Cinza

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A chuva caía fina sobre seu rosto. Sabia que tinha que se levantar, mas a ideia de não encarar o mundo lhe parecia extremamente mais interessante, que preferia ficar ali, de olhos fechados. Sentiu uma pontada aguda no estômago que a fez se retorcer e enfim, abriu os olhos. Enquanto ainda se retorcia com a dor do chute que havia levado, ouviu uma voz forte dizer: “Está vivo, levem-no!”.

Com sujeira por toda parte o cheiro de pólvora ainda estava forte. Seu rosto e suas roupas estavam cobertos de lama fina e poeira seca, provavelmente pertencente à explosão. O céu cinza e a garoa que tentava amenizar a situação traziam um ar ainda mais macabro para aquele cenário de guerra.

A verdade é que havia uma guerra propriamente dita, porém aquele ataque não havia partido do campo inimigo e sim dos próprios aliados. Também não havia sido algo “sem querer”; o que aconteceu foi uma “limpeza” propriamente dita, meticulosamente planejada, afinal, precisavam de terreno para um recuo, caso fosse necessário e claro, um espaço para criar uma base fixa para enfim avançar. Em algum momento, o governo ainda discutiu se talvez não fosse melhor uma retirada segura dos habitantes locais, colocando-os em um local seguro, mas no fim, após vários cálculos, perceberam que sairia bem mais barato explodir tudo e limpar a sujeira depois. Afinal, uma cidade pequena e pobre não faria tanta diferença, e a manipular a mídia era praticamente de graça.

Apesar de toda sujeira, ela tinha a pele alva e os olhos mais lindos da região. Seu cabelo um dia foi grande e um dia ela pode correr livremente pelos campos. Mas desde que seus pais haviam sido mortos algumas semanas antes, também por causa dos combates – no caso deles, foram mortos, pois estavam na fila pra pegar comida e como o alimento não era suficiente para todas as pessoas algumas foram “excluídas” para que a cota fosse atingida de maneira correta – ela começou a andar com as roupas do pai, pois eram mais quentes no frio da noite. Os cabelos, desde que a guerra havia começado, foram cortados, pois com a falta de água não seria possível manter com o mesmo cuidado. Nestas condições, ao ser pega pelos soldados, foi confundida com um menino e jogada na ala dos homens. Assim como os guardas, os prisioneiros também não notaram a diferença e ela também não fez questão de desfazer a confusão.

Desde a morte de seus pais, ela não fazia mais questão de discutir ou questionar; foi por fazer perguntas que muitos morreram no início da guerra e assim, observando, ela aprendeu que falando ou ficando calada, a morte chega para todos, sempre na forma de um tiro ou uma explosão. Buscava apenas sobreviver em meio ao caos, uma vez que ali era um pedaço esquecido por Deus – e pelos homens também.

Foi em uma questão de minutos que começou a se sufocar com o cheiro que havia aparecido de repente, sentindo seu corpo amolecer logo em seguida. Já não conseguia respirar direito e sentida todo o ácido do estômago subir pela garganta. “Será que esse é o tal gás mortífero?”, foi à única coisa que lhe passou pela cabeça antes desmaiar. Um a um, todos os homens da sala foram morrendo asfixiados.

Agora a chuva caía pesada formando muitas poças de lama. Antes se tinha cuidado de tirar os pertences dos mortos para enterrá-los nus, porém agora, o desinteresse pelos mortos era tão grande que seus corpos eram jogados próximo de florestas para serem devorados por animais selvagens.

Estava completamente encharcada e acordou lutando contra o peso dos corpos que estavam por cima. Viva? Talvez fosse um sonho, mas ainda que fosse somente um devaneio tolo, ainda estava com vida.

Tentou caminhar, mas suas pernas ainda estavam fracas. Talvez ainda fosse efeito do gás, talvez estivesse envenenada e ainda fosse morrer em breve, mas não se sentia como alguém prestes a morrer. Sentou sobre um galho que afundou suavemente na lama. Depois de alguns minutos começou a caminhar devagar. Observou a natureza como há muito tempo não fazia. Apesar do céu cinza, e da chuva forte, o dia estava claro e as folhas eram de um verde extremamente forte. A terra quase preta mostrava fertilidade e com o cheiro doce, deixava a água da chuva em evidência. Talvez ali fosse realmente um paraíso destinado aos mortos.

Quando chegou a um rio, a chuva já estava como uma garoa fina novamente, porém, antes que pudesse pegar um pouco de água e jogar no rosto e beber alguns goles, ouviu um forte rugido. Mesmo imaginando e torcendo para ser um trovão, se virou e ficou mais pálida do que já era normalmente.

Um enorme urso se aproximava. Suas patas estavam sujas de sangue e lama, porém sua boca estava limpa. Talvez os mortos não tenham sido tão interessantes para a fera, e algo vivo andando por dentro da floresta havia chamado mais sua atenção. Por instinto, ela pensou em correr, mas então se lembrou sobre o destino de todos. Porém, ainda que estivesse convencida da morte certa, não conseguiu ficar parada quando o animal se ergueu nas patas traseiras. Correu sem olhar pra trás, sem pensar em nada, mas como se a vida quisesse lhe dar a certeza de que aquela era a hora, chegou à beira de um barranco. O urso se aproximou lentamente novamente e mais uma vez se ergueu. Desta vez, sem saída, pode observar apenas a majestade da natureza em sua frente e fechou os olhos aceitando enfim o seu fim.

