Perverso e Ventura

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Depois de um dia cansativo de trabalho, voltando para a casa a pé por um caminho diferente depois que seu ônibus quebrou, Bryan sentou-se jogando seu corpo contra o banco de pedra sem cerimônias como se estivesse no sofá de casa. Estava calor apesar do entardecer, e com a claridade, as pessoas ainda andavam animadas pelas ruas naquele fim de tarde. Percebeu então que o fluxo de pessoas também poderia ser explicado por um velho circo que havia do outro lado. Ele não abriria naquele dia, mas havia muitos carrinhos próximos vendendo várias guloseimas e todos estavam aproveitando. Com a cabeça baixa, puxando o máximo de ar que podia para os pulmões, ouviu um riso inocente de criança e então viu um menino pequeno e loiro, brincando com uma bolinha, próximo de uma tenda. Perdeu-se observando a inocência da criança, que sem preocupações, pegava a pequena bolinha vermelha e a jogava longe, correndo desajeitado logo em seguida para pegá-la novamente.

Até que a bolinha caiu dentro da tenda e o menino confuso observou em volta procurando a sua preciosidade na grama. Antes de se dar conta de onde ela realmente estava um homem alto, com roupas velhas e coloridas saiu da tenda com a bolinha na mão, se abaixando para se aproximar do menino. Sua aparência era um tanto macabra. Um palhaço com a maquiagem borrada pelo suor, e com uma expressão um tanto mal humorada, que transparecia sua idade avançada só aumentava o ar de terror com seu jeito manco de andar. A criança, por sua vez, não se intimidou com a aparência do homem e se aproximou correndo com os braços abertos, mas invés de pegar a bolinha de sua mão foi com as mãos em seu grande nariz vermelho. O menino ria animado e quanto mais o velho palhaço se balançava para que o menino soltasse seu nariz, mais ele ria e agarrava com força.

Quando pensou ter visto um leve sorriso naquele rosto maquiado, a festa acabou e os pais do menino se aproximaram apavorados, a mãe o arrancou com um puxão levando para seu colo e o pai com um olhar autoritário pegou a bolinha vermelha de sua mão com violência.

Ele se levantou e olhou com pesar para o casal que se distanciava com velocidade e se arrastou para dentro da tenda novamente. Bryan, curioso, resolveu se aproximar da tenda para quem sabe conversar com aquele senhor.

Parecia algo fácil, mas quando estava em frente à tenda ficou sem jeito de chama-lo ou de entrar de uma vez, ficou por ali dando alguns passos como quem só está passando, mas era difícil disfarçar sua apreensão. Por que estava com receio afinal? É só uma pessoa, só um homem velho em sua tenda, não havia nada demais… Quando se virou pela última vez para tenda numa tentativa de falar qualquer coisa, foi surpreendido pelo palhaço que estava de pé a sua frente, com um olhar vazio. Depois do leve susto disfarçado, Bryan abriu a boca para falar, mas foi interrompido pelo velho bufão:

– Posso ajudar? – Sua voz era tão profunda como seus olhos, transparecendo mais uma vez sua idade avançada.

– Me desculpe, não pude deixar de reparar na criança… – Bryan não sabia por que exatamente estava ali e agora se dava conta do quão ridículo estava sendo – Eu só pensei em vir aqui e… Sei lá, conversar um pouco…

– Você trabalha com o que? – Ele respondeu de forma seca.

– Eu trabalho em um escritório, lido com clientes e fornecedores… – Bryan respondeu sem jeito.

– Gosta do seu trabalho?

– Bem, eu gosto… Apesar de que, bem, existem outras áreas que eu gosto também… – Bryan se sentia patético por perceber que havia perdido completamente o controle das coisas e não sabia mais o que estava falando.

– Pois é. Eu também gosto do meu – ele disse coçando o rosto fazendo o nariz vermelho mexer, ignorando completamente as suas lamúrias – Pena que nem todos possam reconhecer isso, mas estou acostumado com os julgamentos… – Ele finalizou entrando em sua tenda.

Bryan não se conteve e o seguiu, ficando surpreso com as coisas que havia na tenda. Eram lâmpadas, brinquedos, e diversas roupas coloridas e outros artigos circenses. O velho palhaço sentou-se em uma cadeira de balanço enquanto Bryan se ajeitou em um banquinho mesmo sem um convite pra sentar-se.

– Qual o seu nome? – Agora Bryan percebia que parecia uma criança curiosa com olhos grandes e inocentes.

– Christopher. E se você está esperando alguma história de vida bonita ou algum ensinamento do gênero, é melhor ir embora. – Ele respondeu amargo, acendendo um cigarro.

– Eu só… – Bryan tentou se justificar, mas perdeu o pensamento quando viu um pôster na parede. – Era você?

