Delírio de Carnaval

d4431ad15cfb6202b51e3c0bc553f32d

Dia cinza, algumas gotas caem levemente sobre minha pele e eu só lembro de que o Carnaval está chegando. A população vai pra rua por uns dias e esquecem de todos seus deveres e problemas. Foi em um Carnaval onde eu cruzei com aquele olhar, depois de muitas doses de alguma coisa alcoólica, não me recordo do que era, talvez eu não tenha vivido nada antes daquele olhar, não consigo me recordar como fui parar na rua, nem porque estava de fantasia, mas aquele olhar profundo lendo minha mente fez com que nada importasse.

Me lembro da rua estar cheia, pessoas se esbarrando, derrubando bebida uns nos outros, perfumando o ambiente com um cheiro quase insuportável de cachaça e urina. Eu já estava de saco cheio dos esbarrões e procurava um refúgio, porém, aquele olhar me fez perder o juízo. Mais do que ler a minha mente, era como se por um segundo, aqueles olhos tivessem invadido todo o meu passado, cada passo, cada história, cada erro, me julgando e condenando quando fosse necessário.

Me perdi dentro de mim, e então, com cinco minutos de pura insanidade, passei a procurar aqueles olhos novamente. Era mais forte que eu. Minha mente delirava, imaginando o que eu poderia fazer quando enfim chegasse ao meu objetivo. O toque da pele, seus lábios roçando nos meus, o arrepio. Meu corpo queimava ao imaginar aqueles olhos me encarando de perto, me deixando sem ar. Mais do que a intimidade, minha mente ansiava por descobrir todos os segredos daquele olhar.

Não me incomodava mais o cheiro da rua, os gritos aleatórios em meu ouvido, os abraços indesejados. Eu apenas abria espaço entre aquele mar de gente, para seguir aquele olhar, que ora me ignorava e ora invadia minh’alma e perturbava meu juízo novamente, brincando comigo como um felino com a sua presa.

Foi quando aqueles olhos se foram. Como uma criança perdida em um shopping, ainda perambulei pelas ruas e até me arrisquei em alguns becos, porém, nada encontrei. Senti como se houvesse um buraco em meu peito, um vazio que fazia doer o estômago. Podia ser a bebida que já estivesse fazendo efeito, mas também podia ser dor de amor, principalmente um amor que nem mesmo houve chance de talvez ser correspondido.

Então, novamente em um dia cinza e uma leve garoa daquelas fininhas que deixam a gente doente, quatro anos depois, em um carnaval, enquanto eu tentava desviar das ruas cheias com meu carro, aqueles olhos passaram na minha frente. Tive que frear bruscamente para lhe observar com cautela. Eram olhos assustados, claros e que me reconheceram no segundo seguinte. Segui seu caminho com meus olhos e estacionei na esquina seguinte. O jogo havia começado novamente e aquele olhar não havia ido longe. Com a rua um pouco mais vazia, pude sentir seu perfume forte, que me inebriava, fazendo-me me perder em delírio. Acendi um cigarro. Se aqueles olhos iam brincar com meu coração novamente, eu precisava me preparar, afinal desta vez eu não estava sob efeito de álcool.

Seus passos furtivos eram rápidos, e agora eu compreendia porque havia perdido seu rastro aquele dia. Mesmo depois de tanto tempo, ainda eram os mesmos olhos, o mesmo olhar inquisidor capaz de julgar todos os meus pecados. Passei novamente a deseja-los para mim. Ora pareciam estar ao alcance de um passo e ora se afastavam me observando de longe. Eu precisava daquele olhar todos os dias. Eu queria aqueles olhos direcionados para mim e somente a mim.

Finalmente, por um momento eu alcancei. Lhe toquei o braço enquanto atravessava a rua, procurando multidões para se esconder. Olhos verdes, travessos e levemente assustados. Olhos que tão de perto possuíam a minha alma sem qualquer esforço. Olhos que piscavam lentamente, fazendo meus batimentos entrarem num descompasso preocupante. Pude observar melhor seu rosto. Lábios delicados e perfeitamente desenhados como uma pintura. Lábios que se mexeram para dizer alguma coisa, porém minha mente estava completamente enfeitiçada por aqueles olhos que não me permitiram ouvir, até que eu senti a pancada.

Um atropelamento, nada demais. Uma perna quebrada? É talvez tenha algo a mais. Me lembro da gritaria, da multidão que se formou e de mim perdendo aqueles olhos na escuridão, enquanto eu desmaiava.

