Delírio de Carnaval

d4431ad15cfb6202b51e3c0bc553f32d

Dia cinza, algumas gotas caem levemente sobre minha pele e eu só lembro de que o Carnaval está chegando. A população vai pra rua por uns dias e esquecem de todos seus deveres e problemas. Foi em um Carnaval onde eu cruzei com aquele olhar, depois de muitas doses de alguma coisa alcoólica, não me recordo do que era, talvez eu não tenha vivido nada antes daquele olhar, não consigo me recordar como fui parar na rua, nem porque estava de fantasia, mas aquele olhar profundo lendo minha mente fez com que nada importasse.

Me lembro da rua estar cheia, pessoas se esbarrando, derrubando bebida uns nos outros, perfumando o ambiente com um cheiro quase insuportável de cachaça e urina. Eu já estava de saco cheio dos esbarrões e procurava um refúgio, porém, aquele olhar me fez perder o juízo. Mais do que ler a minha mente, era como se por um segundo, aqueles olhos tivessem invadido todo o meu passado, cada passo, cada história, cada erro, me julgando e condenando quando fosse necessário.

Me perdi dentro de mim, e então, com cinco minutos de pura insanidade, passei a procurar aqueles olhos novamente. Era mais forte que eu. Minha mente delirava, imaginando o que eu poderia fazer quando enfim chegasse ao meu objetivo. O toque da pele, seus lábios roçando nos meus, o arrepio. Meu corpo queimava ao imaginar aqueles olhos me encarando de perto, me deixando sem ar. Mais do que a intimidade, minha mente ansiava por descobrir todos os segredos daquele olhar.

Não me incomodava mais o cheiro da rua, os gritos aleatórios em meu ouvido, os abraços indesejados. Eu apenas abria espaço entre aquele mar de gente, para seguir aquele olhar, que ora me ignorava e ora invadia minh’alma e perturbava meu juízo novamente, brincando comigo como um felino com a sua presa.

Foi quando aqueles olhos se foram. Como uma criança perdida em um shopping, ainda perambulei pelas ruas e até me arrisquei em alguns becos, porém, nada encontrei. Senti como se houvesse um buraco em meu peito, um vazio que fazia doer o estômago. Podia ser a bebida que já estivesse fazendo efeito, mas também podia ser dor de amor, principalmente um amor que nem mesmo houve chance de talvez ser correspondido.

Então, novamente em um dia cinza e uma leve garoa daquelas fininhas que deixam a gente doente, quatro anos depois, em um carnaval, enquanto eu tentava desviar das ruas cheias com meu carro, aqueles olhos passaram na minha frente. Tive que frear bruscamente para lhe observar com cautela. Eram olhos assustados, claros e que me reconheceram no segundo seguinte. Segui seu caminho com meus olhos e estacionei na esquina seguinte. O jogo havia começado novamente e aquele olhar não havia ido longe. Com a rua um pouco mais vazia, pude sentir seu perfume forte, que me inebriava, fazendo-me me perder em delírio. Acendi um cigarro. Se aqueles olhos iam brincar com meu coração novamente, eu precisava me preparar, afinal desta vez eu não estava sob efeito de álcool.

Seus passos furtivos eram rápidos, e agora eu compreendia porque havia perdido seu rastro aquele dia. Mesmo depois de tanto tempo, ainda eram os mesmos olhos, o mesmo olhar inquisidor capaz de julgar todos os meus pecados. Passei novamente a deseja-los para mim. Ora pareciam estar ao alcance de um passo e ora se afastavam me observando de longe. Eu precisava daquele olhar todos os dias. Eu queria aqueles olhos direcionados para mim e somente a mim.

Finalmente, por um momento eu alcancei. Lhe toquei o braço enquanto atravessava a rua, procurando multidões para se esconder. Olhos verdes, travessos e levemente assustados. Olhos que tão de perto possuíam a minha alma sem qualquer esforço. Olhos que piscavam lentamente, fazendo meus batimentos entrarem num descompasso preocupante. Pude observar melhor seu rosto. Lábios delicados e perfeitamente desenhados como uma pintura. Lábios que se mexeram para dizer alguma coisa, porém minha mente estava completamente enfeitiçada por aqueles olhos que não me permitiram ouvir, até que eu senti a pancada.

Um atropelamento, nada demais. Uma perna quebrada? É talvez tenha algo a mais. Me lembro da gritaria, da multidão que se formou e de mim perdendo aqueles olhos na escuridão, enquanto eu desmaiava.

