Desejo

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A brisa leve bagunça meus cabelos enquanto te espero.

Meus pensamentos voam lembrando de nossos momentos.

Seus olhos me intimando, que observam tudo,

Que me deixam sem graça sem dizer qualquer palavra.

Seus braços que me tomam para si, de forma tão acolhedora,

Seu toque suave que me faz arrepiar,

Suas mãos quentes que fazem minha pele ferver.

Enquanto te espero, consigo sentir o gosto do seu beijo,

E sou capaz de ouvir suas palavras sussurradas em meu ouvido.

Quando estou com você, me sinto tão bem,

É como se o tempo não precisasse passar.

Cada momento ruim parece sem importância,

E cada segundo parece muito, longe de você.

Me sinto nas nuvens ao seu lado,

Uma liberdade que há muito eu não podia sentir.

Eu poderia pedir para me conter, para me controlar,

Mas ao seu lado, eu não penso em limites.

Algo em você faz eu me sentir leve,

Pronta para arriscar, pronta para seguir.

Algo em você me faz querer coisas que eu nunca pensei.

O cheiro do seu perfume, a forma como você sorri,

Tudo faz sentido em você.

A brisa leve bagunça meus cabelos enquanto eu te espero,

E seu olhar perturba a minha mente,

Pois é você que eu desejo,

É só você que eu quero.

juhliana_lopes 27-02-2017

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Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017

Jantar

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Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

Noite fria

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Eu vagava só pelas noites,

Uma andarilha pelas ruas escuras.

Me escondia nas sombras,

Com medo de tudo.

A lua era minha única amiga,

Me guiando com sua luz.

Porém as vezes, ela me faltava

Nas noites de lua nova,

Ou quando as nuvens a cobriam.

Novamente, eu ficava só

E com medo.

Um dia, você apareceu para me aquecer.

Quem diria, tão frio e tão quente.

Seu abraço, era meu aconchego

E seu sorriso, minha luz.

Assim como a lua, as vezes você me falta,

E eu vago sozinha, a te procurar.

Descobri depois que estamos ligados,

Pois quando se sente triste,

Meu coração aperta.

Quando se sente em dúvida,

Meu coração me alerta.

Quando está feliz,

Meu coração faz festa!

Te procuro nesta noite fria,

Mas não procuro seu calor.

Te procuro nesta noite fria,

Para lhe dar o meu amor.

juhliana_lopes 16-09-2016

Sem pressa

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É noite e a lua esta alta.

A brisa sopra leve, fazendo as folhas dançarem.

Pelas sombras você se aproxima,

Pois como um demônio,

Você vem me possuir.

Tu, minha serpente,

Que se enrola em minhas pernas

E sobe pela minha cintura,

Com seu corpo frio e esguio,

Me arrepiando pouco a pouco,

Me fazendo delirar em mil devaneios,

Me fazendo me perder de mim mesmo.

Tu, minha vampira,

Que me morde o pescoço,

E pouco a pouco suga minha alma,

Me arranhando lentamente,

Abrindo minha carne,

Expondo meu ser.

Tu, meu doce erro,

Que pesa seu corpo sobre o meu,

Que me impede de fugir,

Que me prende com seus abraços,

Deixando meu corpo dormente,

Me fazendo esquecer das horas.

Tu, minha ninfa travessa,

Que brinca com meus sentimentos,

Que me ilude com seus beijos,

E me tem por completo com seu olhar.

Peço-te que devolvas meu coração,

Pois preciso dele para viver.

Porém, não tenha pressa.

Devolva-me apenas,

Depois que usares completamente meu corpo,

Para seu bel-prazer.

juhliana_lopes 08-08-2016

Incomodo

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Mais um cigarro e uma mão boa. Estava enfim ficando bom no jogo e ganhando alguns trocados com isso. Sempre se perguntou se Will não se importava que ele fumasse ali dentro, ou se não falava nada só para não o contrariar.  Estava acostumado com isso afinal, desde criança sentia que as pessoas o tratavam diferente. O bullying não lhe fez mal, era até bom, ganhou uma fama. Não era tão ruim ser rejeitado pelas crianças da sua idade, só por se parecer maior. Ele pode fazer amizade com os mais velhos e com isso seu desenvolvimento foi relativamente precoce.