Hoje, durante a noite, enquanto caminhava pelo lugar onde vi aquele olhar pela última vez, pensei ter visto novamente, mas não passou de impressão. Quem sabe daqui a três anos, em um novo carnaval eu possa lhe encontrar novamente e sanar esse vazio que se formou em minha alma e em minha mente. Quem sabe eu possa descobrir enfim os segredos daquele demônio dos olhos verdes.

Aleks Durden e juhliana_lopes 07-02-2017

Quem é o assassino? #9

tumblr_m6bcplGzI51rs0z9do1_500Todos se surpreenderam com os convites. Além de fornecedores e clientes, todos os funcionários foram convidados para a festa, que de um simples coquetel, estava aos poucos se transformando em um grande evento. Muitos ficaram abismados com o fato da festa estar marcada para cinco dias depois da morte de Manoela. Em todo caso, não houve questionamentos, pois, Adam estava cada vez mais recluso em sua sala tentando resolver os problemas.

Liam ficou animado, era uma oportunidade ótima para dar fim em Adam e assim fazer com que Boris assumisse o seu lugar. Depois disso, era só dar um jeito no velho e tudo seria seu. Tudo já estava arquitetado em sua mente, e só precisava de alguns materiais para que tudo ficasse pronto no dia da grande festa. Enquanto andava pelos corredores distraído com seus pensamentos, trombou com Isaque.

– Não olha por onde anda? – Disse Liam irritado.

– Desculpe, estou com pressa. – Respondeu Isaque com pressa, continuando seu caminho com mais convites nas mãos para enviar.

Liam balançou a cabeça e seguiu para sua sala, mas antes parou no bebedouro para beber um pouco de água. Quando se virou para ir embora, foi surpreendido com Anne atrás dele.

– Credo Anne, que susto. – Disse Liam levemente alterado. – Faz algum barulho da próxima vez.

Ela não respondeu. Apenas o olhava com um olhar vazio sem expressão. Ele deu um passo para o lado e ela se debruçou para também beber água. Ainda sem dizer nenhuma palavra, ela lhe encarou mais uma vez e foi embora para o refeitório.

Liam sabia que Boris havia feito alguma coisa a ela e esperava no fundo de seu coração que ele tivesse seguido o seu conselho e não feito qualquer coisa estúpida. De qualquer forma só precisava esperar o dia da festa chegar e tudo acabaria bem. Enquanto digitava alguns documentos, um funcionário bateu em sua porta.

– Liam?

– Sim, o que foi? – Ele respondeu levantando a cabeça.

– Uma encomenda para você. O porteiro recebeu e pediu para te entregar. – Disse o rapaz estendendo o pacote.

– Ah sim, esqueci de avisar que estava esperando. Muito obrigado. – Respondeu Liam educadamente, pegando o pacote de sua mão.

O rapaz foi embora e Liam com cuidado, abriu o pacote e ficou admirando sua encomenda, cauteloso para que ninguém o observasse.

– Agora sim, vai ser tudo perfeito! – Ele disse para si mesmo confiante.

No refeitório, Anne engolia qualquer coisa para voltar logo a sua sala. Tinha muito trabalho a fazer e não queria perder tempo. Quando Boris passou para também almoçar, percebeu que ele piscou para ela. Qualquer um diria que sua cabeça estaria a mil com toda aquela situação, porém ela se manteve tranquila. Ignorou a ousadia e continuou sua refeição. Não tinha porque se distrair, pois já sabia o que fazer. Sempre soube.

Quando voltou para sua sala, Isaque passou apressado lhe entregando um convite para a tal festa da empresa. Não estava com nenhum ânimo para vir, mas não poderia bancar a antipática. Alguns minutos de festa não lhe fariam mal e um sumiço súbito também não teria problema.

Boris almoçou rápido também e chamou por Liam. Queria saber a opinião dele sobre a festa e contar suas conclusões com Anne. Liam entrou na sala, sentou-se e desejou profundamente acertar um soco no velho, enquanto ele lhe contava a sua “triunfante” aproximação com Anne.

– Você não acha que se arriscou muito? – Perguntou Liam, suspirando tentando manter o tom de voz o mais calmo possível. Ele suava por baixo da camisa com uma raiva indescritível.

– Acho que não. Ela ficou em choque, estava completamente vulnerável. Eu poderia ter feito qualquer coisa com ela ali, mas o importante é que ela entendeu o recado. – Disse Boris radiante.