O urso continuou com fome, por culpa da própria mãe natureza. Antes de seu ataque final, uma parte do barranco se soltou por causa da terra molhada e despencou morro abaixo, levando junto seu almoço. Mesmo frustrado, o urso não se abalou e foi em busca de outro alimento.

Ela sentiu o chão fugir de seus pés e então notou apenas escuridão. Após um longo período que não soube dizer quanto, conseguiu enfim sair debaixo da terra passada. Depois desenterrar a sua perna e tirar um pouco de lama da boca, sentou sobre o chão, admirando mais uma vez o ambiente e o céu acinzentado. Como uma criança que questiona uma mãe sobre algo que ela quer e nunca acontece, olhou para o nada e disse em voz alta: “Quando vai chegar a minha vez afinal?”. 

 

juhliana_lopes Agosto/2014

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Mais uma!

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Devia estar no quinto cigarro seguido. A fumaça tomava conta do lugar, mas ninguém se incomodava, na verdade, ali era o único lugar onde ainda se podia fumar com conforto. Assim como o cigarro, a cerveja já havia ultrapassado seus limites e já era possível sentir seu cheiro à distância. Como quem acorda de um sono bom, daqueles últimos da manhã, ele se levantou e saiu pela porta dos fundos onde havia uma pequena área. Precisava esticar as pernas antes que o sangue parasse de circular.

No horizonte o sol começava a se por, pintando o céu quase por completo em um tom de laranja forte, quase como a cor de madeira em brasa. A brisa soprava leve carregando a poeira para todos os lugares. Com a mão no bolso, terminando seu cigarro, não conseguia pensar em nada além do que fazia para passar o tempo.

Pensou ter ouvido alguma confusão no bar e voltou para ter um pouco de diversão, mas não passava de alguns moleques tentando roubar alguma fruta. Nada que valesse a pena. Jogou seu corpo pesado sobre a cadeira e ao pegar mais um cigarro e quem sabe variar a cerveja com um copo de uísque.

Então ela chegou. Bem vestida e perfumada, com a pele alva e o cabelo ruivo. Era longo, mas estava preso com um rabo de cavalo, de modo que uma franja leve caía aos olhos. Olhos cor de mel, contrariando as expectativas de verde ou azul, mas que davam um toque tão especial que a deixava ainda mais bela. O vestido vermelho solto na cintura dava destaque ao batom de seus lábios num tom carmim, e a bolsa preta que carregava a mão, dava um leve toque de rebeldia em relação à moda.

Não deu atenção aos demais do bar, entrou, foi para o balcão, trocou duas palavras rápidas e saiu apressada. Não deve ter dado mais que alguns minutos, mas para ele, foram os melhores de sua vida.

A noite agora caía sobre todo o ambiente lá fora, e dentro as luzes fracas de lampião ardiam com o querosene. Mais cigarros e bebidas e agora um ou dois petiscos para enganar o estômago. Saiu novamente, desta vez na porta da frente. Apesar de ser uma noite aparentemente fria, não sentia a necessidade de se agasalhar, e mesmo com o vento frio cortando o rosto, não queria voltar para dentro, mas voltou, quando o cigarro mais uma vez acabou e ele se viu forçado a buscar outro.

Um homem baixo limpava o balcão com um pano surrado e encardido. Ele vestia uma camisa branca, social, e um avental tão encardido quanto o pano cobria sua roupa. A testa calva aparente brilhava sobre a luz fraca que iluminava o local, e ao passar o pano com movimentos marcados, cantarolava baixinho uma canção aleatória.

– Quem era ela? – perguntou de cabeça baixa ao rapaz do balcão.

– Quem? – ele respondeu, também sem levantar a cabeça continuando seu trabalho.

– A ruiva.

– Ela? Não era ninguém. Ela foi para baixo.

– Uma pena. – ele respondeu voltando a sentar em sua mesa.

Estava no paraíso, é verdade. Ganhou o privilégio de estar no céu, porém, do que isso adiantava se os escolhidos haviam sido tão poucos. Tinha tudo que queria, mas não podia saciar sua curiosidade de saber como era o outro lado. Como era “lá em baixo”.

– Mais uma! – levantou o caneco em direção do balcão.

Não se lembrava de ter passado tanto tempo pensando, mas agora já estava amanhecendo. Ao pegar mais um cigarro, tinha certeza que já devia estar no décimo ou décimo quinto, mas quando pegou, ainda era o primeiro do maço. O tempo parecia andar depressa mesmo passando lentamente para ele com a falta do que fazer.

– Mais um dia, afinal… – suspirou pesadamente enquanto acendia seu cigarro. – Mais um dia perfeito… Um brinde ao paraíso! – Disse por fim levantando a caneca ao ar, mas ninguém respondeu o brinde ou se quer olhou para ele, como todos os dias, até a eternidade.

 

juhliana_lopes 23-07-2014