Quem é o assassino? (parte 2)

principe-gales02– A verdade é que todos tem uma visão extremamente errada sobre as coisas e no fim, não enxergam as pessoas a sua volta. Somente quando é tarde demais. – Ele dizia enquanto andava de um lado para o outro, com passos marcados. Elegante, usava um terno cinza, com uma gravata preta. Gesticulava poucas vezes enquanto falava, e vez ou outra arrumava seu cabelo castanho claro que insistia em cair sobre o olho.

Qualquer mulher ficaria encantada em ouvi-lo falar, pois além da sua beleza e porte físico, sua voz também era hipnotizante, mas nada disso importa quando se está na mira de um assassino.

– Aquela menina nova mesmo, nem lembro qual era o nome dela… Ela vivia com medo de tudo, e o pior não sabia nem disfarçar, e no fim deu no que deu. E agora, veja só você…

Ele fez uma pausa e a olhou da cabeça aos pés. Ela, sentiu um frio na espinha que jamais havia sentido, e percebeu que sua vida e também a sua vã esperança de aquilo fosse apenas uma brincadeira de mal gosto, estavam indo embora mais rápido que o espaço de tempo entre um passo e outro que ele dava.

Ela, amarrada em uma cadeira no estoque não podia fazer muito a não ser ouvir o seu discurso interminável. Nesta hora ela pensava: “Por que fui querer ser proativa? Por que fui me meter em um assunto que não era meu, só pra fazer o certo? Por que não deixei ele roubar a porra dos documentos fingindo que não vi nada? Por quê?” E sim, ele não parava de falar. Entre coisas direcionadas a ela e a sociedade injusta que não compreende as coisas corretamente, falava muitas coisas sem sentido, direcionadas a ele mesmo. Além de psicopata, era esquizofrênico… Para ela, foi uma pena que este último pensamento acabou saindo alto demais.

– Psicopata sim minha querida, mas não pelo motivo que você acha.

– Ah, claro que não. Você é psicopata porque dá doce pras crianças nos parquinhos, sem querer nada em troca.

– Poderia, mas não é esse caso. E respondendo sua pergunta de uma forma menos irônica, eu não sou um psicopata porque vou te matar. Eu sou um psicopata porque vou atrás do meu objetivo.

– Que ótima mudança de termos. Me sinto até mais confortável para morrer assim.

– Mas eu não vou matar você. Esse não é e nunca foi o meu objetivo. Não se sinta tão especial a esse ponto. – Ele respondeu sério com os olhos semicerrados.
Ela estava realmente cansada de ficar ouvindo e ouvindo, e sabia que debater não ia adiantar nada, mas era a deixa para que alguém pudesse lhe ouvir e quem sabe lhe ajudar…

– Não vai? Então pra que tudo isso?

– Eu quero ser sócio majoritário da empresa, mas não tenho dinheiro pra isso, afinal não me pagam o suficiente para ter reservas. Com isso fiz um caminho mais longo e muito mais rentável. Primeiro a confiança do sócio majoritário, porém ele não confia em mim tanto assim a ponto de fazer um testamento com meu nome, então preciso incriminar o seu parceiro, e depois de mais umas saídas intimas, vou ficar mais próximo da cadeira principal. Não é simples?

– Você esta saindo com o Boris? – Havia muito mais coisas naquela informação pra ela se surpreender do que o roteiro de novela que ele descreveu, mas aquela era uma informação curiosa, afinal, todas as meninas eram loucas para ficar com ele e muitas haviam de fato conseguido uma noite.

– Infelizmente estou. É preciso pro meu objetivo. – ele assumiu, virando as costas.

– Então, você não vai mesmo me matar?

– Claro que não querida. – Ele disse com o rosto perto do dela e um sorriso enorme que fez com que ela se arrepiasse de medo.

– Então… O que… O que vai fazer comigo? – Ela gaguejou. – Me solte, e eu prometo que não conto nada pra ninguém. Na verdade eu nem vou me lembrar de nada! – Ela tentou barganhar desesperada.

– Uma das coisas mais frágeis no ser humano, além do próprio corpo, são as suas promessas. – Ele disse virando de costas. – Por que você resolveu perguntar sobre os documentos?

– Por nada, eu… Eu só achei que… – Ela não queria admitir pra si mesma, mas o medo estava tomando conta de seus pensamentos. Talvez a ideia da morte era mais fácil de aceitar do que a da possível tortura.

– Não minta pra mim! – Disse ele em seu ouvido, ao se virar depressa. Ficou ali, com o rosto colado no dela esperando a resposta.

– Eu só achei que não era certo você pegar os documentos, porque não era do seu setor. Só achei sua atitude estranha e quis entender o que estava acontecendo… Eu só… Eu só queria ajudar… – Ela respondeu chorando, se entregando completamente ao medo.

– Achou que não era o certo. – Ele repetiu devagar. – Queria ajudar… – Então ele andou até um balcão.

