Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017

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Apaixonada

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Terminou de esvaziar a última caixa. Enfim sua mudança estava completa. Não conseguia se lembrar que tinha tanta coisa e ficou surpresa por ver que apesar da quantidade, tudo coube perfeitamente em sua nova casa. Agora, era só se arrumar e ir para a sua nova faculdade.

Tomou um banho demorado, aproveitando a água quente que enchia o banheiro com vapor. Depois secou seus cabelos vermelhos e vestiu uma saia preta com bolinhas brancas, bem delicada e uma blusa simples branca. Depois pegou sua mochila preta e foi para a sua primeira aula. Estava animada, afinal teria novos colegas de classe e o curso já conhecia bem, então não teria nenhum mistério. Logo fez amizade com Ana e Clara, as gêmeas loiras que pareciam Barbies, mas eram super simpáticas. Andando pelo corredor para voltar a sala depois do intervalo, ela esbarrou com um rapaz apressado, que a abraçou para não deixar que ela caísse no chão. Seus olhos se encontraram e ele por aquele momento esqueceu de toda a pressa e de tirar a mão da cintura da moça.

– Desculpa moço… – Ela disse tímida, desviando o olhar.

– Eu… Eu que peço desculpas. – Ele respondeu sem graça, soltando-a. – Você… Você é aluna nova, não é? – Ele perguntou curioso.

– Sim. – Ela respondeu com um riso leve. – Meu nome é Caroline, mas pode me chamar de Carol.

– Que lindo nome… – Ele respondeu aéreo. – O meu é Abner, muito prazer!

Ela riu mais uma vez, abaixando o rosto de um jeito tímido e ele ficou mais encantado. Depois lembrou que estava com pressa, pediu desculpas e voltou a correr. As gêmeas não perderam tempo em passar a ficha do rapaz que era conhecido por chamar atenção pela sua beleza, mas como vivia concentrado nos estudos, nunca estava com ninguém. Carol não deu muita atenção, afinal seu foco também era os estudos.

No dia seguinte, Carol foi dar uma volta pela cidade, procurando um bom mercado. Encontrou e começou a escolher alguns itens até se perder na parte de doces. Com o carrinho cheio, “atropelou” um rapaz sem querer e teve a surpresa de ser o atrapalhado do dia anterior.

– Me desculpa… – Ela disse com um tom real de culpa – Foi sem querer…

– Tudo bem, não me machucou… – Ele disse em um tom amistoso, feliz por encontrá-la fora da faculdade. – Acho que estamos quites.

– É verdade…

Então ficaram um tempo se olhando sem dizer nada. Naquele momento, ela entregou seu coração sem nem perceber. Ficou encantada pelo rapaz, que realmente era belo. Além disso ele parecia ser inteligente devido ao seu jeito atrapalhado e ela adorava aquilo em um homem. Ele percebeu que ela poderia ser a mulher da sua vida, com seu jeito meigo e tímido, uma mulher para apresentar aos amigos, para passar ótimos fins de semana juntos e aquilo o assustou e então ele desistiu. Ele sorriu, lhe deu um beijo no rosto e voltou a andar, ela ficou ali, olhando ele de longe.

Por mais que não quisesse, Carol ficou pensando nele durante o dia todo. Abner também pensou em Carol e em como ele queria afastá-la de seu pensamento. Os dias se passaram e eles  quase não se encontraram, até a festa do pessoal do último semestre. Na festa, ela estava linda, com um vestido preto com um decote leve, e que marcava as curvas do seu corpo. Um batom vermelho e os cabelos pretos, ela dançava com as amigas despreocupada. Abner ficou nervoso e ansioso. Queria ir embora, mas não podia e a paisagem estava convidativa demais para que ele fosse a qualquer lugar.

Ela bebeu algumas taças de vinho, e ele se aproximou. Sem dizer qualquer palavra, eles dançaram juntos algumas músicas e a sintonia entre eles era perfeita. Depois, ele voltou para os seus amigos que lhe deram apoio. Já ela, com as amigas, faziam planos sobre como terminaria aquela noite. Até que ele viu a bela dama de cabelos dourados passando com um vestido azul marinho.

Se ele não estava se confundido, era a mesma moça com quem tinha dado o primeiro beijo na sua adolescência. Ele se aproximou dela sem qualquer timidez e começou uma animada conversa. Carol, fechou o sorriso quando viu os dois conversando, e sentiu seu coração despedaçar um pouquinho, mas tentou ignorar a sensação. Foi ao banheiro, lavou o rosto de disse a si mesma:  “Deixa de ser idiota. Você prometeu que não aconteceria de novo e agora está ai preocupada. Era pra você ser dona do jogo. Você é a dona do jogo.”. Depois disso, voltou ao salão dançando e chamando atenção de todos os homens, mas sentiu seu coração despedaçado novamente, quando viu Abner beijando a loira misteriosa.