– Eu não sei…. – Começou Liam, pensando em dizer sobre a abordagem dela no bebedouro, porém, dizer aquilo poderia expor a si mesmo e ele não tinha intenção de se sujar com isso. – Espero que você esteja certo. – Ele disse por fim com um tom pesado.

– Claro que eu estou, seu bobo. Agora me diga, Adam comentou alguma coisa sobre a festa? – Perguntou Boris curioso. Seus olhos por um momento ficaram grandes e brilhantes. Algo lhe dizia que aquela festa iria mudar muitas coisas e ele queria juntar todas as informações possíveis para estar preparado.

– Não. Na verdade, ele mal sai da sala. Só vejo Isaque entrando e saindo com os convites e aquele cara que as vezes vêm visita-lo. – Respondeu Liam, sincero.

– Entendo. O cara é o sócio dele da outra empresa. Ele vem para cá as vezes, depois daquele dia que Adam se ausentou. É mais fácil para eles cuidarem dos negócios deles aqui do que ele sair daqui e ir para lá. Espero que ele não seja mais uma ameaça.

– Só resta esperar…. – Disse Liam pensativo. Ainda estava tentando digerir o fiasco sobre a aproximação de Boris com Anne e o que aquilo poderia custar para ele. Depois de uma pausa silenciosa, Boris falou enquanto foi para trás da cadeira de Liam e começou a massagear os ombros dele.

– Em todo caso, quero você bem bonito nesta festa. Será um momento para relaxar depois dos últimos acontecimentos e eu tenho planos para nós dois, depois da festa.

Liam engoliu seco e fingiu relaxar. Se levantou dando um sorriso sem graça e pediu licença pois, estava muito atarefado. Boris o deixou ir e continuou pensando em formas de impedir que Adam pudesse derrubá-lo.

Enquanto isso, na sala de Adam, Isaque pegava os últimos convites. Felipe, estava sentado em uma cadeira um pouco afastado da mesa de Adam com o seu notebook.

– Certifique-se que todos estejam com os convites, por favor. – Disse Adam enquanto digitava qualquer coisa no computador.

– Claro senhor, mas antes posso lhe falar algo rápido? – Disse Isaque trancando a porta.

– O que foi? – Disse Adam levantando a cabeça para lhe olhar nos olhos.

– Hoje, mais cedo eu trombei com o Liam “sem querer”, e “sem querer” também a sua carteira veio parar na minha mão….

– Isaque, o que nós havíamos conversado sobre isso? – Interrompeu Adam.

– Calma, foi por uma boa causa. Olhando rapidamente, vi esse cartão de uma loja que fica próximo a periferia da cidade, com artigos bem interessantes. E enquanto eu entregava alguns convites para o pessoal da cozinha, vi quando uma encomenda chegou para ele. Não sei se podemos associar esse cartão com a encomenda, mas acredito que é algo que deva ser considerado em seus cálculos. – Explicou Isaque. – Agora vou terminar de entregar os convites e devolver a carteira.

– Muito obrigado Isaque. – Respondeu Adam sério.

Felipe levantou os olhos para encarar Adam e falou:

– Algo com que eu deva me preocupar?

– Não, ainda não. – Disse Adam voltando para o seu computador e guardando o cartão na gaveta.

– É saudável ter um batedor de carteira na empresa? – Perguntou Felipe, desta vez também olhando em seu computador.

– É interessante. Aprendi a não andar mais com ela no bolso. – Respondeu Adam meio desinteressado.

Liam estava saindo da sala de Boris quando trombou com Isaque novamente.

– Qual é o seu problema? – Disse Liam visivelmente irritado.

– Desculpe-me mais uma vez. – Disse Isaque – Não foi minha intenção. Com licença.

– Sujeito idiota. – Liam resmungou enquanto entrava em sua sala. – Vou acabar dando um jeito nele também.

Os dias passaram e enfim chegou o coquetel. Naquele dia, ninguém trabalhou e como era uma festa formal, muitos exibiram trajes de gala.

– Você não vai colocar uma gravata? – Perguntou Felipe para Adam.

– Você sabe que eu não gosto dessas coisas, e eu já estou com uma camisa social e o Blazer, já basta. – Respondeu Adam terminando de arrumar o cabelo.

– Onde está Isaque? – Perguntou Felipe.