Ela tremia, e se sentia culpada por cair no jogo dele. Sempre foi tão forte e agora estava ali, entregue a um doido qualquer que gostava de fazer jogos psicológicos. Resolveu fazer um último apelo.

– Por favor… Me solta! – Ela disse chorando. – Eu já aprendi que não devo ficar xeretando em nada. Por favor…

– Calma bebê… – Ele disse de costas para ela. – Eu já vou te soltar logo, mas como eu disse as promessas são coisas muito frágeis. Meu objetivo é ser chefe. Mandar em tudo. E eu infelizmente não posso deixar nada no meu caminho, nada que possa me atrapalhar agora ou quem sabe no futuro em um momento de crise…

– Então… Você… Vai me matar? – Ela disse por fim, pausadamente.

– Não amor… Eu não vou matar você. – Ele disse se virando com um pano molhado nas mãos e um sorriso no rosto – Você vai.

juhliana_lopes 27-03-2016

 

 

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Quem é o assassino?

rain

Sempre caminhei durante a noite, seja por causa de trabalho ou por causa de cursos. A vida noturna muitas vezes é mais agitada que o dia, e igualmente perigosa. Algumas pessoas dizem que a noite estamos mais vulneráveis, mas isso não é verdade. De noite ou de dia, os perigos são os mesmo, a diferença é o lugar certo, e a hora errada. Me peguei pensando nisso depois que Megan, a menina nova, começou a falar sobre alguns casos do jornal. Desde o inicio notei que ela era meio frágil, mas não havia percebido até então em relação a quantidade. Depois de alguns casos sobre assalto e arrastões nos pontos de ônibus ela estava realmente apavorada, e começou a grudar em mim, pois segundo ela, eu lhe passava confiança.

Não que eu não tenha medo dessas coisas, afinal já fui assaltada algumas vezes e é realmente uma experiência assustadora, mas com o tempo você aprende que demonstrar seus medos demais, só faz você andar na defensiva, e por consequência, chamar atenção.

Um dia desses no trabalho, peguei ela chorando no vestiário. Me preocupei, achando que tinha acontecido algo, mas ela só estava sofrendo por antecedência como sempre. Se culpava por ser tão medrosa, e chegou até a dizer entre soluços e lágrimas que gostaria de ser forte como eu.

– Eu não sou forte Meg… – Expliquei. – Eu só sei fingir bem.

Não que esse tipo de palavra tenha ajudado, mas é estranho quando você lida bem com uma certa situação, porque todo mundo acha que você é a “dama de ferro”, “coração gelado”, que nada te abala. Como eu já disse, muita coisa me abala sim, mas eu finjo bem.

Começamos a sair um pouco mais tarde, para esperar os meninos do TI e sairmos todos juntos. A presença de mais pessoas parece ter ajudado, mas não aliviado o seu medo.

– Anne, você viu sobre o assassino que anda rondando a nossa região? Dizem que ele se aproveita das vítimas mortas.

– Eu vi, mas isso é mentira.

– Como assim?

– Até onde eu li, ele só esta matando, não tem nada sobre estupro.

– Ah, mas vai saber, esses caras são doentes, podem fazer qualquer coisa…

– E se você fica desesperada, já sabe o que acontece. – Encerrei o assunto. Ela não retrucou e continuou o seu trabalho. Meg ia ficar louca daquele jeito, e por mais que eu tentasse ajudar, não poderia fazer mais nada.

Hoje, quinta feira, recebemos uma bela chuva de presente, o que espantou metade das pessoas da rua. Além disso, nossa estratégia de segurança deu errado, pois depois de uma queda no sistema, os meninos tiveram que fazer hora extra. Uma mistura perfeita para o surto de Meg, que no fim das contas, não surtou. Ela estava calma, parecendo “aceitar” seu destino, mas volta e meia perguntava sobre as horas e fazia comentários como “está escuro hoje”, ou “e essa chuva?”.

No ponto de ônibus, ficamos próximas a um beco, para nos protegermos da chuva. Então ela resolveu puxar novamente uma conversa sobre  o assassino.

– Será que eles matam na chuva?

– Talvez. – respondi um pouco desinteressada.

– Sua frieza as vezes me assusta. – Meg respondeu, um pouco magoada.

– Desculpa, não foi minha intenção. Só não vejo motivo de falar nisso agora.

– Eu sei, é só que… Eu tenho medo. Não dá pra prever algo assim. Normalmente a gente imagina um cara com jeito de marginal, falando errado, e ai,  de repente aparece um cara de terno e gravata.

– Realmente, esse tipo de coisa é imprevisível.

– Imprevisível e assustador. – Disse Meg se abraçando por causa do frio. – É o nosso ônibus?

– Não, ainda não… – respondi sem olhar para ela, enquanto mexia em minha bolsa.

– Como você consegue esconder o seu medo tão bem? Não tem curiosidade de saber quem é o assassino?

– Na verdade não. E na verdade também, eu escondo bem porque “o assassino” sou eu.