No pôster havia dois palhaços bem alegres, que convidavam as pessoas para o circo. Suas roupas tinham cores vivas e seus rostos uma alegria contagiante. Um era mais baixo e tinha cabelo azul e olhos com listras verdes e a boca pintada de vermelho com um contorno amarelo. O outro, um pouco mais alto, tinha o cabelo Verde e seus olhos tinham um tom de azul Royal e a boca tinha um vermelho vivo que chamava atenção. Notou então que mesmo borrado, ele ainda mantinha o padrão das cores.

– Sim, era eu e meu irmão. Ventura e Perverso. Nome estranho para um palhaço que sempre amou as crianças, mas ele não ligava, gostava de brincar com as palavras e os vários significados que ela poderia ter.

Então, vendo que Bryan não iria embora tão cedo, resolveu contar sua história. Não seria a primeira, e tampouco a última.

Era um grande e famoso circo que sempre viajava de cidade em cidade. Além de todas as excelentes atrações que enchiam os olhos das crianças, suas obras primas eram seus palhaços. Com truques de mágica e piadas prontas, era a diversão da noite que sempre deixava um gostinho de quero mais. Um dia houve um acidente com as bailarinas e lá estava Perverso com uma roupa e uma postura completamente diferente, ajudando as meninas na dança. Ninguém diria que era a mesma pessoa. Certa vez foi à vez dos trapezistas e com uma maquiagem diferente, lá estava ele quebrando um galho.

Um dia, uma moça da plateia ficou muito encantada com a apresentação do assistente do atirador de facas e após o show, se escondeu em sua tenda para tentar falar com ele. Porém, ao entrar percebeu que ele não era só um assistente e sim uma das estrelas na noite. Mesmo assim ela insistiu e ele preferiu não se envolver. Já havia se decepcionado antes e não queria passar por isso de novo.

Perverso nunca ficava irritado com nada, enquanto Ventura sempre foi do tipo mais seco que só falava o necessário e às vezes se derretia com as crianças. Fora dos palcos, era considerado mal humorado e carrancudo, enquanto Perverso, sempre foi o mais carinhoso. Nunca estava irritado, sempre respirava quando parecia que ia perder a calma e surpreendia com algum truque bobo que fazia com que todos rissem da situação.

A moça novamente invadiu sua tenda, e apelando, ficou nua para ele, pedindo para que ele a possuísse. Mais uma vez ele se afastou para conter seus desejos e ela, insistente não iria desistir.

Foi quando em uma noite, após o show, Perverso sumiu e a moça também não apareceu. O mal humorado Ventura ficou desconfiado, mas ignorou e foi acordado pela manhã com gritos de terror e choro. Ao sair pra fora praguejando por terem interrompido seu sono, foi surpreendido por um corpo pendurado em um galho de uma árvore próxima, pelo pescoço.

– Quem tinha sido enforcado? – disse Bryan surpreso.

– A moça. – respondeu Christopher, afundando o cigarro cinzeiro.

– E quem fez isso? – Bryan perguntou já sabendo da resposta.

– Quem você acha? Saiu até no jornal na época, foi o fim do circo… – Respondeu Christopher jogando um jornal velho enquanto andava pela tenda para Bryan que procurou curioso pela foto.

– Nossa, imagino o quanto tenha sido difícil pra você. Mas você tem notícias do seu irmão? O que aconteceu com ele?

– Bem, Ventura? Ele tá ótimo. Da última vez que nos falamos ele estava no Caribe passeando… – Respondeu Christopher que agora estava atrás de Bryan com uma corda na mão.  – Aliás, quer ouvir uma piada?

juhliana_lopes 29-08-2015

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Escolhendo um inferno

Muitas pessoas dizem que já foram ao inferno, que o vivem todos os dias de suas vidas, ou que já nasceram nele. Não posso dizer que estão erradas, mas a verdade é que o inferno é diferente para cada um.

adolescentesO meu particularmente é um tédio. Tudo o que eu vejo me dá um nojo e automaticamente uma falta de vontade extrema. Saio de casa todos os dias e volto sem sentir um pingo de emoção. Todos os dias iguais, desde a hora que eu acordo até a hora de me deitar, pois não sei se durmo realmente nesse meio tempo ou apenas vejo a hora passar olhando para o teto.

Já tive uma vida mais agitada e cercada de emoções. Na verdade, eu fazia questão de experimentar todas até a última gota. Nada me escapava. O amor, a alegria, a raiva, a solidão… Todas vividas intensamente, mais de uma vez na maioria das vezes. Esse é o maior problema.