– Deve estar ajudando a organizar o pessoal do buffet e coordenando o pessoal que contratamos para recepcionar os convidados. – Disse Adam enquanto se preparava para sair da sala. – E aquela moça com quem você estava saindo? Ela vem?

– Eu espero que sim, apesar que vou precisar deixar ela esperando sozinha por um tempo no final. – Respondeu Felipe um pouco frio.

– Verdade. De qualquer forma, nada pode sair errado esta noite. Ok? – Disse por fim Adam.

– Fique tranquilo. – Respondeu Felipe saindo da sala junto com Adam. – Já está tudo pronto.

Adam estava com um blazer chumbo, e uma calça escura. Felipe, usava um terno grafite com uma gravata preta. Ambos usavam camisas brancas. Seguiram para o refeitório que foi transformado em uma espécie de salão principal.

Boris estava com um terno escuro e uma gravata azul marinho. Nada fora do seu habitual. Usava uma camisa levemente azulada e sapatos sociais que tinham um leve salto. Ao seu lado, estava Liam, com um terno cinza com corte italiano, que lhe caía perfeitamente bem. Sua gravata, também cinza com pequenas listras brancas, ajudava a compor o seu visual misterioso que fazia muitas moças perderem a cabeça. Quando viu Adam chegando, saiu do lado de Boris e foi dar uma volta para interagir com os outros convidados.

Adam apresentava um semblante tranquilo que há muito tempo não mostrava. Sua expressão era além da calma de uma pessoa em paz com suas ações. Falou com alguns convidados e cumprimentou Boris com um abraço que estranhou o gesto do rapaz. Felipe que andava ao seu lado, era a cara do desinteresse. Era aquela clara pessoa que estava ali apenas para beber e comer e mal trocava um “Boa noite” sem antes beliscar alguma coisa.

Anne estava em um canto, bebendo vinho. Usava um coque levemente bagunçado, e um vestido preto na altura dos joelhos com um decote que marcava bem o seu corpo. Além disso, ele também tinha um corte nas costas que a deixava elegante e levemente sensual, atraindo também olhares dos quais ela não estava tão à vontade uma vez que naquela noite, preferia a discrição. Ela poderia ter vindo com um vestido mais simples, é verdade, assim não chamaria atenção, mas ela queria que as pessoas soubessem que esteve na festa, para não ter problemas depois que fosse embora.

Quando todos os convidados chegaram, as luzes baixaram, dando foco para um palco montado em um dos cantos, onde Adam começou um leve discurso com um microfone.

– Essa empresa significa muito para mim. Meu tio a construiu junto com o seu melhor amigo Boris, e juntos eles ergueram esse império que temos hoje. Talvez eu esteja exagerando um pouco é verdade, mas foi através desta empresa que eu conseguir crescer com um exemplo a seguir. Hoje, depois de assumir o lugar do meu tio, tive a honra de poder trabalhar ao lado deste grande homem que muitas vezes se mostra uma maravilhosa mente pensante por trás de todo o sucesso que temos. Este coquetel, serve mais que para me apresentar e tornar todo mundo mais próximo depois de tantos problemas e pesares que tivemos. Essa festa é principalmente para homenagear esse grande homem aqui presente no dia de hoje! Boris! – Terminou Adam erguendo a taça em direção a Boris, seguido por aplausos.

Boris ficou visivelmente desconcertado pois, não esperava por aquilo. Será que havia se enganado? Será que se deixou levar pelo seu desejo e não percebeu a idolatria do sobrinho do amigo? Seria apenas fingimento? Tudo ficou muito confuso de repente. Com o suor visível em sua testa e a respiração acelerada, ele subiu ao palco e com poucas palavras agradeceu a Adam, e pediu para que todos aproveitassem a festa. Depois, pediu um momento a sós com o rapaz para tentar esclarecer algumas coisas.

Seguiram então para um corredor mais afastado, para conversarem longe do barulho. Liam, também espantado com a atitude de Adam os seguiu um tempo depois com as mãos no bolso. Não poderia arriscar que nada desse errado e muito menos que uma redenção acontecesse. Ele tinha certeza que aquele era um jogo de Adam, e não ia permitir que Boris caísse nele. Anne, que mal prestara atenção nas palavras de Adam, percebeu quando Liam seguiu os dois, e resolveu segui-lo também, afinal, era um ótimo momento para sumir e sair daquele lugar chato. O salto começava a incomodar e ela já não tinha mais humor para aguentar a festa. Felipe, também seguiu um tempo depois para o mesmo corredor. Era preciso colocar o combinado em ação.