Então eu calei a boca dela com um tiro. Com a chuva, mirei errado e acertei seu pescoço, que mesmo com o estrago, fazia com que ela piscasse freneticamente com um olhar assustado. Dei outro na sua cabeça, fazendo uma sujeira imensa que logo a chuva iria limpar. Ocultei com cuidado o corpo no beco e caminhei calmamente até o próximo ponto. Como eu disse, eu finjo bem.

juhliana_lopes 12-03-2016

Sombras

maicon

Poderia ser um dia como outro qualquer, como todos os outros dias que já haviam passado tantas vezes por sua vida, porém aquele era para ser um dia especial, um dia alegre, um dia inesquecível. Era seu aniversário, mas além de uma enorme dor de cabeça, a única coisa que havia ganhado aquele dia, era um gosto amargo na boca que vinha do fundo da garganta.

Levantou e começou a andar pelas ruas, pensando em como era melhor ter ficado em casa, entre tantos outros pensamentos insanos e pesarosos. Houve um momento, porém que pensou já ter virado uma rua, quando se viu nela novamente. Andou mais um pouco e ao virar a esquina novamente, ainda estava na mesma rua. Foi na terceira vez que se convenceu que havia algo errado e que não era só um engano de sua mente. Parou, olhou ao redor e respirou fundo. Não havia carro, não havia mais pessoas, somente o vazio. Andou mais um pouco e desta vez virou para o outro lado. Mais uma vez a mesma rua. Mais uma vez o vazio.

Sentou então na calçada e fumou um cigarro. Quando menos percebeu, o movimento havia voltado. As pessoas andavam apressadas e os carros buzinavam sem parar em um trânsito infernal. Levantou e começou a andar novamente, mas acabou esbarrando em um rapaz. Era um rapaz alto, com o cabelo baixo e um alargador na orelha esquerda. Ele não deu muita atenção e continuou andando e olhando para os lados, desconfiado. Ele mais uma vez pensou ser um engano, mas uma coisa estava clara. Não era mais a mesma rua e aquele cara era ele. O seguiu com cautela. Não sabia exatamente o que podia acontecer, mas nada poderia ficar mais estranho do que aquele momento.

Aquele cara, aquela sombra de si mesmo, apesar de ser igual em aparência, andava com passos largos, sempre olhando ao redor. Com uma das mãos no bolso, parava em alguns becos observando a multidão com um olhar perdido.

Ele virou uma rua pequena que mais parecia uma viela. A sua frente havia um casal, que andava apaixonado. A moça também lhe trazia lembranças, pois era muito semelhante a sua ex-namorada, mas não era ela. Suas pernas pararam e ele se viu sem movimento quando viu o que sua sombra estava fazendo. O cara simplesmente pegou uma pedra na calçada e acertou a cabeça do rapaz que estava com a moça. Ela assustada começou a gritar, e ele, incomodado a derrubou com um soco no rosto. Enquanto ela estava caída, ele tirava um canivete do bolso e degolava o rapaz que confuso não conseguiu se defender. A moça, que agora tentava se levantar para fugir do assassino, recebeu um novo golpe e agora além de ter o pescoço cortado, teve também o seu estômago aberto.

Sua mente não sabia processar o que era mais bizarro. Aquele cara igual a ele matando aquelas pessoas sem qualquer motivo aparente, ou ele que estava ali parado no meio da rua, sem conseguir fazer nada, apenas observando, ficando totalmente a mercê daquele estranho.

Quando terminou o serviço, deixando a calçada completamente ensanguentada, ele se levantou limpando as mãos na roupa, e olhando para trás, não parecia surpreso em ver uma “cópia” sua estática, como testemunha de sua ação.

– O que você quer? – Ele perguntou sem cerimônias.

– Eu… Nada. – respondeu baixando os olhos.

– Então vaza.

– Nossa… Tudo bem.  – Ele disse saindo finalmente de sua paralisia momentânea, virando as costas.

– Mas que babaca você é. Volta aqui!

Ele se virou, ainda sem encarar diretamente o seu outro eu.

– Faz logo a pergunta óbvia que você quer perguntar. – disse o cara impaciente.

– Bem, eu… Quem é você?

– Eu sou você, mas em outra “dimensão”, em um “universo paralelo” ou qualquer outra merda de nome que as pessoas dão pra esse tipo de coisa.

– Então, eu sou um assassino?

– Sim, em algum lugar você é. Em outro que é de onde você veio você é um depressivo suicida. Em algum outro lugar você é um galante tarado, e por mais que você não acredite, existe um lugar onde você é feliz.

– Sério?

– Sério, mas até hoje só trombei com o tarado e com você. Talvez o Feliz esteja ocupado de mais fazendo coisas legais pra ficar vagando por ai perdido que nem a gente.

– Isso é muito bizarro cara.

– Não, isso é a sua mente.

