Família #2

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Diego estava exausto. Mal chegara em casa e ainda teve que ouvir meia hora de discurso do seu pai sobre negócios. De qualquer forma agora estava formado, em breve ganharia seu carro e iria trabalhar no grande escritório de seu pai. Tudo de acordo com o que a família dele já havia planejado. Ele se incomodava com aquilo, mas era muito mais cômodo aproveitar as mordomias do que lutar por um espaço. “Se você não mudar os seus problemas, faça deles sua nova casa”, ela o que ele dizia para si mesmo quando se sentia chateado. Por muito tempo aquilo tinha sido sua rota de fuga, porém quando ouviu seu pai falar uma certa palavra mágica o menino virou o bicho.

– Casamento pai? – Perguntou Diego com a voz alterada.

– Claro. – Respondeu seu pai em um tom seco. – Ou você achou que ia só trabalhar de boa a vida inteira e gastar seu dinheiro com vídeo game? Vai casar sim, construir uma família. É isso que os homens fazem.

– Não pai. Não vou me casar. – Diego disse pensativo. – Você quer que eu trabalhe, que eu vire o homem dos negócios, tudo bem. Mas eu não vou me casar só porque você quer. – Ele disse, talvez enfrentando o pai pela primeira vez.

– Meu filho…. – Respondeu o Pai de Diego sentando-se ao seu lado colocando a mão no seu ombro. – É claro que você não vai se casar porque eu quero. Isso seria realmente um absurdo. – Sua voz era mansa, mas causava arrepios. – Você vai se casar porque você quer. Afinal, não se casar significa que você vai se virar sozinho no mundo. Sem emprego garantido, sem carrinho, sem casinha, sem nada. Vai se virar sozinho, sem qualquer ajuda do seu pai. Você vai se casar por que você não quer perder sua vida de luxo, você não quer perder seus brinquedinhos e porque se você se casar com uma menina jovem, você ainda vai ter o benefício de ter sexo todos os dias! Pensa bem. Não estou te pedindo um neto, lógico que não. Só estou te comunicando que você quer se casar e por isso eu, como seu pai, vou preparar tudo para você.

Diego subiu para o quarto sem falar nada. Se trancou e se abraçou a uma almoçada de ursinho que tinha desde quando era criança. Gostava dela pois se mantinha macia apesar do tempo. A abraçava quando as coisas estavam difíceis. Quando se sentia sozinho. Já fez algumas “homenagens” usando a almofada também. Naquela noite, antes de dormir, fez uma para uma menina loira do olho claro do colégio que provavelmente nunca mais a veria. Ficou com ela uma vez, quando a arrastou para o banheiro, escondido da inspetora. No começo ela não queria, lógico, mas depois de a segurar firme e mostrar a sua capacidade, ela foi ficando mais calma. Queria repetir a dose, pena que arriscou tarde demais.

No dia seguinte, durante o café da manhã, seu pai lhe disse satisfeito:

– Hoje compraremos seu primeiro carro meu filho. Logo em seguida teremos uma reunião com um rapaz importante, então não precisa falar nada. Eu mesmo falo por você.

Na loja de carros, haviam muitos modelos bonitos. Diego resolveu meter o pé no balde e escolheu um Mustang Shelby GT350, que lá fora passava dos 40.000 dólares. Seu pai acertou o pagamento e a entrega para o dia seguinte. Em seguida, foram para um restaurante antigo da cidade, onde se encontraram com um rapaz elegante. Diego não tinha certeza, mas talvez já tinha visto aquele rapaz em outro lugar.

– Senhor Müller. – Disse o rapaz estendendo a mão para seu pai.

– Paiva, vamos tirar o Senhor, tudo bem? – Respondeu o Pai de Diego, cumprimentando o rapaz.

Sentaram-se e então, Müller começou.

– Bem Paiva, como sabe, aquele acordo empresarial que você me apresentou está prestes a ser aceito pela comissão da nossa empresa. Além de muito vantajoso, é a oportunidade de juntar nossas áreas comerciais para aumentar ainda mais o nosso polo na cidade.

– Exatamente, fico muito feliz que a proposta está prestes a ser aprovada, porém para você ter trazido seu filho aqui, acredito que o assunto não ficara restrito somente ao profissional. – Respondeu Paiva.

