastada, pois apesar dos meus anos de experiências, eles queriam deixar cada um em seu lugar.

Foi num dia se sol e festa que conheci a doutora que um dia foi uma das mais respeitadas do hospital. A única que conseguia controlar os loucos mais violentos, sem precisar tocar em um só membro. A única que tinha o respeito de todos. Estava visivelmente fraca, e apesar do assédio de todos que buscavam notícias ou simplesmente uma conversa sem importância, procurava se isolar sempre que podia.

A festa era em comemoração ao dia de São Patrício, e o local estava todo decorado de verde e laranja. Além de comidas típicas, a equipe do hospital distribuiu algumas fantasias aos internos, muitos estavam contentes com a festa, outros pareciam um pouco perturbados pelas cores fortes e ficavam pelos cantos.

Deram-me uma fantasia também, mas preferi manter minhas vestes brancas.

Mais tarde, quase no fim da festa, resolvi tentar conversar com a doutora tão famosa.

Para minha surpresa ela foi muito gentil, e nem de longe parecia estar doente como foi diagnosticada. Em todo caso, esta era uma das características particulares que já me avisaram sobre ela, afinal, foi por acharem que ela estava boa que a deixaram voltar ao trabalho, e foi por esse mesmo motivo que ela acabou causando um caos quase que irreversível.

Um dos meus problemas sempre foi à curiosidade, e ela não deixou de me incomodar quando a doutora me entregou uma chave, e disse apenas que se eu quisesse conhecer o hospital todo, aquela chave abriria tudo. Guardei tentando ignorar o significado, tentando fingir que poderia ser mais um delírio, mas eu sabia que não era. E ela sabia que eu sabia.

Ela sabia mais. Sabia que eu queria conhecer a ala masculina. Sabia que eu queria conhecer a parte dos violentos. Sabia que eu queria poder tomar conta de tudo como um dia ela tomou. Sabia que no meu íntimo eu desejava ter o mesmo controle e respeito que um dia ele teve.

Guardei a chave comigo e fiz um cordão com ele, deixando no meu pescoço, oculto pelas minhas roupas. Três dias depois, na minha folga, resolvi dar uma volta sem compromisso pelo hospital. Eu tinha autorização de sair pela cidade ou qualquer lugar que fosse quando não estivesse no meu horário de trabalho depois que escolhi morar lá, mas ainda sim, gostava de ficar naquele ambiente que muitos não pensariam duas vezes em ficar longe.

Passei pelo portão da ala masculina. Senti a chave fria em meu pescoço, mas não arrisquei. Perdida em meus pensamentos fui surpreendida pelo Doutor Rogério, irmão e braço direito do Diretor Rodrigo. Ele me convidou para um café em sua sala enquanto perguntava sobre o hospital e como estava sendo minha experiência no local. A conversa estava boa e amistosa, até ele fechar a porta da sua sala e trancá-la sutilmente, agindo como se não tivesse feito nada.

Então, ele mudou a pose e ficou levemente mais grosseiro e bonachão. Disse que pretendia assumir a direção do hospital e cortar muitos “privilégios” que ele acreditava que existia no local, começando pelas festas de interação e o horário estendido de visitas nos fins de semana. Para ele, tudo aquilo não passava de perda de tempo, e nenhum daqueles “trastes” muitos deles “assassinos cruéis” não mereciam o menor apreço.

Ele começou a me olhar mais profundamente e a acariciar meus ombros. Falava coisas em meu ouvido e então começou a ousar mais passando a mão pelo meu corpo. No início meu sangue gelou e eu fiquei paralisada sem reação. Eu queria sair dali, mas não sabia como. Eu queria entrega-lo a todos, mas sabia que ninguém acreditaria em mim.

Ainda surpresa, ele pediu que eu me levantasse e me despisse para um “exame especial”. Meio hipnotizada, eu levantei-me, porém quando ele começou a desabotoar a minha blusa eu o empurrei. Ele, obviamente não gostou e se aproximou novamente, lentamente, tentando tirar a minha blusa. Mais uma vez o joguei para longe e me afastei indo em direção à porta.