Bebeu mais gole daquela bebida ruim que todo mundo bebia, e tragou um pouco mais de fumaça. Deixou escapar pelas narinas enquanto analisava a jogada do seu oponente. Ele era um fraco realmente, deixando transparecer todo o seu nervosismo diante dele. Já havia perdido o dinheiro todo, mas continuava a apostar, e se ele forçasse um pouco mais, era capaz de ganhar a casa e a esposa do rapaz. Não que ele fizesse isso, mas tinha vontade com alguns idiotas que apareciam por lá todos os dias.

Mais um jogo ganho, e agora o rapaz implorava por mais uma jogada pois a sorte finalmente estava ao seu lado. Ele não quis parecer mal-educado, mas ainda tinha um pouco de dignidade. Deixou então o rapaz falando sozinho e foi pegar outra garrafa para encher o seu copo gradualmente. Will era um velho desprezível apesar de tudo. Aquele bigode grisalho e o avental sujo, forçando simpatia. Ele pouco se importava para a condição de seus clientes ou o que eles pediam. Ele se importava apenas com o dinheiro sobre o balcão. Deixou aquele ancião de lado e voltou para sua mesa, se distraindo enquanto brincava com seus cigarros. Seus melhores amigos nos últimos dias. Deixou escrito um bilhete na carteira, pedindo para ser enterrado com um maço novo, caso alguém encontrasse seu corpo. Era uma preocupação infantil afinal, mas não queria que seu último desejo fosse ignorado, por isso escreveu no papel com uma caneta vermelha em letras maiúsculas.

Ainda distraído com os cigarros, não percebeu quando ela entrou. Só percebeu depois de alguns minutos, quando o perfume dela começou a invadir o lugar. Ela tinha os cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo e usava uma roupa simples, composta por um jeans e uma blusa cinza. Estava com alguns cartazes na mão e pedia para o velho Will para colar em algum lugar do bar. Ele permitiu sem muita paciência para conversa e ela animada, colocou um próximo a porta e outro próximo dos banheiros. Depois, agradeceu o velho com delicadeza que ignorou completamente o gesto, apenas balançando a sua cabeça, enquanto lavava alguns copos.

Mas que senhor sem modos era aquele velho. Como ignorar um ser tão belo que mais se parecia um anjo? Era raro algo daquele tipo aparecer naquele bar sujo, e quando finalmente se levantou para tirar uma água do joelho, percebeu o motivo que fez aquela imagem da perfeição divina aparecer. Um cachorrinho perdido. Imaginou em quantas desculpas esfarrapadas sobre cachorro ele teria que dar para tentar transar com aquela moça caso fosse valer a pena, mas só de pensar isso, já ficou cansado e resolveu voltar ao seu carteado.

Enfim a noite chegou e ele teria que ir embora do bar. Levantou um pouco tonto depois de tantas doses e pegou seu casaco. Alguns poderiam comparar com uma lona de circo, como faziam quando ele era criança, mas a verdade é que suas roupas precisavam ser um pouco mais largas que o normal para suportar o seu tamanho.

Quando criança, era maior que a crianças de sua idade e conforme foi crescendo e com a magia da puberdade, além de mais alto, ficou mais parrudo também. Quem o visse, poderia jurar que ele vivia em academias e estava se preparando para alguma competição de fisiculturismo, porém, o único levantamento que ele fazia era o de copo e o de cigarros. Talvez por isso as pessoas não o ameaçavam e nem mesmo tinham coragem para contradizê-lo. Em parte, ele se sentia mal, pois era difícil saber quando estavam sendo verdadeiros com ele. De qualquer forma isso não o trazia nenhum sofrimento, pois era só tomar um porre que isso se tornava um benefício, afinal, se todos concordavam, ninguém lhe encheria o saco.