Hoje, durante a noite, enquanto caminhava pelo lugar onde vi aquele olhar pela última vez, pensei ter visto novamente, mas não passou de impressão. Quem sabe daqui a três anos, em um novo carnaval eu possa lhe encontrar novamente e sanar esse vazio que se formou em minha alma e em minha mente. Quem sabe eu possa descobrir enfim os segredos daquele demônio dos olhos verdes.

Aleks Durden e juhliana_lopes 07-02-2017

Anúncios

Sonhos

lotado

Com a garganta seca e os olhos atordoados, não conseguia focar sua visão em lugar nenhum. Pior que isso, era a sensação de estar caindo, mesmo com os pés nos chão. Tentou se apoiar em alguma coisa, mas não havia nada em que se segurar. Tentou se jogar no chão de uma vez, para quem sabe sentar ou deitar, ficando seguro de si mesmo, mas por mais que fizesse força, eu corpo não obedecia a seus comandos e continuava nesta agonia sem fim.

Abriu os olhos com certo pesar, mas suspirou aliviado ao perceber que estava sentado no ônibus a caminho de casa. Não costumava dormir em transportes coletivos, por medo de perder o ponto, mas estava tão cansado aquele dia que a única coisa que conseguiu fazer foi sentar e deixar os olhos fecharem. O pesadelo deve ter sido por conta de suas preocupações diárias, do estresse do dia a dia, entre tantos outros motivos para alguém ter um pesadelo.

Voltou os olhos a janela e passou a observar as pessoas que passavam na rua. Os carros que ora passavam em alta velocidade e ora estavam parados com o trânsito, pareciam miniaturas perto do ônibus. Os motoristas, também traziam em seus rostos expressões marcadas do cansaço de um dia inteiro de trabalho.

Como se acordasse novamente despertou de seus pensamentos quando a moça que sentava ao seu lado mais próximo da janela pediu licença para levantar. Ele afastou as pernas e ela passou, quase levando o mundo com ela devido à superlotação do veículo. Ele jogou o corpo com jeito para o lado da janela e assim conseguiu ter uma visão mais ampla para seus devaneios. Ao seu lado, agora sentou um senhor, que como quase todos os idosos, gostam de conversar e falar sobre suas vidas cansadas.

Ele não costumava conversar muito, mas mesmo que não quisesse o senhor conseguia a sua atenção. Ele falava qualquer coisa sobre a bolsa de valores, e como os netos cresceram. “Rapaz, você ainda vai ver muita coisa nesta vida”, dizia ao perguntar algo e ele responder que não sabia ou não conhecia. Não que seja um problema, mas quase todo ancião anseia em passar a sua sabedoria e trás ensinamentos “filosóficos” sobre a existência da humanidade, mesmo que ninguém lhe peça tal pensamento.

Quando o senhor se levantou, gemendo com a velha dor nas costas que lhe acompanhava desde a mocidade, sentou um rapaz alto e robusto que ao colocar os fones de ouvido, deixou claro que o resto da viagem seria marcado pelo silêncio. Antes que seus olhos se fechassem novamente, percebeu quando a pessoa que estava no banco à frente pulou de susto. Aparentemente ela também tinha dormido, e acordou de repente. Pesadelo também? Talvez, ou só o medo de passar do seu destino.

Agora sentia um aperto no peito sem tamanho. Puxava o ar e seus pulmões pareciam que estavam atrofiados. Levou a mão a garganta várias vezes, na esperança de tirar seja lá o que fosse que estivesse bloqueando seu ar, mas não havia nada a ser tirado. Na verdade, seu corpo fisicamente aparentava estar perfeitamente normal, mas por dentro, a dor e a angústia dominavam. Era como estar sendo estrangulado, mas sem nenhuma mão apertando.

Tentou andar, mas não conseguiu suas pernas não obedeciam. Ao tentar dar um passo novamente, caiu no chão e não conseguiam nem mover mais seus braços para se levantar. Seus olhos agora enxergavam um céu azul com nuvens perfeitas e pássaros alegres. O mundo era maravilho visto deste ângulo, mas sua agonia era maior para poder prestar a devida atenção ao lugar. Quando estava quase desistindo de lutar pela sua vida, notou a sombra de alguém se aproximando. Não conseguiu enxergar as feições, não sabia definir o gênero, mas aqueles olhos se aproximando lhe deram uma enorme sensação de esperança. Convenceu-se de que agora estava salvo e então conseguiu respirar profundamente como há muito tempo estava tentando. Seu corpo agora era percorrido por um arrepio completo e um leve choque, como se de fato estivesse voltando à vida, até sentir o impacto na cabeça.

