Quem é o assassino? (parte 2)

principe-gales02– A verdade é que todos tem uma visão extremamente errada sobre as coisas e no fim, não enxergam as pessoas a sua volta. Somente quando é tarde demais. – Ele dizia enquanto andava de um lado para o outro, com passos marcados. Elegante, usava um terno cinza, com uma gravata preta. Gesticulava poucas vezes enquanto falava, e vez ou outra arrumava seu cabelo castanho claro que insistia em cair sobre o olho.

Qualquer mulher ficaria encantada em ouvi-lo falar, pois além da sua beleza e porte físico, sua voz também era hipnotizante, mas nada disso importa quando se está na mira de um assassino.

– Aquela menina nova mesmo, nem lembro qual era o nome dela… Ela vivia com medo de tudo, e o pior não sabia nem disfarçar, e no fim deu no que deu. E agora, veja só você…

Ele fez uma pausa e a olhou da cabeça aos pés. Ela, sentiu um frio na espinha que jamais havia sentido, e percebeu que sua vida e também a sua vã esperança de aquilo fosse apenas uma brincadeira de mal gosto, estavam indo embora mais rápido que o espaço de tempo entre um passo e outro que ele dava.

Ela, amarrada em uma cadeira no estoque não podia fazer muito a não ser ouvir o seu discurso interminável. Nesta hora ela pensava: “Por que fui querer ser proativa? Por que fui me meter em um assunto que não era meu, só pra fazer o certo? Por que não deixei ele roubar a porra dos documentos fingindo que não vi nada? Por quê?” E sim, ele não parava de falar. Entre coisas direcionadas a ela e a sociedade injusta que não compreende as coisas corretamente, falava muitas coisas sem sentido, direcionadas a ele mesmo. Além de psicopata, era esquizofrênico… Para ela, foi uma pena que este último pensamento acabou saindo alto demais.

– Psicopata sim minha querida, mas não pelo motivo que você acha.

– Ah, claro que não. Você é psicopata porque dá doce pras crianças nos parquinhos, sem querer nada em troca.

– Poderia, mas não é esse caso. E respondendo sua pergunta de uma forma menos irônica, eu não sou um psicopata porque vou te matar. Eu sou um psicopata porque vou atrás do meu objetivo.

– Que ótima mudança de termos. Me sinto até mais confortável para morrer assim.

– Mas eu não vou matar você. Esse não é e nunca foi o meu objetivo. Não se sinta tão especial a esse ponto. – Ele respondeu sério com os olhos semicerrados.
Ela estava realmente cansada de ficar ouvindo e ouvindo, e sabia que debater não ia adiantar nada, mas era a deixa para que alguém pudesse lhe ouvir e quem sabe lhe ajudar…

– Não vai? Então pra que tudo isso?

– Eu quero ser sócio majoritário da empresa, mas não tenho dinheiro pra isso, afinal não me pagam o suficiente para ter reservas. Com isso fiz um caminho mais longo e muito mais rentável. Primeiro a confiança do sócio majoritário, porém ele não confia em mim tanto assim a ponto de fazer um testamento com meu nome, então preciso incriminar o seu parceiro, e depois de mais umas saídas intimas, vou ficar mais próximo da cadeira principal. Não é simples?

– Você esta saindo com o Boris? – Havia muito mais coisas naquela informação pra ela se surpreender do que o roteiro de novela que ele descreveu, mas aquela era uma informação curiosa, afinal, todas as meninas eram loucas para ficar com ele e muitas haviam de fato conseguido uma noite.

– Infelizmente estou. É preciso pro meu objetivo. – ele assumiu, virando as costas.

– Então, você não vai mesmo me matar?

– Claro que não querida. – Ele disse com o rosto perto do dela e um sorriso enorme que fez com que ela se arrepiasse de medo.

– Então… O que… O que vai fazer comigo? – Ela gaguejou. – Me solte, e eu prometo que não conto nada pra ninguém. Na verdade eu nem vou me lembrar de nada! – Ela tentou barganhar desesperada.

– Uma das coisas mais frágeis no ser humano, além do próprio corpo, são as suas promessas. – Ele disse virando de costas. – Por que você resolveu perguntar sobre os documentos?

