Um amigo de um amigo meu #1

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Em minhas caminhadas, já me deparei com muitos casos, em um deles, um amigo, de um amigo meu, tinha uma mania estranha. Ele adorava dar presentes. Se você era amigo dele (assim como o meu amigo), podia ter a certeza que logo ganharia um boneco, uma toalha, um livro… sabe quando você compartilha uma imagem de algum objeto muito legal com “eu quero”? Pois bem, se fizesse isso, no outro dia ele aparecia com aquele objeto embrulhado para você e um “espero que goste, É SÓ UMA LEMBRANCINHA”.

Eu na verdade, não tenho preconceito nenhum com quem gosta de presentear os outros, mas o estranho era porque as gratificações aconteciam sem datas, sem motivos, apenas pelo prazer de presentear alguém. Um fetiche? Talvez, o que me surpreendia nesta história do amigo do meu amigo, era o fato de onde ele arrumava dinheiro para comprar tanta coisa?

Se você parar para pensar, uma agenda, um doce, um porta-retratos… sei lá, esses tipos de coisas são baratas, mas de repente o cara aparece com um boneco de edição limitada, livros e mais livros, até mesmo os raros, peças de cristal… Ele rouba bancos? Eu me perguntava isso e meu amigo também começou a ficar curioso e resolveu investigar.

A verdade é que você nunca deve investigar sobre “de onde vem” certas coisas. É como aquela história sobre restaurantes, se você for olhar a cozinha e o processo do prato, você nunca mais come lá. Se você não vê não te afeta, e isto pode ser considerado também em relação a pessoas que gostam de dar presentes.

Já vi muitas pessoas com estranhas manias, e não me importa os motivos, pelo menos não depois deste caso em especial. Antes que você comece a pensar mil coisas, vamos excluindo algumas… Ele não rouba bancos. Não assalta carros. Não pega a aposentadoria da avó doente. Não se finge de mendigo na rua. Não ganhou na loteria. Não faz programa. Não vende drogas. Não é empresário anônimo de uma marca famosa. Apesar de ser um médico formado, prefere trabalhar como diagramador numa editora.

Meu amigo bem que tentou deixar para lá, mas outras pessoas começaram a ficar curiosas e outra começaram a se aproveitar a boa vontade do “pobre” coitado. Sozinho? Um pouco, ele preferia se isolar na maior parte do tempo, só fazia contato mesmo quando ia presentear seus amigos e em festas. Meu amigo foi em frente e depois de um tempo sumiu.

Claro que todos ficaram preocupados com seu sumiço, inclusive o cara dos presentes. Alguns familiares pensaram em sequestro e outros que havia surtado. Lembrei de nossa última conversa e confesso que senti um leve arrepio na espinha sobre o que poderia ter acontecido mas achei melhor esperar do que especular. Passaram-se alguns meses até que a família não falou mais sobre o desaparecimento. Alguns amigos também receberam notícias e então foi a minha vez.

Um retiro. Se isolou, achou que estava muito sobrecarregado de serviço e resolveu descansar por um tempo. Pediu desculpas por não ter avisado antes, mas ele precisava desse tempo. Não sabia ainda quanto tempo ia ficar e me fez jurar que não contaria para ninguém sobre o lugar que estava, que deixasse que ele fosse avisando todos, um a um, calmamente, e que nunca comentasse nada sobre com o amigo dele.

É claro que eu devia ter ficado quieto, mas é claro que eu também fiquei curioso. Não devia ter perguntado, muito menos insistido, mas eu não pude resistir, queria saber o porquê apesar de já desconfiar. Ele falou mais baixo, começou a respirar mais forte, quando parecia que ia contar mudava de assunto. Resolvi ir direto ao ponto e perguntei se ele enfim descobriu a origem do dinheiro do amigo “papai Noel”, se era por isso que ele havia se isolado. Ele respirou fundo e disse sim, quando tomou novo fôlego para começar a contar, não disse mais que “ele ven…” e a ligação caiu.

