Cinderela

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Ela era bonita e delicada como uma boneca. Ele era alto e forte, com um ar aventureiro e curioso. Ela, sempre recatada e tímida sempre ria das aventuras verdadeiras e inventadas que ele, sempre com muita ênfase contava para ela quando voltava de suas viagens.

– Eu sinto muito pelos seus pais querida… – Ele disse segurando suas mãos.

 

– Tudo bem meu amor… – Ela disse baixando os olhos.

– Se tivesse me falado antes, eu não teria insistido tanto, eu teria… Teria feito diferente, me desculpe… – Ele dizia colocando a mão em seu rosto para secar suas lágrimas.

– Não tem problema. Não fez por mal… Mas, isso prejudica os nossos planos? – Ela perguntou levantando o rosto com as lágrimas ainda rolando pelo rosto delicado.

– De maneira nenhuma! Aliás, me deu coragem para uma decisão, vamos adiantar a data. Já está tudo pronto mesmo, nos casaremos amanhã!

Durante a prova do vestido, Sofia e Laura estavam ao seu lado, lhe fazendo perguntas e tentando arrancar algo que pudesse ser usado como fofoca.

– Mas por que tão rápido Ágatha? Por acaso você… – insinuou Sofia.

– Não, não estou grávida. – Ela respondeu séria.

– Então foi só por causa do baú que ele ganhou do Rei? – perguntou Laura.

– Também não. – Ela continuava séria.

– Então ele… – Começou Sofia.

– Não foi nada, tudo bem? – Ágatha respondeu com um tom alto. – Agora saiam daqui, preciso terminar de me arrumar.

– Tudo bem, tudo bem… – responderam as duas saindo da sala.

– Finalmente – ela suspirou – finalmente!

Ágatha vestia um vestido azul claro com véu e detalhes finos na costura. Andava pela sala tão suave que parecia flutuar. Parou então diante da janela admirando os campos verdes e tudo que o reino agora teria para lhe oferecer. Viu as árvores no horizonte, que indicavam a entrada da floresta. As camponesas que caminhavam com cestas em direção ao rio. Cavalos e cavaleiros se aproximando pela estrada, sem chance de parada ou descanso para os animais…

– Espera ai… – Ela sussurrou apertando os olhos para enxergar melhor. – Não! – Ela gritou e correu pelo corredor.

No salão principal, o padre já esperava e o noivo atendia os últimos convidados antes de chamar a ama para buscar a noiva órfã, porém, antes que pudesse chamar, ela já descia as escadas apressada.

– Meu amor, eu pensei que fosse demorar um pouco mais… – disse ele se aproximando preocupado.

– Sim, mas… – ela respirava ofegante – eu fiquei ansiosa, é melhor que demos logo início a cerimônia, se você assim permitir meu futuro marido… – ela respondeu agora com mais galanteio e se curvando em submissão.

– Claro que sim minha amada. Vamos ao altar.

Eles seguiram então de braços dados, e o padre deu início à cerimônia. Antes das tão esperadas palavras, os cavaleiros adentraram o salão sem ao menos fazer qualquer pergunta ou apresentação.

– Pare! Você não pode se casar com ela! – Gritou o primeiro cavaleiro com uma cabeça de cavalo desenhada na armadura.

– Não faça essa loucura! – Disse em seguida o outro cavaleiro um pouco mais baixo e com o desenho de uma águia no seu brasão.

– Afaste-se deste ser do demônio! – Gritou o último cavaleiro com um tigre desenhado como brasão.

O Príncipe, no altar olhava em volta sem entender, enquanto Ágatha, séria, fuzilava os cavaleiros com seu olhar.

