Depois do coma

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Ele acordou no nosso tempo desnorteado. Foram anos em coma e mais um tempo retornando aos poucos, reaprendendo a falar e a andar. Mesmo com os longos meses de recuperação, ninguém apareceu para busca-lo, nenhum parente ou contato. De alta, pegou suas coisas e começou a caminhar pela cidade que ainda era a mesma, mas ao mesmo tempo era tão diferente a seus olhos. Era noite e precisava de uns trocados, achou enfim um caixa eletrônico do banco que tinha uma poupança. Para sua sorte, havia muito dinheiro, o suficiente para comprar o que quisesse, mas resolveu sacar só um pouco e foi comprar cigarro.

Entrou em um bar onde existia uma música horrível tocando. “Então era isso o futuro?” pensou consigo mesmo chateado. Pagou e achando um absurdo o preço do cigarro e se surpreendeu mais ainda quando o acendeu e foi avisado que não podia fumar ali, só tinha o direito de fumar em locais abertos. O futuro não parece nada com o que ele sonhava nas noites de sua infância. As pessoas se vestiam de forma estranha, quase seminua, aquilo incomodava seus olhos. O cheiro da poluição afetava seu nariz e fazia lágrimas escorrerem, então fumava um cigarro atrás do outro, para tentar amenizar o odor. Luzes muitas luzes, parecia que tudo era feito de luz, a noite se confundia com o dia. Os carros silenciosos passavam rapidamente por ele, e motocicletas voavam baixo pelas ruas; ruas que ele desconhecia onde só os nomes eram os mesmos, mas as casas, as pessoas eram todas diferentes. Seguindo por mais ruas barulhentas, chegou a seu bairro, pelo menos o que ele achava que deveria ser. O reconheceu por uma árvore que havia em uma pequena praça. Era estranho ela ainda estar ali em meio a tantas mudanças, era como uma cápsula do tempo para ele, algo precioso que fez seu coração disparar de felicidade por alguns segundos. O resto lhe deixava preocupado. Todas as casas possuíam muros altos, inclusive a que ele morou um dia, que agora era maior e pintada com cores vivas. Aparentemente tinha gente na casa, e mesmo com um aperto no peito ele apertou a campainha. Eram por volta das 21h ainda, as luzes estavam acesas, e alguém apareceu. Ele observou a mulher que se parecia muito com sua mãe, porém mais nova, se aproximar do portão. Um nome lhe veio à mente, Emanuele.

– Pois não? – Ela lhe disse, não o reconhecendo.

– Emanuele? – Ele respondeu.

– Sim e você é quem? – Respondeu a moça ainda sem abrir o portão com uma das sobrancelhas arqueada como sua mãe fazia quando estava desconfiada.

– Como não me reconheceu? Sou eu Carlos! – Ele disse numa mistura de surpresa e desespero interno ao perceber que ela não se lembrava dele. Houve um silêncio breve, e um ar de surpresa na face dela.

– Como assim Carlos? – seu tom agora era preocupado, mas ainda com um pouco de desdenho. – Carlos meu irmão? Não pode ser, é impossível! O Carlos… Ele… Ele está morto! – Disse por fim como se para dizer isso, fosse difícil de engolir.

– Bem… Não estou… Pelo menos… – disse olhando para suas mãos por um breve momento – Não aparento estar.

– Moço, isso é algum tipo de brincadeira? Isso não tem graça nenhuma sabia? – disse Emanuele com um tom de choro, mas ainda se fazendo forte.

– Eu não morri! Estou aqui! Disseram-me que eu fiquei de coma, já faz seis meses que eu acordei. Passei por muitas sessões de fisioterapia para aprender a andar novamente. Eu tive que aprender a falar de novo também! Eu não posso estar morto… Olha pra mim! – Ele se sentia mal em ter que dizer tudo aquilo. Nem tinha certeza se aquela era mesmo sua irmã e já estava colocando seu desespero pra fora. Nunca foi de convencer ninguém a nada e agora, por dentro se sentia fraco e impotente. Ainda sim, sentia uma necessidade horrível em ser reconhecido e não podia perder a chance, por mais que seu orgulho gritasse para não fazê-lo.