– Exatamente Paiva. Estive pensando e porque não ajudar as nossas famílias a acabar com essa briga de anos de uma vez? Afinal se vamos trabalhar juntos, porque não juntar nossas famílias? Afinal, até onde eu sei sua filha também acabou de se formar na escola. – Respondeu Müller dando uma piscada.

– Sim, se formou, mas você acredita mesmo que isto dará certo? Afinal, não serão os primeiros…. – Disse Paiva.

– Claro que não serão os primeiros, mas enquanto os outros brigaram com as famílias e tiveram que fugir para tentarem a vida, nós estaremos supervisionando tudo.

– Supervisionando? – Disse Paiva.

– Sim, quero dizer, estaremos do lado deles. Eles podem não se conhecer agora, mas estudaram na mesma escola por anos, e sabe como é essa galera jovem. Basta um olhar que a faísca se acende. Eles namoram, se conhecem por um tempo e logo estarão completamente apaixonados. Diego é um ótimo rapaz, respeitador, casto, criado dentro das leis. Irá respeitar a Aline com todas as honras.

– Alice. – Interrompeu Paiva, com semblante sério.

– Sim, claro, Alice. – Se retratou Müller. – Me perdoe, são tantas coisas na empresa que eu acabo confundindo nomes.

– Eu compreendo. – Respondeu Paiva, ainda sério.

– Como eu ia dizendo, fica a minha sugestão. E caso aceite, fiquei honrado em receber sua família em minha casa para um jantar de compromisso.

Paiva não disse mais nada. Se despediu e retornou ao seu trabalho. Müller, com o filho, foi para casa.

– Bem, ele vai pensar e vai ver que este é o melhor negócio. Caso contrário, precisarei apelar um pouco mais. E você vai gostar da menina, ela é bem bonitinha. – Disse Müller enquanto dirigia.

– Ok, tanto faz. – Respondeu Diego desinteressado.

– Devia melhorar essa cara. Vocês terão empregados para fazer tudo para vocês e como você vai trabalhar o dia inteiro, nem vai precisar ficar aturando ela. Ainda vai poder dar umas escapadas e ela nem vai reclamar. – Müller disse, cutucando o filho com o cotovelo, encorajando-o.

– É, pode ser. – Diego respondeu dando um sorriso de canto que logo sumiu dando lugar a sua cara de paisagem.

Mais tarde, Paiva chegou em casa como se carregasse o mundo nas costas. O acordo era muito importante para evitar que a empresa entrasse no buraco, pois não havia mais o que maquiar para parecer que estava tudo bem. Além disso, Müller com aquela ideia maluca de casamento não ajudava em nada. Glória, sua esposa ao ver sua expressão aflita, tratou logo de pegar um copo de água para o marido. Depois de lhe fazer sentar em uma cadeira, começou a massagear seus ombros.

– O que foi meu amor? – Ela começou.

– Nada demais. Só algumas coisas na empresa. Falei com o Müller. Fui ver o que ele queria.

– E o que aquele insuportável queria com você? – Glória disse alterando levemente a sua voz.

– Queria casar o filho dele com a nossa filha. – Paiva falou de uma vez.

– Como assim? – Glória perguntou admirada.

– Ele acha que casando nossos filhos, vamos conseguir unir as famílias melhor, uma vez que elas já vão se juntar no acordo comercial. Ele acha uma boa ideia porque eles teriam apoio das famílias e blá blá blá. – Explicou meio sem paciência.

– Bem, eu acho essa ideia absur…. – Glória começou até ser interrompida por Alice.

A menina entrara pela cozinha toda suja de barro junto com o cachorro. Parou subitamente na porta, ao ver a mãe, enquanto ela já a fuzilava com o olhar.

– Eu vou.… me lavar lá fora primeiro antes de entrar. Com licença. – Disse Alice saindo da cozinha rapidamente, tentando sujar o chão o mínimo possível.

– Você dizia? – Perguntou Paiva.

– Eu…. – Glória disse retomando o pensamento. – Eu acho essa ideia brilhante!

– Como é que é? – Perguntou Paiva espantado.

– Só um casamento para pôr juízo na cabeça dessa menina. E casa com um daqueles trastes do Müller é a melhor punição que ela teria. Eu apoio, e você também vai apoiar. – Ela respondeu intimando o marido.