– Por nada, eu… Eu só achei que… – Ela não queria admitir pra si mesma, mas o medo estava tomando conta de seus pensamentos. Talvez a ideia da morte era mais fácil de aceitar do que a da possível tortura.

– Não minta pra mim! – Disse ele em seu ouvido, ao se virar depressa. Ficou ali, com o rosto colado no dela esperando a resposta.

– Eu só achei que não era certo você pegar os documentos, porque não era do seu setor. Só achei sua atitude estranha e quis entender o que estava acontecendo… Eu só… Eu só queria ajudar… – Ela respondeu chorando, se entregando completamente ao medo.

– Achou que não era o certo. – Ele repetiu devagar. – Queria ajudar… – Então ele andou até um balcão.

Ela tremia, e se sentia culpada por cair no jogo dele. Sempre foi tão forte e agora estava ali, entregue a um doido qualquer que gostava de fazer jogos psicológicos. Resolveu fazer um último apelo.

– Por favor… Me solta! – Ela disse chorando. – Eu já aprendi que não devo ficar xeretando em nada. Por favor…

– Calma bebê… – Ele disse de costas para ela. – Eu já vou te soltar logo, mas como eu disse as promessas são coisas muito frágeis. Meu objetivo é ser chefe. Mandar em tudo. E eu infelizmente não posso deixar nada no meu caminho, nada que possa me atrapalhar agora ou quem sabe no futuro em um momento de crise…

– Então… Você… Vai me matar? – Ela disse por fim, pausadamente.

– Não amor… Eu não vou matar você. – Ele disse se virando com um pano molhado nas mãos e um sorriso no rosto – Você vai.

juhliana_lopes 27-03-2016

 

 

Anúncios

Quem é o assassino?

rain

Sempre caminhei durante a noite, seja por causa de trabalho ou por causa de cursos. A vida noturna muitas vezes é mais agitada que o dia, e igualmente perigosa. Algumas pessoas dizem que a noite estamos mais vulneráveis, mas isso não é verdade. De noite ou de dia, os perigos são os mesmo, a diferença é o lugar certo, e a hora errada. Me peguei pensando nisso depois que Megan, a menina nova, começou a falar sobre alguns casos do jornal. Desde o inicio notei que ela era meio frágil, mas não havia percebido até então em relação a quantidade. Depois de alguns casos sobre assalto e arrastões nos pontos de ônibus ela estava realmente apavorada, e começou a grudar em mim, pois segundo ela, eu lhe passava confiança.

Não que eu não tenha medo dessas coisas, afinal já fui assaltada algumas vezes e é realmente uma experiência assustadora, mas com o tempo você aprende que demonstrar seus medos demais, só faz você andar na defensiva, e por consequência, chamar atenção.

Um dia desses no trabalho, peguei ela chorando no vestiário. Me preocupei, achando que tinha acontecido algo, mas ela só estava sofrendo por antecedência como sempre. Se culpava por ser tão medrosa, e chegou até a dizer entre soluços e lágrimas que gostaria de ser forte como eu.

– Eu não sou forte Meg… – Expliquei. – Eu só sei fingir bem.

Não que esse tipo de palavra tenha ajudado, mas é estranho quando você lida bem com uma certa situação, porque todo mundo acha que você é a “dama de ferro”, “coração gelado”, que nada te abala. Como eu já disse, muita coisa me abala sim, mas eu finjo bem.

Começamos a sair um pouco mais tarde, para esperar os meninos do TI e sairmos todos juntos. A presença de mais pessoas parece ter ajudado, mas não aliviado o seu medo.

– Anne, você viu sobre o assassino que anda rondando a nossa região? Dizem que ele se aproveita das vítimas mortas.

– Eu vi, mas isso é mentira.

– Como assim?

– Até onde eu li, ele só esta matando, não tem nada sobre estupro.

– Ah, mas vai saber, esses caras são doentes, podem fazer qualquer coisa…

– E se você fica desesperada, já sabe o que acontece. – Encerrei o assunto. Ela não retrucou e continuou o seu trabalho. Meg ia ficar louca daquele jeito, e por mais que eu tentasse ajudar, não poderia fazer mais nada.