Então viu a mão dele com a mesma pedra que havia atacado o cara vindo à direção do seu rosto. Fechou os olhos e inclinou a cabeça, levantando a mão direita para se proteger. Abriu os olhos, e se viu sentando na calçada, naquela rua em que havia ficado preso. As pessoas andavam calmamente, e alguns carros passavam poluindo a cidade. Levantou-se e olhou em volta. Não soube dizer a quanto tempo esteve ali. Resolveu ignorar, afinal, podia ser só um lapso da sua mente doente. Foi para o cemitério ver seu pai e quando saiu, por um momento pensou que talvez ele já tivesse trombado a sua sombra feliz, e que atualmente, talvez ele já tivesse morrido na mão do seu eu assassino.

À noite, depois de mais um cigarro e um tempo nas redes sociais, fechou os olhos no desejo de que aquele seu eu assassino, voltasse para terminar o serviço que havia começado. Ou seu eu tarado lhe trouxesse alguma mulher para compartilhar em um ménage.

Foi dormir, pois seus pensamentos acordados não seriam capazes de leva-lo tão longe novamente, pelo menos não tão cedo.  Escreveu alguns versos em uma folha de papel, e tentou dormir em meio à confusão de seus pensamentos, em meio a confusão de seus universos.

juhliana_lopes 08-12-2015

Inspirado na crônica de Maicon Küster para ler, (e você deve ler) clique aqui

Paciente

10494863_732063346852960_6922425367116091794_nEle estava aflito. Ainda não sabia bem como havia se metido naquela confusão, mas sabia que não havia feito nada de errado. Aquilo estava consumindo suas ideias e então quando se deu conta, estava tão frágil que precisou ser internado. Aproveitou a estadia para descansar. Não era tão ruim quanto achava, pelo menos não naquela parte de “internos temporários”.

Quando a agonia não cabia mais no peito, resolveu ir até a sala que era temida por muitos para tentar desabafar.

– Eu tenho muitos sonhos sabe? A melhor parte de dormir é sonhar. Eu pareço e me vejo como uma criança porque tenho muitos sonhos bobos. Eu acho incrível, eu gosto muito. Esses dias mesmo, eu sonhei que havia uma bola num pedestal. Eu simplesmente chegava perto, ficava olhando, e depois com uma tapinha leve, fazia a bola bater na parede. Depois, quando ela parava no chão, eu ficava chutando de um lado para o outro brincando feliz. Hilário. Outro dia, sonhei que estava numa rua com outras crianças, e então, surgiam algumas trincheiras e tudo parecia ter sido transformado num campo de batalha. Nós havíamos nos transformado em soldados, e estávamos lutando por nossas vidas, porém as armas eram de água. Era como se a brincadeira tivesse ganhado mais realidade, mas ainda éramos crianças brincando com arminhas de água. Foi muito divertido, lembro que consegui render um amigo meu e jogar água molhando o rosto dele, e logo depois eu batia com a arma na cabeça dele bem fraquinho, imitando os caras dos filmes quando querem que o outro desmaie. – dizia ele um pouco sem graça.

– Você se sente bem com esses sonhos? – ela olhava em seus olhos quando perguntava, com um tom imparcial. Não estava ali para julgar, muito menos questionar, seu trabalho era apenas ouvir.

– Sim, muito, acho que nunca tive um pesadelo, nada nunca dá errado nesses sonhos, é muito bom, sobretudo brincar sem se preocupar…

– Você levanta durante a noite ou dorme direto? Já aconteceu algo de estranho?

– Não senhora. Tenho o sono pesado, então quando eu durmo, não levanto mais pra nada. A única coisa estranha que acontece é que eu nunca acordo do mesmo lado que eu fui dormir. Acho que me mexo muito a noite, mas nunca percebi nada… Acho que é algo normal, considerando que muitas pessoas… – ele dizia até que foi interrompido por homens grandes que entraram na sala como furacões já o agarrando pelos braços.

– PRENDAM ESSE ANIMAL! – dizia um homem baixinho meio gordo com óculos no meio do nariz.

– Mas o quê? – ele olhava em volta assustado, enquanto a doutora tentava apaziguar.

– Senhor, mantenha a calma, não vejo necessidade para tal ação, acredito que…

– Doutora, como não tem necessidade? Sabe de quais crimes esse seu “paciente” é acusado? – o homem baixinho falava apressado com o dedo apontado para o homem.

– Ei, me solta… – ele tentava se soltar, mais uma vez a doutora tentava falar em seu socorro.

– Senhor, o meu paciente…

– Ele é acusado de agredir uma pessoa na rua, sem motivo aparente, jogando a cabeça dela contra a parede e depois, assim que ela caiu no chão, chutar repetitivamente, deixando o rosto todo machucado. Ele também é acusado de perseguir pessoas na rua e depois de encarar assustadoramente um rapaz, derrubá-lo no chão, apontar uma arma em seu rosto e atirar, explodindo a cabeça do indivíduo. Isso sem falar em vários outros crimes! – dizia o homem ora arrumando os óculos, ora gesticulando como se o mundo fosse acabar.

– Isso é mentira, eu nunca fiz isso! – gritou desesperado, não havia feito àquelas coisas, e estava com medo dos brutamontes que apertavam seus braços com mãos firmes.

