Enfim, de volta

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– Segundo o último relatório, não houve mais surtos, os níveis estão se normalizando, os remédios foram diminuídos e agora ela está tomando só alguns naturais para controle da ansiedade.
– Acha q ela esta pronta para voltar a vida em sociedade?
– Acredito que ela esta pronta até para voltar ao trabalho se quiser.
E assim saíram da sala em direção ao quarto para dar a boa notícia. Com a alta assinada, seguiram pelo corredor, onde no final a mãe já aguardava com a neta. Conversaram com ela, explicaram a situação e seguiram os quatro para o quarto da paciente.
Ao abrir a porta, ela estava escrevendo com giz de cera em alguns papeis para passar o tempo, mas ao ouvir a voz de sua filha, se virou sorridente e lhe deu um grande abraço. Depois, da levantou e abraçou sua mãe, ficando ali por um tempo.

A levaram para casa, e enfim ela pôde descansar. Dormiu durante um dia inteiro, e no dia seguinte passou o dia brincando com sua filhinha. Estava feliz, enfim em casa, enfim longe daquele lugar e longe dos pesadelos.

– Pensei que não fosse voltar…

– Pensou errado, sabe que não fico longe do trabalho.

– É mas você devia procurar outra coisa com o que trabalhar, só passou um mês fora…

– Olha, se for pra ficar medindo o que eu tenho ou não que fazer, me sustenta e sustenta a minha filha, ai eu fico em casa bonitinha sem encher o saco.

– Tudo bem, tudo bem, é só um conselho de amigo…

– Eu fiquei muito tempo aqui pra descobrir quem eram os meus amigos e de quem eu devia ouvir conselhos. Bom dia Dr. Felipe.

Ela estava enfim de volta, ao seu lar, ao seu posto, ao seu local de trabalho. Sempre foi a doutora maravilha que conseguia resolver todos os problemas, desde o consultório ao pacientes nervosos. Estava mais firme, com mais garra e quem sabe até o mesmo brilho de quando entrou naquele local a primeira vez.

Jamais imaginou que tentar viver fora dali lhe trouxesse tantos problemas como a um ano e meio. Depois da brincadeira dos pacientes no Halloween, onde por um segundo achou que estivesse perdida na mão de loucos insanos e estupradores, quando na verdade eles só estavam preparando uma festa de aniversário surpresa, pensou que não teria mais sustos por um longo prazo.

Foi por um enfermeiro que se apaixonou e pensou que poderia ser um ótimo padrasto para sua filhinha. Arthur era seu nome e foi com que ele com quem marcou o casamento no meio do ano passado e foi no dia do casamento que houve o surto geral. Alguns pacientes não gostaram da ideia de sua principal tutora se casar e dedicar seu tempo a outro homem que não eles. Odiaram mais ainda quando descobriram segredos sobre esse homem e então fizeram de tudo para alertá-la.

Vestida de noiva, teve seu casamento invadido por eles antes do sim, com gritos e agressões ao noivo. Pedindo entre lágrimas para que parassem, eles jogaram algumas fotos que conseguiram de forma totalmente clandestina antes que fossem retirados da igreja. Ela, pegou as fotos e gritou em seguida para que os soltassem. Seus olhos agora jorravam lágrimas entre soluços assustados sem crer no que seus olhos viam.

Abraçou a sua filha e perguntou em seu ouvido se ela gostava do “tio” e se ele realmente fazia o que estava ali na foto. Ela, chorosa, esfregou os pequenos olhos e balançou a cabeça que sim. Ele, tentando acusar os loucos, disse que eles o obrigaram a fazer aquilo, que nunca se quer tocou em uma criança e que tudo aquilo era só uma maneira de estragar a felicidade dos dois.

Enfermeiro, pedófilo e agressor de pacientes nas horas vagas, teve seu rosto arranhado com tamanha fúria que foi preciso dar pontos em alguns locais. Além disso, recebeu muitos hematomas dos pacientes que costumava espancar. Foi internado com hemorragia interna, e atualmente está preso.

Ela, além de ter sangue nas mãos, agora corria pelas ruas sem direção, gritando e agredindo qualquer um que chegasse perto, assustada como um bicho, alguns doutores como Bruno e Felipe corriam atrás dela tentando detê-la. Conseguiram contê-la em um beco, mas ao segurarem seus braços, foram jogados contra  a parece com uma força incomum. Seu corpo tremia e ela não conseguia pensar em nada. Sua visão turva a deixava confusa e seus ouvidos, tão atento aos ruídos, fazia sua adrenalina subir e reagir a qualquer brisa mais forte que passasse por perto.

Foi então quando Doutor Francisco se aproximava com uma seringa para tentar dopá-la, ela bateu em sua mão e quebrou a seringa na parede. O segurou pelo ombro e quando estava prestes a lhe dar um soco, foi ouviu um “pare” sonoro e imperativo. Era um dos seus pacientes que a chamava com sua filha no colo. Ela então conseguiu focar no rosto da sua filha que estava chorando e com tanto medo quanto ela. Então, se abaixou e ele a soltou no chão e as duas se abraçaram.