– Eu não sei se estou ficando doida, mas agora você falando, reparei algumas semelhanças com meu pai. Mas não, é só a minha mente querendo brincar comigo. Você… O Carlos, ele morreu. Eu ajudei a preparar o corpo, eu o velei por uma noite inteira e o enterrei, há 10 anos. Por favor, saia daqui antes eu chame a polícia! – Ela sentia um gosto amargo na boca ao dizer tais palavras. Apesar de pedir para que ele saísse, ela permaneceu ali no portão, se segurando na barra, desejando que tudo aquilo fosse um sonho ruim. No fundo o que ela mais queria era abraçar aquele homem, mas como poderia confiar se ela o tinha visto morto.

– Espere, é uma prova que você quer? – disse vasculhando seus bolsos – Aqui está! Aqui! – mostrou com um sorriso desesperado – Me deram no hospital. Meus documentos, eu consegui até tirar dinheiro da minha poupança usando o número antigo da minha conta. Olha! Olha! – Ele mostrava eufórico, colocando sobre as barras do portão. Nunca havia sentido essa sensação. Um medo misturado com angústia. Será que era assim que as pessoas com amnésia se sentiam? Será que era assim que as pessoas abandonadas se sentiam? Será que esse era o preço para ser invisível? Diversas questões saltavam em sua mente e explodiam diante de seus olhos, fazendo sua cabeça pulsar num misto de dor e febre que aos poucos o deixavam mais fraco. Agora tremia e suava frio, sem nenhuma explicação.

– Espera… – Emanuele examinava os documentos com cautela num misto de desconfiança com uma esperança oculta. Era certo que diversas vezes sonhou em reencontrar seu irmão, mas mal podia acreditar que aquilo poderia estar acontecendo mesmo.

– Você?! – Gritou surpreso um homem alto descendo as escadas.

– Ro… Roberto? – falou com cuidado apertando os olhos tentando reconhecê-lo.

– Amor, é o Carlos, olha… São os documentos dele, é ele! – Ela dizia com uma voz doce levemente histérica mostrando ao marido os documentos.

– Você! – falou mais uma vez o homem abrindo o portão com violência. – Quantas vezes eu vou ter que te matar? – Ele gritava, agarrando-lhe pela blusa. Se fosse há outros tempos, já teria derrubado o cara com um soco, pois não admitia que ninguém lhe tocasse, ainda mais tão perto do rosto. Agora se sentia um boneco, sendo jogado de um lado para o outro por aquele gigante de terno.

– Amor! Larga ele! – Emanuele tentava em vão separá-los.

Roberto então o largou no chão. Ele não tinha forças para se levantar, e então percebendo a besteira que fez, tentou levar sua esposa para dentro novamente.

– Não liga pra esse louco. Vamos embora amor… – Ele dizia tentando empurrar a esposa para dentro.

– Não! – Emanuele gritou. Talvez fosse a primeira vez que enfrentava o marido diante de uma ordem, e agora não iria parar. – Como assim, “quantas vezes eu vou ter que te matar?” O que você quis dizer com isso? – Nem Roberto, nem Carlos nunca haviam visto ela em uma posição tão ofensiva. Roberto sempre a teve como a esposa obediente que precisou de amparo com a morte do irmão e dos pais um tempo depois, precisando da ajuda do marido para administrar a herança que recebeu de seus pais. Carlos só se lembrava dela como uma menina doce e carinhosa que amava os pais e tinha uma admiração enorme por ele como irmão, muitas vezes querendo imitá-lo em tudo, e sempre o protegendo com seus abraços quando tinha pesadelos a noite e fingia que não estava chorando.

Roberto, com o sangue que lhe subia a cabeça deixando vermelho, após a primeira explosão, explodiu pela segunda vez.