– Senhor, ele é sonâmbulo… – disse q doutora calmamente, mantendo o tom imparcial.

– Doutora, com todo respeito, você está brincando comigo? Acha mesmo que eu vou ser que nem você e cair nessa mentira dele?

– Não é mentira senhor. Ele dorme a noite e sonha. Os sonhos se mostram infantis pra ele, mas na verdade refletem as ações que ele realiza durante o sono. – ela tentava explicar.

– Não querendo lhe ofender Doutora…

– Mas já está ofendendo. Você está abusando da sua autoridade, primeiro porque não tem um mandado oficial, segundo porque ele é um paciente em tratamento, logo visto suas condições mentais, a justiça permite que ele cumpra a pena, depois de condenado aqui no hospital. Agora se puder soltar o meu paciente antes que eu chame os seguranças, eu agradeço. – Disse por fim num tom firme e autoritário. Era como uma professora dando uma ordem a um aluno, que não queria lhe dar ouvidos. De certo modo soava ameaçador e fez com que todos se calassem por alguns longos minutos.

– Você vai se arrepender disso… Vamos rapazes, vamos deixar que ele a mate, assim ela aprende a parar de proteger bandido! – Saindo da sala frustrado, com os guardas logo atrás como cães.

Mais sem graça do que quando entrou, não tinha mais coragem de encarar a doutora, mas sabia que precisava falar alguma coisa.

– Ah… Obrigado doutora.

– De nada, mas não tem porque me chamar de doutora. – ela disse num tom amistoso.

– Mas a senhora é a minha médica não é?

– Não. Sou uma interna como você. Eu estava tentando pegar alguns remédios escondidos quando você chegou aflito querendo conversar então eu parei pra te ouvir. Mas cuidado, eles podem voltar…

– Interna?! Por que você está internada aqui? – disse surpreso.

– O mesmo que você, a diferença que é que fazia isso quando estava bêbada, e como eu era uma viciada, isso acontecia com certa frequência…

– O mesmo que eu? Como assim? Quer dizer que eu matei mesmo aquelas pessoas? Eu não matei ninguém, eu… – mais uma vez confuso e sem entender porque estava sendo acusado daquilo sendo que nem havia feito nada, mas ao mesmo tempo com um sentimento de culpa como se por fim percebesse que talvez ele fosse realmente o culpado.

– Relaxa, você acostuma, no seu caso só precisam trancar o seu quarto e fica tudo bem… Olhe, eu mesma… – ela explicava até ser interrompida por outra voz feminina vindo da porta aberta.

– O que você está fazendo com meu jaleco?

– Bem, tenho que ir… – disse ela saindo em disparada.

A outra mulher, se, jaleco e com um crachá nas mãos, o cabelo preso em um coque, olhava abismada para ele e para o corredor por onde a moça havia sumido, falando alto.

– Ei mocinha, espere ai! O que ela aprontou afinal? Ei, o que há com você? Ela fez alguma coisa com você? – disse por fim, se aproximando dele.

– Não… Na verdade, eu só preciso dormir um pouco…

 

juhliana_lopes 27-06-2014

Serviço

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Estava eu jogado num bar, tomando mais uma dose daquela coisa amarga que descia quente pela garganta. Quem me visse naquela situação diria que eu estava largado à própria sorte, mais um traste entregue ao destino. A verdade é que eu só estava aquecendo, aquela que seria uma noite daquelas. Há muito não conseguia algum motivo pra sair e hoje, até então, estava tudo perfeito.

Mais algumas doses enquanto observava o lugar. Vi quando Jack sentou ao lado de um cara qualquer, daqueles que aparecem todo dia nos bares, mas nenhum com um motivo forte o bastante para terem suas mágoas reveladas. O rapaz aparentemente só estava degustando assim como eu, e Jack, também estava se aquecendo. Em outra situação eu já teria ido embora, mas hoje não. Nada melhor para fechar a noite que aquela melodia peculiar.

Acredito que qualquer outra pessoa teria uma reação meio estranha e possa adquirir até mesmo certa aversão, mas Jack consegue ser o ser mais normal que você encontra num bar, considerando tantas outras figuras que passam todos os dias por eles em busca de um escape.

Eu estava somente me aquecendo, e agora, no fim de mais uma canção espetacular, sai em busca da minha atração principal. Ainda pingava sobre a rua molhada, e não havia mais ninguém nas ruas. Ouvia apenas os meus passos que eram abafados pelos poucos carros que passavam apressados naquela madrugada.

Meu cigarro já estava apagado jogado em alguma calçada suja quando encontrei meu objetivo. Estava ali, parado, esperando alguém que não era eu muito provavelmente. O segui durante toda a semana e estranhei o fato dele ainda continuar indo para lá esperar. É claro que ela não iria aparecer, não sei como alguém pode ser tão idiota.

