Um amigo de um amigo meu #2

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Quando eu paro para pensar em todas as minhas amizades, percebo que conheço muita gente que não presta… na verdade, amigos dos amigos que normalmente vem com esquisitices. É curioso ver como é possível ter uma diversidade de loucuras, apenas em seu círculo de amizades. Às vezes me pergunto, será que sou tão louco como eles? Não, sou apenas um contador de histórias, e isso me fez lembrar da amiga de um amigo meu…

Ela era professora dele na verdade, se tornou amiga depois de uns anos lecionando. Continuaram amigos mesmo depois do curso, e eles sempre saiam para as festas juntos. Não namoravam. Apesar de mais velha e dele ter pedido uma vez, ela disse que não daria certo, não pela idade, mas por ela nunca se relacionar com ninguém pessoalmente.

Já perceberam como você fica mole com o calor? É horrível. É por isso que particularmente eu prefiro o frio. Pelo menos você coloca umas trezentas blusas, fica andando igual a um pinguim e consegue ficar à vontade. No calor, mesmo nu, você ainda sente calor… Se eu tivesse meios… bem, melhor não falar, vai que o amigo do meu amigo da semana passada aparece…

Enfim, ela nunca se relacionava com ninguém pessoalmente. Mania estranha? Pode ser, mas ela preferia assim. Dizia que tinha o dom natural de afastar as pessoas e que era mais fácil lidar com isso por uma tela. As poucas fotos que tinha com seus amores virtuais eram montagens, e mesmo com eles implorando para um “conhecimento mais íntimo”, ela se contentava e se dava por satisfeita por sua imaginação, pois nem pela web cam ela aceitava contato.

Os poucos amigos que tinha não se importavam muito, tanto que nem davam atenção quando ela contava seus casos para eles. Era como se ela tivesse duas vidas. A virtual com seu namorado invisível, e a social, com a suas aulas, amigos e festas. Família? Moravam em outro estado e ela não fazia mais questão de ir vê-los. Brigas, algo sobre o irmão ou primo, alguma coisa do gênero.

Meu amigo arrumou uma namorada, e o irmão dela, ficou muito interessado nesta professora. Claro que ela dava muitos foras, e ele continuava insistindo. Um dia, ela bebeu muito depois de terminar seu relacionamento “on”, pois o rapaz deu o ultimato: “ou nos encontramos ou tudo acaba aqui”; é claro que ela não precisou pensar e pela bebedeira tudo tinha acabado. O cunhado do meu amigo, muito prestativo, cuidou dela bêbada, ouviu todos os seus lamentos e se ofereceu para levá-la em casa. No carro, conseguiu se aproveitar de seu estado e lhe arrancar uns beijos, como percebeu que ela não resistia, não a levou para a casa dela e sim para a sua.

Sabe qual o problema das pessoas? Elas nunca ficam atentas. Sério. “Não, porque eu presto atenção em tudo”, e eu digo que não. As pessoas enchem o peito para dizer que conhecem exatamente a outra pessoa, e podem até conhecer mesmo, mas ainda assim, sempre a algo que elas nunca prestam atenção, e é normalmente esse detalhe que a pessoa gostaria que fosse notado. Algumas pessoas pensam em pedir ajuda, mas não sabem como, e são nesses detalhes que elas depositam todas as suas esperanças. É por isso que tanta coisa acontece…

Uma pessoa que dá aulas por exemplo. Visualmente é uma pessoa inteligente, que tem a capacidade de passar para a frente o conhecimento que adquiriu. Um exemplo, algo realmente notável. Seguindo a lógica, também podemos dizer que pode ser, preste atenção, pode ser, uma pessoa possivelmente estressada, por causa do comportamento pela idade de seus alunos, ou pelos outros professores que são péssimos colegas de trabalho, pela direção, pelo trânsito que pode pegar indo a caminho do trabalho ou a caminho de casa…. Mas pode ser também uma pessoa feliz por ter excelentes alunos, excelentes colegas de trabalho, pela direção competente e por trabalhar do lado de casa.

O calor. Sério, o calor é um fator que também estressa as pessoas. Eu me sinto estressado. É horrível! Mas é o que tem para hoje… A minha sorte são as maravilhosas bebidas geladas que além de refrescar meu corpo, adoçam a minha mente, com o seu toque suave deslizando pela minha garganta deixando um leve aroma de frutas cítricas no ar… Enquanto isso, o álcool invade a minha mente e faz as minhas ideias dançarem diante de meus olhos…. É realmente estimulante.

Sobre a professora, bem, quando ela notou que estava fora do caminho de casa, o álcool já havia abandonado sua mente. Na verdade, desde a hora que ela entrou no carro, mas continuou fingindo para ver do que o belo rapaz seria capaz. Ele era meio atlético, daquele tipo que todo mundo acaba olhando, mas nem tanto pela sua beleza e sim pela presença. Agora estava sem presença nenhuma, dirigindo rápido para sua casa com a sua presa na sua mão. Ou pelo menos ele pensava assim.

Depois de uma semana meu amigo disse que a irmã dele estava muito preocupada. Claro que um desaparecimento não era normal. A professora foi visitar a família, pai doente aparentemente, e depois de três dias, o cunhado do meu amigo ligou dizendo que estava bem, que só precisava de um tempo para pensar.

A professora voltou, e realmente, seu pai estava doente. Entenda, é normal eu começar a cogitar que essas histórias sejam mentiras, afinal, conheço todo tipo de gente, e todo tipo mesmo de situação pode acontecer. O cunhado do meu amigo também apareceu, tranquilo e aparentemente desistiu da professora, apesar de ainda dar em cima dela nas festas.