Fiquei mais meses sem resposta. O pensamento me atormentava a noite, mas eu conseguia o ignorar perfeitamente durante o dia. As pessoas levavam suas vidas normalmente e outras continuavam a ganhar presentes. Numa noite qualquer, o amigo veio até mim com uma caixinha, dizendo que não me conhecia direito mas achava que eu iria gostar. Agradeci a gentileza mas recusei educadamente. Ele ficou um pouco chateado, mas então mostrei-lhe uma amiga em comum que ficaria mais feliz já que ela estava passando por um momento de luto na família, prontamente seu sorriso voltou e ele pôde voltar com seu prazer.

Meu amigo apareceu, um pouco mais assustado, cauteloso, sem mencionar muito seu retiro e aos poucos voltou a sua vida normal. Demorou um tempo para que ele voltasse a falar como antes comigo, pois por algum motivo ele evitava todos os seus confidentes.

 

Eis o que aconteceu:

Meu amigo descobriu o segredo, e achou tudo tão surpreendente que resolveu se isolar para proteger seus amigos e familiares e se proteger também. Quando começou a se comunicar e avisar, achou que estava sendo “invisível”, e quando finalmente ia confiar o segredo para alguém em seu momento, o dono do segredo apareceu.

Cortou o fio do telefone com uma tesoura enorme e o olhava fixamente. Largou a tesoura no chão, se agachou e perguntou: “Por que você sumiu?”. Qualquer outra pessoa surtaria e sairia correndo pedindo ajuda, mas depois do que ele ficou sabendo, aquilo era apenas uma consequência.

“Fiquei preocupado com você, toda a sua família, amigos… O que foi? Está passando por algum problema? Alguma dificuldade financeira? Eu posso te ajudar…”

É claro que ele não queria o dinheiro e nem os presentes dele. Queria paz. Mesmo com medo, como a situação já estava estranha o bastante, despejou tudo que sabia sobre ele. Acusou, mas de forma desesperada de quem está com medo e a acusação é a última coisa que resta antes do último suspiro. Só que ele não veio.

O amigo na verdade deu algumas risadas e lhe explicou a situação. Apesar de insano, ele parecia bem à vontade com aquilo. Lhe deu detalhes, tabelas, todo tipo de informação. O medo de meu amigo ficou preso na garganta. Ele parecia extremamente inofensivo, mas por que ele lhe contaria tudo se não houvesse outra intenção? E estava certo, só que do jeito errado. No fim da sua palestra, ele lhe deu um presente e sussurrou em seu ouvido: “Pode voltar, não precisa ter medo, você tem sorte, você é do tipo barato.”

A fonte do seu dinheiro era algo simples, um bom negócio na verdade. Ele era um excelente vendedor. No mercado negro. De órgãos.

Ele ia para outras cidades normalmente a noite, procurava pessoas “saudáveis”, as dopava e levava em seu carro. Pessoas saudáveis são mais caras que as que fumam ou bebem, vez ou outra pegava um bêbado na rua, mas sempre lucrava mais com crianças e pessoas na faixa dos 25 a 35 anos. Em casa, ele matava, dissecava, recolhia e armazenava cuidadosamente tudo que pudesse ser aproveitado. Numa tacada só (nesse caso, num corpo), ele voltava milionário de suas vendas, com a soma de todas as partes. Sempre compravam dele, pois, a qualidade do produto era excelente, e como todo “clube”, nunca ninguém perguntava de onde vinha pois, não era interessante.

Meu amigo, ainda tem a cicatriz e um rim faltando. Ele me garantiu que não lhe faz falta, e já se acostumou com a situação e acha tudo normal, porém, ainda fica nervoso quando ouve barulhos a noite e tem medo de atender o telefone.