Viver as emoções de forma tão intensa a ponto de conhecer cada ponto desde o principio até o último esboço se transforma num vício pior que qualquer droga já registrada. Você não se contenta quando tem que repetir e então parte para aquelas emoções que poucas pessoas ousam falar quanto mais sentir. Emoções esquecidas ou experimentadas por uma parcela quase zero da população. Quando eu resolvi arriscar, estava tão sedento que não pensei duas vezes, peguei logo as mais fortes e coloquei no topo da lista.

Era uma noite fria e haviam muitas pessoas indo para uma casa noturna. Eu andava na direção contrária apenas observando calmamente. Alguns me olhavam e se perguntavam se na direção que eu ia tinha algum show ou algo mais interessante do que a balada. Não virava meu rosto, seguia meu caminho apenas pronto para sentir o que eu queria. Quando a vi, ela estava com duas amigas.

Delicada, andava com passos leves quase flutuando. Consegui chamar a sua atenção e logo consegui dispensar suas amigas. Sozinhos, ela despertava algo engraçado em mim, sentimentos que eu já havia sentido mas que no momento eu iria ignorá-los. Ao chegarmos num canto escuro, não dei tempo para romances. Apertei seu pescoço com uma mão e logo ela estava sucumbindo na minha frente. Eu tinha um sorriso sarcástico no rosto e ela um olhar de terror. Ao colocar a outra mão senti a fragilidade dos seus ossos e um leve estalo que a fez desmaiar e parar de respirar. Pousei seu corpo no chão com cuidado e ao me virar senti uma pancada forte na boca. Ao recobrar a postura e a visão, vi a mão do agressor se aproximando novamente do meu rosto mas desta vez tive tempo de segurar seu braço. Com um golpe rápido eu o joguei contra o muro. Quando ele se virou ficou paralisado e dava pra ver seu rosto ficando alvo e o suor frio correndo pelo rosto. A arma estava apontada diretamente para o seu olho esquerdo mas conforme ele tremia, logo eu tinha como mira a sua testa.

Quando eu ia engatilhar a arma aproveitando o tempo de seu pavor para me deliciar com cada gota de medo, senti algo gelado tocar minha nuca e uma voz doce e calma me dizer quase num sussurro: “Calma, não vai doer nada”.

Por instinto me abaixei e ao me virar era eu que estava na mira. Ela vestia uma calça negra e uma blusa num tom rubro. Não tremia, não piscava e parecia não respirar. Quando pensei em levantar a arma para ela, esta já estava tão próxima quase a me beijar. A arma apontada para a minha cabeça e seus lábios rosados dançavam como pétalas ao sabor do vento.

Engoli minha saliva que descia como serragem em minha garganta ao ouvir “Vai ser rápido”. A explosão entrou em meu tímpano e vez com que meu corpo todo experimentasse uma descarga elétrica que nem a mais poderosa voltagem poderia proporcionar, mas uma coisa estava faltando. Não havia dor. Ao sair da sua hipnótica sedução e olhar para trás, vi o rapaz agonizando na calçada com um tiro certeiro no peito. Olhei novamente para ela e agora já estava a uns passos de distância com duas armas na mão. Duas? Como não percebi.

Pensei em ir atrás dela mas logo não se via mais nada além da escuridão. Segui meu caminho e no outro dia ouvi notícias sobre os corpos. A sensação de ter matado, de ter o controle da vida de alguém, somada a experiência de quase morte e com a de ser testemunha da agonia alheia, em contraste com aquela calma e serenidade insuportável foi uma dose exagerada para mim. Não aguentava dormir pensando em fantasmas e com a acusação que viria depois.

Joguei todas as minhas listas, fotos, lembranças. Os livros, os discos e tudo que me pudesse fazer sentir qualquer coisa foram queimados. Dei meu cachorro pra um amigo, mudei de cidade e decidir não sentir mais nada.

Meu inferno se completou a me abster-se de tudo. No começo foi difícil é bem verdade, mas nada pior do que está agora. Me acostumei. Não sentir é tão tedioso quanto um domingo. Viver na base do tanto faz é o que se resumi a minha vida.

Ando de um lado para o outro e as vezes me convenço que sou invisível considerando a indiferença das pessoas ao meu redor. Exceto um dia eu me esqueci da minha invisibilidade infernal e tediosa. No dia que encontrei aqueles olhos psicóticos e aqueles lábios rosados novamente. Eu tenho certeza de que eram os mesmo da última vez, mas tudo foi tão rápido que pode ter sido um sonho.

Agora eu vou para um bar, beber qualquer coisa que deixam tantos alegre e que em mim o maior efeito é a dor de cabeça ao acordar no outro dia, por que a alegria de beber, se foi no dia que eu desisti de sentir emoções, no dia que eu escolhi o meu inferno.

juhliana_lopes 03-08-2013