Desta vez, ele segurou meu braço e me debruçou sobre a mesa, segurando minhas mãos nas costas e com a outra mão, tentando rasgar minhas roupas. Como não conseguia me segurar e me despir ao mesmo tempo, me deu algumas tapas e passava a mão em mim, me ofendendo. Eu tentava em vão me defender, mas era difícil, uma vez q ele tinha quase o dobro do meu tamanho.

Quando ele me virou de frente para rasgar a minha blusa, a porta da sua sala se abriu num golpe forte e então pude ver Rodrigo surpreso acompanhado de dois enfermeiros “armários” e a antiga doutora em seus trajes de paciente encardidos.

Os enfermeiros seguravam Rogério que gritava dizendo que eu havia pedido para ele fazer aquilo, e que eu o havia provocado.

Rodrigo me explicou então que depois que eu entrei na sala, a doutora que estava próxima, pois estava no seu banho de sol, avisou uma enfermeira e insistiu para que eles viessem até ali, pois ela havia ouvido gritos. Primeiro ele pensou que fosse invenção, mas quando passou como quem não queria nada e percebeu que a porta estava trancada, chamou dois enfermeiros que ouviram os meus gemidos e as tapas que ele me deu.

Agradeci muito pela defesa, e agradeci a doutora também que com um rosto sem muita emoção disse que só fez o trabalho dela. Após um mês do ocorrido, fui promovida a “braço direito” do Diretor, e seu irmão foi afastado e encaminhado a uma delegacia onde foi condenado a prestar serviço comunitário em uma escola militar do outro lado da cidade como punição por assédio, tentativa de estupro e desvio de verbas, além de alguns anos de prisão domiciliar.

Agora eu tinha acesso a todo hospital, mas ainda era a principal responsável pela ala feminina. A curiosidade sobre a chave acabou ficando um pouco de lado depois do aumento e algumas vezes, até pelo acúmulo de tarefas.

Um dia, à noite, após uma comemoração da administração pelos bons resultados, com uma dor de cabeça aguda causada pela leve ressaca de algumas bebidas, fiquei observando a lua que estava alta e cheia e era muito nítida da minha janela. Coloquei uma roupa qualquer e fui dar uma volta pelo hospital.

Com a chave em meu pescoço fui até o portão da ala masculina. Quando a chave girou sem sofrimento e abriu o portão em um click suave, abri com todo cuidado e entrei. O local era muito silencioso e calmo, nada diferente das outras alas do hospital.

Voltei para o meu quarto e dormi como uma pedra, dopada pelos vários remédios para aliviar a dor de cabeça.

Pela manhã, acordei ainda com um pouco de dor aguda, e um bilhete no chão, escrito com uma letra bem desenhada “Eu sabia que você ia lá. Agora vamos ao segundo passo… É preciso aprender mais.”.

Eu sabia de quem era aquele bilhete. Eu sabia o que ela queria que eu fizesse e o que ela esperava acontecer. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia o que eu não sabia, o que eu jamais imaginaria…

 

juhliana_lopes 17-04-2015

Sem escuridão

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Minha mente roda sem parar,

E antes que eu possa entender,

Já me vejo de novo a contar,

Estrelas perdidas que não brilham mais.

 

Não há mais escuridão,

Não há sonhos nem o repouso merecido.

Não há conforto e nem mesmo um chão.

Não há companhia e nem a solidão.

 

A visão fica turva,

A audição mais alta,

Não há palavras para dizer,

Mas a boca insiste em salivar,

Preparando discursos e respostas,

Para pessoas que não vão perguntar.

 

O silêncio constante trás dor aos ouvidos.

Crio vozes que me dizem o que eu gostaria de ouvir,

Vozes que me dizem o que eu não quero escutar,

Vozes que me dão conselhos vãos,

E vozes que me alertam o perigo.

E aquelas vozes que não dizem nada,

Mas estão ali, apenas esperando a sua vez.

 

Perdi o tato e o movimento dos braços,

Que apesar de ligados ao meu corpo não podem se mexer,

Amarrados constantemente, onde eu não posso ver.

 

Não deito ou levanto, pois as pernas não me obedecem mais.

Não há impulso ou alongamento,

Nem exercício ou caminhada,

Apenas um lugar “macio” para repousar,

Um lugar “de paz”.