Foi andando a noite, pelas ruas escuras que viu a sua musa inspiradora daquele dia novamente. Sozinha, ainda colando cartazes. Os postes estavam cheios, e ela parecia bem determinada. E com frio. Ele ficou um tempo ali parado na escuridão observando os movimentos graciosos da bela moça. Talvez ele tenha a imaginado nua, uma ou duas vezes, mas ele tinha certeza que na maioria do tempo, estava apenas tentando focar sua visão turva pela bebida. Depois de um tempo, se deu conta de como aquilo iria parecer bizarro, pois caso ela o visse ali parado com aquela cara de tarado, iria achar que ele era um maldito stalker e chamaria a polícia. Eles então viriam, e não fariam nada, além de pedir gentilmente para que ele lhes acompanhasse, para algumas perguntas. Não haveria enquadro, nem mesmo qualquer tipo de agressão. Ele enfim suspirou e tentou uma abordagem. A mais amigável que pode pensar naquela hora.

Mesmo com um Oi gentil, é claro que ela ia se virar assustada, fazendo com que os cartazes caíssem. Após ajudá-la a recolher, ele perguntou se não era perigoso ela estar ali naquele horário. Droga! Que merda de pergunta era essa? Agora ela correria, ou olharia para ele com cara de desconfiança e daria um jeito de sumir da sua vista. Ele se calou subitamente após a pergunta, porém ela respondeu delicadamente que achava sim, porém estava muito preocupada com seu cachorro. Ele era muito importante para ela e ela não queria que nada de ruim acontecesse com seu filhote. Era a primeira vez que alguém não saia de perto dele depois de uma pergunta qualquer.

A moça tremia de frio e ele ofereceu então o seu casaco, que poderia enrolar duas ou três moças iguais a ela de uma vez. Ela sorriu e aceitou, ficando um pouco mais próxima dele desta vez. Aquilo era realmente estranho. Pelo menos para ele. Suas experiências com o sexo feminino sempre foram muito simplórias. Na escola, as meninas o ignoravam, mas no ensino médio as coisas começaram a mudar com o incentivo dos garotos mais velhos. Logo estava quebrando corações em troca de alguns momentos ofegantes e desde que se lembra, nunca foi diferente. Talvez aquilo significasse que o ciclo se repetiria.

Ela parecia ser tão frágil, tão delicada, aquele tipo de pessoa que precisava ser protegida. Ele não sabia ainda se queria protege-la, afinal seus pensamentos ainda estavam um pouco pervertidos. Em todo caso, ela era uma companhia agradável e tinha uma ótima conversa.

Enfim chegaram na casa dela, que para a sorte dele, não era tão longe do bar. Ela agradeceu a gentileza com um sorriso lindo, e ele percebeu então que talvez aquilo valesse mais do que uma simples transa. Percebeu então naquele mínimo instante que talvez aquele sorriso ficaria em sua cabeça por mais alguns dias e logo ele estaria passando por ali, como quem não quer nada, apenas para quem sabe, por acaso, encontra-la de novo e no meio de uma conversa desinteressada, convidá-la para sair. Percebeu que depois de algumas saídas, ela não o convidaria para entrar, e mesmo assim ele não se importaria. Notou que quando eles tivessem enfim uma oportunidade mais propícia aos desejos carnais, ele não teria pressa, e iria fazer de tudo para que ela ficasse satisfeita antes dele. Com um certo terror oculto nos olhos, percebeu então que talvez, aquilo fosse o tal “amor” que todos falavam. Ele não precisava daquilo.

Se despediu da moça, e acendeu um cigarro. Ela estava quase entrando em casa quando ele sentiu uma leve fisgada do lado esquerdo do peito e uma vontade incontrolável de voltar atrás. Parte dele sabia que não devia, que não era natural. Ele voltou. A chamou. Perguntou seu nome e se ofereceu para ajudá-la a procurar o cachorro no dia seguinte. Ela voltou sorridente, lhe deu seu número e um beijo no rosto.