Solange, uma guria linda, que faz inveja para as outras e provoca sempre brigas entre os seres do sexo masculino por onde passa. Viu em Marcelo, o que ela nunca encontrava num homem: serenidade, carinho e romantismo. Logo enjoou. Era muito doce e então percebeu porque as mulheres gostavam de serem maltratadas de vez em quando, mas como ainda ganhava presentes, o enrolou por um tempo.

Veio então o ultimato, afinal, quem tanto tem a oferecer, espera no mínimo algum retorno. E então os encontros foram marcados, e todos os dias ele estava no mesmo lugar, esperando, aguardando, com a chama acesa da esperança viva em seu peito, pronta para se transformar num fogo ardente de paixão sob os lençóis da bela dama.

Desde então eu o venho seguindo, pois a bela dama nada mais é que uma ótima patroa e me prometeu alguns pagamentos dobrados por alguns serviços extras… Eu não espero que ela me recompense com “algo a mais”, até por que, vindo dela, pode ser muito perigoso.

Então ali está Marcelo numa rua escura a espera da sua musa, molhado dos pingos da chuva, mas sem o menor sinal de querer desistir de seu sonho. É uma pena, uma profunda pena, mas estou aqui para lhe dar um recado, e seria extremamente frustrante lhe deixar sem uma resposta.

“Auuuuuu, auuuuu”, cantei baixinho, lembrando-me dos versos de Jack D. Wolf. A chuva estava ameaçando cair pesada novamente, e logo eu teria que me apressar. Não gosto quando a rua fica molhada por não consigo ser silencioso da forma que gosto de ser. Ele me ouviu assim que apontei atrás dele e se virou depressa com um ar apaixonado que logo se transmutou para apavorado. Eu não estava tão mal assim, apenas usava um casaco sobre minha blusa cacharréu que escondia minha boca e meu queixo.

Antes que ele mexesse seus lábios para fazer qualquer pergunta ou mesmo gritar, descobri a minha boca e então notei seu rosto ficando tão pálido quanto à lua sob a neblina. Eu não sou o pior dos homens no quesito beleza, mas digamos que minha aparência seja singular. Ele não conseguia correr, estava claramente em choque, e então entreguei o bilhete em sua mão. Ele, claro, desconfiado até as orelhas, o abriu com muito cuidado e deixou escapar o que pareceu ser um suspiro de alívio ao reconhecer a letra do manuscrito. Antes que seu sorriso ficasse por mais alguns segundos, seu rosto assumiu novamente uma expressão confusa e sua respiração ficou mais acelerada.

Quando olhou pra mim novamente, sentiu apenas minha mão pesar sobre seu rosto. Muito curioso como alguém despreparado cai rápido no chão. Talvez eu ainda estivesse meio alto por causa das tequilas, talvez não devesse ter exagerado, afinal, tenho a leve impressão que meu golpe deveria ter tirado um dente, mas ele apenas caiu de cara no chão como qualquer coisa podre. Tentou se levantar desajeitado, mas lhe dei um chute certeiro no estômago.

Ouvi uma espécie de choro baixo e algum sussurro sobre o porquê e um pedido de misericórdia. O puxei pela gola da camisa, o coloquei em pé e cheguei bem próximo de seu rosto. “Não existe misericórdia, não existiu para mim quando fizeram isso com meu rosto”, disse com minha voz rouca e pesada, mais uma voz de bêbado do que ameaçadora…

Ele ainda tentou dizer qualquer coisa começando com “ela…”, mas a faca entrou em seu pescoço tão fácil como seu sangue saía quando começou a jorrar. Limpei minhas mãos como pude, guardei meu instrumento e voltei calmamente para o bar.

Para minha sorte, Jack ainda estava tocando a saideira, e tratei logo de me jogar em outra cadeira qualquer para terminar de ver o show. O bar estava quase vazio agora e com menos vozes, era muito melhor apreciar a apresentação.

Tudo perfeito, boa música, bebida, serviço feito… Amanhã irei ganhar o prometido, e talvez seja morto no mesmo dia, mas não importava, pois hoje, já tinha valido a pena. Despedi-me de Jack com um aceno e voltei para casa. Mais um cigarro e a lua a me acompanhar. Passei a mão, coçando as cicatrizes “horríveis” de meu rosto. Agora não havia necessidade de esconder, afinal, os seres que andam a noite não costumam se importar com a aparência dos outros.

“Misericórdia…” me peguei rindo e repetindo aquela palavra tão idiota que todas às vezes eram proferidas como se aquilo pudesse salvar alguém… Não me salvou e não salvaria ninguém vindo de mim. Não das mãos de alguém que um dia foi conhecido como o grande Glokta… Uma pena não ser o verdadeiro…

 

juhliana_lopes 28-05-2014

REFERÊNCIA: Não conhece o Jack D. Wolf? Clique aqui e saiba um pouco mais…

Clichê

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Era uma linda manhã de sol, e ele estava animado como nunca antes estivera. Acordou cedo e foi para o trabalho sorridente, porém, na primeira esquina, um carro passou apressado sob uma poça de água e o molhou completamente.