– Eu forjei a morte dele sim! Cuidei de tudo, você precisava do dinheiro, nós precisávamos… Eu precisei pra fechar aquele negócio que colocou a minha empresa no topo! Você nem percebeu que eu coloquei outro corpo, que diferença faz agora? Ele está tão morto quanto seus pais. A diferença é que seus pais foram de modo natural, e quanto a ele, foi de uma forma tão natural quanto eu pude deixar. – Ele falava com pressa e afobado. Chegava a babar em certos momentos como um cachorro raivoso. Pegou Emanuele pelos braços e continuou a falar atropelando palavras. – Manu… Esquece ele, esquece tudo! Nossa vida está indo tão bem, não está meu amor? Já está tudo planejado, nossa nova casa, sem passado, sem miséria, sem nada pra nos atrapalhar… Deixa esse traste pra lá…

Nesse instante Carlos se levantou, afastou Roberto de Emanuele e como se tivesse recuperado a juventude, acertou um soco na boca com a mão direita, encaixando a sua palma esquerda no queixo em seguida, o derrubando desacordado no chão. Emanuele, em choque chorava e abraçou o irmão como há muito tempo sonhou.

Aquela seria uma noite longa afinal, uma noite extremamente longa. Com as coisas um pouco mais calmas, pode então olhar a lua. Deu um suspiro pesado e pensou: “Talvez nem tudo tenha mudado…”.

juhliana_lopes e Aleks Durden 06-06-2015

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Fumaça

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Acordou pela manhã com aquele cheiro de fumaça característico que conhecia bem e com os lençóis da cama molhados. Além disso um ruído o perturbava. Atendeu o telefone ainda  sonolento e tudo o que conseguiu distinguir foram poucas palavras sobre não deixar cigarros acesos para não disparar os alarmes de incêndio do quarto. Sentou-se na cama e esfregou os olhos. Cobertor, forro de cama, colchão, tudo encharcado.

Abriu a janela e sentiu o vento frio bater em sua pele enquanto o brilho do sol da manhã lhe cegava lenta e sadicamente. Respirou fundo e olhou o estrago. Seria sempre a mesma coisa, e não se sentia tão incomodado com isso, desde que suas roupas permanecessem seguras, poderia continuar vivendo em hotéis como mochileiro playboy.

Foi ao banheiro e então procurou marcas no rosto. Nada, nem uma espinha. Até que esse tipo de tratamento surtia efeito como diziam. Olhou mais uma vez ao redor dos olhos. Nenhuma ruga. Talvez tudo o que disseram não fosse verdade, o que era ótimo considerando esta parte.

Abriu o chuveiro e deixou o vapor tomar conta do lugar. Respirou fundo e tentou lembrar de algo da noite passada antes de toda a tequila e a vodka cor de rosa. Entrou na água e era possível sentir a pele cozinhando de tão quente, mas até que não sentia dor. Na verdade, há muito tempo queimaduras havia deixado de ser um problema.

Após um longo tempo, enrolou-se na toalha e mais uma vez deu uma volta pelo quarto avaliando os prejuízos. Cigarros, disse para si mesmo rindo baixinho. Pegou então suas roupas numa pequena caixa de metal revestida por dentro que sempre levava consigo. Dobrando com jeitinho tudo cabia ali, mas seus sapatos sempre ficavam de fora. Guardou suas coisas e o resto de muitas delas e foi acertar sua conta.

Mais tarde, almoçando em uma lanchonete de esquina bem longe do hotel percebeu que não havia pego o número dela. No fim era até melhor, afinal sua pele era tão fria e seu rosto tão bonito, seria uma pena estragá-lo em um momento de êxtase. Em todo caso, não conseguia parar de pensar na forma como sua língua havia invadido sua boca de forma tão sutil convidando-o para algo mais. Não sabia se a encontraria de novo, mas se encontra-se, não perderia tempo. Seria um desperdício no fim das contas, mas ele dava conta de ocultar um corpo sozinho se fosse o caso.

Ainda perdido em pensamentos, foi surpreendido com um tapa nas costas e um aperto de mãos. Uma leve fumaça saiu dos seus ombros mas logo estava tudo tranquilo como sempre. O agressor em questão era um velho amigo que há muito tempo havia saído para conhecer mundo como ele, talvez por motivos pessoais ou até mesmo motivos bizarros como os dele.