 

A luz machuca meus olhos e o branco me perturba.

Às vezes imagino outras cores para me distrair,

Mas quando tento dormir, o branco me mantém acordada, atenta.

Quando tento esquecer, o branco volta como uma tela,

Uma galeria das minhas tragédias.

 

Uma camisa de força,

Alguns remédios

E um manicômio.

 

Alguns sonhos,

Uma pessoa

E um pensamento.

 

A sede,

O desejo

E uma oportunidade.

 

Uma resposta,

Uma réplica

E o fim.  

 

29-03-2015 juhliana_lopes

Vozes

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As vozes não param de me chamar e mais uma noite estou aqui neste quarto. Não sei que dia é hoje, mas sei quando anoitece, pois eles desligam as luzes me deixando na mais completa escuridão. São várias toda hora, me chamando, me insultando, clamando, chorando, pedindo, exaltando, gritando, cantando, e me enchendo.

Toda vez que vou ao refeitório, ou ao banho de sol, ou mesmo quando vou à sala de visitas, esperar alguém que nunca vêm, elas estão lá, e toda vez que retorno a minha fortaleza da solidão, uma nova voz está cutucando meu ouvido.

Algumas eu reconheço, como as dos enfermeiros, e dos médicos me dizendo “Bom dia, você está com uma cara ótima hoje”. Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia… Várias e várias vezes pela manhã acordo antes da luz se acender com minha mente me desejando um bom dia.

Algumas são de pessoas que conviveram comigo lá fora, pessoas que eram meus amigos, que eram conhecidos, e que um dia fizeram algum tipo de diferença na minha vida. Pessoas que me ofenderam, pessoas que sumiram, e pessoas que eu matei. Não faça isso, não faça aquilo, não faça isso, não faça aquilo, não faça isso, não faça aquilo… Por favor, pare, eu imploro, por favor, pare, eu imploro, POR FAVOR, PARE! EU IMPLORO!

Você pode achar que vivo atormentada por elas, e que minha vida é um inferno. Você pode achar que viver onde eu vivo seria demais para qualquer pessoa e que seria melhor dar conta da minha vida. Você poderia achar ainda que deveriam me manter dopada para que minha mente tivesse um pouco de paz.

Você pode me aconselhar ainda procurar um tratamento de choque, e remédios controlados para que eu possa tentar conviver com pessoas “normais”, e levar uma vida saudável. Quem sabe ainda me dizer que eu devia tomar uma atitude e esquecer esse negócio de vozes, arrumar um emprego e ocupar a mente para que elas possam ir embora. E porque não, você me diria para tentar uma lobotomia e me livrar de tudo isso de uma vez?

Mas eu te digo que nada é tão ruim, que não possa ser pior. É realmente horrível viver com isso 24h por dia, e pior ainda ter uma memória infinita que guarda cada nova voz e faz ela se repetir por meses a fio. Porém, há uma voz que aparece que me faz ficar bem em meio a tantas que me atormentam. Uma voz q me faz delirar em devaneios tolos, e sonhos perdidos.

Uma voz, que tem gosto e cheiro, uma voz que trás boas coisas. Quando a ouço, sinto gosto de café e sinto cheiro de chuva. Uma voz que quando ouço me dá arrepios e uma vontade de buscar um prazer que jamais iria suprir os meus desejos. Aquela voz que me domina e poderia me levar às alturas. A voz de alguém que vejo todos os dias, mas não posso tocar, pois uma grade nos separa.

Alguém do passado que assim como eu, enlouqueceu (ou será que finalmente ficou são). Alguém que entre juras e promessas, entre as alegrias dos sonhos e a tristeza do realismo, se jogou num abismo de pensamentos e resolveu se perder. Alguém que guardei na lembrança e sei que também me guardou. Alguém que um dia eu prometi que estaria sempre dentro de mim.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, a voz diz. Sinto sua falta, eu respondo. De longe, nossos olhos se encontram, e mesmo sem nem abrir a boca, um sabe o que o outro está pensando. De longe, presos nesse hospício, separados por gênero, esperamos o dia em que vamos poder nos abraçar novamente.