Depois de toda a confusão, ela foi internada e tomava remédios muito fortes. Descobriu depois que os próprios doutores Bruno e Felipe aumentavam as doses que o Doutor Francisco receitava para que ela não desse trabalho a eles.

Seus pacientes tentavam visitá-la, mas não podiam entrar na ala feminina, mas sempre mandavam cartas e presentes pelas enfermeiras para que ela nunca esquecesse deles.

Enfim se sentia melhor. Enfim estava boa, e pronta para voltar o trabalho. E como esteve fora por tanto tempo, havia ainda algumas coisas que precisava por em ordem…

– Ei, porque está aqui, pensei que ia estar lá embaixo medicando o pessoal, está na hora.

– Onde está o Bruno?

– Ele está de férias. Eu estou cobrindo o turno dele esqueceu? Sente-se bem, acha que pode trabalhar mesmo?

– Sim Felipe… Estou bem. Mas e você, acha que pode trabalhar desse jeito?

– Do que você está falando? Que seringa é essa? Ei, me largue!

– Medicação Dr. Felipe. Como você mesmo me orientou. Agora relaxe…

– Ei, me solta, socorr…

– Durma Dr. Felipe. Agora é hora do seu tratamento. Depois é hora de curar o Bruno e o Dr. Francisco. Mas primeiro, temos que curar você… – Ela disse com um sorriso levemente sádico preparando outra seringa. – Vamos ver quanto você aguenta…

 

juhliana_lopes 01-03-2015

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Doces ou Travessuras?

Doces ou travessuras era o que sempre diziam. Não gostava daquele dia. Não que fosse melhor nos outros, mas naquele dia, tudo aumentava em proporções monstruosas. Confiava nos seus pacientes, é verdade, mas neste dia, tudo era motivo para se desconfiar.

Não podia impedir. Fazia parte do programa incentivar a interação e datas comemorativas para auxiliar na recuperação dos pacientes. Todos ficavam empolgados em decorar seus quartos e o pátio da clínica, em fazer coisas de artesanato e dinheiro de mentira para vender na feira da festa. Ninguém vendia nada de verdade, apenas trocavam por pedaços de papel já que a festa não era aberta para pessoas de fora.

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Ela não tinha dificuldade em lidar com pacientes brutos e ignorantes. Os assassinos eram a sua especialidade, já haviam dois dos mais perigosos no seu currículo que hoje a tratam com tamanho respeito como se fosse sua mãe. Era segura de si, gostava do seu trabalho mas neste dia…

“Talvez seja algum trauma de infância”, ela justificava, sem se lembrar do que poderia ser exatamente. O fato é que odiava esse dia e as surpresas que vinham com ela. Sempre acontecia algo de constrangedor ou que fazia ela se arrepender de não ter inventado uma desculpa pra não vir ao trabalho.

Doces ou travessuras eles gritavam de repente. Era recomendado andar com os bolsos cheios para escolher logo a primeira opção e acabar logo com o tormento. Quando chegavam em alguém que já estava de bolsos vazios, a segunda opção sempre vinha acompanhada de gritos de terror e risadas macabras, pelo menos dentro da cabeça da doutora.

Andando com passos rápidos em um corredor, olhando para os lados quase tremendo, ouviu a frase assustadora. Não era pra ela e sim para um colega de trabalho. Ele tinha acabado de entregar os últimos doces para um grupo que havia passado na frente e pra esse, só sobrou “as travessuras”. Arrancaram o seu jaleco e o obrigaram a vestir aqueles aventais de cirurgia que são abertos atrás. Ele teria que andar por todo hospital sem levantar a cabeça pra nada e nem falar com ninguém. Só pararia quando eles dissessem que devia parar. E assim ele foi, ainda mais depois que ficou sabendo da consequência, ele não queria apanhar nu, em uma cadeira.

A doutora se distraiu vendo a cena e quando percebeu, parte do grupo vinha em sua direção. Por instinto ela correu. Até trombar no grupo dos “fortes”, formado pelos loucos com o corpo mais definido, grandes e musculosos que em seus banhos de sol se exercitavam para manter a forma. Caiu no chão e agora estava cercada por dois grupos. Sentiu-se como uma criança indefesa pois não havia como fugir.

Quando os dois grupos perguntaram e perceberam que só ia haver uma opção, eles foram atacados por balas e pirulitos, além de pedaços de caramelo e chicletes. Uma verdadeira onda de doces que fez com que os grupos corressem rindo como moleques levados.

A frente da médica agora, havia dois homens altos, com aquele rosto imparcial sem emoção. Ainda com medo olhou levemente para cima e percebeu que um deles lhe estendia a mão.

– Está tudo bem doutora? – disse o que estava com a mão aberta.

– Eu… acho que sim. – ela respondeu lhe dando a mão e levantando.

– Mais cuidado – disse o outro. – Hoje, até a noite ninguém vai ter paz.

– Obrigada rapazes. – ela respondeu um pouco mais aliviada.

– Não se pode confiar em ninguém hoje… – disse o rapaz que a ajudou.

– Verdade, obrigada mesmo…

– Não agradeça… – disse o outro colocando a mão em seu cabelo. – Agora responda rápido: Doces ou travessuras?

 

juhliana_lopes 31-10-2013