– Anda sumido cara, o que anda fazendo de bom?

– Nada, só curtindo. E você?

– Curtindo também, daquele jeito. Fechei alguns negócios bons ontem. As vendas andam boas.

– Ainda com o negócio de ervas?

– Sim, mas expandi para o álcool também, o pessoal daqui adora uma balada.

– Entendo. Tem que aproveitar mesmo, está certo.

– E você hein? Acho que vi uma fumaça suspeita ontem do décimo quinto andar… – disse o amigo dando um soco leve em seu braço.

– Era o décimo terceiro. Eu já nem esquento mais com isso,  acontece sempre… – pensou um pouco enquanto tomava um gole do seu chá – perdão pela piada infame, não foi intencional.

– Não tem problema, as vezes a gente esquece! Mas uma coisa que você poderia esquecer e não consegue é esse negócio de chá…

– É a única bebida que não fica ruim quando requentada.

– Sei como é, bem, vou indo antes que eu tenha uma “combustão”, digo, indigestão – o amigo se despediu rindo como se tivesse tido algo brilhante.

Terminou o seu chá e foi embora. Percebeu ao pagar a conta a surpresa da garçonete em quase queimar os dedos quando retirou a xícara e os talheres da mesa. Percebeu por um momento os olhares dela como se estivesse vendo o demônio, mas quando a encarou de volta, ela desviou o olha, sem graça.

Caminhando sob o sol forte da tarde, resolveu descansar um pouco embaixo de uma árvore. Enquanto se ajeitava procurando uma posição confortável sentiu um leve incomodo no nariz.  Não se contendo, espirrou e então aconteceu de novo. Não demorou para que as folhas mais baixas da  árvore ficasse pretas como carvão e as outras chamuscadas. A alça da sua mochila já era mas pelo menos suas roupas feitas com tecido especial daqueles que usam em roupas de bombeiros, não tinham dado uma perda total.

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Quando criança não se lembra de entrar em combustão constante, mas na adolescência era só se ver sob uma situação de pressão que sentia suas orelhas arderem. Na primeira vez o susto de ver tudo pegando fogo e correr de um lado para o outro como um idiota. Depois perceber que o fogo em si não queimava como deveria e por último mais uma vez foi ver que a garota do primeiro beijo estava com queimaduras graves na boca e no rosto e uma semana depois ainda estava internada com o rosto desfigurado sem saber explicar como aquilo tudo aconteceu.

Demorou mas aprendeu a controlar, mas ainda tem algumas crises surpresas quando dorme ou quando está entediado. Percebeu também que qualquer coisa que conduza calor vai conduzir quando ele o toca, mesmo sem querer, então problema de tomar bebidas frias pois elas chegam fervendo em sua boa, perdendo toda a graça.

Descobriu que com sua condição, ele era sozinho no mundo, porém havia um lar de esquisitices onde ele pode fazer algumas amizades. Isto incluía um caçador, um rato e o Cássio  que tinha uma inteligência enorme em criar coisas e receitas, e claro no cultivo de plantas.

Se ajeitou novamente e fechou os olhos lentamente, esperando que ninguém aparecesse ali de surpresa. Quem pudesse ver com atenção, era possível perceber uma leve fumaça saindo de suas narinas ao respirar e ver o mormaço saindo de seu corpo, mesmo na sombra, da mesma forma que se vê em uma telha ao sol do meio dia.

04-06-2015 /juhliana_lopes

Mais uma!

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Devia estar no quinto cigarro seguido. A fumaça tomava conta do lugar, mas ninguém se incomodava, na verdade, ali era o único lugar onde ainda se podia fumar com conforto. Assim como o cigarro, a cerveja já havia ultrapassado seus limites e já era possível sentir seu cheiro à distância. Como quem acorda de um sono bom, daqueles últimos da manhã, ele se levantou e saiu pela porta dos fundos onde havia uma pequena área. Precisava esticar as pernas antes que o sangue parasse de circular.