– Você só pode estar ficando louca! Casamento arranjado é tão…. Grotesco, tão século passado. Não posso permitir que minha filha se case com alguém que ela mal conhece, ainda mais com essas suas motivações. – Paiva respondeu nervoso, se levantando da cadeira.

– Ela vai se casar sim, quer você queira ou não. E vai ser com o filho do Müller mesmo, afinal ninguém mais vai querer uma menina desastrada que não obedece nem a mãe. E você vai aceitar sim senhor, senão é capaz o Müller desistir do contrato. Você sabe como ele é um rato traiçoeiro. Já é muito ele ter sugerido algo assim. É uma oportunidade que não podemos perder. – Disse Glória em voz alta.

– Você está se ouvindo falar? Tem ao menos dimensão da quantidade de asneiras que você está falando?

– Você vai me agradecer mais tarde. A Alice vai se casar e ponto final. – Finalizou Glória, ainda falando alto.

– Eu vou o que? – Disse Alice mais uma vez entrando tempestivamente pela porta da cozinha, desta vez toda molhada.

juhliana_lopes 15-12-2016

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Só mais uma história: O Nerd

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Edgar acordou cedo, mas ainda estava deitado na cama. Era preciso levantar logo, afinal hoje era dia de prova. Apesar da importância do dia ele não via a necessidade de fazer uma prova na qual ele já soubesse todas as respostas. Não que ele tenha tido acesso ao gabarito antes, mas era fato que sua inteligência estava superior até mesmo ao dos professores. Em todo caso, era preciso passar por essas meras formalidades.

Mas outra coisa também o angustiava. Conforme estava chegando o fim do ano, o bullying havia aumentado de modo significativo. Não que ele ligasse também, aprendeu cedo a ignorar xingamento ou qualquer coisa que pudessem fazer para tentar diminuí-lo, mas ultimamente estava ficando cada vez mais chato aguentar aqueles moleques. De qualquer forma, se arrumou e foi, pois apesar de todos os contras, a menina bonita que nunca lhe dava uma chance e ajudava em grande parte nas ofensas a ele, ia estar na sala e provavelmente se lembraria dele para pedir ajuda na prova.

Ele sabia que não tinha chance, ela mesma já havia deixado bem claro pra ele isso de todas as formas possíveis e até mesmo algumas impossíveis de se imaginar. Ainda sim, ele gostava de admirá-la como algo raro que ele jamais pudesse tocar.

O momento da prova chegou e todos estavam muito concentrados, mas ele se sentia apenas entediado mesmo. Enquanto o professor não olhava, Edgar foi atingido por uma bolinha de papel. Quando se virou irritado pra ver de onde veio, deu um sorriso sem graça. Era Jack, seu amigo “popular” que estava pedindo ajuda numa das questões mais fáceis. Aproveitou outra distração do professor e jogou o papel de volta.

Edgar enfim terminou a prova, entregou e foi liberado para o desespero dos outros alunos que preparavam suas bolinhas para pedir ajuda a ele. Do lado de fora, esperando paciente até Jack ser liberado para ir pra casa, foi abordado por uns garotos de uma sala mais velha. Eles tentavam intimidá-lo pelos seus óculos, pelas suas roupas, pelo seu cabelo, mas Edgar, imóvel, evitava contato visual. Sabia onde aquilo ia parar. Começou com um empurrão no ombro e um grito de “acorda moleque, não tá ouvindo a gente não?” seguido de uma tapa estralado e ardido nas costas que levou seu corpo à frente, tocando o peito na mesa. Edgar tentava se manter firme, mas mais uma vez os “caras” o provocavam, e agora mexiam com seu cabelo e lhe davam leves tapinhas no rosto. Edgar já estava ficando corado de raiva, mas ainda sim, tentava não fazer nada. Então ouviu o grito de Jack e ao se virar percebeu que a sua musa estava do lado de fora olhando toda situação. Jack correu e tentou intimidar os rapazes, dizendo-lhes para me deixar em paz ou eles teriam problemas. Eles foram embora rindo, mas não iriam desistir tão cedo. Ela, imóvel olhando a situação, foi embora quando outra amiga chegou.

– Jack, há quanto tempo a Débora saiu da sala?

– Depois que você saiu uns 5 minutos depois eu acho…

– Então ela já estava ali vendo o que estava acontecendo e não fez nada… – disse Edgar pensativo.