– Permita-me explicar, nobre cavaleiro… – começou o cavaleiro com o brasão de Tigre – “Essa linda jovem me apareceu perdida e com fome. Era uma camponesa do vilarejo que havia chegado à cidade há pouco tempo, pois vivia com os avós e agora que os pais haviam conseguido uma casa, voltou a morar com eles. Trabalhadora e dedicada, sempre colhia as melhores frutas da manhã para seus afazeres domésticos. Foi numa dessas manhãs que eu a conheci enquanto caminhava pelo meu reino em busca de alguma aventura ou algo para passar o tempo. Ajudei-a algumas vezes, e depois da morte dos seus pais por ladrões, a trouxe para trabalhar no castelo. Logo eu me apaixonei, e transformei a camponesa em uma dama. Tudo ia tão perfeito que eu não resisti e marquei a data do casamento e no dia tão esperado nos casamos. Nosso casamento não chegou à lua de mel, pois no caminho eu fui dopado e lembro-me de ter acordado na cama, deitado com a blusa aperta e dores que me incomodavam muito. Ela, não estava mais lá e levou embora apenas a pedra de cristal que havia em meu cetro…”.

– Isso é mesmo verdade? – perguntou o príncipe a sua amada que nada respondia com tanto ódio nos olhos ao olhar para os cavaleiros.

– Permita-me contar agora a minha história… – disse o cavaleiro do brasão de Cavalo – “Um dia, estava eu caminhando pelo meu reino quando encontrei uma carruagem parada no meio da estrada, com uma das rodas quebradas. Nela havia uma princesa, linda e delicada, porém muito assustada. Ela contou que havia viajado para comprar algumas coisas diferentes num reino vizinho, mas durante a viagem um mensageiro entregou um bilhete dizendo que seu pai, o rei havia morrido. Então o cocheiro mudou a rota e ao parar ali, levou as mercadorias e uns dos cavalos. Ela estava tão assustada que mal conseguia falar e explicar o que havia acontecido. Senti-me tocado pela situação e a levei para meu reino. Lá, enviei um mensageiro para seu reino, para avisar sobre a princesa e sua segurança, mas como sua terra era longe, os dias passaram e eu me vi pensando nela todos os dias. Insisti e resolvemos nos casar, enviando assim outro mensageiro sem o primeiro ter voltado, para avisar do casamento. Casamo-nos, e fomos felizes por aproximadamente 25 dias. Assim que chegou o primeiro mensageiro, senti uma fisgada nas costas e quando olhei, ela havia colocado um punhal próximo da minha costela. Antes que eu pudesse pensar, fui atingido na cabeça pelo meu escudo e quando acordei, os dois mensageiros estavam mortos com um líquido verde escorrendo pelo canto da boca. Eu sentia dores na barriga e nas coxas, mas não me preocupei em saber o que era.”.

– Vocês estão inventando tudo isso, não é possível que…

– Antes de suas conclusões, ouça-me… – disse o cavaleiro com brasão de Águia – “Ao chegar de mais uma batalha ganha pelo meu reino, fui surpreendido por meu pai com uma carta com o selo real do reino de Aaron. Meu pai dizia que o rei havia mandado sua única filha para se casar com o primogênito do reino de Arligan para proteção do sangue real, uma vez que seus irmãos mais velhos haviam iniciado uma briga silenciosa pelo trono. Eu, como primogênito aceitei, pois desta forma ficaria com dois reinos, caso os irmãos resolvessem se matar. Casamo-nos depois de um mês, e após uma semana tive que assumir o reino depois de meu pai ter morrido com um mal súbito. Na noite da coroação, após as festas e as pompas, fui ter minha esposa em nosso quarto, porém havia algo de diferente em seu olhar. Antes que pudesse questionar, ela me deu uma taça de vinho e depois que tomei adormeci. Quando acordei, meu tesouro havia sumido, eu sentia fortes dores nas costas, e minha esposa havia desaparecido.”.

– O que vocês estão insinuando? Que esta bela dama…

– Esta bela dama tentou nos matar! – Respondeu o cavaleiro do reino de Aaron, o brasão do Cavalo.