As pessoas da festa se divertiam com bebidas e petiscos deliciosos. Logo uma música alta começou permitindo então que eles se soltassem e dessem liberdade ao álcool no sangue e muitos começaram a dançar. Apenas alguns ouviram três disparos, mas ninguém deu a devida atenção, julgando ser fogos de artifício ou algum som da própria música.

juhliana_lopes 19-07-2016

Quem é o assassino? #8

e5e564fd7ed2af0c4321af3ad99fdd7a

Liam precisava pensar rápido, mas ao mesmo tempo precisava agir com cautela. Cada vez mais que tentava fazer com que Boris parecesse ter razão naquela história toda, se distanciava do que realmente queria. Enquanto isso, Adam permanecia na cadeira principal, sem qualquer problema. A morte de Manoela foi o suficiente para que a polícia começasse a fazer perguntas demais, e a ausência de Adam naquele dia foi o suficiente para que eles ficassem por lá tempo demais. Além disso, ainda precisava se preocupar com Isaque que poderia denunciar Boris após a sua tentativa de assassinato. E o envolvimento dele com Anne, com uma carona aparentemente informal em um horário estranho, era extremamente peculiar…. “Só pode ser isso! ”, pensou consigo.

Boris espumava de raiva. Além de Isaque não ter morrido e levado sua arma, ainda tinha a polícia investigando a morte da moça para completar. Ele estava irritado, e completamente ansioso para que eles fossem embora. Adam havia se ausentado. Ele achava que tinha esse direito. Ele, o velho que deveria estar com a empresa toda para si, tinha que assumir os problemas, enquanto o garotão tirava um dia de folga. Respondeu a todas as perguntas dos policiais da forma mais mal-humorada que podia e esperou pacientemente que eles fossem embora depois que fazer a perícia e interrogar mais alguns funcionários.

– Com licença. Boris, posso conversar com você um minuto? – Disse Liam batendo na porta com um tom de voz tímido e submisso.

– Não é uma boa hora. – Boris respondeu seco, virando-se para a janela com as mãos para trás.

– É que tem uma coisa que você precisa saber…. – Insistiu Liam.

– Fale logo.

– Acredito que Isaque tenha ficado abalado com a sua investida. Ele procurou Anne, e eles vieram para o trabalho juntos essa manhã.

– E o que eu tenho com isso? Se ele tiver contado para ela, não vai ter como provar…. Não havia câmeras. Posso dizer que a arma é dele e ele que me ameaçou. Ela não viu, não pode testemunhar a favor dele, e mesmo que ela faça isso, você pode testemunhar a meu favor…. – Respondeu Boris de uma vez. Liam ficou levemente surpreso com todo o raciocínio de escape do velho. Julgava que ele fosse um pouco mais burro. Em todo caso, resolveu ir além.

– Não Boris, você não entendeu. Anne é perigosa. Logo depois que Clara foi encontrada enforcada, eu desconfiei de algumas atitudes dela. Resolvi investigar por conta, pois Clara era muito minha amiga e aquela história de que ela havia se matado por amor, ficou muito mal contada. Descobri isso no armário de Anne…. – Disse Liam colocando sobre a mesa uma garrafa pequena de vidro, com um líquido transparente dentro.

Boris olhou com cara de paisagem. Estava nítido que ele ainda não havia comprado aquela história.

– Isso Boris – Explicou Liam – É usado para dopar as pessoas. Um pouco disso num pano faz a pessoa dormir. Eu acho que Anne matou Clara. E também acho que ela tenha matado a Meg, a primeira funcionária, afinal elas viviam juntas.

– Liam…. – Disse Boris pensativo – Onde, exatamente você quer chegar?

– Como pode ser tão ingênuo meu amor? – Disse Liam, com um leve refluxo no estômago ao dizer aquelas palavras – Você ameaçou Isaque de frente, e ele com medo, deve ter contado para Anne o que aconteceu e deve ter pedido ajuda a ela. Você corre perigo! – Liam disse em tom de suplica pegando as mãos de Boris. – Ela vai matar você!

– Liam…. – Disse Boris acariciando o rosto do rapaz – Fico extremamente tocado com sua preocupação comigo. Mas, acho que está indo um pouco longe demais com seus pensamentos. Deve ter alguma outra explicação para esse líquido no armário dela. – Ele disse tentando tranquilizar Liam.

Boris então, deu uma volta pela sala, certificando-se que a porta estava fechada.