– Edgar, para de se iludir… O que ela poderia ter feito? Chamado os meninos da nossa sala pra ajudarem a te zoar mais. Esquece essa mina cara, tem muitas outras mais bonitas e que mesmo não sendo fáceis, te dariam uma chance.

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Aposta

Sua respiração pesada e contínua era tão forte que parecia que podia ser ouvida a quilômetros de distância. Seus olhos bem abertos e as pupilas dilatadas, tal como um bicho assustado fazia com que seu sangue circulasse tão depressa que era quase impossível pensar direito ao sentir seu corpo todo trabalhando ao mesmo tempo. Será que tinha ouvido um ruído, ou era apenas coisa de sua cabeça? Será que era hora de correr novamente ou não se tratava de outro truque para revelar a sua localização?

Tentou se acalmar, era preciso deixar os ouvidos aguçados e a respiração amena para que conseguisse ao menos tomar uma decisão certa. Parou para pensar em tudo, e em como havia parado naquela situação. Lembrou de sua família e dos momentos felizes. Pensou em seus amigos e no caos que aquela simples brincadeira havia se tornado. Por um momento lágrimas deram sinal de vida, mas logo outro estalo chamou sua atenção.

Segurou o ar o máximo que pode, para que ficasse totalmente inaudível. Longo segundos se passaram como horas e quando ouviu o barulho do motor se distanciando, respirou fundo num suspiro de alívio. Olhou para o céu que dava sinais de que iria anoitecer e depois de mais um tempo, saiu de seu lugar.

Se livrou das folhas e galhos que estavam ao seu redor e presos em seu cabelo e logo estava na rua, andando quase tranquilamente se não fosse as olhadelas para trás e para os lados a cada ruído que considerasse estranho.

Quando já começava a respirar aliviado e até mesmo a admirar a natureza ao seu redor, olhou para trás por distração e viu o objeto alvo se aproximando. Não havia escapatória a não ser correr o mais rápido que conseguisse. O veículo se aproximava cada vez mais rápido, e após uma tentativa de atropelamento frustrada, conseguiu se jogar novamente em meio as folhagens e a correr feito louco sem noção alguma de direção.

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Quando seus pés já não suportavam mais e o ar parecia que ia explodir seus pulmões e seu coração, encostou em um tronco com as mãos apoiadas no joelho e ofegante, tentava focalizar o ambiente ao seu redor. Quando enfim voltou a enxergar as formas, notou que já era tarde.

Num único movimento, estava com o corpo pressionado contra o tronco, e com aquelas mãos em seu pescoço. Não era mãos grandes, tão pouco fortes para destruir qualquer coisa com apenas um movimento, mas eram precisas o suficiente para não te dar escapatória.

Pedidos desesperados de perdão e qualquer tentativa de persuasão, se misturavam com soluços e choros implorados de uma chance de sair vivo. Porém, os olhos assustados só conseguiam enxergar um olhar gélido, sem nenhuma alteração de expressão ou até mesmo compaixão, o que aumentava mais e mais o seu medo.

Depois de uma pressão mais forte e quase ficar sem ar, seu corpo foi empurrado contra o chão, coberto de lama e folhas secas que como uma pedra lançada, não conseguia se mover para fugir ou se defender. Sentiu o corpo subir sobre o seu e a lâmina perfurar seu pescoço e logo depois seu estômago.

Nada mais que um corpo sangrando compulsivamente e olhos assustados perdendo seu brilho. Nada mais que uma faca manchada ao lado de um corpo que pouco a pouco ia perdendo seu calor.

O céu já estava escuro e apenas as estrelas como testemunhas podiam depor contra sua versão. Ao entrar no carro, o olhar gélido foi de encontro ao espelho e depois de um tempo ainda parado por cautela, tomou o rumo contrário admirando a paisagem sinistra que se formou com o breu do anoitecer.

“Apostas são apostas”, dizia para si mesma, com um leve sorriso de canto de boca. “E eu nunca perco uma”, disse por fim antes de tomar o caminho para auto estrada e sumir em meio aos outros carros.

