Jantar

abendessen, Romatisch, Kerzenschein, Kerze, atmosphäre, celebration, dining, event, flasche, geburtstag,  glas, italienisch, essen, jahrestag,  luxury, wein, Tisch, Restaurant, zuzweit, Liebe, Romantik, Abend,Hochzeit, Stimmung,celebration, chamber,Feier, Feiern, Party,Silvester,dunkel

Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

Menino

800

Nunca se viu um menino tão apegado com alguém como Alex era com seu avô. Desde muito novo, eles tinham uma conexão especial, e por vezes o menino declarava com um sorriso no rosto que gostava mais dele do que de seus próprios pais. Eles brincavam de tudo que a idade do senhor permitia, e quando este se cansava, Alex se sentava ao seu lado, paciente. Seria só mais uma história fofa e familiar, se o peso da idade não fosse cruel e com ele um acidente não tivesse ocorrido.

O avô e o menino brincavam na varanda, até que após um grande estrondo, a mãe percebeu que seu pai tinha caído da escada e Alex estava no alto, chorando sem saber o que fazer. O senhor, com o pescoço quebrado, e o sangue escorrendo da boca, não estava em uma posição que favorecesse os sonhos do garoto, e desde então ele ficou muito quieto. O garoto teve muitos pesadelos, gritava durante quase todas as noites e se recusava dormir com os pais. Falava coisas estranhas como se o avô ainda estivesse com ele, mas mesmo assim não conseguia se animar para nada.

Após dois meses, seus pais se dividiam nas opiniões. Pelo pai, era preciso levá-lo a igreja frequentemente, para estar mais próximo de Deus, e entender que apesar da fatalidade, seu querido avô estava em um lugar melhor, olhando por ele. Além disso, lá poderia ter outras crianças, e ele iria brincar e se distrair com elas. Já a mãe, achava que deveriam procurar a ajuda de um médico e um psicólogo, pois todo o quadro dele indicava uma depressão severa. Para melhorar seus argumentos, o menino também passou a passar mal algumas vezes durante a noite, sufocando sozinho. Toda vez que a mãe desesperada levava seu filho para o hospital, aumentava os argumentos para uma busca mais clínica.

No terceiro mês, Alex começou a frequentar a igreja nos encontros de catequese. Para a sorte do pai do menino, o padre que tomava conta das crianças, também era psicólogo, e após saber de toda a história, passou a prestar mais atenção no garoto para ajuda-lo da melhor forma.

Alex tinha dificuldade para se relacionar com as crianças, e não se sentia à vontade para brincar de nada, nem mesmo sozinho. Mal respondia às perguntas que faziam, e quando resolvia falar alguma coisa, as outras crianças ficavam com medo. Além da voz vazia, ele falava coisas sobre alguém ir lhes buscar, da mesma forma como buscaram seu avô.

– Bem, Sr. e Sra. Pena… – Ele começou – Acredito que o caso do Alex seja mais grave do que eu pensei.

Os pais se olhavam apreensivos. O padre estava com uma expressão pesada e parecia escolher bem as palavras antes de falar.

– Do ponto de vista clínico… – Ele os olhou com uma leve pausa – Ele está com um quadro depressivo bem desenvolvido, com todo seu isolamento, e principalmente na perda de vontade em fazer as coisas que mais gostava. Apesar disso, ele não apresentou nenhuma incidência suicida…

– Graças a Deus – o pai de Alex interrompeu.

– Ainda. – O padre continuou, sério. – Ele é um menino bom, mas seu quadro está o deixando cada vez mais distante de todos. Além disso, ele anda aparecendo com umas marcas roxas no pescoço…

– Eu disse para você! – Condenou a mãe do garoto, olhando para o pai. – Eu tenho passado ele no médico algumas vezes. Ele tem se sufocado a noite as vezes, mas ninguém conseguiu descobrir ainda como isso acontece. Um médico até insinuou que ele estivesse fazendo isso com o próprio lençol.

– Quantas vezes isso já aconteceu? – Perguntou o padre curioso.

– Pelo menos umas nove vezes, quase sempre depois de eu ir dar um beijo de boa noite nele. Quando os médicos disseram que ele poderia estar se sufocando com o lençol, eu cogitei a ideia de ele estar fazendo isso para chamar minha atenção e ficar mais com ele. – Respondeu a mãe com lágrimas nos olhos.

– Bem, se for esse o caso, é preciso estar mais atento ainda. Talvez as tendências suicidas estejam se desenvolvendo as escondidas.

– Mas padre… – suplicou o pai – E as crianças? Elas não tentam brincar com o Alex? Talvez se você falasse com elas…

– Sr. Pena, ultimamente as crianças andam com medo do Alex. – O padre falou cauteloso.