Hoje, quinta feira, recebemos uma bela chuva de presente, o que espantou metade das pessoas da rua. Além disso, nossa estratégia de segurança deu errado, pois depois de uma queda no sistema, os meninos tiveram que fazer hora extra. Uma mistura perfeita para o surto de Meg, que no fim das contas, não surtou. Ela estava calma, parecendo “aceitar” seu destino, mas volta e meia perguntava sobre as horas e fazia comentários como “está escuro hoje”, ou “e essa chuva?”.

No ponto de ônibus, ficamos próximas a um beco, para nos protegermos da chuva. Então ela resolveu puxar novamente uma conversa sobre  o assassino.

– Será que eles matam na chuva?

– Talvez. – respondi um pouco desinteressada.

– Sua frieza as vezes me assusta. – Meg respondeu, um pouco magoada.

– Desculpa, não foi minha intenção. Só não vejo motivo de falar nisso agora.

– Eu sei, é só que… Eu tenho medo. Não dá pra prever algo assim. Normalmente a gente imagina um cara com jeito de marginal, falando errado, e ai,  de repente aparece um cara de terno e gravata.

– Realmente, esse tipo de coisa é imprevisível.

– Imprevisível e assustador. – Disse Meg se abraçando por causa do frio. – É o nosso ônibus?

– Não, ainda não… – respondi sem olhar para ela, enquanto mexia em minha bolsa.

– Como você consegue esconder o seu medo tão bem? Não tem curiosidade de saber quem é o assassino?

– Na verdade não. E na verdade também, eu escondo bem porque “o assassino” sou eu.

Então eu calei a boca dela com um tiro. Com a chuva, mirei errado e acertei seu pescoço, que mesmo com o estrago, fazia com que ela piscasse freneticamente com um olhar assustado. Dei outro na sua cabeça, fazendo uma sujeira imensa que logo a chuva iria limpar. Ocultei com cuidado o corpo no beco e caminhei calmamente até o próximo ponto. Como eu disse, eu finjo bem.

juhliana_lopes 12-03-2016

Carta de Despedida

Querido Amigo…

03Eu sei, a pergunta principal é: Por quê? Deixe-me explicar. No começo, a única coisa que eu queria era cumprir com meus objetivos pessoais. Faz parte da minha natureza, é o que me completa. Você não seria o primeiro, muito menos o último.
Veja bem, é para te proteger afinal, nasceu essa amizade e eu não tenho muitos amigos.
Tudo foi friamente calculado, desde a primeira abordagem, até aquele dia na cachoeira. Dali pra frente eu parei de calcular pois, eu iria precisar da sua amizade. No fim das contas, eu realmente precisei afinal, quem mais iria servir de testemunha naquele mal entendido…
Você quer a verdade? Então lá vai: o plano sempre foi te seduzir e te matar, ou você acha mesmo que aquele dia no penhasco era brincadeira?
Eu já te observava há dois meses, até acontecer a primeira aproximação. O velho truque de esbarrar na pessoa, derrubando o que ela tem nas mãos, dando início a um diálogo qualquer… Mais usado do que se imagina.
Pois bem, você conquistou minha confiança e me fez ver algo bom em você; como aquele beijo que você poderia ter roubado, quando eu estava bêbada.
Você nunca mais vai me ver e não adianta procurar na internet. Mudo de nomes constantemente (ou você caiu mesmo naquela história de irmã gêmea?) Mais uma vez eu digo, estou protegendo sua vida, por isso estou indo embora. Eu menti pra você; até aquele dia da cachoeira. Acredite você é importante pra mim, só que mais uma semana ao seu lado me faria desejar mais e mais ter o seu sangue escorrendo em minhas mãos.
Isso é um adeus, espero que um dia possa entender meus motivos. Se bem que se você não entender, não irá fazer muita diferença.

Ah, só um conselho, tranque a janela quando for dormir, não sou só eu que estava te observando noite passada.

um abraço de sua amiga.

18-09-2012 /juhliana_lopes