 

juhliana_lopes 29-03-2014

Apenas Proteção

02

Os olhares da minha família ainda me perturbam. Quando eles vão entender que o que fiz foi para protegê-los e me tirar daqui? Já fazem dois anos, e dá pra contar nos dedos as visitas que recebi. Essa noite sonhei com aquilo tudo de novo, exatos dois anos de noites mal dormidas.
Eu lembro, eu tinha ido a uma festa, nem tinha bebido, eu era o motorista da vez.
Depois de deixar os meus bêbados preferidos em casa, voltei pra minha só desejando chegar logo para dormir. Mal sabia eu que nunca mais dormiria bem de novo.
Logo que encostei percebi algo diferente, havia algo errado. Não sei bem porque, talvez um instinto bobo, tirei os sapatos e entrei, fazendo o mínimo de barulho possível. Estava tudo quieto, mas não o bastante. Ouvi vozes na cozinha, uma voz estranha em particular. Fui na ponta dos pés e a cena que vi me deixou aterrorizado. Um homem, devia ter uns trinta anos, com uma faca na mão, ameaçando meus pais. Eles estavam assustados no canto da parede, abraçados, chorando. Meu pai tentava dizer alguma coia, mas seu choro e soluços repentinos não permitiam. Minha mãe estava com as roupas rasgadas, o que indicava que já havia acontecido alguma coisa.
Não sei o que me passou na cabeça aquela hora, mas uma coisa era certa eu tinha que protegê-los. Olhei rápido ao meu redor mas, não havia nada que eu pudesse usar. Fui chegando mais perto e meu pai me viu. Fiz um sinal rápido para que ele ficasse calado. Por sorte o bandido não viu, talvez porque ele estava ocupado demais obrigando a minha irmã a se despir. Pude ver seu olhos, nunca vi tanto sofrimento como aquela noite. Eu não podia permitir que ela sofresse mais, e foi o que eu fiz.
Quando dei por mim, a faca estava no chão e o pescoço do invasor em meus braços. Uma chave era o bastante para mantê-lo longe de minha irmãzinha. Nessa hora meu pai criou coragem e chutou a faca para longe. Minha mãe abraçou minha irmã e agora só restara eu, abraçado ao pescoço daquele cara, que agora já estava frágil. Meu pai gritou para que eu o largasse mas, minha fúria era tão grande que eu não queria ouvir. Ele se debatia e tentava pedir para que soltasse.
Depois de alguns minutos eternos, eu soltei. Ele caiu no chão, com o nariz sangrando sem o menos sinal de pulso. Minha mãe me olhava como se eu fosse o demônio. Meu pai já havia ligado para polícia e agora uma viatura estava encostando na frente de casa. Meus braços pareciam chumbo e a culpa se misturava com um sentimento de dever cumprido. Por mais que as minhas intenções fossem nobres, não foi o bastante para me livrar da cadeia.
Se existe o inferno, de certo aquele lugar é pior. Dois meses pareceram décadas mas, logo veio um habeas corpus. Em casa novamente, o clima ainda parecia pesado. Nenhum dos meus amigos lembrou que eu existia. Nem minha mãe conseguia me encarar. Aquilo foi me deixando atordoado de tal modo, que até um drogado em sua maior crise ia parecer mais normal que eu.
Um dia, uma pequena discussão surgiu, quando alguém pichou o muro, com os dizeres: “psicopata maldito”. Eu não tinha culpa se as pessoas não conseguiam entender o que havia acontecido… Se ninguém queria entender.
Meu pai tentou vir com um sermão, daqueles que eu ouvia quando era adolescente… (Sinto tanta falta daquele sermão). Tudo ia bem, até ele falar que preferia ter visto minha irmã ser molestada do que ter um filho assassino. O sangue me subiu tão rápido quanto o murro que eu dei na parede que fez um estrondo que pareceu ecoar pela casa inteira. Olhos assustados ao meu redor. Era hora de me trancar no quarto novamente.

Lembro de que naquela noite, ter tido um sonho engraçado no qual, pessoas de branco tentavam me levar pra algum lugar e eu lutava contra elas. Quando acordei me dei conta que era realidade. Hospício? Como um hospício podia me deixar melhor? Eu não estava amarrado, mas era como se fosse… Os tranquilizantes que me deram ainda me pesavam o corpo, tudo ao meu redor era confuso.

Desde então estou aqui. É como se eu estivesse num maldito limbo. O tempo parece não passar, só percebo isso pelo tamanho da minha barba. O único sinal que eu tenho, que estou na realidade, são dois dados viciados que ganhei de um senhor antes dele ir embora. Mas as vezes não sei se são um sinal de realidade ou mais uma peça da minha loucura.

17-09-2012 /juhliana_lopes