Porém, o cachorro apareceu. Maldito.

Ela já estava com aquela coisa imunda no colo, quando ele sentiu mais um incomodo no peito. “Ainda podemos nos ver amanhã? ” Ele perguntou. “Sim, claro. ” Ela respondeu com aquele mesmo sorriso. Ele então saiu sorridente pelas ruas escuras, enquanto acendia seu cigarro.

No alto do telhado, com um olhar travesso, um pequeno ser com asas douradas levemente transparentes sorria feito criança. Seu arco estava na mão e as flechas nas costas. O Cupido havia feito um bom trabalho naquela noite afinal.

juhliana_lopes 24-07-2016

Flores de mamãe

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Paulo era um rapaz simples e estava muito ansioso. Mesmo com a casa toda limpa, não parava de conferir tudo a cada minuto. Ele não esperava receber nenhuma visita, muito menos trazer alguém ali, mas em todo caso, era melhor estar preparado.

Ele não tinha nada demais. E quando se olhava no espelho, ele tinha certeza que não tinha nada demais mesmo. Era alto, levemente magro de ombros largos. Seu cabelo castanho com corte baixo, e uma barba rala que quem olhasse de longe tinha a impressão que era aparada constantemente. Pura ilusão, afinal aquilo era o máximo que ela crescia. Seus olhos também castanhos, eram profundos e intensos e por vezes revelava alguma tristeza escondida.

Naquele dia, Paulo havia tomado três banhos para ter certeza de que estava limpo. Além disso, colocou sua melhor roupa, que consistia em uma calça jeans escura, uma camisa preta levemente surrada e uma bota marrom. Depois de dobrar a quantidade de perfume e se olhar no espelho pela sétima vez, estava pronto para seu compromisso especial.

Paulo não tinha amigos, e perdeu o pai muito jovem. Viveu com sua mãe até dois anos atrás e desde seu falecimento, viva sozinho em casa, tentando se acostumar com a falta dela. O lugar em que morava não era muito propício para ninguém morar, mas a casa foi ganhada e ele não precisava pagar as contas. Havia muito barro em volta e por mais tivessem feito mil propostas, ele não estava pronto para seguir a carreira do seu pai. Paulo não se arrependia, afinal Gabriel fazia o trabalho muito bem.

Na rua, esperando o ônibus, limpou o barro de seus pés. Rotina constante para toda vez que ele precisava ir à cidade. Estava ansioso e extremamente inseguro, afinal sua expectativa era imensa. Leu em vários sites dicas e sugestões e com o aplicativo foi fácil achar alguém, e depois de algumas conversas frustradas, sabia que ela seria a eleita. Pelas fotos, ela era realmente linda. Loira, olhos grandes e azuis, com um sinal no rosto perto do nariz. Delicada, gostava de livros e estudava biologia. Morava próximo ao shopping e ia estar esperando ele com um vestido azul.

Paulo nunca teve uma namorada, nem mesmo uma paixonite. Na escola, mal falava com os outros garotos, e tinha o apelido de “fantasma”, devido a sua palidez, somado a sua timidez. O bullying piorou depois que descobriram onde ele morava, mas com o tempo ele aprendeu a ignorar tudo, da mesma forma que o ignoravam.

No shopping, esperou na praça de alimentação como haviam combinado. Ao ver famílias reunidas, se divertindo, almoçando juntas, lembrou de sua mãe. Ela adorava flores e as colocava sempre sobre a mesa antes das refeições. Gostava das cores simples como branco e amarelo. “Tenho que pegar flores para mamãe” ele pensou. Lembrou-se da última refeição juntos. Ele mesmo havia preparado para fazer uma surpresa a ela, que mesmo com o rosto inexpressivo pelas ações do tempo, tinha um amor e carinho imenso por ele.

– Oi – Ela disse timidamente, interrompendo seus pensamentos. Pessoalmente ela era mais linda do que ele havia imaginado. De estatura mediana, além do vestido azul, estava usando um colar simples com uma pedra azul ciano.