A lição? Cabe a você descobrir, eu só digo que as aparências enganam e que se algo não te afeta, apenas aceite, pode ser perigoso descobrir de onde vem, ou não aceite e fique o mais em paz que conseguir, nunca se sabe se um dia todos esses mimos serão cobrados…

E de repente, nunca foi tão bom ser um fumante bêbado em toda a minha vida…

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Coração

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A primeira vista ninguém acreditou muito menos o delegado. Era impossível atribuir tantas coisas a uma pessoa tão frágil. A promotora também não apostava, mas pela cara dos guardas que a trouxeram com muito custo, algo horrível tinha acontecido lá fora.

– Vocês estão me zoando? Eu tenho cara de otário? – Dizia o delegado irritado. – Nós temos o retrato falado do sujeito de acordo com o que as vítimas relataram e vocês me trazem a primeira pessoa que acham na rua, achando que vão me convencer de que ela é a pessoa certa na verdade? Que merda vocês tem na cabeça?

O delegado já estava ficando vermelho e andava impaciente de um lado para o outro. Sua camisa social amarelada no colarinho e justa por causa da barriga saliente, já estava amassada e com manchas de café.

A promotora se aproximou tentando acalmá-lo. Ela observou os guardas mais uma vez com ar de desconfiança. A lógica diria que não, mas ela mesma já foi surpreendida com casos que estavam praticamente ganhos que tiveram uma reviravolta impressionante nos últimos minutos, mudando o rumo de tudo.

– Vamos com calma. É óbvio que talvez o criminoso não trabalhe sozinho e o que aconteceu foi que ele distraiu os guardas deixando uma isca para trás. Tenho certeza que se interrogarmos ela e os guardas tudo vai se esclarecer.

A promotora mantinha seu tom de voz firme e calmo como se estivesse em tribunal, mas a verdade que nem tudo lhe parecia tão óbvio e certo assim. Na verdade uma ponta de medo estava crescendo dentro dela, deixando seu peito angustiado.

Os guardas por sua vez estavam em choque. Desde que ela havia entrado na sala, não se atreveram a falar uma só palavra e o suor frio lhes descia pelas costas trazendo um arrepio gélido como o beijo da morte.

Ela. Quieta, não levantava a cabeça pra olhar nada. Não dava pra dizer se ela também estava ouvindo a conversa toda ao seu redor, ou sentido o clima pesado que estava cada vez mais insuportável. Ali, parada, parecia uma surda-muda, que provavelmente seria cega também.

Enfim, o médico legista saiu de sua sala. Sua roupa branca agora estava com manchas de sangue e a máscara de seu rosto balançava forte com o ar forte que respirava. A promotora olhava apreensiva, e os guardas com seu olhar estático, já esperavam as palavras que viriam.

– Eu preciso falar algo… – começou ele com a voz baixa.

– O que foi? Mais alguma evidência? – perguntou o delegado impaciente.

– Eu… Bem, ocultei uma coisa. Em todas as vítimas que foram achadas, havia cortes na barriga…

– Como outros cortes no corpo, mas o que você quer dizer com “ocultei uma coisa”, acha que estamos de brincadeira rapaz? – o delegado ia falando enquanto andava de um lado para o outro.

– Deixe o rapaz terminar! – interrompeu a promotora falando alto.

– Bem… Eu abri esses cortes pra saber por que havia sido cortado… Eu achei… – o médico suspirou fundo. – Em cada corpo há objetos guardados.

– Objetos? – questionou a promotora pensativa.

– Sim. E mesmo eu não sendo investigador nem nada, eu resolvi tentar resolver esse quebra cabeça. – O médico respirou fundo mais uma vez e começou a falar sem parar. – Todas as pessoas mortas trabalhavam em empresas grandes, e poucos dias antes da morte, os funcionários reclamavam do sumiço de alguns objetos. Canetas, blocos de nota, tesouras, entre outros acessórios de escritório. Na última antes dessa, um funcionário comentou que sentia muito, pois, pouco antes dele sumir, uma caneta que o morto adorava havia sumido e ele se sentia culpado por isso. Quando examinei o corpo, a caneta estava lá, “guardada” dentro dele. Como os outros corpos estavam guardados para mais averiguações, comecei a verificar e todos tinham alguns objetos.