– Como assim padre? – O pai do garoto perguntou incrédulo.

– Bem, esse é o ponto religioso. Algumas crianças reclamaram que Alex anda falando coisas estranhas, e com uma voz estranha. Dizem que ele as assustam com gritos e fala coisas pesadas sobre elas caírem das escadas, e que ele mesmo vai buscá-las caso não parem de enchê-lo.

– Meu Deus… – disse o pai incrédulo com a mão sobre a boca. – Meu filho está possuído!

– Ah, por favor Thomas… – desdenhou a mulher.

– Senhor Pena, não estou afirmando nada. As crianças se impressionam com pouca coisa, do ponto de vista clínico, essa pode ser só uma resposta para que elas se afastem e…

– E do ponto de vista de Deus? Hein? – Perguntou o pai alterado. – Eu não te procurei para ficar me falando sobre a medicina e todas as desculpas que ela tem para coisas sérias! Para isso eu já tenho minha esposa ateia hipocondríaca que não sai do hospital!

– Thomas! – Gritou a mulher.

– Cala a boca Agatha. – Respondeu o pai sério para a mulher. Ela não disse mais nada, pois nunca o viu agir daquela forma. – O senhor é uma farsa como padre, como pude ser tão cego. Invés de ajudar meu filho com as suas orações, fica fazendo suas análises. Invés de trazê-lo para junto de Deus, o distancia, permitindo que o inimigo haja sobre o corpo dele. Eu não vou mais permitir isso! Vou leva-lo agora a um seminário, lá, ele vai ter contato com Deus de verdade!

Alex estava sentando no último banco da igreja, olhando para o chão quando seu pai saiu da Sacristia batendo o pé e falando alto. Ele levantou os olhos assustado, e viu sua mãe correndo atrás dele, e o padre tentando remediar a situação. Seu pai se aproximou e o puxou pelo braço, o arrastando para fora da igreja. O menino, tentou se livrar do pai que apertava seu pequeno braço com força. A mãe então interveio, conseguindo livrar Alex dos braços de Thomas, mas em contrapartida, acabou se desequilibrando e rolando a escadaria até a calçada.

O marido assustado, esqueceu do menino e correu para socorrer a mulher que não havia se machucado gravemente. O padre acolheu o menino em um abraço que chorava soluçando, depois de ver a mãe se machucar.

– Padre, por favor, cuida do Alex – Thomas suplicou, quase em tom choroso. – Vou leva-la para o hospital.

– Thomas, eu estou bem… – disse a mulher com um tom de voz fraco e sem conseguir se levantar.

O marido pegou a esposa no colo e a colocou com cuidado no carro. Arrancou em seguida enquanto Alex, calado observava. O padre passou a mão na cabeça do menino e o convidou para entrar.

– Está com fome Alex? Vamos fazer um lanche? – Perguntou o padre com um tom amigável. A expressão do menino era sombria, mas ele acompanhou o padre sem questionar.

Durante o lanche, o padre resolveu olhar melhor as marcas no pescoço do menino. Enquanto ele comia em silêncio, resolveu perguntar.

– Alex, o que são essas marcas no seu pescoço?

O menino mastigava, sem sequer olhar para o padre. Quando parecia que ia responder, ele dava uma nova mordida no pão e voltava a mastigar, olhando para o chão.

– Alex, eu quero te ajudar. Você está se machucando?

O menino então, parou de mastigar e começou a falar. Além de falar sobre as marcas, falou sobre seus pesadelos e as vezes que foi para o hospital. Quando Thomas ligou, o padre pegou o endereço do hospital e foi com o menino para lá. Era preciso conversar com todos.

– Olá Agatha, se sente melhor? – O padre começou.

– Sim padre. Foram só algumas pancadas, mas nenhuma fratura. Por que tudo isso? – Perguntou a mãe desconfiada.

– Bem, eu vou falar de uma vez, e como imagino que isso pode trazer mais conflitos – disse o padre olhando em volta – pedi para o médico que está cuidando de você e os enfermeiros para estarem juntos. Eu descobri sobre as marcas do Alex.

Nesta hora Thomas olhava aflito para o padre, enquanto Agatha ficava pálida.

– Thomas, sua própria esposa provocava o sufocamento no menino. Ele me contou. Estranhei pelo fato dela sempre estar presente quando isso ocorria. Acredito que ela tenha o que chamamos de síndrome de Münchausen. – O padre tentava explicar rapidamente percebendo a fúria de Thomas tomando conta do homem. – Nesta síndrome, a mãe de forma intencional, provoca sintomas em seu filho, para que ele seja considerado doente, e tenha cuidados médicos, colocando a vítima geralmente em situação de risco. É compulsivo e muitas vezes é difícil se livrar desse comportamento, mesmo depois de se tomar conhecimento dele, por isso…

– Sua vaca! – Interrompeu Thomas, tentando asfixiar a mulher. Os enfermeiros interviram na hora segurando o homem enlouquecido. A mulher, chorava tentando se explicar.