Respirou fundo, passou a mão na roupa, contou até 10. Estava sujo, molhado, mas aquilo ainda não podia estragar o seu dia. Continuou caminhando mesmo assim. Comprou umas flores de uma velha senhora na rua, e seguiu seu caminho.

Ao chegar no trabalho, lógico, todos com cara de surpresa. Ele, meio envergonhado com a situação, foi até o seu chefe dar uma explicação. Na hora, não pode deixar de ficar exaltado, afinal, se não fosse aquele maldito com o carro preto modelo tal, ele não teria chegado naquele estado. O chefe, estranhamente paciente, ouviu toda a história, apenas com as mãos juntas na frente da boca.

Quando terminou seu monólogo, ouviu apenas uma pergunta do chefe: “Esse carro, passou na esquina tal?” Um sim afirmativo com a cabeça e um olhar confuso. Caramba! Nem mesmo as flores que estava em suas mãos continuaram lindas naquele ambiente. O chefe um tanto envergonhado pelo ato e irritado com os comentários e “apelidos” que ganhou, mesmo indiretamente, permitiu um dia de folga.

Cabisbaixo, seguiu pela avenida de volta para casa. Sabia que não era sua culpa, mas talvez devesse aprender a medir as palavras mesmo na hora da raiva. Sabia que não era ele quem devia ficar assim, mas sabia que aquilo de certa forma podia lhe prejudicar. No meio do percurso, uma chuva rápida se formou e caiu pesadamente sobre a cidade. Deu um sorriso irônico para o chão, tudo que ele mais queria. Mais uma vez molhado, e sem dinheiro pra condução, já que ia pedir o dinheiro hoje no trabalho e esqueceu após toda confusão.

Quando finalmente chegou em casa, o sol se abriu novamente. Respirou fundo mais uma vez, mas não pôde evitar um dedo do meio mostrado para o céu como sinal de sua revolta.

Resolveu tomar um banho quente para relaxar, mas mal entrara no banheiro, ouviu a campainha chamando. “Não vou atender” pensou. Fechou os olhos e colocou a cabeça embaixo do chuveiro, mas a campainha insistia sem parar. Pegou uma toalha irritado e desceu as escadas pisando firme.

Abriu a porta sem nenhuma delicadeza, para dar de cara com uma garotinha vendendo qualquer coisa para a escola. Pegou qualquer trocado, entregou a ela e nem esperou para receber o que quer que fosse que ela estava oferecendo.

Mal voltou ao banho, e agora o telefone não parava de tocar. Ainda mais irritado, deixou que tocasse e terminou seu “relaxante” banho com a trilha sonora de tons repetitivos.  Com a cabeça ainda doendo mesmo após vestir uma roupa  confortável, o telefone tocou mais uma vez, e agora, ainda mais sem paciência que antes, tirou do gancho de uma vez.

Ruídos. A única coisa que ouviu. Já estava anoitecendo. Quanto tempo havia ficado no banho afinal? Não importava, o dia já estava sendo péssimo o bastante para se importar com um trote. Sentou e começou a ver televisão. Acabou cochilando durante uma notícia sobre fuga de prisioneiros num presídio em algum lugar.

Acordou assustado com o telefone mais uma vez. Atendeu e falou alto caso a pessoa do outro lado não estivesse ouvindo. Mais uma vez ruídos como resposta e uma leve voz dizendo qualquer coisa sobre morte, mas nada compreensível.

Desligou o telefone com raiva, tirou o aparelho do fio e o jogou pela janela. Desligou a TV e foi para cozinha tomar um copo d’água. Sozinho, ouviu alguns barulhos estranhos, mas não se importou. Podia ser até mesmo sua própria respiração já que estava quase bufando de raiva.

Quando se virou para guardar o copo, ouviu um estalo e quando olhou para trás havia uma figura sinistra com uma faca pronta para acertá-lo. Foram segundos que pareceram uma eternidade, primeiro porque ao ver a cena, a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi: “É sério?”. A segunda foi: “Não to acreditando ainda, é sério?” E antes de pensar a terceira, já tinha agido.

Numa resposta rápida, conseguiu agarrar a mão que vinha em sua direção e com a outra, agarrar a nuca, empurrando a cabeça do ser contra a parede. Depois, com a faca agora em sua mão, fincou no pescoço e deixou o sangue jorrar devagar enquanto analisava a situação.

A figura sinistra, aparentemente era um dos presos que haviam escapado, e estava sinistro pois estava magro e com roupas bem sujas. Seus olhos fundos e ossos aparentes, mostravam que não comia a muito tempo. E nem comeria mais nada agora.

Deixou aquilo na cozinha, e foi se deitar, afinal, amanhã tinha um longo dia.

Mais um amanhecer lindo, porém, com nuvens aparentes, havia se levantado uma hora e meia mais cedo do que o normal. Se levantou, tomou café, limpou a sujeira e começou a cavar o quintal. Enxugou o suor da testa, e após a última pá de terra, foi tomar um banho rápido para ir ao trabalho.