No horizonte o sol começava a se por, pintando o céu quase por completo em um tom de laranja forte, quase como a cor de madeira em brasa. A brisa soprava leve carregando a poeira para todos os lugares. Com a mão no bolso, terminando seu cigarro, não conseguia pensar em nada além do que fazia para passar o tempo.

Pensou ter ouvido alguma confusão no bar e voltou para ter um pouco de diversão, mas não passava de alguns moleques tentando roubar alguma fruta. Nada que valesse a pena. Jogou seu corpo pesado sobre a cadeira e ao pegar mais um cigarro e quem sabe variar a cerveja com um copo de uísque.

Então ela chegou. Bem vestida e perfumada, com a pele alva e o cabelo ruivo. Era longo, mas estava preso com um rabo de cavalo, de modo que uma franja leve caía aos olhos. Olhos cor de mel, contrariando as expectativas de verde ou azul, mas que davam um toque tão especial que a deixava ainda mais bela. O vestido vermelho solto na cintura dava destaque ao batom de seus lábios num tom carmim, e a bolsa preta que carregava a mão, dava um leve toque de rebeldia em relação à moda.

Não deu atenção aos demais do bar, entrou, foi para o balcão, trocou duas palavras rápidas e saiu apressada. Não deve ter dado mais que alguns minutos, mas para ele, foram os melhores de sua vida.

A noite agora caía sobre todo o ambiente lá fora, e dentro as luzes fracas de lampião ardiam com o querosene. Mais cigarros e bebidas e agora um ou dois petiscos para enganar o estômago. Saiu novamente, desta vez na porta da frente. Apesar de ser uma noite aparentemente fria, não sentia a necessidade de se agasalhar, e mesmo com o vento frio cortando o rosto, não queria voltar para dentro, mas voltou, quando o cigarro mais uma vez acabou e ele se viu forçado a buscar outro.

Um homem baixo limpava o balcão com um pano surrado e encardido. Ele vestia uma camisa branca, social, e um avental tão encardido quanto o pano cobria sua roupa. A testa calva aparente brilhava sobre a luz fraca que iluminava o local, e ao passar o pano com movimentos marcados, cantarolava baixinho uma canção aleatória.

– Quem era ela? – perguntou de cabeça baixa ao rapaz do balcão.

– Quem? – ele respondeu, também sem levantar a cabeça continuando seu trabalho.

– A ruiva.

– Ela? Não era ninguém. Ela foi para baixo.

– Uma pena. – ele respondeu voltando a sentar em sua mesa.

Estava no paraíso, é verdade. Ganhou o privilégio de estar no céu, porém, do que isso adiantava se os escolhidos haviam sido tão poucos. Tinha tudo que queria, mas não podia saciar sua curiosidade de saber como era o outro lado. Como era “lá em baixo”.

– Mais uma! – levantou o caneco em direção do balcão.

Não se lembrava de ter passado tanto tempo pensando, mas agora já estava amanhecendo. Ao pegar mais um cigarro, tinha certeza que já devia estar no décimo ou décimo quinto, mas quando pegou, ainda era o primeiro do maço. O tempo parecia andar depressa mesmo passando lentamente para ele com a falta do que fazer.

– Mais um dia, afinal… – suspirou pesadamente enquanto acendia seu cigarro. – Mais um dia perfeito… Um brinde ao paraíso! – Disse por fim levantando a caneca ao ar, mas ninguém respondeu o brinde ou se quer olhou para ele, como todos os dias, até a eternidade.

 

juhliana_lopes 23-07-2014

Tudo muito diferente

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Uma tosse seca. Era preciso depois de tanta fumaça e nada para molhar a garganta. O ar úmido do fim da madrugada que entrava leve pela janela entreaberta, também ajudavam nesta pequena irritação. Deixou o cigarro de lado, e foi até a janela. Havia uma fraca neblina começando a se formar e já era possível enxergar uma leve faixa laranja no horizonte, logo o sol iria sair e o dia prometia um calor intenso. “Merda!” ele pensou. Fechou a janela, e voltou a seu cigarro, o seu doce néctar dos deuses. Deixou o de lado novamente e ficou pensando, no que faria agora. Passou metade da madrugada tentando e não conseguiu mais que cinco linhas.