– Em todo caso…. – Ele continuou – Se os dois apareceram juntos, logo depois da minha ameaça, e se suas suspeitas estiverem certas, acredito que eu precise me ter um pouco mais de cautela mesmo.

– Com certeza! – Disse Liam, levemente animado com seu plano. – Eu não posso falar nada. Tenho medo de que ela tenha visto que eu a vi com Isaque. Mas você pode tirar suas próprias conclusões. Pergunte sobre Meg, de forma desinteressada, e veja sua reação. Ela não vai desconfiar de você, por que qualquer coisa você só está tentando puxar assunto para diminuir o clima ruim da empresa e ter mais amizade com os funcionários antigos…. – Disse Liam torcendo para que Boris mordesse a isca.

– Irei tentar. Agora saia, é melhor para você. – Disse Boris sem paciência.

Liam saiu sem dizer mais nada, com um sorriso triunfante. Arriscou muito com seus detalhes, mas era preciso colocar mais gente na mira de Boris. Foi surpreendido por Adam virando o corredor com outro rapaz.

– Ah, olá Liam. – Disse Adam, enquanto andava com pressa.

Liam não respondeu, apenas acenou com a cabeça. O rapaz que estava atrás dele, mal o olhou e seguiu Adam com pressa até a sua sala. Enquanto estava no bebedouro, logo viu Isaque seguir para a sala dele também acompanhado dos policiais.

Boris ficou digerindo as informações de Liam. Será mesmo que corria perigo? Em todo caso precisava arriscar um pouco para ter mais informações. Não seguiu o conselho de Liam e resolveu intimidá-la, acreditando ser uma forma melhor afinal, ela era só uma mulher e qualquer coisa poderia demiti-la facilmente. Após dar uma volta pela empresa, percebeu que ela não estava nas salas e nem no refeitório. Resolveu procura-la no vestiário e viu que havia alguém tomando banho. Se escondeu em um dos privados e esperou.

Anne, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Esqueceu de deixar sua roupa mais próximo, mas não havia problema. Saiu descalça, pisando com cuidado no chão liso. Ao ouvir seu nome, parou subitamente perto dos armários.

“Anne”, uma voz masculina chamou novamente. Ela não respondeu e também não se virou. Ouviu então uma porta abrir atrás dela.

– Como está a Meg? – Boris disse com um tom ameaçador, indo na direção dela.

– Morta. Não lembra senhor? – Respondeu Anne friamente reconhecendo a voz do seu patrão.

– Claro que está não é mesmo? – Disse Boris, sussurrando agora próximo do seu pescoço.

– O que o senhor está fazendo no vestiário feminino? – Perguntou Anne com a mesma frieza de antes.

– Eu só vim ver se estava tudo bem. Com tantas mortes acontecendo, eu iria odiar que mais uma acontecesse…. Assim, por acaso… – Boris agora falava próximo do ouvido de Anne, acariciando os braços dela.

– Não vai acontecer nada comigo senhor. – Respondeu Anne. – Pode ficar tranquilo.

– Assim espero. – O velho respondeu agora segurando a cintura de Anne. – Não importa o que o Isaque tenha lhe falado, ou…. Lhe pedido. Ninguém mais vai morrer aqui, certo?

– Senhor, poderia por favor tirar as mãos de mim? – Pediu Anne virando o rosto levemente para o lado.

– Claro…. Talvez você prefira um toque diferente…. – Disse Boris levando as mãos até o seu quadril, apertando levemente as suas coxas enquanto respirava forte em seu pescoço.

Anne então se virou para lhe dar um tapa na cara, mas ele segurou uma de suas mãos, a fazendo inclinar para trás. Anne tentou manter o equilíbrio e com a outra mão segurou sua toalha. Boris então lhe deu um soco no estomago, fazendo a moça cair e saiu devagar.

– Nada aconteceu aqui Anne. Assim como nada vai acontecer, por que toda ação tem uma reação, e você não vai querer ver o que vai te acontecer caso queira inventar alguma coisa. – Disse Boris antes de sair e ir para sua sala.

Anne se levantou devagar e se vestiu. O soco não havia doído, porém seu pensamento estava a mil. Boris havia enlouquecido? O que havia dado naquele veado velho para lhe ameaçar daquela forma? E porque havia citado Meg depois de tanto tempo? Saiu do vestiário e foi para sua sala, porém ao passar pelo corredor, percebeu que Liam estava seguindo Isaque, logo depois dele deixar a sala de Adam. Seu olhar escureceu e soube o motivo para aquilo tudo, e soube também que não poderia deixar barato.