Abriu os olhos novamente suavemente e agora com um ar de estranheza percebeu que ainda estava no ônibus sentado. Notou que o rapaz do fone de ouvido também estava ao seu lado, mas agora ele também dormia. Ao olhar pela janela, percebeu que não estava próximo de casa, mas sim apenas um ponto a frente do ponto que ele havia acordado a primeira vez.

Agora sentia uma leve dor de cabeça, mas ninguém havia lhe tocado, então não poderia ser fruto de nenhum impacto. Não se lembrava com o que tinha sonhado, mas sabia que era mais algum pesadelo, uma vez que sentiu uma sensação ruim semelhante ao primeiro.

Ficou um bom tempo olhando para a janela observando novamente os carros passarem apressados quando tinham oportunidade, tentando ficar acordado, afinal, já tinha tido pesadelos demais pra uma única viagem de ônibus.

A vida passa de uma forma diferente dentro do ônibus. Pensasse muito sobre as coisas, mas nada se pode faze por elas. Principalmente quando se está sozinho, o tempo no ônibus se transforma num momento seu para seus devaneios fluírem. Porém, quando se está acompanhado de um amigo ou qualquer coisa do gênero, não se vê o tempo passar e nem ao mesmo você se lembra de qualquer preocupação anterior.

Ouvir conversas alheias nesta situação, mesmo quando não se presta atenção nelas nos deixam pensativos, e quando somos nós que estamos conversando, não percebemos que também existem conversas ao redor.

Tudo isso lhe passava pela cabeça até perceber que estava próximo de seu ponto. Levantou-se subitamente, assustando agora o rapaz que dormia ao seu lado. Espremeu-se entre as pessoas do corredor e em uma freada brusca, ficou cara a cara com uma moça que afastou o rosto como pode para que não se tocassem. Ele gentilmente pediu desculpas, mas ao olhar em seus olhos ficou um tempo perdido, com a sensação de que já havia visto aquele olhar antes.

Em casa, no conforto de seu lar, atualizando suas redes sócias com os acontecimentos do dia, não conseguiu parar de lembrar-se daqueles olhos. Não conhecia a moça, e ela era bonita, mas não o tanto para ficar pensando nela com algum tipo de desejo depois. A verdade é que não havia desejo nenhum, mas aquele olhar lhe perturbava.

Foi para o seu quarto e deixou seu corpo cair sobre a cama. Agora era a hora de dormir em paz com o corpo completamente em repouso, mas sua mente insistia em trabalhar pensando nas coisas daquele dia e naquele olhar… Suspirou na tentativa de limpar a mente, mas ao virar de lado, sentiu um arrepio gélido passar por todo o corpo. Num pulo de susto se levantou da cama assustado com o que estava vendo.

No espelho de seu guarda roupa estava a figura de uma pessoa de costas para ele. Não sabia dizer o que era, mas não podia afirmar se era humano. Mesmo tremendo, tocou o espelho. A imagem continuava estática, então abriu a porta do guarda roupa de uma vez temendo o pior. Não havia nada.

Sentou-se na cama, com o coração a mil. Agora não havia mais nada no espelho, mas a imagem ainda estava viva em sua mente. Suspirou tentando parecer aliviado para si mesmo, mas o medo ainda dominava.

94198_Papel-de-Parede-Olhar-Profundo--94198_1920x1200– Relaxe.

– O QUE DIABOS?! O QUE É VOCÊ?

– Apenas relaxe.

– ME SOLTA, QUE PORRA É VOCÊ? COMO ENTROU AQUI? O QUE VOCÊ QUER? – Ele respondia gritando, mas quase chorando por dentro como uma criança.

– Acalme-se! – disse a coisa segurando seus braços e sentando sobre ele para deixa-lo deitado. – Talvez prefira me ver nesta forma…

A “coisa” que antes era um híbrido de humano com algum tipo de animal marrom, agora virou uma bela moça numa camisola branca. Mesmo parecendo uma boneca de tão delicada, possuía a mesma força para manter ele imóvel sobre a cama.

– Esses olhos… VOCÊ?! Solte-me, por favor, me deixe em paz… – Dizia ele, deixando as lágrimas caírem.

– Xiii, calma bebê. Eu vou embora, mas antes, preciso dos seus sonhos. Antes preciso me alimentar da sua mente. Prometo que não vai doer nada… Eu já peguei alguns naquele ônibus. Alguns seus e de outros passageiros, mas eu gostei tanto de você… – Disse a moça, aproximando o rosto do dele, porém voltando a forma anterior o deixando mais aterrorizado. – Não vai doer nada bebê… – disse novamente com a mesma voz suave da moça. – Eu só vim buscar você, para mim…

 

/juhliana_lopes 25-09-2014