– Eu não fiz por mal… – Ela dizia enquanto soluçava. – Ele precisava de cuidados, e você não entendia, se fosse algo mais grave você iria perceber…

– Por favor, parem com isso. Alex esta lá fora, vai estranhar essa gritaria. – Tentou acalmar o padre. – Doutor, eu já lhe expliquei o caso antes de vir aqui, por favor cuide deles, eu vou olhar o menino. – Disse o padre, deixando o médico tomando conta da situação enquanto ia ver o estado de Alex.

Alex não estava no corredor, mas sim sentado no canto de um degrau no alto da escada. O padre, sentou do lado dele, com o braço sobre seus ombros.

– Vai ficar tudo bem Alex. Eu vou te ajudar. – Disse o padre consolando o menino.

– Tudo bem. – O menino respondeu enxugando as lágrimas. – Mas não sei se você terá tempo.

O padre estranhando as palavras do menino, perguntou sobre o que ele estava falando. O menino então se levantou, pedindo um abraço. O padre, o abraçou sem se levantar, e pode ouvir o menino sussurrar em seu ouvido.

– Você não tem mais tempo. Primeiro eu busquei o avô, agora você. Depois será o pai e por último a mãe. – A voz do menino estava alterada, carregada como se fosse mais velha. Antes que ele pudesse olhar o rosto de Alex, o padre sentiu o garoto o empurrando com uma força anormal. Ele perdeu o equilíbrio e rolou escada abaixo, batendo a cabeça repetidas vezes na quina dos degraus, falecendo logo depois.

O menino, voltou a se sentar no degrau, com um sorriso no rosto e os olhos negros olhando para o chão.

juhliana_lopes 28-05-2016

Sugestão do tema: Leonardo de Paula

Referências: Sobre a síndrome de Münchausen (clique aqui)

Provocação

img_179839523_1316273019_abigAntes de fechar a porta deu mais um daqueles sorrisos encantadores e saiu deixando seu perfume. Estava contratada, mas se quisesse nem precisava trabalhar, afinal, sempre conseguia o que queria. Sempre caprichando na cruzada de pernas, percebeu enfim que foi uma boa hora de investir naquela saia com dois dedos a menos, imperceptíveis com a postura correta, mas bastante revelador em uma posição mais ousada. Seu chefe também era um bobo. Casado, casamento com rotina, foi fácil mostrar a carne ao lobo faminto, seria uma questão de tempo até acontecer às primeiras reuniões à noite.

Com seu charme, não havia chamado atenção apenas de seu superior. Os outros homens do setor também caíam de suspiros ao vê-la passar, e com um jeito tímido, porém extremamente sensual, ia partindo mais corações.

Mas o que um demônio poderia querer numa empresa tão simplória que cuidava da produção de jarras e taças de cristal? O que um ser como ela poderia querer em algo que já havia alcançado o ápice, e dali não poderia ir para nenhum lugar a não ser para baixo?

Mais do que dinheiro, ela procurava a força vital, os sonhos, aquilo que alimentava os homens e lhes dava forças para viver. Queria tudo até ficar sem nada. Começaria por um e aos poucos tomaria conta de todos.

Um mês depois, já era assunto entre as rodinhas masculinas. Sobre como a blusa se ajusta bem ao seu corpo, deixando escapar um decote generoso de vez em quando. Em como a saia que ajusta em suas coxas e vai subindo aos poucos conforme o seu rebolado enquanto caminha. E que mesmo com toda sensualidade, como nenhum homem tinha coragem de chegar nela e lhe falar todas as coisas insanas que tinham vontade, por causa daquele rostinho tímido e lindo de menina, que fazia parecer um anjo tão inocente que seria um pecado mortal se referir a ela com qualquer coisa maldosa.

Na sala do chefe, ele sempre dava um jeito de encostar ou se esfregar nela. Já estava até sentando no colo dele de vez em quando, com algum papinho mole no ouvido, mas nada de avançar demais, afinal, aquele olhar meigo que ao mesmo tempo o provocava não o deixava se concentrar.

Já ela, estava começando a ficar com fome, o clima já estava perfeito, mas tinha que ser cautelosa afinal, qualquer passo errado e o encanto iria se perder. Então se aproximou de Jaime. Homem bonito, viril, o cara da balada de fim de semana, porém excelente profissional. Quase um galã. Respeitava todas as mulheres no ambiente de trabalho como se fossem suas mães, mas ao ficar preso – sem entender como – no estoque com a nova secretária, e ela ficar lhe abraçando com medo de locais fechados, não se conteve e teve que se aproveitar da situação. Ela é claro, pareceu ofendida, mas quando ele teria uma oportunidade daquelas de novo? Prometeu a si mesmo manter discrição e ela também não parecia à vontade para lhe denunciar. Acabou ficando por isso mesmo.