Adam estava preocupado. Primeiro os policiais, e depois a história que Isaque lhe contou. Não sabia até que ponto aquilo poderia ser verdade, mas em todo caso era um sinal de que tudo aquilo estava indo longe demais. Depois que os policiais foram embora, Felipe tentou puxar assunto.

– Sua empresa é legal até. Prédio bonito.

– Você acha? Pena que todo mundo que entra aqui morre. – Disse Adam desinteressado.

– Você parece arrependido. – Argumentou Felipe.

– E não era para estar? De um lado pessoas morrendo e você correndo o risco de responder por isso. Do outro um velho nojento que quer roubar seu lugar na empresa, e pelo visto a todo custo. A minha vontade é dar essa merda para ele e voltar para nossa vida de antes. – Disse Adam frustrado.

– Qual é Adam? Você lucrou aqui em alguns meses mais que o triplo que toda a nossa renda até agora. Tudo bem que as coisas andam pesadas aqui, mas ainda vale a pena. – Encorajou Felipe.

– Você tem razão. – Respondeu Adam. – Mas o que eu posso fazer com Boris? – Ele disse mais para si mesmo do que como uma pergunta de verdade.

– Não há uma forma de denunciá-lo por fraude? Deve ter um jeito e….

– Senhor, mandou me chamar? – Disse Isaque interrompendo Felipe ao entrar na sala.

– Sim. Preciso que você pegue a nossa lista de fornecedores e clientes. Preciso dos endereços de todos eles para que eu possa mandar os convites. – Respondeu Adam.

– Convites? – Perguntaram Isaque e Felipe juntos.

– Sim. Vou fazer um coquetel para todos. Eu estava planejando isso antes da morte da moça, então não vou deixar de fazer. Em todo caso, agora tenho um motivo mais forte para fazer. – Explicou Adam.

– Como assim Adam? – Perguntou Felipe.

– Vou achar uma forma de manchar a imagem de Boris e tirar ele daqui, e claro, achar uma forma de denunciá-lo, porém, antes disso vou manipular algumas coisas para que ele ache que tudo não passa de paranoia da cabeça dele, dessa forma ele não vai desconfiar de nada. O coquetel será em homenagem a ele, pelos longos anos de serviço por ele dedicados a empresa…. – Respondeu Adam com um sorriso de canto.

– Acho que sei o que pretende…. – Disse Isaque. – Vou preparar tudo agora mesmo. – Ele disse saindo da sala.

– Eu ainda estou boiando, mas tudo bem. – Disse Felipe dando os ombros.

– Você vai entender amigo. Vai entender e eu vou precisar da sua ajuda…. – Respondeu Adam com tom sombrio.

– Eu já vi esta expressão antes Adam…. – Disse Felipe preocupado e ao mesmo tempo interessado. – O que pretende, realmente?

– Ouça bem amigo, pois só vou explicar uma vez. – Respondeu Adam com frieza.

juhliana_lopes 19-07-2016

Depoimento

– Podemos começar novamente?

– Sim senhor.

– Só quero que entenda que este é um procedimento padrão…

– Sim senhor.

– Vamos começar, ok?

– Sim senhor.

– Então me diga, o que exatamente, aconteceu aquela noite.

– Não foi nada demais na verdade. Era uma festa, alguns estavam bêbados, mas eu e meus amigos só estávamos rindo e nos divertindo. Já devia ser mais de duas horas da madrugada e os bêbados começaram a encher o saco. Sabe como é, alguns choram, outros ligam pras exs, outros começam a tirar as roupas… Essas coisas. Não tínhamos muito o que fazer senão apreciar o show, então ele chegou. Eu pensei que ele nem viria mais, ainda mais pelo horário. Chegou cheio de marra e provocando todo mundo e então começou a pegar pesado comigo.

– E o que ele fez a você?

– Bem, primeiro começou as com as provocações verbais. Me chamando de idiota, medíocre e humilhando a minha amiga, chamando-a de vadia e perguntando quanto ela cobrava por noite. Depois jogou um copo de bebida em um amigo meu, mas não foi daquele jeito de derrabar o líquido sobre a pessoa, ele jogou o copo de longe e acertou o rosto dele. Claro que nem eu e nem outros caras presentes na festa gostaram a atitude e então um grupo se juntou para pedir educadamente que ele se retirasse da festa. Ele se virou e tudo indicava que a paz iria voltar, até que ele voltou correndo, pegou minha amiga pelos cabelos e começou a esfregar dinheiro no rosto dela falando que queria serviço completo aquela noite.