“Fazia tempo que eu não fazia isso, mas tenho que arrumar outro lugar para esconder os corpos, to ficando sem espaço pra cavar covas aqui nos fundos.A casa na outra cidade era maior… Agora sim me sinto mais calmo…” Disse para si mesmo e entrou em casa com um sorriso no rosto. Olhou o quadro na parede, passou os dedos levemente sobre ele e subiu cantarolando.

No quadro, um recorte de jornal, com uma notícia velha, porém guardada com extremo carinho: “ASSASSINO MISTERIOROSO FORAGIDO. POLICIA AFIRMA QUE SE TRATA DE UM LOUCO, UMA VEZ QUE SEUS PROPÓSITOS SÃO MOTIVADOS APENAS PARA “RELAXAMENTO PESSOAL” CONFORME RELATO DO ACUSADO. POLICIAIS ESTÃO EM BUSCA E ALERTAM A POPULAÇÃO SOBRE O PERIGO.”

 

juhliana_lopes 07-05-2014

Dia Agradável

Acordei relativamente bem hoje. O sol estava brilhando logo cedo e a brisa deixava o tempo fresco. Os pássaros cantavam e o dia prometia ser amistoso. Levantei e fui tomar café. Algo estava com um cheiro esquisito e ao abrir a geladeira descobri o que era. Limpei tudo, peguei um pão e comecei a comer.

Saí para o meu passeio matinal e antes de chegar no meu portão tropecei em alguma coisa. Ignorei, na volta eu arrumaria tudo. Caminhando, notei que esqueci de trocar de camisa e a minha estava manchada. Agora não tinha mais jeito e ninguém iria notar de verdade.

O ar puro da manhã entrava em meus pulmões me trazendo um vigor que me deixava mais animado. As pessoas caminhando, os carros passando, a vida seguindo da forma como devia trazia até um certo nível de esperança na humanidade.

Parei próximo do lago e me perdi em horas observando o movimento da água. O patinhos já estavam nadando e algumas pessoas jogavam pedaços e pães para eles. Senti algo tocar a minha perna, uma bola. Ao olhar em volta, vi um menininho me olhando desconfiado de longe e então toquei a bola em sua direção. Ele se abaixou meio desajeitado, pegou a bola com as mãos e saiu correndo com um sorriso no rosto.

psico

Voltei pra casa também com um sorriso bobo. Este leve contato com as pessoas fazia com que eu me sentisse mais pleno e tranquilo. O que aconteceu poderia ter tirado toda esta calma, mas se tratando de quem era, não tinha com que me preocupar.

Cheguei e ela me esperava na porta de casa, olhando com ar de desaprovação e apontando para o quintal.

– Ah, para. Eu ia limpar isso quando chegasse…

– Você tinha me prometido que ia parar…

– Eu sei mas dessa vez era ele ou eu…

– Enterra logo isso direito e depois chama aquele seu amigo pra fazer as cinzas… Você consegue ser tão desligado que eu não sei como ainda não te pegaram… E também não sei por que eu não te denuncio…

– Porque você sabe que no fundo eu faço isso com as pessoas certas.

Peguei a pá e comecei a cavar atrás da minha casa. Uma melodia começou a tocar vinda da sala e me motivou mais para o serviço. Arrastei o corpo que estava apenas coberto com folhas e o enterrei. Agora, observando bem, acho que peguei pesado ao quebrar seu pescoço, mas o serviço já estava feito.

Quando terminei tudo, ela me esperava na sala. Seguimos para a cozinha onde ela começou a procurar algo pra comer enquanto eu bebia um pouco de água.

– Tem algo aqui na geladeira… Sério. Você precisa de tratamento.

– O que foi agora?

– Essa cabeça aqui na geladeira… Custava colocar no formol? Sentiu o cheiro disso? Quanto tempo tá aqui?

– Acho que desde semana passada. O corpo já era…

– Ainda bem, pra variar. Ai credo e esse cabelo seboso… Toma, coloca em um daqueles vidros que você tem e enche de formol, pelo menos fica pra sua coleção.

– Sim senhora…

Ela era uma garota legal. Já quase me denunciara duas vezes mas ainda sim ficava ao meu lado. Ela sabia que eu nunca ia tentar nada contra inocentes e que era discreto o bastante para que ninguém percebesse. Fiz exatamente como ela disse e coloquei o vidro junto com os outros num quarto oculto.

Ao voltar, mais um sermão…

– Você saiu com essa camisa?

– Sim. Por quê?

– Com essa mancha de sangue?

– É de manhã. Ninguém sabe distinguir bem uma mancha de sangue pra uma mancha de geleia ou suco natural de qualquer coisa vermelha…

– Pro seu bem, eu espero que ninguém mesmo…

Ficamos um tempo ali, ela terminando de comer, e a música ainda rolando no outro cômodo. Num certo momento, um olha para cara do outro e eu digo:

‘Cause I like…

Birds. – ela responde sorrindo.

juhliana_lopes 03-09-2013

Referências: Música I like Birds (Eels)