– Ah, Oi! – Ele respondeu nervoso, se levantando para cumprimenta-la. Ele ergueu a mão, mas ela lhe deu um beijo no rosto. Paulo não conseguiu esconder a surpresa e ficou corado. Ela reparou, afinal ele ficou bem vermelho e riu baixinho, ficando com as bochechas rosadas também.

Ele puxou a cadeira para ela, com uma delicadeza de um lorde. Ela ficou encantada com a gentileza. Começaram uma conversa animada sobre os estudos dela e as últimas provas. Ele gostava de saber como era o dia dela, e seus projetos de vida, porém quando ela perguntava os dele, sempre dava um jeito de escapar com outro assunto. Ele tinha seus objetivos, mas achava-os muito vazios e sem graça perto dos dela.

No fim daquele dia, antes de ir embora, ela lhe roubou um beijo, que o fez ficar muito mais vermelho. Ele começou a gaguejar, tentando perguntar porque ela havia feito aquilo, mas ela o calou com outro beijo. Agora, mais tranquilo, ele correspondeu, lhe tomando em seus braços.

– Paulo… – Ela começou. – Eu não sei se você acredita nisso, e eu vou estar me arriscando muito dizendo isso, mas… acho que estou apaixonada por você…. Assim, à primeira vista! Quero muito ficar com você!

Seus olhos tinham um brilho diferente e ela estava com um sorriso lindo ao dizer essas palavras. Paulo por sua vez, além de feliz estava preocupado. Será que ele seria capaz de retribuir esse amor?

– Eu também gosto muito de você…. Mas não sei se você vai gostar tanto de mim assim…. Você sabe, eu não tenho um trabalho fixo, moro longe da cidade…. Eu não sei nem se tenho futuro….

– Paulo, – ela disse baixinho – eu te amo! Eu quero ficar com você do jeito que você é!

Paulo a abraçou forte e depois lhe deu um beijo. Desta vez, ele tomou a iniciativa e sentia como se algo estivesse queimando por dentro dele com tanta emoção.

Ele queria levar a moça para casa, mas ela queria conhecer a casa dele primeiro.  Mais uma vez ele ficou preocupado, em todo caso resolveu leva-la, afinal, caso ela não gostasse, poderia desistir dele naquele momento e evitar um sofrimento maior.

Já era noite quando eles chegaram e Gabriel já havia ido embora pois, não haveria trabalho naquela noite. Ela ficou calada quando viu o lugar e ele apreensivo não se atrevia a trocar olhares com ela.

– Bem, eu moro aqui… – Paulo disse, sem graça.

– Você mora em um cemitério? – Ela respondeu abismada.

– Sim. – Paulo respondeu sério. – Se você quiser eu posso levar você para sua casa e a gente não se fala nunca mais…

– E por que eu faria isso? – Ela respondeu ainda surpresa. – Deve ser o máximo morar aqui! Essa terra toda para estudo sobre decomposição e ação natural, os nutrientes das plantas que nascem aqui…. Por que não me contou que morava aqui?

– Eu achei que você fosse achar estranho e me rejeitar… – Ele respondeu com a cabeça baixa.

– Claro que não! – Ela disse levantando a cabeça dele para olhá-lo nos olhos. – Você é incrível!

Ele nunca achou alguém que pudesse dar valor a ele e ao lugar que morava além de sua mãe. Resolveu então convidá-la para jantar. Em casa, ele a deixou à vontade na sala. Preparou uma comida rápida, porém deliciosa, e trancou as portas e as janelas. Colocou a mesa, foi até o quarto para trocar de camisa e a chamou para cozinha.

Assim que entrou na cozinha deixou sua bolsa cair. Seus olhos arregalados demonstravam mais do que uma simples surpresa e sim um leve terror.

– O que é isso? – Ela disse pausadamente.

