A pequena sereia

Havia um jovem explorador chamado Phillip. Deixou a casa de seus pais muito cedo para conhecer o mundo, e com a ajuda do Rei, sempre trazia novidades para o reino. Já havia visitado muitos países, conhecido várias culturas e recolhido muitas “lembrancinhas”. Durante seus percursos, tomou conhecimento de várias lendas e como se proteger se possivelmente um desses monstros aparecesse. Depois da festa da colheita, o Rei o chamou e disse: “Phillip, preciso que você vá de navio para terras distantes, onde só tenham nativos. Quero que você encontre frutas que ainda não conhecemos e flores mais belas e perfumadas que as daqui. Quero presentear a rainha em seu aniversário com essas iguarias”. Mais do que depressa, o jovem escolheu alguns homens e montou uma caravana para irem até o porto em busca dos presentes.

Embarcaram num navio, em busca de uma ilha distante, onde era possível encontrar as coisas mais fantásticas nunca antes vistas. No navio havia mais de 20 homens, de variadas idades, uns com a caravana do jovem explorador, outros marinheiros e alguns clandestinos que queriam conhecer o mar. Toda noite, durante a viagem, se reuniam no convés para jogarem, beberem e contarem histórias. Os velhos lobos do mar ganhavam toda atenção dos mais jovens, entre eles Phillip, com suas lendas sobre monstros marinhos, e outros seres que poderiam ser amigáveis ou não, dependendo da barganha.

Os dias passavam depressa, e cada vez a ilha ia ficando mais próxima, porém, em uma noite, ove uma grande tempestade. O vento soprava com tanta força que poderia ter quebrado os mastros como alguém que quebra gravetos. A chuva castigava a madeira velha do convés e todos os marinheiros lutavam para manter o navio da forma como podiam. Raios e trovões atordoavam a todos e era impossível dormir sem pensar no pior. Pela manhã, o tormento havia passado e a calmaria era amigável. Todos ajudaram a consertar as partes do navio que haviam quebrado com o temporal, e a desenrolar as velas. O dia foi passando e a calmaria permanecia. Ninguém se importou, pois ainda havia reparos para fazer no navio.

Passaram-se dois dias, e a calmaria permanecia. Agora estavam todos preocupados. Não podiam ficar ali parados por muito tempo, precisavam buscar os presentes e retornar ao reino. Phillip começou a rodar o navio. Olhava o céu com atenção, na esperança de ver um sinal de chuva ou vendaval, que pudesse os colocar de volta ao rumo, ou pelo menos em algum rumo, desde que os tirasse dali. Terceiro dia de calmaria, apesar dos jogos, cantigas e rum, aquela paz estava perturbando os sentidos de todos. Alguns marinheiros já estavam começando a brigar uns com os outros, e logo o caos tomaria conta. Phillip chamou a todos, tentou conversar, distraí-los… Era preciso manter o controle.  A noite chegou, e nem uma brisa passava por ali. Todos estavam jantando qualquer coisa que o cozinheiro havia feito, e Phillip, um pouco incomodado com aquela situação foi procurar alguém para tirar suas dúvidas. Quem poderia entender melhor o mar do que o capitão? Partiu a sua procura. Ao chegar à sala do capitão, teve uma surpresa. Não havia ninguém. Andou pela cozinha, pelos quartos, por onde guardavam as cargas, onde guardavam o rum, onde guardavam as armas, e nada do capitão. Quando ele estava passando por uma parte da lateral, viu o capitão olhando para o horizonte, com um sorriso bobo.

– Capitão?

– Oh, sim Phillip. O que você quer?

– Bem, eu… O que está acontecendo Capitão?

– Oh, está tudo bem…

– Não capitão. Essa calmaria já vai para o quarto dia. Precisamos fazer alguma coisa…

– Está tudo bem…

– Capitão, está me ouvindo?

– Oh sim… Estou… Está tudo bem, já disse…

– Capitão, o que você tanto olha para o escuro?

– Diga a verdade Phillip. Como homem, você não acha que ela é linda?

– Do que está falando capitão?

– Ora rapaz! Não seja tímido. Pode dizer… Ela é linda não é? – dizia o capitão apontando.

– Desculpe Capitão, mas eu não estou vendo ninguém nesta escuridão. Acho que o senhor exagerou no rum.

– Que rum? O rum acabou hoje pela manhã…

– Mas… Se o rum acabou… O que os marinheiros estão… – Phillip estava confuso. Correu para o convés. Esqueceu o capitão e a tal beleza que só ele via. Era preciso ver o que estava acontecendo.

No convés, todos estavam rindo, uma alegria anormal, que só o rum poderia trazer, mas se não havia rum, como poderiam estar assim? Phillip foi novamente até onde guardavam o rum. Havia uma garrafa aberta. Ele a pegou e colocou um pouco em sua caneca, deu um bom gole e o gosto de sentiu explicava a única reação que teve: cuspir tudo. Não era rum, era água do mar. Correu para fora e havia poucos marinheiros alegres. Os outros estavam junto com o capitão observando o escuro. Phillip tomou a caneca de um marinheiro feliz. Água do mar. Tentou conversar com o capitão novamente, mas agora estavam todos olhando para o escuro.