Sem conseguir se conter, foi tirar satisfação na hora com o rapaz. Abalado, levou Carol até o lado de fora para conversar.

– Como você pôde? Que tipo de cafajeste é você? – Ela gritava chorando.

– Carol, eu não to entendendo. Eu nunca disse nada pra você, e você também não… Eu não podia imaginar que você tinha algum sentimento por mim… – Ele tentava se explicar confuso.

– Você é um cara podre sabia? Podre!

– Carol, a gente nunca teve nada, por que você está assim? – Ele disse com um tom de voz mais alto para ver se ela conseguia ouvir.

– Você roubou o meu coração, e eu nem percebi! – Ela disse indo pra cima dele pressionando o braço contra o seu pescoço, deixando-o contra a parede. – Alias, eu percebi, só não pensei que ia ser tão sério. Que cara sujo você é!

– Sai Carol! – Ele disse afastando-a. – Você é louca! – Ele disse perdendo a paciência.

Ela, então o derrubou com uma rasteira de quem sabe lutar. Com ele no chão, ela colocou a perna em seu pescoço, o imobilizando e enforcando-o. Logo ele ficou desacordado. Ela levantou, arrumou o vestido e pegou uma garrafa que estava jogada no chão. Com uma certa elegância, ela quebrou a garrafa em uma parede e com os cacos, fez cortes profundos no pescoço do rapaz, deixando o sangue correr.

– Ótimo… – Ela disse limpando as mãos no vestido. – Vou ter que me mudar de novo. Droga!

Andou alguns metros, saindo do beco que ficava atrás do local da festa até chegar na rua. Entrou no carro, arrumou o cabelo no espelho e falou sozinha enquanto ligava o rádio:

– Tomara que nenhum idiota faça eu me apaixonar por ele de novo.

juhliana_lopes 23-04-2016

Sorriso

b2 (1)A lua brilhava forte no céu estrelado, e o vento frio deixava a noite mais quente. Apesar dos pequenos alvoroços, a cidade era silenciosa, porém ativa, com o movimento constante de carros e pessoas noturnas.

Ela estava com um vestido preto que marcava o quadril, com pouco decote deixando resto para a imaginação. Suas alças finas eram cobertas pelos cabelos caídos aos ombros que chegavam até o meio das costas e ajudavam a ocultar o busto. Algumas pulseiras na mão e uma sandália simples sem muito brilho davam um charme a mais para a peça final, que contava com uma maquiagem leve, quase nude e um batom vermelho marcado. Era um dia especial, um dia marcado e muito esperado em seu íntimo por mais que colocasse um disfarce sobre sua satisfação.

Entre as amigas, conversas tímidas iam tomando corpo conforme os copos iam chegando e logo os assuntos iam subindo níveis cada vez mais claros, chegando a assuntos que faziam a face ficar rubra, mas ao mesmo tempo alimentava a malícia de cada uma.

Os perfumes misturados com o ar quente e sedutor iam chamando as atenções dos que estavam à volta e logo vários homens as observavam, uns com curiosidade, outros com intenções e outros sem perceber.

Um foi o seu escolhido. Um homem alto, com presença e uma barba aparada. Contra todas as expectativas, ele não parecia estar tão impressionado e talvez por isso tenha chamado a atenção dela. Depois de uma boa conversa e mais algumas doses de vinho, as danças de corpos colados foram ficando mais frequentes, e logo as palavras ao pé do ouvido iam aguçando o desejo dos dois.

Não demorou muito para saírem acompanhados em direção a um lugar mais calmo, que de calmo não ia ter nada afinal. Mais conversas no carro, mais beijos e toques ardentes. Cogitaram a ideia de parar pelo caminho mesmo, mas conseguiram conter os ânimos a tempo do lugar especial.

Uma vez no lugar, as roupas já não faziam mais parte da atração, e logo não havia mais batom vermelho em sua boca. Como um fogo em brasa, os dois ardiam e se consumiam rapidamente como uma chama consome uma vela. Nada importava além do prazer envolvido, que tornava tudo mais entorpecido do que já parecia.

Os corpos adormeceram de cansaço, mas as mentes não, pedindo por mais, insatisfeitas, incansáveis, insaciáveis. Pela manhã, o sol anunciava forte o novo dia, com um brilho que cegava, mas renovava as energias.