A professora logo arrumou outro namorado virtual, e logo terminou também, logo outros caras começaram a dar em cima, e logo ela ganhava mais caronas. Tudo seguia seu rumo normal, e eu mesmo aproveitei minhas férias para viajar.

Foi uma viagem ótima, aproveitei para andar muito, conhecer mais loucos e contar minhas histórias. Visitei museus das cidades, que guardam coisas como “o primeiro telefone”, “garrafas antigas de leite”, e outras tranqueiras. Uma cidade pode ter muita história por trás de uma garrafa antiga de leite, mas não me interessa muito saber, por isso voltei.

Ao voltar, meu amigo estava solteiro, a namorada dele voltou seja lá de onde ela veio junto com seu irmão. Claro que ele não queria assumir o que aconteceu, mas com um pouco de insistência ele me contou. Claro que eu não devia ter perguntado mais uma vez, mas pelo menos desta ele não estava me contando por telefone…

 

Eis o que aconteceu:

Ao levar a professora para casa, o garanhão, a levou no colo até seu quarto. Ela caiu praticamente “desmaiada” na cama, e ele se apressou para tomar um banho rápido. Ao voltar, ela não estava na cama, e ele começou a andar pela casa. A porta ainda estava trancada, logo ela não saiu, e ao voltar para o quarto ele a achou. Foi um corte rápido e o fato dele perambular pela casa só de toalha ajudou, logo em seguida ela o fez desmaiar com um líquido que ela tinha na bolsa e pegou o gelo que ela havia conseguido na cozinha para ajudar a coagular o sangue. Ligou para a ambulância e saiu calmamente. O choque foi traumático, ainda mais quando ele percebeu que não tinha mais jeito. Ele tentou esconder, mas logo a irmã dele descobriu e culpou o namorado por apresentar uma louca para o irmão dela.

Meu amigo, totalmente inocente, tentou ajudar, mas não havia jeito. Mais tarde, ele em casa, em seu porre pós término namoro recebeu a visita da professora. Ele, lógico se assustou pois, tudo estava trancado, mas não teve tempo de perguntar como ela entrou. Ela também não fez nada, pelo menos não o deixou eunuco como o seu ex cunhado, mas avisou que o próximo amiguinho dele que fosse atrás dela, ia sentir o gosto dele. Ele, claro, prometeu que ninguém mais ia se aproximar dela, e ela sumiu, da mesma forma que apareceu.

Ele se afastou dela, e só encontrava raramente em alguma balada. Quando algum amigo dele perguntava quem era, ele dizia logo que era uma amiga da sua mãe, assim ninguém se aproximava. Ela, continuou satisfeita.

E não, ela não só castrava seus pretendentes, como fotografava o estrago. Tinha um quarto em casa com as paredes repletas de fotos, cada uma com nomes e datas, e a última, ela mostrou para o meu amigo como um bom aviso.  

Eu mesmo já gravei o rosto dela, para nunca ter problemas desse tipo. Não que eu me importe, mas…. Não estou muito afim de sentir dor…

 

A moral? Tem alguma? Pessoas podem ser estranhas, mas, uma coisa é importante…. Respeite a esquisitices delas, e você pode sobreviver mais alguns anos…. Pelo menos inteiro.

 

E, já comentei com vocês como me sinto bem em ser solteiro? Isso sim é vida…

juhliana_lopes

Fácil demais

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Ele estava obcecado. Não sabia de onde ela vinha, nem para onde ia, mas era quase impossível ignorar a presença dela. Era alta, tinha uma bela postura e curvas leves. Devia ser modelo talvez. Roupas sociais, cabelo impecável. Executiva talvez. Bolsa ao lado do corpo e celular quase sempre na mão. Muito ocupada talvez. Uma vez, ele passou por ela e viu uma foto de criança no celular dela, que logo deu lugar para uma tela de aplicativo de mensagens. Deve ser mãe talvez.

Não importava, ele só queria saber o nome dela, se estava bem, alguma coisa. Qualquer coisa. Eles se encontravam sempre no ponto de ônibus, porém ela pegava uma linha e ele outra. A dela sempre vinha primeiro. Ele ficava feito um bobo olhando pela janela, e ela com os olhos na tela, nem lhe dava atenção.

Pensou em abordá-la, falar banalidades, mas poderia ser interpretado mal. Afinal ele só a encontrava tarde da noite quando estava voltando do trabalho. Pensou em mil maneiras de esbarrar com ela para ter uma desculpa de pelo menos tocá-la. Mas não. Melhor esquecer.

Todo homem precisa de uma motivação e com ele não seria diferente. Sua maior fraqueza era o álcool e em um dia qualquer ele, a convite de amigos, bebeu algumas doses que viraram muitas em um aniversário. Voltando para casa, estava alto, atordoado e ao vê-la, seu pensamento ganhou uma direção.

Talvez por coincidência, o ônibus dele veio primeiro naquele mesmo dia, e talvez por acaso ela pegou o mesmo ônibus que ele. Suas mãos suavam. Ele não sabia o que fazer. Sabia que o que ele queria era errado, mas sabia que não tinha condições de conduzir uma conversa normal. Já havia esperado muito e tantos outros faziam, qual seria o problema? Ela nunca seria dele por vias normais.

Percebeu então que ela não morava tão longe e que só pegava o outro ônibus porque ele passava primeiro mesmo, afinal os dois faziam a mesma parte do caminho. Ele, sentado no fundo no ônibus, estralando os dedos e balançando a perna direita, ainda pensava que estava louco e não devia agir assim. Mas ele se arrependeria muito mais se não fizesse nada e talvez demorasse um bom tempo para usar o álcool como desculpa.