Mesmo que ele quisesse, não poderia ter contado, afinal, no dia seguinte estava com uma forte gripe que lhe deixou de molho por uma semana. Sentia-se um pouco desmotivado também, o trabalho já não atendia suas expectativas, mas preferiu manter o foco em seu trabalho como sempre para ver se as coisas melhoravam.

Adriano foi o mais sortudo. Ficar três horas com ela preso no elevador por causa da falta de luz foi o melhor momento de sua vida. Nunca pensou que uma pessoa tão tímida poderia ser um furacão com aquele. Sobretudo como foi rápida em colocar a roupa de volta quando o elevador voltou a funcionar. Realmente, segundo ele, daria uma obra prima se alguém pintasse um quadro sobre o assunto. Assim como Jaime, não conseguiu contar a ninguém, e nesse caso nem foi uma gripe, mas uma fatalidade que lhe tirou do seu rumo. Atropelado quando estava indo ao trabalho no outro dia, encontrava-se em coma no hospital.

Anderson seria o próximo. Estava contente porque ela respondeu seu bilhete durante a festa da empresa. Estaria esperando por ele na sacada do andar de cima. Subiu as escadas assobiando e lá estava ela, linda, com um vestido branco que marcava a cintura e deixava as costas nuas. Ficaram ali conversando por um bom tempo, e enfim, um beijo apaixonado se seguiu. Em seguida, como dois adolescentes já estavam se enroscando, com medo de serem pegos.

Depois do êxtase, ele parou para admirar a lua e ela seguiu para a escada.

– Ei, não vai me esperar linda?

– Talvez… Acho que você não vai mais querer nada comigo não é? – Ela parecia abatida, triste, com lágrimas juntando aos olhos.

– E porque não iria querer? Eu adorei nossa primeira noite, escondido, com perigo sempre dá mais prazer…

– Mas eu não acabei sendo fácil demais?

– Claro que não. Você acha que eu não vou querer mais nada com você porque já fiz o que a maioria dos homens quer fazer? Eu não sou como eles… Eu quero ficar com você, namorar, quero ter você pra mim! – Ele dizia segurando suas mãos. Secou suas lágrimas e lhe deu mais um beijo, e então juntos desceram as escadas.

Aproveitaram o resto da festa e então foram embora. Para não ficar chato na frente da turma, ele subiu mais uma vez, pois ela já estava lá esperando para uma despedida.

– E quando vamos assumir? – agora ela falava num tom manhoso.

– Quando você quiser meu amor!

– Amanhã então, quando você chegar!

– Tudo bem! Até amanhã meu amor! – Ele disse lhe beijando a última vez.

Ao descer as escadas, só teve tempo de ouvir um barulho forte e desviar quando algo veio rolando atrás dele. O desespero tomou conta quando percebeu que quem estava lá embaixo no fim da escadaria ela sua musa. Olhou para cima assustado e viu uma figura tirando os óculos e segurando no corrimão. Desceu correndo para verificar o estado de sua amada.

– Largue-a!

– Do que você está falando Walter? – Ele gritou quando seu colega de trabalho lhe puxava para longe da bela dama.

– Você não vê? Ela ia te empurrar! Ela é um demônio!

– Você é imbecil? Está ficando louco? – Anderson se soltou e correu mais uma vez para sua amada, mas quando chegou perto, sentiu um arrepio profundo que fez a nuca eriçar.

Ela estava torta por causa da queda, mas tinha um sorriso maligno no rosto. Seus olhos que eram de um verde delicado, agora estavam vermelhos e as unhas pareciam ter dobrado de tamanho como garras.

– Walter seu maldito, porque tinha que estragar tudo? – Ela se levantou mesmo torta falando com uma voz forte que nada lembrava a mocinha delicada como criança.

– Volte para o inferno! Não precisamos de súcubos aqui!

– Eu vou te matar! – Disse ela partindo para cima dele como uma besta feroz. Anderson mal podia acreditar em seus olhos. Parecia uma fera selvagem atrás de uma caça, mas antes que conseguisse se aproximar demais, Walter sacou um revólver e a derrubou.

– O que você fez? O que está acontecendo afinal? – Disse Anderson tremendo.

– Vamos embora daqui, ela não morreu, e quando acordar vai vir com uma fúria ainda maior!

– E como você sabia que ela era… Aquilo? – Disse Anderson ofegante enquanto corria.

– Porque eu também não sou humano…

 

juhliana_lopes 23-07-2014