Olhou para a cama, ela dormia feito um anjo, e acordaria com um típico mau-humor sensualmente provocante, por ele não ter dormido nada. Ela nunca ficava brava realmente, pelo menos não na sua frente. Continuou a escrever, não mais que uma ou duas linhas, até ouvir um ruído. Talvez fosse um sonho, ou um pesadelo, mas ela estava agitada e gemia algo baixinho. Deitou-se um pouco ao lado, lhe deu um abraço e sussurrou em seu ouvido: “Calma, estou aqui, pronto, já passou” tudo se acalmou. Ficou um tempo ali, apenas ouvindo a respiração, sentindo o coração dela bater, e com a certeza de que ela também sentia o seu.

Levantou-se cuidadosamente, e voltou ao seu cigarro, que agora estava quase no fim. O quarto estava cheio com o cheiro da fumaça, e então ele voltou a deixar a janela meio aberta para o ar circular.

“Era tudo tão diferente há um ano…” ele se pegou dizendo alto. Não dizia de forma rancorosa, mas sim com um tom de nostalgia. Realmente tinha sido tudo diferente no ano passado, mas de forma alguma ele achava ruim a situação que se encontrava atualmente. Tudo estava indo de acordo, calmo, e as vezes até meio inerte, mas nunca ruim. Olhou novamente para ela, se esticou até lhe acariciar o rosto, tirando o cabelo do olho. Voltou ao computador. Escreveu, não algumas, mas várias linhas desta vez. Leu, reescreveu algumas linhas, apagou o final, acrescentou mais uma parte, encerrou de outra forma.

Com o cigarro agora apagado, ficou ali observando a tela. Apenas o silêncio do quarto, agora ficando mais claro, e com os raios de sol entrando teimosamente pelas frestas da janela. Alguns deles estavam agora sobre ela, que acordou cobrindo os olhos. Sentou-se na cama, tentando arrumar o cabelo (se preocupava em parecer bonita para ele), e olhou de forma ameaçadora.

“Vai me matar?” ele disse sorrindo. Ela não respondeu, ficou apenas ali, olhando para ele, depois para o computador e a quantidade de cigarros que havia em volta. “Nem vou te falar nada sobre isso, tá?”

Ele apenas sorria para ela. Quando ela tentou se livrar dos cobertores e se levantar, ele foi para a cama e ficou na sua frente, segurando seus braços. “Eu tenho que levantar, é você que vai ficar e dormir, não eu…” “Tem coisas melhores pra se fazer do que dormir…”

Com um beijo longo e extremamente envolvente ele se deitou sobre ela. Quando pararam para respirar, ela olhava diretamente em seus olhos, e com um sorriso tímido disse “Eu te amo”. Ele respondeu e logo os dois estavam se despindo, como numa paixão desesperada.

Depois do ato, ela se levantou, vestiu a camisa dele e sentou-se em frente ao computador. Agora era ele que dormia, pesadamente mas ainda sim com uma serenidade notável no rosto. Ela leu, ficou um tempo olhando, fechou a janela. Se vestiu apropriadamente, e lhe deu um beijo no rosto. Saiu do quarto, e alguns minutos depois, deixou sobre a mesa, ao lado do computador uma garrafa de café e um bilhete. Lhe deu mais um beijo, e saiu.

Ele se levantou três horas depois, esfregando os olhos. Viu o café, o computador, o bilhete. Esfregou novamente os olhos, viu tudo girar. Procurou suas roupas, e pegou o bilhete: “Muito lindo o texto, adorei. Tem café, e o remédio pra dor de cabeça está na mesa. Se quando eu chegar você não estiver dormindo eu te mato mesmo. Com amor, beijos.” Ele riu. Tomou um pouco café, fumou mais um cigarro e voltou a dormir.

 

juhliana_lopes 20-05-2013