– Nos roubou e matou nossos pais! – Gritou o cavaleiro do reino de Arligan, o brasão de Águia.  

E as nossas dores, eram fruto de agulhas que ela enfiou em nossos corpos enquanto estávamos adormecidos com seus venenos. – disse o cavaleiro do reino de Avondale, o brasão de Tigre.

– Ela é uma bruxa, uma feiticeira! Não se case com ela! – gritaram os três.

Os convidados, o padre, o rei e a rainha estavam horrorizados. O próprio príncipe estava perplexo, mas não conseguia acreditar. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi atingido por uma adaga no coração, e ao tentar se defender, foi empurrado, caindo de barriga no chão, fazendo a adaga entrar mais em seu corpo.

tumblr_static_f3wzebvq6ps0w48wwks0g4wgwA princesa, agora com sangue em seu belo vestido azul, já empunhava a espada do seu “ex-futuro marido”, que apesar do peso, conseguia equilibrar muito bem. Correu em direção à saída, e lá conseguiu montar rapidamente o cavalo Negro do príncipe, mesmo rasgando seu vestido. Correu então pelos campos, sumindo em direção a floresta.

– Não vamos atrás dela? – perguntou o cavaleiro de Avondale.

– Não. Eles irão. – respondeu o cavaleiro de Arligan, apontando para os cavaleiros do reino local, que a mando do rei já se reuniam para recuperar o cavalo de estimação do príncipe Dorian.

– E nós? – perguntou o cavaleiro de Aaron.

– Vamos avisar mais príncipes desavisados, antes que estas agulhas nos matem… – respondeu o cavaleiro de Arligan respirando fundo.

Subiram então os três em seus cavalos seguindo de volta para a estrada.

– Você está bem Brian? – perguntou o cavaleiro de Avondale para o cavaleiro de Arligan.

– Estou… Eu só… – respondeu o cavaleiro de Arligan com dificuldade antes de cair do cavalo.

– Brian! Vamos ajuda-lo! – disse o cavaleiro de Aaron inquieto.

– Não. Lembre-se, chegou a hora dele, assim como o quarto e o quinto cavaleiro que nos acompanhavam. Devemos agradecer pelas agulhas não terem nos tirado esse tempo ainda. Vamos, não a tempo de lágrimas, precisamos avisar outros reinos!

– Certo. – O cavaleiro de Aaron baixou a cabeça. – Olhe! – ele disse apontando para o chão. – Ela deixou para trás um sapato. Talvez consigamos quebrar a maldição!

– Sim amigo! Só precisamos dos outros objetos… O que eram mesmo?

– Bem, eu não lembro bem, sei que precisava ser uma peça de cristal, um sapato da feiticeira, uma abóbora grande…

E assim seguiram os dois em direção ao reino vizinho.

Depois da floresta, a princesa agora estava caída na estrada, até que um cavaleiro com uma armadura com desenho de Urso passou com seu cavalo apressado e parou.

– Oh meu Deus! O que houve?

– Graças a Deus! Ajude-me, por favor, minha caravana foi saqueada por bandidos, eu consegui pular da carruagem, mas estou com dificuldades para andar…

– Venha, deixe-me pegá-la no colo. Está machucada?

– Acho que quebrei o meu pé… Quem é você nobre cavaleiro.

– Não se preocupe, cuidaremos de você no meu reino. Eu sou Oliver, futuro rei do reino de Tamer. E você senhorita?

– Princesa do reino de Kevan… – Ela disse fazendo referência com a cabeça.

– Não é o reino que entrou em guerra com o reino de Oneve?

– Sim, por isso eu estava nesta caravana, para proteção do sangue real, sou a última herdeira…

– Conte-me mais no caminho querida…

– Conto sim, meu salvador… – Ela respondeu com um leve sorriso sarcástico.

 

juhliana_lopes 21-03-2015

Uma resposta em “Cinderela

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