– Ele estava bêbado?

– Não sei. Não parecia. Acredito que não, quem o conhece a tanto tempo como eu, sabe que ele consegue ser ruim naturalmente.

Broken-Bottle-4e42c63910017_hires

– Quando ele agarrou a sua amiga…

– Eu agi. Francamente senhor, já que estamos aqui e esta é a terceira vez que eu conto a mesma coisa, vou ser bem sincero. De uma forma ou de outra eu queria que acontecesse. Sério. Juro que desejei algo desagradável assim só para eu ter um motivo. Eu não queria machucar ninguém, é verdade, pelo menos não comigo tomando a iniciativa, mas no caso dele… Ele já havia feito muito, humilhado muitas pessoas, precisava de uma lição. Eu tinha dado o recado. Quando eu vi ele com a minha amiga, eu simplesmente empurrei os dois ao chão. Ela levantou logo e correu e ele ao se levantar veio em minha direção. Tentou me acertar um soco só que logo outros caras seguraram ele e levaram em direção a porta, eu peguei uma garrafa, quebrei no chão, e antes que outros pudessem me impedir, gravei a parte com o caco mais pontiagudo no braço. Não havia nenhum médico no local ou alguém que estudasse enfermagem então, tiraram a garrafa do braço dele de modo que aumentou mais a ferida. Agora era a mim que seguravam e ele chorava ao ver o sangue escorrendo.

– Você considera que agiu por instinto de defesa?

– Não. Seria se eu não tivesse pensado nisso antes, mas eu pensei. Como eu disse, desejei uma situação assim só para poder agir. Confiei na fraqueza dele em não cumprir o “não vou fazer de novo” e consegui. Ganhei. Não agi por instinto. Sabia exatamente o que eu estava fazendo, e mais uma vez sendo bem sincero, eu já tinha planejado pelo menos três formas diferentes de agredi-lo sem matá-lo. Sim, eu não queria matar, só machucar. Desculpe a minha frieza, mas se ele não tivesse agredido a minha amiga, eu seria capaz de entrar em alguma provocação dele só para empurrá-lo da escada. Esse era um dos planos. O outro era aproveitar quando ele tivesse brigando com alguém, dar uma chave de braço e quebrar uma garrafa na cabeça dele de modo que abri-se um corte considerável. Não foi instinto, eu queria e eu fiz. Mas ainda fiz por defesa, no caso da minha amiga.

– Você sabe que pode ser preso por tentativa de homicídio?

– Sei. Já sabia na verdade e mesmo sabendo eu continuei querendo. É difícil de explicar senhor, no fim pode ser que me considere um louco, mas no fim das contas sou apenas um psicopata mesmo, um psicopata são.

– Bem, você disse que não queria matá-lo, só machucá-lo, mesmo sabendo das consequências… Sabendo que você poderia enfrentar uma cadeia de qualquer forma, por que não matar?

– Respeito.

– Respeito?

– Sim. Respeito. Aos familiares dele, lógico. Conheço os pais dele e algumas tias. Na festa havia duas primas e um sobrinho. Apesar da família conhecer o gênio ruim dele, não ia querer vê-lo morto, e eu não ia querer comprar uma briga tão grande com a família dele, pois no fim, ele se tornaria uma vítima mártir. Eu só queria fazê-lo sentir um pouco da dor que ele faz as outras pessoas sentirem.

– E fez.

– Sim, porque eu quis.

– Bem garoto, me dê um minuto sim, vou analisar os papéis do escrivão e já volto para conversarmos. Pode tomar um café, se quiser ligar para seu advogado ou algum parente você tem alguns minutos.

– Obrigado. Ah… Oi, por favor o Henrique está? Obrigado… Ah, oi, então, eu fiz… Não, não morreu, eu disse que não ia matar. É… Sim… Olha, você pode vir até a delegacia, eu to com fome, acho que vai demorar, aproveita e chama o Joaquim, ele ainda é advogado não é? Sim. Já disse… Olha, vem logo, antes que eu mate o delegado se ele me pedir uma quarta versão…

– Licença?

– Ah, sim, oi delegado. Já terminei.

 

juhliana_lopes 04-11-2013