Desceu atrás dela e foi seguindo cauteloso, se esgueirando pelas sombras. Mantendo uma distância segura, percebeu que logo ela estaria em casa e ele perderia sua chance. Era preciso um segundo de coragem insana. Um segundo de loucura absurda. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Observou ela caminhando calmamente, com o celular na mão e então foi.

Se aproximou depressa e lhe deu uma chave de braço. Arrastou ela para o primeiro canto escuro que achou. Pressionou ela contra a parede e começou a beijar seu pescoço. Ela tentava em vão resistir. Ele a virou de frente para ele, e rasgou a sua blusa. Arrancando dois ou três botões. Com as mãos, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com força. Mordia seu pescoço e seu colo, e revezava suas mãos entre segurar as mãos dela e apalpar seu corpo. Estava se dando bem afinal, ele pensou. Mas faltava algo. Ele apertava, mordia e lhe deixava marcas. Não ousava olhar no rosto dela, apenas para o seu corpo que era alvo e delicado. Mas ainda faltava algo.

Quando ele começou a passar a mão pelas suas coxas, ela parou de resistir e puxava o corpo dele contra o dela. Ela estava gostando? Olhou finalmente para o rosto dela que estava de olhos fechados e um sorriso de satisfação. Ela estava realmente gostando. Resolveu então lhe dar um beijo na boca que foi correspondido com luxúria. Ele foi ficando cada vez mais animado, e suando com o álcool que reagia em seu corpo, se forçava mais contra o corpo da moça, tentando rasgar as roupas que ainda restavam. A camisa dele já estava no chão amassada, quando o sangue espirrou nela.

Ele ficou um tempo parado, olhando para ela que agora encarava seus olhos profundamente. Olhos castanhos, mais escuros ainda com a noite. Ele não sentiu dor quando a lâmina entrou, mas sentiu a profundidade do corte quando a lâmina saiu. Antes que ele pudesse sair do estado de choque e se manifestar sobre o acontecido, ela enfiou a faca novamente, desta vez no estômago. Agora ele se sentia mais fraco e fica uma quantidade de sangue absurda sair de si mesmo. Ela, agora olhava para ele com um sorriso. O mesmo sorriso de satisfação de quando ele estava tomando seu corpo. Ele caiu no chão e começou a agonizar. Ela, pegou sua bolsa, tirou uma camisa e uma toalha. Limpo o sangue dele que havia sujado a sua barriga e se vestiu. Ele, se debatia no chão, ainda olhando para ela. Seus pensamentos confusos não permitiam que ele pudesse manter uma linha de raciocínio, ele só sabia que estava morrendo.

Ela usava um salto, que não era tão alto, afinal ela mesmo era um pouco mais alta que as outras mulheres. Ela usou esse mesmo salto para enfiar a ponta no ferimento que ela havia aberto no seu estômago. Pisando literalmente sobre ele, observava com asco, enquanto ele gemia de dor, sem poder reagir, fraco com a perda de sangue.

Tirando o pé de cima dele, ela caminhou até a rua, pegou um cigarro e começou a fumar, observando a rua vazia. Maldita rua vazia. Quando estava quase terminando, apagou o cigarro na testa dele, e com a faca, abriu um corte profundo na sua garganta, sem acertar a jugular. Como um açougueiro, ela só desceu com a faca no pescoço do pobre homem e deixou a faca lá, fincada. Ele não se mexeu mais. Ela pegou a camisa dele com cuidado para não se sujar, e cobriu o seu rosto. Se levantou com leveza e seguiu andando até um ponto de ônibus próximo de uma avenida. Sozinha, pegou outro cigarro e o celular enquanto observava os carros. “Fácil demais”, ela pensou.

juhliana_lopes 10-10-2016

Quem é o assassino?

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Sempre caminhei durante a noite, seja por causa de trabalho ou por causa de cursos. A vida noturna muitas vezes é mais agitada que o dia, e igualmente perigosa. Algumas pessoas dizem que a noite estamos mais vulneráveis, mas isso não é verdade. De noite ou de dia, os perigos são os mesmo, a diferença é o lugar certo, e a hora errada. Me peguei pensando nisso depois que Megan, a menina nova, começou a falar sobre alguns casos do jornal. Desde o inicio notei que ela era meio frágil, mas não havia percebido até então em relação a quantidade. Depois de alguns casos sobre assalto e arrastões nos pontos de ônibus ela estava realmente apavorada, e começou a grudar em mim, pois segundo ela, eu lhe passava confiança.

Não que eu não tenha medo dessas coisas, afinal já fui assaltada algumas vezes e é realmente uma experiência assustadora, mas com o tempo você aprende que demonstrar seus medos demais, só faz você andar na defensiva, e por consequência, chamar atenção.

Um dia desses no trabalho, peguei ela chorando no vestiário. Me preocupei, achando que tinha acontecido algo, mas ela só estava sofrendo por antecedência como sempre. Se culpava por ser tão medrosa, e chegou até a dizer entre soluços e lágrimas que gostaria de ser forte como eu.

– Eu não sou forte Meg… – Expliquei. – Eu só sei fingir bem.

Não que esse tipo de palavra tenha ajudado, mas é estranho quando você lida bem com uma certa situação, porque todo mundo acha que você é a “dama de ferro”, “coração gelado”, que nada te abala. Como eu já disse, muita coisa me abala sim, mas eu finjo bem.

Começamos a sair um pouco mais tarde, para esperar os meninos do TI e sairmos todos juntos. A presença de mais pessoas parece ter ajudado, mas não aliviado o seu medo.