Enquanto isso, em meio a tantas vozes, em meio a tanta confusão, você se tornou uma voz. A voz que eu faço questão de ouvir todos os dias. A voz que me guia e me alegra. A voz que me permite sonhar e dormir no aconchego do meu travesseiro velho. A voz que eu ouvirei até o fim dos meus dias.

 

/juhliana_lopes 26-01-2015

Doces ou Travessuras?

Doces ou travessuras era o que sempre diziam. Não gostava daquele dia. Não que fosse melhor nos outros, mas naquele dia, tudo aumentava em proporções monstruosas. Confiava nos seus pacientes, é verdade, mas neste dia, tudo era motivo para se desconfiar.

Não podia impedir. Fazia parte do programa incentivar a interação e datas comemorativas para auxiliar na recuperação dos pacientes. Todos ficavam empolgados em decorar seus quartos e o pátio da clínica, em fazer coisas de artesanato e dinheiro de mentira para vender na feira da festa. Ninguém vendia nada de verdade, apenas trocavam por pedaços de papel já que a festa não era aberta para pessoas de fora.

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Ela não tinha dificuldade em lidar com pacientes brutos e ignorantes. Os assassinos eram a sua especialidade, já haviam dois dos mais perigosos no seu currículo que hoje a tratam com tamanho respeito como se fosse sua mãe. Era segura de si, gostava do seu trabalho mas neste dia…

“Talvez seja algum trauma de infância”, ela justificava, sem se lembrar do que poderia ser exatamente. O fato é que odiava esse dia e as surpresas que vinham com ela. Sempre acontecia algo de constrangedor ou que fazia ela se arrepender de não ter inventado uma desculpa pra não vir ao trabalho.

Doces ou travessuras eles gritavam de repente. Era recomendado andar com os bolsos cheios para escolher logo a primeira opção e acabar logo com o tormento. Quando chegavam em alguém que já estava de bolsos vazios, a segunda opção sempre vinha acompanhada de gritos de terror e risadas macabras, pelo menos dentro da cabeça da doutora.

Andando com passos rápidos em um corredor, olhando para os lados quase tremendo, ouviu a frase assustadora. Não era pra ela e sim para um colega de trabalho. Ele tinha acabado de entregar os últimos doces para um grupo que havia passado na frente e pra esse, só sobrou “as travessuras”. Arrancaram o seu jaleco e o obrigaram a vestir aqueles aventais de cirurgia que são abertos atrás. Ele teria que andar por todo hospital sem levantar a cabeça pra nada e nem falar com ninguém. Só pararia quando eles dissessem que devia parar. E assim ele foi, ainda mais depois que ficou sabendo da consequência, ele não queria apanhar nu, em uma cadeira.

A doutora se distraiu vendo a cena e quando percebeu, parte do grupo vinha em sua direção. Por instinto ela correu. Até trombar no grupo dos “fortes”, formado pelos loucos com o corpo mais definido, grandes e musculosos que em seus banhos de sol se exercitavam para manter a forma. Caiu no chão e agora estava cercada por dois grupos. Sentiu-se como uma criança indefesa pois não havia como fugir.

Quando os dois grupos perguntaram e perceberam que só ia haver uma opção, eles foram atacados por balas e pirulitos, além de pedaços de caramelo e chicletes. Uma verdadeira onda de doces que fez com que os grupos corressem rindo como moleques levados.

A frente da médica agora, havia dois homens altos, com aquele rosto imparcial sem emoção. Ainda com medo olhou levemente para cima e percebeu que um deles lhe estendia a mão.

– Está tudo bem doutora? – disse o que estava com a mão aberta.

– Eu… acho que sim. – ela respondeu lhe dando a mão e levantando.

– Mais cuidado – disse o outro. – Hoje, até a noite ninguém vai ter paz.

– Obrigada rapazes. – ela respondeu um pouco mais aliviada.

– Não se pode confiar em ninguém hoje… – disse o rapaz que a ajudou.

– Verdade, obrigada mesmo…

– Não agradeça… – disse o outro colocando a mão em seu cabelo. – Agora responda rápido: Doces ou travessuras?