– O que? As flores? Mamãe gostava delas na mesa, por isso resolvi colocar, você não gosta de flores? – Ele perguntou confuso.

– Paulo, o que esse corpo está fazendo aí sentado?

– Ah sim, deixe-me apresentar…. Essa é minha mãe. Mamãe, essa é a moça que eu falei. – Ele disse satisfeito, colocando a comida no prato para o cadáver.

– Paulo, você é louco? Por que você tem o cadáver da sua mãe em casa? – Ela disse em tom alto e desesperado.

– Eu fico muito sozinho aqui sabia? Não enterrei mamãe para que eu pudesse conversar com alguém, afinal ela gosta muito de conversar…. Meu pai era coveiro aqui e ganhou a casa quando casou com a minha mãe. Ela não se importou. Quando ele morreu, contrataram o Gabriel para trabalhar aqui, mas ele não gosta muito de ficar aqui, então ele só vem trabalhar e vai embora. Eu troquei o corpo de mamãe no enterro e conservo ela no quarto, e jantamos juntos todos os dias.

Paulo respondia tudo com tranquilidade. Seu olhar era vazio e ele estava completamente à vontade. Ela estava com medo e correu para porta para fugir. Ele não se moveu para impedir, apenas continuou a colocar a comida nos pratos. Com a porta trancada, ela deu um grito desesperado e pediu para ir embora. Ele parecia não se abalar com o seu desespero.

– Não entendo sua reação meu amor… – Ele dizia calmamente. – Você me achou uma pessoa incrível, gosta tanto de estudar sobre reações naturais, não entendo esse desespero. Venha, sente-se. – Ele terminou, puxando a cadeira para ela.

Ela chorava de desespero e correu para sala quando ele tentou puxá-la pelo braço. Lá, conseguiu abrir uma janela e pulou, caindo de joelho na lama. Paulo ficou vermelho novamente, mas desta vez era de raiva.

Ela corria no escuro e começou a tropeçar nas covas que foram cobertas recentemente. Tentou procurar alguma vazia para se esconder, mas ficou com medo dele querer enterrá-la viva. Então correu para o lado da caixa de ossos onde os restos mortais eram guardados depois de exumados, mas antes que pudesse chegar lá, foi surpreendida com uma pá acertando sua cabeça.

Paulo estava suando e nervoso. Ela era mais linda ainda dormindo, porém ela não acordava mais. Além do sangue que saia pela testa do corte que a pá fez, ela caiu com o pescoço torto. Paulo fez de tudo para reanima-la, mas nada adiantou.

– Minha linda adora brincar…. – Ele disse trazendo ela nos braços para dentro de casa novamente. – Achei realmente que iria me deixar.

Em casa ele a deitou no sofá, e foi recolher os pratos da mesa. Depois, pegou o corpo da sua mãe, o despiu e guardou no caixão de vidro com formol que havia sobre a cama, no quarto dela.

Quando voltou, o corpo da moça loira havia rolado do sofá para o chão, deixando-a de pernas abertas com o vestido levemente levantado. Ele ficou por algumas horas ali, admirando-a. Seus lábios estavam brancos e o sangue seco já havia manchado o sofá e o tapete.

– Você é mesmo uma danadinha. – Ele disse com um sorriso insano no rosto. – Me provocando desse jeito… – Ele continuou se ajoelhando na frente do corpo, colocando suas mãos nos joelhos dela. – Não sei se mamãe vai permitir esse tipo de coisa na sala, mas já que vamos morar juntos e ela já está dormindo, acredito que ela não vai se importar…

Na manhã seguinte, Paulo acordou assustado com um celular tocando. Era o da moça na bolsa que estava no chão. Ele quebrou o celular com um martelo e voltou a se deitar sobre o corpo frio e nu da moça, deixando a cabeça debruçada sobre os seios dela. Ele também nu, acariciava as coxas dela, enquanto olhava para o vestido amassado do outro lado da sala.

– Vamos ser muito felizes juntos meu amor…. Pode ter certeza.

 

juhliana_lopes 12-07-2016