– Anne, você viu sobre o assassino que anda rondando a nossa região? Dizem que ele se aproveita das vítimas mortas.

– Eu vi, mas isso é mentira.

– Como assim?

– Até onde eu li, ele só esta matando, não tem nada sobre estupro.

– Ah, mas vai saber, esses caras são doentes, podem fazer qualquer coisa…

– E se você fica desesperada, já sabe o que acontece. – Encerrei o assunto. Ela não retrucou e continuou o seu trabalho. Meg ia ficar louca daquele jeito, e por mais que eu tentasse ajudar, não poderia fazer mais nada.

Hoje, quinta feira, recebemos uma bela chuva de presente, o que espantou metade das pessoas da rua. Além disso, nossa estratégia de segurança deu errado, pois depois de uma queda no sistema, os meninos tiveram que fazer hora extra. Uma mistura perfeita para o surto de Meg, que no fim das contas, não surtou. Ela estava calma, parecendo “aceitar” seu destino, mas volta e meia perguntava sobre as horas e fazia comentários como “está escuro hoje”, ou “e essa chuva?”.

No ponto de ônibus, ficamos próximas a um beco, para nos protegermos da chuva. Então ela resolveu puxar novamente uma conversa sobre  o assassino.

– Será que eles matam na chuva?

– Talvez. – respondi um pouco desinteressada.

– Sua frieza as vezes me assusta. – Meg respondeu, um pouco magoada.

– Desculpa, não foi minha intenção. Só não vejo motivo de falar nisso agora.

– Eu sei, é só que… Eu tenho medo. Não dá pra prever algo assim. Normalmente a gente imagina um cara com jeito de marginal, falando errado, e ai,  de repente aparece um cara de terno e gravata.

– Realmente, esse tipo de coisa é imprevisível.

– Imprevisível e assustador. – Disse Meg se abraçando por causa do frio. – É o nosso ônibus?

– Não, ainda não… – respondi sem olhar para ela, enquanto mexia em minha bolsa.

– Como você consegue esconder o seu medo tão bem? Não tem curiosidade de saber quem é o assassino?

– Na verdade não. E na verdade também, eu escondo bem porque “o assassino” sou eu.

Então eu calei a boca dela com um tiro. Com a chuva, mirei errado e acertei seu pescoço, que mesmo com o estrago, fazia com que ela piscasse freneticamente com um olhar assustado. Dei outro na sua cabeça, fazendo uma sujeira imensa que logo a chuva iria limpar. Ocultei com cuidado o corpo no beco e caminhei calmamente até o próximo ponto. Como eu disse, eu finjo bem.

juhliana_lopes 12-03-2016

Só mais uma história: O Nerd

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Edgar acordou cedo, mas ainda estava deitado na cama. Era preciso levantar logo, afinal hoje era dia de prova. Apesar da importância do dia ele não via a necessidade de fazer uma prova na qual ele já soubesse todas as respostas. Não que ele tenha tido acesso ao gabarito antes, mas era fato que sua inteligência estava superior até mesmo ao dos professores. Em todo caso, era preciso passar por essas meras formalidades.

Mas outra coisa também o angustiava. Conforme estava chegando o fim do ano, o bullying havia aumentado de modo significativo. Não que ele ligasse também, aprendeu cedo a ignorar xingamento ou qualquer coisa que pudessem fazer para tentar diminuí-lo, mas ultimamente estava ficando cada vez mais chato aguentar aqueles moleques. De qualquer forma, se arrumou e foi, pois apesar de todos os contras, a menina bonita que nunca lhe dava uma chance e ajudava em grande parte nas ofensas a ele, ia estar na sala e provavelmente se lembraria dele para pedir ajuda na prova.

Ele sabia que não tinha chance, ela mesma já havia deixado bem claro pra ele isso de todas as formas possíveis e até mesmo algumas impossíveis de se imaginar. Ainda sim, ele gostava de admirá-la como algo raro que ele jamais pudesse tocar.

O momento da prova chegou e todos estavam muito concentrados, mas ele se sentia apenas entediado mesmo. Enquanto o professor não olhava, Edgar foi atingido por uma bolinha de papel. Quando se virou irritado pra ver de onde veio, deu um sorriso sem graça. Era Jack, seu amigo “popular” que estava pedindo ajuda numa das questões mais fáceis. Aproveitou outra distração do professor e jogou o papel de volta.

Edgar enfim terminou a prova, entregou e foi liberado para o desespero dos outros alunos que preparavam suas bolinhas para pedir ajuda a ele. Do lado de fora, esperando paciente até Jack ser liberado para ir pra casa, foi abordado por uns garotos de uma sala mais velha. Eles tentavam intimidá-lo pelos seus óculos, pelas suas roupas, pelo seu cabelo, mas Edgar, imóvel, evitava contato visual. Sabia onde aquilo ia parar. Começou com um empurrão no ombro e um grito de “acorda moleque, não tá ouvindo a gente não?” seguido de uma tapa estralado e ardido nas costas que levou seu corpo à frente, tocando o peito na mesa. Edgar tentava se manter firme, mas mais uma vez os “caras” o provocavam, e agora mexiam com seu cabelo e lhe davam leves tapinhas no rosto. Edgar já estava ficando corado de raiva, mas ainda sim, tentava não fazer nada. Então ouviu o grito de Jack e ao se virar percebeu que a sua musa estava do lado de fora olhando toda situação. Jack correu e tentou intimidar os rapazes, dizendo-lhes para me deixar em paz ou eles teriam problemas. Eles foram embora rindo, mas não iriam desistir tão cedo. Ela, imóvel olhando a situação, foi embora quando outra amiga chegou.