 

juhliana_lopes 31-10-2013

Branco – A cor infernal

De todos os lugares do mundo, nada é mais torturante do que um quarto branco, sem janelas, completamente vazio. Apenas você e o quarto. Sua mente não para de trabalhar; ideias mirabolantes, a cura de doenças, tudo ao mesmo tempo porém, nada parece capaz de preencher aquele “branco infernal”.

Você pode imaginar cores, sabores, pessoas… Pode criar um mundo novo mas sempre estará preso no branco. Ninguém te ouve, apenas o vazio que grita em seu ouvido todas as noites e não te deixa dormir. Pior que o limbo, o tempo parece não passar no quarto branco.

Como alguém pode achar que este quarto branco é um lugar para recuperação? Minha mente se volta contra mim como se quisesse também, preencher seu próprio vazio. Tudo que criei, todas as pessoas, todos os personagens, todos me perseguem. Querem espaço, querem liberdade. O quarto branco não permite.

Pior que um labirinto, o quarto branco não dá chances de fuga ou qualquer esperança. Você é o único centro. A dor resolve fazer uma visita, acompanhada da agonia e do medo; logo chegam à raiva e o impulso. Uma reunião adorável, onde o objetivo é acabar com você. O quarto branco sufoca tudo que esta em seu interior.

E pensar que é apenas meu primeiro dia nesse lugar infernal.

 

25-09-2012 /juhliana_lopes

Quem seria o louco?

Assim que chegou o tumulto se formou. Era capaz de ouvir seus gritos do outro lado do corredor. Eu tentava chegar mais perto mas, ninguém me permitia; “É perigoso”; não importava eu tinha que chegar. Aproveitei uma brecha e então eu pude ver o horror. Seus gritos eram tão fortes que até os seguranças saiam de perto.
04Apesar de todas as amarras, era como se tudo fosse explodir a qualquer momento, libertando a fera. Era o verdadeiro retrato da agonia, com algumas gotas sarcasmo.
Quando conseguiu se levantar, todos correram… Tolos, por que correm? Não percebem que ficar em pé, encostado na parede é o máximo que ele pode fazer? Como alguém corre com os pés amarrados?

Novamente ele caiu, porém não houve mais gritos, parecia que havia “caído errado” e estava de mal jeito. Precisava respirar mas, ninguém era capaz de ajudá-lo ou ninguém queria mesmo.
Lembro de alguém puxando meu braço para não me deixar entrar no quarto, que havia se transformado em um picadeiro do circo dos horrores.
Tranquei a porta e fechei as cortinas, se ninguém ia ajudar, não tinha por que assistir. Cheguei perto e confesso que estava com um pouco de receio, mas era preciso ajudar, então o ajudei a se sentar e pude ver seu olhos.
Ali estava toda a verdade, uma mistura de medo de criança com raiva do mundo e um pedido de socorro. Comecei a desamarrá-lo e, apesar de não falar nada, seu olhar mostrava claramente que estava confuso afinal, todo sabiam o que ele havia acabado de fazer…
Uma vez solto, sua reação foi a inércia. Não quis levantar, não quis gritar, apenas ficou ali, sentado, olhando fixamente para o chão. Peguei um copo de água, sentei-me ao seu lado e ofereci. Ele não me olhou mas pegou o copo, tomando tudo num só gole. Perguntei se queria mais e ele sinalizando com a cabeça, disse que sim. Foram cinco copos de água.
Levantei e falei pra ele que podia dormir quando quisesse e que o interruptor estava perto da cama para que não precisasse levantar para apagar a luz. Foi então, que ouvi a sua voz pela primeira vez no momento que ele disse um tímido “Obrigado”.
Antes que eu chegasse a porta, ele tocou em meu braço, como alguém podia se levantar tão rápido?
Olhou em meus olhos, tão profundo como se buscasse a minha alma. Pude ouvir sua voz claramente ao dizer: “não deixa eles entrarem aqui de novo, por favor?” Sua mão estava fria, percebi sua fragilidade como se fosse uma criança que não quer ir ao médico, com medo de uma injeção.
Eu prometi que ninguém lhe faria mal e que amanhã voltaria para conversarmos. Eu abri a porta e sai, e antes de fechá-la novamente vi que ele se dirigia lentamente para a cama.

Não sei ele, mas naquela noite, a insônia veio me visitar…

24-09-2012 /juhliana_lopes