Ele falava mexendo as mãos e tentando não parecer abismado, mas a cor de seu rosto entregava seu temor.

– O que você achou nesse corpo? – disse a promotora com um tom desesperado.

– Dinheiro.

– Dinheiro? – questionou o delegado abismado.

– Sim. A mesma quantidade que vocês haviam falado que tinha sumido hoje pela manhã…

A promotora deixou o corpo cair sobre uma cadeira. Sentada, colocou a mão sobrea cabeça pensativa. O delegado que antes tinha tudo resolvido, por um momento se sentiu sem chão e também se sentou. Os guardas engoliram secos. Deram alguns passos tímidos para se afastar dela, e quem sabe sair antes de responderem alguma pergunta, mas antes que pudessem o delegado levantou a cabeça.

– Vocês… Por que a trouxeram, porque acham que é ela?

Eles se olhavam nervosos. Não queriam falar, não podiam falar. O guarda da esquerda começou a chorar com soluços disfarçados. O outro respirava forte tentando se segurar, mas logo estava berrando desesperado como uma criança com medo de médico.

– ELA ESTAVA COMENDO O CORAÇÃO DE UM CARA LÁ FORA!             ELA MATOU, ARRANCOU O CORAÇÃO E COMEÇOU A COMER, NO MEIO DE UMA PRAÇA! MATOU DA MESMA FORMA QUE OS OUTROS CORPOS FORAM ENCONTRADOS!

Ele estava respirando forte, quase sem ar. Antes de mais alguma explicação, desmaio cansado no chão com o pescoço torto. O outro trancou os lábios e cerrou os punhos. A promotora tentou ajudar o guarda e o delegado tentou arrancar mais alguma explicação. O outro não queria responder, mas também não suportou o silêncio.

– Quando nos viu, ela parou de comer o coração. Largou na calçada e “se entregou” pra gente. Veio sem a gente fazer força, sem nenhuma objeção… – Ele suspirou profundamente e enfim falou. – Ela veio nos matar.

O delegado abriu bem os olhos depois da afirmação, mas antes de qualquer objeção viu o sangue jorrar na sala. Ela tinha uma força incrível e uma faca afiada. Como um bicho, abriu o peito do guarda “mensageiro” e começou a comer seu coração.

Em seguida atacou à promotora, que tentou se defender, mas logo foi degolada. O delegado, apavorado, sofreu um ataque cardíaco, se tornando um peso morto que não chamou atenção para ser outra vítima da canibal. Com o outro guarda com o pescoço quebrado, sobrou somente o médico que em choque não conseguia se mexer.

– Você vai me usar pra guardar algum objeto não é? Por que você faz isso? – Ele dizia em pânico.

Ela se aproximou mancando, e pela primeira vez levantou a cabeça para encará-lo. Seu rosto era angelical apesar da boca manchada de sangue, e seus olhos era um tom de mel quase amarelo. Por um momento se viu encantado pela beleza dela, mas não a ponto de esquecer seu pavor.

– Não vou guardar em você. – disse ela por fim, num tom de voz calmo e suave. – Você parece ser legal. – ela falou ainda olhando fixamente para ele. Depois, se virou e começou a abrir o estomago do guarda com o pescoço quebrado. Tirou um DVD envolvido num plástico do bolso e colocou em sua barriga através da abertura que havia feito.

– O… Que tem nesse DVD? – ele disse atordoado.

– Imagens da promotora e do delegado, usando a sala da delegacia para outros fins, se é que você me entende… – Ela disse enquanto deixava o cadáver de forma confortável no chão. Então se levantou, aproximando-se do médico novamente.

– O que você quer? – Ele disse por fim.

– Agora? Você… – Ela respondeu, roubando-lhe um beijo longo e demorado, que apesar das evidências não foi rejeitado. Pela primeira vez ele beijava alguém com tanta volúpia. Pela primeira vez sentia o gosto de sangue. E apesar de toda a lógica e ética lhe mostrar que não, sentiu que gostava daquilo, tanto quanto a sua profissão.

 

juhliana_lopes 16-10-2014