– Jack, há quanto tempo a Débora saiu da sala?

– Depois que você saiu uns 5 minutos depois eu acho…

– Então ela já estava ali vendo o que estava acontecendo e não fez nada… – disse Edgar pensativo.

– Edgar, para de se iludir… O que ela poderia ter feito? Chamado os meninos da nossa sala pra ajudarem a te zoar mais. Esquece essa mina cara, tem muitas outras mais bonitas e que mesmo não sendo fáceis, te dariam uma chance.

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Cinderela – Reiventando Contos de Fadas

tumblr_m4qpzkUeny1qfqtbuo1_500Ela era bonita e delicada como uma boneca. Ele era alto e forte, com um ar aventureiro e curioso. Ela, sempre recatada e tímida sempre ria das aventuras verdadeiras e inventadas que ele, sempre com muita ênfase contava para ela quando voltava de suas viagens.

– Eu sinto muito pelos seus pais querida… – Ele disse segurando suas mãos.

 

– Tudo bem meu amor… – Ela disse baixando os olhos.

– Se tivesse me falado antes, eu não teria insistido tanto, eu teria… Teria feito diferente, me desculpe… – Ele dizia colocando a mão em seu rosto para secar suas lágrimas.

– Não tem problema. Não fez por mal… Mas, isso prejudica os nossos planos? – Ela perguntou levantando o rosto com as lágrimas ainda rolando pelo rosto delicado.

– De maneira nenhuma! Aliás, me deu coragem para uma decisão, vamos adiantar a data. Já está tudo pronto mesmo, nos casaremos amanhã! 

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Coração

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A primeira vista ninguém acreditou muito menos o delegado. Era impossível atribuir tantas coisas a uma pessoa tão frágil. A promotora também não apostava, mas pela cara dos guardas que a trouxeram com muito custo, algo horrível tinha acontecido lá fora.

– Vocês estão me zoando? Eu tenho cara de otário? – Dizia o delegado irritado. – Nós temos o retrato falado do sujeito de acordo com o que as vítimas relataram e vocês me trazem a primeira pessoa que acham na rua, achando que vão me convencer de que ela é a pessoa certa na verdade? Que merda vocês tem na cabeça?

O delegado já estava ficando vermelho e andava impaciente de um lado para o outro. Sua camisa social amarelada no colarinho e justa por causa da barriga saliente, já estava amassada e com manchas de café.

A promotora se aproximou tentando acalmá-lo. Ela observou os guardas mais uma vez com ar de desconfiança. A lógica diria que não, mas ela mesma já foi surpreendida com casos que estavam praticamente ganhos que tiveram uma reviravolta impressionante nos últimos minutos, mudando o rumo de tudo.

– Vamos com calma. É óbvio que talvez o criminoso não trabalhe sozinho e o que aconteceu foi que ele distraiu os guardas deixando uma isca para trás. Tenho certeza que se interrogarmos ela e os guardas tudo vai se esclarecer.

A promotora mantinha seu tom de voz firme e calmo como se estivesse em tribunal, mas a verdade que nem tudo lhe parecia tão óbvio e certo assim. Na verdade uma ponta de medo estava crescendo dentro dela, deixando seu peito angustiado.

Os guardas por sua vez estavam em choque. Desde que ela havia entrado na sala, não se atreveram a falar uma só palavra e o suor frio lhes descia pelas costas trazendo um arrepio gélido como o beijo da morte.

Ela. Quieta, não levantava a cabeça pra olhar nada. Não dava pra dizer se ela também estava ouvindo a conversa toda ao seu redor, ou sentido o clima pesado que estava cada vez mais insuportável. Ali, parada, parecia uma surda-muda, que provavelmente seria cega também.

Enfim, o médico legista saiu de sua sala. Sua roupa branca agora estava com manchas de sangue e a máscara de seu rosto balançava forte com o ar forte que respirava. A promotora olhava apreensiva, e os guardas com seu olhar estático, já esperavam as palavras que viriam.

– Eu preciso falar algo… – começou ele com a voz baixa.

– O que foi? Mais alguma evidência? – perguntou o delegado impaciente.

– Eu… Bem, ocultei uma coisa. Em todas as vítimas que foram achadas, havia cortes na barriga…

– Como outros cortes no corpo, mas o que você quer dizer com “ocultei uma coisa”, acha que estamos de brincadeira rapaz? – o delegado ia falando enquanto andava de um lado para o outro.

– Deixe o rapaz terminar! – interrompeu a promotora falando alto.

– Bem… Eu abri esses cortes pra saber por que havia sido cortado… Eu achei… – o médico suspirou fundo. – Em cada corpo há objetos guardados.

– Objetos? – questionou a promotora pensativa.

– Sim. E mesmo eu não sendo investigador nem nada, eu resolvi tentar resolver esse quebra cabeça. – O médico respirou fundo mais uma vez e começou a falar sem parar. – Todas as pessoas mortas trabalhavam em empresas grandes, e poucos dias antes da morte, os funcionários reclamavam do sumiço de alguns objetos. Canetas, blocos de nota, tesouras, entre outros acessórios de escritório. Na última antes dessa, um funcionário comentou que sentia muito, pois, pouco antes dele sumir, uma caneta que o morto adorava havia sumido e ele se sentia culpado por isso. Quando examinei o corpo, a caneta estava lá, “guardada” dentro dele. Como os outros corpos estavam guardados para mais averiguações, comecei a verificar e todos tinham alguns objetos.