Ele acordou primeiro, levantou com uma leve dor de cabeça, talvez fosse ressaca. Tomou um banho, deixando a água gelada cair sobre sua cabeça por um longo tempo, tentando assim esvaziar sua mente. Com a porta aberta, ele a observava, linda como um anjo, adormecida sobre os lençóis. Ao sair do banho, enrolou a toalha e procurou por suas calças. Retirou sua carteira, um canivete, uma seringa e um estojo pequeno. Colocou sobre uma mesinha e foi se vestir. Ao terminar, ela ainda dormia calmamente, como se o mundo não fosse acordar antes dela.

Ele abriu o estojo, onde havia um pequeno frasco e algumas agulhas. Preparou uma dose e colocou na seringa, deixando ela pronta ao lado do canivete. Depois, sentou ao lado dela, acariciando levemente seu cabelo com cuidado para não acordá-la, e falando baixinho para si mesmo: “Tão linda, tão rara… Pena que não vai passar de hoje…”.

Ele se distraiu por um leve momento que não percebeu que os olhos agora olhavam direto nos dele. Não soube dizer por quanto tempo, mas a beijou e desejou bom dia. Ela respondeu com um sorriso preguiçoso e se espreguiçou de uma forma tão sensual que fez cogitar a ideia de permanecer ali o dia inteiro. Ela se levantou enrolada no lençol e foi para o banheiro. Passou um tempo tomando banho, deixando a água quente tomar seu corpo, revigorando cada parte e aguçando seus sentidos.

Quando saiu, procurou seu vestido, e seus sapatos. Ele estava virado de frente para a mesa, mexendo em algo que ela não conseguia ver, mas também não se importou em perguntar. Virou de costas para ele e se vestiu calmamente.

Ele, com a seringa na mão, percebendo sua distração, e foi se aproximando lentamente, com passos leves sem fazer barulho. Ela se abaixou para calçar a sandália, mas ao levantar, se virou para ele, o surpreendendo.

Ele tentou acertá-la com a agulha, mas com um movimento rápido ela o derrubou sobre a cama e a seringa caiu no chão rolando para baixo do criado mudo. Enquanto ela subia em cima dele para impedir que se levantasse, ele a empurrou para o lado e correu para a mesa, pegando rapidamente o canivete e avançando sobre ela novamente.

Na sua ânsia, acabou tropeçando no tapete, e como um gato esperto, ela aproveitou a gravidade e o empurrou, fazendo-o cair sobre o braço esquerdo no chão. Enquanto fazia força para se levantar, foi golpeado na garganta com o salto da sandália que estranhamente tinha uma ponta afiada. Ela, com o mesmo sorriso no rosto que deu quando acordou, forçou a sandália, fazendo a ponta entrar cada vez mais fazendo buraco. Em seguida, tomou o canivete e passou sobre seu pescoço, deixando o sangue escorrer e os olhos surpresos secarem.

Ele, agora não era mais nada. Ela pegou a carteira, pressionou a lateral da sandália, fazendo a ponta se esconder e saiu pela porta tranquilamente, com um sorriso ainda mais bonito no rosto.

 

/juhliana_lopes 04-12-2014

Narcisos

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Mais uma mensagem, e mais um bilhetinho no bolso. Como lidar com esse assédio? Passou seu perfume, arrumou o cabelo e pegou as chaves para sair. O assédio fazia parte de sua vida desde a adolescência, mas por mais que fosse incômoda, era perfeita para o seu ego.

Ligou para o primeiro número da sua agenda. Já estava tudo marcado, mas gostava de ligar antes para confirmar e mostrar interesse. Ao parar o carro, ela veio apressada em sua direção. Estava com um vestido vermelho e um perfume levemente doce. Sua pele alva se destacava com o rubro da roupa e seus lábios estavam pintados com um tom de rosa chá, que combinavam perfeitamente com o dourado dos cabelos. Ao vê-lo, ela suspirou de felicidade. Era como estar com um príncipe encantado, pois além da beleza, tinha uma delicadeza enorme e um galanteio sem tamanho.

Após o jantar, percebeu que além do cavalheirismo, ele tinha uma pegada forte, e depois de ir ao céu e voltar três vezes seguidas, desmaiou entre os lençóis brancos do quarto do motel. Para ele, a noite estava perfeita, mas ainda era cedo. Deixou a conta paga e a deixou dormindo, indo em direção ao seu próximo alvo. Ligou novamente e lá estava ela esperando. Esta estava com um vestido verde, discreto, mas que iluminava sua pele morena e os cabelos cacheados. Seu batom deixava sua boca mais carnuda e era difícil se concentrar no trânsito com aquele decote generoso, porém, sem ser vulgar.