“Que linda” diziam. “Quero uma dessa pra mim”. Phillip ainda não entendia. Achava que estava ficando louco, e quase teve certeza disso quando percebeu que alguns marinheiros estavam pulando para fora do navio. Ele bem que tentou impedir, mas todos estavam alegres demais para escutá-lo. Logo todos estavam nadando próximo ao navio, exceto o capitão que permanecia debruçado. Phillip se aproximou dele e viu que seu pé estava amarrado a uma coluna.

– Por que se amarrou capitão?

– O navio está condenado… O capitão precisa morrer com o seu navio…

– Como assim condenado? – Phillip não conseguia acreditar naquelas palavras.

– Ora rapaz, você não está vendo? Elas são tão lindas! Eu já havia ouvido histórias sobre elas, mas nunca acreditei… Até hoje…

– Do que você está falando?

– Rapaz, quantas vezes você esteve com uma mulher?

Phillip ficou um pouco envergonhado. Havia se dedicado tanto as suas explorações que nunca havia desposado uma moça.

– Você nunca esteve com uma mulher? Nem com aquelas dos bares?

– Não senhor…

– Tá explicado… Você ia adorar vê-las…

– Vê-las quem capitão?

– Sereias!

pequena1Uma expressão de terror tomou conta do rosto de Phillip, ele também já havia ouvido histórias e elas não eram nada boas. Sereias, monstros mortais, com fome de carne humana. Atraia navios mercantes, deixavam-nos loucos e depois apareciam na sua forma mais bonita, uma vez que os marinheiros estivessem no mar, à carnificina começava depois de uma bela canção. Um homem puro não seria capaz de cair em seus encantos, porém seria capaz de ouvir sua canção de morte e morrer devorado sem nem saber por quem. A canção começou. Era o canto mais doce que ele poderia ter escutado. Phillip se viu obrigado a ajoelhar. O canto invadia seu cérebro e o fazia pensar em todos os momentos bons de sua vida. Por um instante se viu em um campo grande e verde, com flores do campo perfumando o ambiente. Logo sentiu um tremor e percebeu que ele estava deitando no convés e o navio estava se inclinando. Era possível escutar o grito de terror dos marinheiros no mar, tentando escapar de sua sorte, e a risada sarcástica do capitão. Phillip conseguiu pular no mar antes que o navio afundasse, mas não sabia se isso seria bom o ruim. Agarrou-se a uma pedra e rezou para que nada o atingisse ali. A lua brilhava, e aos poucos o navio era devorado pelo mar. Phillip estava ofegante e muito desesperado, e quase pulou de volta no mar quando viu uma jovem olhando para ele na água.

– Quem é você?

– Calma, eu não vou te machucar…

– Como você… Quem é você?

– Por que você não pulou no mar junto com os outros?

– Eu… Eu sou um puro.

– Nossa! Eu nunca pude ver um homem tão de perto…

– Como não? Vocês são sereias, vocês os devoram…

– Eu ainda não sou adulta… Ainda não posso comer a carne humana como elas comem… Não poderia nem chegar perto… Elas dizem que nós podemos nos apaixonar…

– Espera! Eu não poderia ver você… Como é que eu estou te vendo?

– Eu desejei te ver… Então você pode me ver também…

– E por que você quis me ver?

– Eu preciso fazer um rito de passagem… Preciso tocar os lábios de um homem para ser aceita no grupo…

– Por que não beija suas vítimas?

– Eu ainda não posso fazer vítimas… Mas se você me beijar, prometo que não vou permitir que façam mal a você…

Phillip estava atordoado demais para pensar. De fato que a beleza dela e a sua inocência na voz contribuíram para que ele tomasse sua decisão. Ele se debruçou sobre a pedra e a beijou. O beijo durou alguns segundos, mas foram os segundos mais inebriantes na vida de Phillip. Ele automaticamente queria mais e pulou na água para abraça-la. Depois de mais alguns beijos, ele disse apaixonado:

– Vamos embora? Eu te protegerei! Venha ser minha esposa! Minha pequena sereia…

– Eu adoraria Phillip, mas infelizmente eu não posso. Não com você…

– Por que não? Eu te amo tanto…

– O meu rito de passagem não envolve amor…

– Como…

Phillip não teve tempo. A bela moça envolveu seu pescoço com seus braços e apertou. Não parecia humano, era como se um polvo estivesse envolvendo seu pescoço. Não conseguia mais puxar o ar, aos poucos estava agonizando, mas antes que pudesse morrer com a falta de ar, teve parte de sua orelha arrancada com uma bocada. Depois sentiu parte do seu braço sendo dilacerado e logo Phillip estava morto, sendo devorado aos poucos pela sua pequena sereia. Não se teve mais notícias do navio ou da tripulação. O rei não conseguiu dar o presente que queria para a rainha e perdeu seu explorador, só que mais que isso ele perdeu naquela noite. Um dia depois de partir, o Rei descobriu que o seu filho, o príncipe, estava a bordo do navio, disfarçado entre os marinheiros, e agora, ele jamais o veria de novo.

 

/juhliana_lopes 21-01-2013

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