Ele falava mexendo as mãos e tentando não parecer abismado, mas a cor de seu rosto entregava seu temor.

– O que você achou nesse corpo? – disse a promotora com um tom desesperado.

– Dinheiro.

– Dinheiro? – questionou o delegado abismado.

– Sim. A mesma quantidade que vocês haviam falado que tinha sumido hoje pela manhã…

A promotora deixou o corpo cair sobre uma cadeira. Sentada, colocou a mão sobrea cabeça pensativa. O delegado que antes tinha tudo resolvido, por um momento se sentiu sem chão e também se sentou. Os guardas engoliram secos. Deram alguns passos tímidos para se afastar dela, e quem sabe sair antes de responderem alguma pergunta, mas antes que pudessem o delegado levantou a cabeça.

– Vocês… Por que a trouxeram, porque acham que é ela?

Eles se olhavam nervosos. Não queriam falar, não podiam falar. O guarda da esquerda começou a chorar com soluços disfarçados. O outro respirava forte tentando se segurar, mas logo estava berrando desesperado como uma criança com medo de médico.

– ELA ESTAVA COMENDO O CORAÇÃO DE UM CARA LÁ FORA!             ELA MATOU, ARRANCOU O CORAÇÃO E COMEÇOU A COMER, NO MEIO DE UMA PRAÇA! MATOU DA MESMA FORMA QUE OS OUTROS CORPOS FORAM ENCONTRADOS!

Ele estava respirando forte, quase sem ar. Antes de mais alguma explicação, desmaio cansado no chão com o pescoço torto. O outro trancou os lábios e cerrou os punhos. A promotora tentou ajudar o guarda e o delegado tentou arrancar mais alguma explicação. O outro não queria responder, mas também não suportou o silêncio.

– Quando nos viu, ela parou de comer o coração. Largou na calçada e “se entregou” pra gente. Veio sem a gente fazer força, sem nenhuma objeção… – Ele suspirou profundamente e enfim falou. – Ela veio nos matar.

O delegado abriu bem os olhos depois da afirmação, mas antes de qualquer objeção viu o sangue jorrar na sala. Ela tinha uma força incrível e uma faca afiada. Como um bicho, abriu o peito do guarda “mensageiro” e começou a comer seu coração.

Em seguida atacou à promotora, que tentou se defender, mas logo foi degolada. O delegado, apavorado, sofreu um ataque cardíaco, se tornando um peso morto que não chamou atenção para ser outra vítima da canibal. Com o outro guarda com o pescoço quebrado, sobrou somente o médico que em choque não conseguia se mexer.

– Você vai me usar pra guardar algum objeto não é? Por que você faz isso? – Ele dizia em pânico.

Ela se aproximou mancando, e pela primeira vez levantou a cabeça para encará-lo. Seu rosto era angelical apesar da boca manchada de sangue, e seus olhos era um tom de mel quase amarelo. Por um momento se viu encantado pela beleza dela, mas não a ponto de esquecer seu pavor.

– Não vou guardar em você. – disse ela por fim, num tom de voz calmo e suave. – Você parece ser legal. – ela falou ainda olhando fixamente para ele. Depois, se virou e começou a abrir o estomago do guarda com o pescoço quebrado. Tirou um DVD envolvido num plástico do bolso e colocou em sua barriga através da abertura que havia feito.

– O… Que tem nesse DVD? – ele disse atordoado.

– Imagens da promotora e do delegado, usando a sala da delegacia para outros fins, se é que você me entende… – Ela disse enquanto deixava o cadáver de forma confortável no chão. Então se levantou, aproximando-se do médico novamente.

– O que você quer? – Ele disse por fim.

– Agora? Você… – Ela respondeu, roubando-lhe um beijo longo e demorado, que apesar das evidências não foi rejeitado. Pela primeira vez ele beijava alguém com tanta volúpia. Pela primeira vez sentia o gosto de sangue. E apesar de toda a lógica e ética lhe mostrar que não, sentiu que gostava daquilo, tanto quanto a sua profissão.

 

juhliana_lopes 16-10-2014

Melhor sensação

1525493_637627816283631_73225980_nDesde criança notei o quanto era importante valorizar as sensações. Lembro-me de quando meu avô me abraçava forte e me contava histórias para dormir. Muitas vezes eu só conseguia acompanhar até certa parte da história, e depois só conseguia ouvir a sonoridade de sua voz antes de cair no sono completamente. A paz que eu sentia era tão boa que eu poderia dormir a noite toda ouvindo a voz dele. Ele percebia o quanto aquilo me fazia bem e sempre ficava um pouco mais, mesmo sabendo que eu estava dormindo.

Na escola comecei a apreciar o cheiro do giz de cera quando eu o usava para pintar meus desenhos. Por consequência, desenvolvi muito a minha capacidade de desenhar e colorir, indo além de bonecos de palito que a maioria das crianças da minha idade faziam.

Na fase da escola, ainda no período infantil, senti a sensação de um abraço amigo, mesmo que por vezes eu ainda ficasse sem graça quando estes vinham do nada, sem um motivo aparente. Também senti a sensação da vergonha e desconfiança pela primeira vez – ainda que eu não soubesse nomeá-las ainda – quando algumas crianças riam de mim e cochichavam umas com as outras quando eu me isolava com meus desenhos.

Na pré-adolescência descobri mais sensações. A primeira cólica, a sensação de estranheza de acordar num belo dia e enfim se tocar que tem algo diferente. Sentir na pele a falsidade daqueles que eram “amigos de verdade”. Perceber que você realmente confiou em alguém errado. Agora, além dos desenhos, eu também havia me dedicado a instrumentos musicais e o violão era o meu companheiro. Os outros ainda me tratavam mal por eu me isolar de vez em quando, porém nem sempre eu me “isolava sozinha”. Quando se cresce, você acaba descobrindo outros parecidos com você. Não estar completamente sozinha agora era um alívio.