Juntos foram para uma balada que já estava fervendo. Depois de muita dança e vários drinks, uns puxões leves de cabelo e algumas mordidas na orelha, era de se esperar que eles pudessem ser encontrados aos cantos escuros, com cada toque a flor da pele. Mais um motel, mais suor e mais uma linda mulher dormindo sem preocupação.

A madrugada começava e ele ainda não tinha chegado nem perto de sua satisfação. Em meio a luzes e o som alto, percebeu os olhares de cobiça de duas moças. Uma de vestido preto e outra com um vestido azul marinho, ambas de cabelo preto, porém uma levemente mais bronzeada que a outra. Não foi preciso gastar mais que algumas doses e logo estavam as duas em seu carro, quase causando um acidente antes de chegarem ao seu destino.

Mais uma conta paga. Mais corações deixados para trás com promessas e juras de amor. Não acreditava que elas estivessem mesmo amando, mas sabia que tinha o dom para que isso acontecesse. Antes se importava e procurava dar de tudo para sua escolhida, mas depois percebeu que ele não conseguia retribuir o sentimento da mesma forma, e então passou apenas a brincar com elas, coisa que parecia bem mais divertida. Quando estava de bom humor, fazia a história durar semanas ou até meses, entre mentiras e perfeitos fingimentos. Quando queria só se divertir, passava a noite apenas fazendo vítimas de sua beleza e charme incontestável.

Já estava indo embora quando encontrou outra potencial dona do seu coração. Ruiva, com o cabelo na cintura e um vestido leve apesar da noite fria. Usava uma jaqueta de couro por cima e uma bota pequena. Caminhava pela calçada sem se preocupar, talvez estivesse próxima de casa ou se encontraria com alguém, em todo caso não custava tentar.

Aproximou-se com seu carro perguntando um endereço qualquer sem parecer agressivo, ela muito gentil e dona de um sorriso encantador, lhe disse onde era e ele como um bom cavalheiro ofereceu uma carona à bela moça, já que por acaso o endereço perguntado era o mesmo para a casa dela. Com a mesma gentileza aceitou e juntos foram conversando sobre noitadas e profissões, gostos musicais e literatura entre outros assuntos lembrados no meio tempo. Ao descer do carro, agradeceu a carona e foi embora. Espera, como assim? Ela não iria mesmo convidá-lo para entrar? Será que havia feito algo de errado? Era preciso ousar mais. Fingiu um problema no carro e uma perca de bateria no celular. Pediu para entrar e usar o telefone; ela gentilmente cedeu. Uma vez dentro, ela esperou ele terminar sua ligação, e disse que poderia espera-lo com ele do lado de fora. Como assim? Será que ela é casada ou virgem? Por que essa barreira? Pra que essa distância? Ele despretensioso, perguntou se não havia um café ou alguma outra bebida energética para continuar acordado enquanto amanhecia. Ela fez um café rápido, o melhor que ele já havia tomado e logo ele estava empurrando ele para a porta novamente, dizendo qualquer coisa sobre um guincho que abria logo cedo.

Impaciente, agarrou-a pela cintura e lhe deu um beijo, longo, quase extraindo sua alma. Para sua surpresa, foi correspondido, e por mais que ele não quisesse assumir, ele tinha adorado e queria mais daqueles beijos. Muito mais bonito foi a forma como ela ficou vermelha de vergonha como uma adolescente quando tem um beijo roubado. Mas não seria apenas um beijo que ele iria lhe roubar. Arrastou-a para o sofá e se aproveitou daquele corpo. Ela não oferecia resistência e parecia também se deliciar com as sensações. Enfim estava domada, enfim, estava se entregando como devia ser, porém, após a quarta vez, não só ela, mas ele também estava cansado e desmaiou no tapete da sala.

Acordou com o sol forte do meio dia em seu rosto, e suas roupas dobradas sobre a mesa de centro. Procurou a sua dama, mas não havia ninguém. Vestiu-se e tomou mais um gole de café que ainda estava quente. Achou então um bilhete, e percebeu então a ausência do seu carro que devia estar na rua. Ao ler o bilhete, sentiu o sangue subir a cabeça, e a raiva lhe consumir por completo. Saiu bufando pela porta, a procura de um orelhão, tentando lembrar-se de cor algum número que pudesse ligar para pedir auxílio enquanto ainda lembrava com ódio das palavras escritas no papel.

“Pois bem, não é que você é capaz de tudo mesmo? Eu poderia te denunciar por abuso, mas acredito que isto não será necessário, após você me pagar de bom grado com seu carro, carteira e celular. Também peguei as senhas do seu cartão, afinal acho muito lindo quem fala dormindo. Espero que não fique chateado, mas você não é o único Narciso por aqui. Abraços e até a próxima, Ec. O.” 

 

/juhliana_lopes 17-11-2014