Conheci a emoção de receber um bilhete pedindo um encontro, e a decepção de ver que era apenas mais uma brincadeira. Conheci a emoção de ter um beijo roubado de alguém que eu nunca havia reparado e ficar me perguntando o que ele havia visto em mim. Esse amor adolescente não passou de um beijo é claro, ele estava se mudando e como não tinha coragem de falar o que sentia, fez este ato de desespero antes de ir embora.

As coisas pioraram, é verdade. Descobri-me como uma pessoa bonita, mas por causa da minha timidez, as pessoas não olhavam para mim. Tudo piorou quando descobri a tristeza de ter uma família desfeita quando meus pais se separaram. Aquilo me fechou mais para o mundo e agora, além do violão e dos desenhos, encontrava conforto procurando coisas “sombrias”. Nunca quis ser “do mal”, mas ver imagens que a maioria das pessoas renegava como “coisas ruins”, me fazia sentir que eu realmente estava à margem e longe de toda aquela insanidade normal.

Quando meu avô se foi, senti a tristeza profunda, e uma raiva incontrolável, sobretudo ao descobrir que não havia sido uma morte natural como me fizeram acreditar no início. Um bandido tentou assaltar sua casa e ele teve um ataque.  Pegaram o cara uns dias depois, mas depois de uma fiança ridícula, ele foi solto.

Apesar de tudo, minha vida não foi só tristeza. Fui muito feliz também, sobretudo em realizações pessoais. O primeiro trabalho na escola, a primeira apresentação. Mesmo com a timidez, participei de teatros e apresentações de dança. Entre os meus amigos (os isolados), dei boas risadas, contamos boas histórias, e esquecíamos o mundo quando estávamos reunidos.

Comecei a apreciar as sensações como drogas, sempre procurando uma diferente que me despertasse algo novo. De fato, a melhor, foi um misto. Reunida com meus amigos, fomos abordados por um cara armado. Todos ficaram com medo, mas ao olhar nos olhos dele, o reconheci. Talvez tenha sido os filmes ou as histórias que eu já tinha lido, mas com um movimento rápido, consegui tomar a arma de sua mão. Na verdade, foi algo idiota se você for reparar. Eu simplesmente tomei a arma de sua mão como uma mãe toma um brinquedo de uma criança. Ele não esperava e sua cara de espanto foi ainda maior quando eu disparei em seu estômago antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Todos me olhavam alarmados e ele gritava e rolava no chão com a dor.

O cara não estava sozinho afinal de contas, e quando viu o amigo ferido, fez uma amiga minha de refém ordenando que eu largasse a arma. Ele a segurava com uma faca em seu pescoço e ela chorava como uma criança. Os outros – quatro, mais uma menina e três garotos da mesma idade – em choque não conseguiam se mexer. Um dos rapazes ainda tentou dizer algumas palavras, mas então, eu atirei na perna de minha amiga que estava refém.

Ela estava no chão sangrando e o bandido amigo me olhava com uma cara de quem não sabia o que estava acontecendo, mas de certo me achava retardada. Ele não sabia se pegava outra pessoa de refém ou não, e minha amiga chorava de dor mais do que quando estava só sendo ameaçada. Os outros amigos me olhavam horrorizados e suas pernas tremiam tanto que não conseguiam correr.

– Você é louca garota? – Enfim falou o homem com a faca.

– O que você quer afinal? Já atirei no seu amigo. Já atirei na minha amiga. E vou atirar em qualquer um que você pegar de refém pra tentar me abalar. O que você está esperando afinal?

– Por que…

– Eu não me importo, não percebeu? A única pessoa com quem eu me importava me foi tirada pelo seu amiguinho. Vou te dar uma última chance, o que você está esperando?

Ele ainda me olhava surpreso quando tomou um tiro no joelho. Confesso que era a primeira vez que eu usava uma arma, mas por algum motivo minha precisão era ótima.

Ele tentou correr, mas não foi muito longe por causa da dor. Um amigo meu enfim tirou a pistola de minha mão e jogou no chão. Ele gritava no meu rosto enquanto segurava meus braços como quem balança uma boneca.

– O que está acontecendo com você?

– Sinceramente? Nada.

– Como você tem coragem de dizer “nada”? Olha o que você fez! – respondeu a outra amiga indignada.

– Gente, sério. Não sinto nada. Apenas me defendi e defendi vocês. – Apesar destas palavras, a “defesa” não era bem uma motivação. Na verdade, o nada era a absoluta verdade. Sensações como medo, angústia, raiva, vingança, surpresa, amor e dor estavam tão bagunçadas que era como se eu não estivesse sentindo nada. Na verdade, eu realmente não me importava.

– Defendendo? Você atirou na Ana sem mais nem menos? Isso é defesa? – minha amiga gritava enquanto apontava para Ana. Um dos rapazes ainda me segurava e os outros dois tentavam ajudar Ana que já estava desmaiando pela perda de sangue. O cara que chegou com a arma já estava desacordado em uma poça de sangue, provavelmente morto ou quase, já que não havia movimentos de respiração.

– Ele queria me abalar. Mostrei que ele teria que fazer melhor. – Respondi sem pensar.

– Você está louca? Como assim fazer melhor? Tá achando que isso é uma das histórias que você fica lendo? Você machucou a nossa amiga pra ele não machuca-la e nem machucar você? Você tá ouvindo a idiotice que você tá falando?

– Para gente, nem foi tão sério assim, antes eu machucar ela do que ele. Ele não teria pena… Afinal… – Eu falava até ser interrompida por um “click”.

Quando olhamos, o cara do joelho estourado havia conseguido se arrastar até a pistola, porém, não havia mais balas. Soltei-me das mãos do meu amigo, peguei a faca que não estava tão longe e antes que ele pudesse se defender, cravei na sua barriga. Não sei se acertei algum órgão vital, mas agora ele sangrava e gritava de dor. Meu amigo tentou me segurar de novo, mas com o susto, abri um corte em seu braço. Não havia sido profundo, mas o suficiente pra rasgar sua roupa.

O medo estava nos olhos de todos que não sabiam se podiam se aproximar ou falar alguma coisa. Chegaram então mais dois homens, armados chamando pelos amigos que estavam no chão. Os meus, já estavam com as mãos para o alto.

– É ela… – gemeu o cara do joelho.

Apontaram a arma para mim então, porém o segundo homem abaixou e correu para socorrer o outro que já devia estar esfriando. Meus amigos agora tremiam dos pés a cabeça e quando a minha amiga da perna gritou de dor, o homem a chutou na costela para que se calasse. Os dois amigos que a socorriam, tentaram afastá-lo, mas logo paralisaram com a arma apontada. Com a distração, cravei a faca (com uma força que até hoje não sei como consegui) em suas costas, próximo do ombro. Ele se virou para atirar em mim, mas errou, e se distraiu com a própria dor ao tentar tirar a faca. Tomei a arma assim como havia tomado do primeiro e atirei em sua cabeça. Sujei-me com o sangue que espirrou e agora ouvia os gritos do outro cara me chamando de louca e o disparo feito contra a minha outra amiga que estava em pé de costas pra ele. Ela caiu imediatamente no chão.

Confesso que não sei quanto tempo se passou, nem as horas em que tudo ocorreu, mas estranhei principalmente o fato que ninguém passava naquela rua, nem para ver o que estava acontecendo. Talvez estivéssemos perdidos, ou as pessoas estivessem tão desinteressadas quanto eu.

Minha amiga não se mexia, mas o sangue mais uma vez tomava conta da rua. Então, dei mais um tiro nela.  O cara que estava pronto para atirar em mim não entendeu o que estava acontecendo, e então com o tempo que ganhei, disparei contra ele, o tiro acertou seu peito. Meu amigo, o que me segurou a primeira vez agora tentava me segurar novamente, mas então me virei e acertei um tiro em seu braço. Os outros tentaram correr, mas levaram tiros de raspão nas coxas. Uma vez no chão, atirei mais uma vez em suas pernas, no local onde o tiro havia acertado a primeira vez, apenas para abrir mais o ferimento.

Com todos no chão – alguns mortos – me sentei no chão, sob o sangue, e peguei o celular. Liguei para a polícia.

– Central de emergência.

– Oi, eu preciso de algumas ambulâncias.

– Qual o problema?

– Bem, eu estava com meus amigos e fomos abordados por quatro bandidos. Eles estavam armados e meus amigos estão feridos. É meio urgente, tem muito sangue aqui.

– Sim senhora, me informe o endereço para que eu possa estar enviando o carro imediatamente.

– Sim, Rua Cardeal Mourinho, na Praça das Marrecas. São pelo menos nove corpos, acredito que cinco estão mortos. Duas moças e três bandidos.

– Senhora, me desculpe a pergunta, estou lhe achando muito calma. Preciso me certificar que não é um trote. Você está sozinha, só você não foi acertada?

– Sim. Eu que disparei contra a maioria para autodefesa. Venham rápido antes que tenham que buscar mais mortos por causa da perda de sangue. Sim, fui eu que atirei. E talvez eu tenha matado alguns deles. De qualquer forma, precisamos de socorro.

O silêncio do outro lado da linha ficou evidente e um: “Ok, estamos indo para ir. Exijo que a senhora espere no local” foi tudo antes da linha cair. Não esperei. Fui embora pra casa, mesmo com a roupa suja de sangue. Fiz outro caminho pra casa e quando cheguei, minha mãe me questionou. Respondi apenas, apática, que estava suja de tinta. Ela, que não parecia se importar, voltou a seus afazeres.

Troquei de roupa e sai àquela noite. Sabia que uma hora ou outra iam me encontrar e mesmo não sentindo nada, não estava a fim de responder perguntas.

O que eu senti com tudo isso? Nada. Realmente um nada profundo e libertador. Pode parecer insano, e muitas pessoas não vão entender ou vão me classificar, porém não existe sensação melhor do que sentir nada. As coisas acontecem na sua frente e mesmo sendo absurdo, você continua não se importando. Não que eu não gostasse dos meus amigos, eu gosto deles, e muito. Nunca tive amigos tão verdadeiros como eles, porém naquele momento, não havia outra coisa a se fazer. É por estar preso a sentimentos que as pessoas sofrem e eu não queria sofrer mais. Meus sentimentos são totalmente verdadeiros por eles, e espero sinceramente que estejam bem, os que restaram vivos. Fui ao enterro das minhas amigas, depois na verdade, afinal não podia ser vista, e realmente, sinto muito por elas. E não, não vou dizer que não sabia o que estava fazendo, nem que fui possuída e muito menos que agi por impulso. Eu sei que atirei naquelas pessoas. Sei que matei pessoas, e fiz porque me deu vontade. Vontade de sentir algo novo, algo que não havia experimentado. E mais uma vez, eu digo, a melhor sensação que existe, é o Nada.