Jantar

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Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

Família #2

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Diego estava exausto. Mal chegara em casa e ainda teve que ouvir meia hora de discurso do seu pai sobre negócios. De qualquer forma agora estava formado, em breve ganharia seu carro e iria trabalhar no grande escritório de seu pai. Tudo de acordo com o que a família dele já havia planejado. Ele se incomodava com aquilo, mas era muito mais cômodo aproveitar as mordomias do que lutar por um espaço. “Se você não mudar os seus problemas, faça deles sua nova casa”, ela o que ele dizia para si mesmo quando se sentia chateado. Por muito tempo aquilo tinha sido sua rota de fuga, porém quando ouviu seu pai falar uma certa palavra mágica o menino virou o bicho.

– Casamento pai? – Perguntou Diego com a voz alterada.

– Claro. – Respondeu seu pai em um tom seco. – Ou você achou que ia só trabalhar de boa a vida inteira e gastar seu dinheiro com vídeo game? Vai casar sim, construir uma família. É isso que os homens fazem.

– Não pai. Não vou me casar. – Diego disse pensativo. – Você quer que eu trabalhe, que eu vire o homem dos negócios, tudo bem. Mas eu não vou me casar só porque você quer. – Ele disse, talvez enfrentando o pai pela primeira vez.

– Meu filho…. – Respondeu o Pai de Diego sentando-se ao seu lado colocando a mão no seu ombro. – É claro que você não vai se casar porque eu quero. Isso seria realmente um absurdo. – Sua voz era mansa, mas causava arrepios. – Você vai se casar porque você quer. Afinal, não se casar significa que você vai se virar sozinho no mundo. Sem emprego garantido, sem carrinho, sem casinha, sem nada. Vai se virar sozinho, sem qualquer ajuda do seu pai. Você vai se casar por que você não quer perder sua vida de luxo, você não quer perder seus brinquedinhos e porque se você se casar com uma menina jovem, você ainda vai ter o benefício de ter sexo todos os dias! Pensa bem. Não estou te pedindo um neto, lógico que não. Só estou te comunicando que você quer se casar e por isso eu, como seu pai, vou preparar tudo para você.

Diego subiu para o quarto sem falar nada. Se trancou e se abraçou a uma almoçada de ursinho que tinha desde quando era criança. Gostava dela pois se mantinha macia apesar do tempo. A abraçava quando as coisas estavam difíceis. Quando se sentia sozinho. Já fez algumas “homenagens” usando a almofada também. Naquela noite, antes de dormir, fez uma para uma menina loira do olho claro do colégio que provavelmente nunca mais a veria. Ficou com ela uma vez, quando a arrastou para o banheiro, escondido da inspetora. No começo ela não queria, lógico, mas depois de a segurar firme e mostrar a sua capacidade, ela foi ficando mais calma. Queria repetir a dose, pena que arriscou tarde demais.

No dia seguinte, durante o café da manhã, seu pai lhe disse satisfeito:

– Hoje compraremos seu primeiro carro meu filho. Logo em seguida teremos uma reunião com um rapaz importante, então não precisa falar nada. Eu mesmo falo por você.

Na loja de carros, haviam muitos modelos bonitos. Diego resolveu meter o pé no balde e escolheu um Mustang Shelby GT350, que lá fora passava dos 40.000 dólares. Seu pai acertou o pagamento e a entrega para o dia seguinte. Em seguida, foram para um restaurante antigo da cidade, onde se encontraram com um rapaz elegante. Diego não tinha certeza, mas talvez já tinha visto aquele rapaz em outro lugar.

– Senhor Müller. – Disse o rapaz estendendo a mão para seu pai.

– Paiva, vamos tirar o Senhor, tudo bem? – Respondeu o Pai de Diego, cumprimentando o rapaz.

Sentaram-se e então, Müller começou.

– Bem Paiva, como sabe, aquele acordo empresarial que você me apresentou está prestes a ser aceito pela comissão da nossa empresa. Além de muito vantajoso, é a oportunidade de juntar nossas áreas comerciais para aumentar ainda mais o nosso polo na cidade.

– Exatamente, fico muito feliz que a proposta está prestes a ser aprovada, porém para você ter trazido seu filho aqui, acredito que o assunto não ficara restrito somente ao profissional. – Respondeu Paiva.

– Exatamente Paiva. Estive pensando e porque não ajudar as nossas famílias a acabar com essa briga de anos de uma vez? Afinal se vamos trabalhar juntos, porque não juntar nossas famílias? Afinal, até onde eu sei sua filha também acabou de se formar na escola. – Respondeu Müller dando uma piscada.

– Sim, se formou, mas você acredita mesmo que isto dará certo? Afinal, não serão os primeiros…. – Disse Paiva.

– Claro que não serão os primeiros, mas enquanto os outros brigaram com as famílias e tiveram que fugir para tentarem a vida, nós estaremos supervisionando tudo.

– Supervisionando? – Disse Paiva.

– Sim, quero dizer, estaremos do lado deles. Eles podem não se conhecer agora, mas estudaram na mesma escola por anos, e sabe como é essa galera jovem. Basta um olhar que a faísca se acende. Eles namoram, se conhecem por um tempo e logo estarão completamente apaixonados. Diego é um ótimo rapaz, respeitador, casto, criado dentro das leis. Irá respeitar a Aline com todas as honras.

– Alice. – Interrompeu Paiva, com semblante sério.

– Sim, claro, Alice. – Se retratou Müller. – Me perdoe, são tantas coisas na empresa que eu acabo confundindo nomes.

– Eu compreendo. – Respondeu Paiva, ainda sério.

– Como eu ia dizendo, fica a minha sugestão. E caso aceite, fiquei honrado em receber sua família em minha casa para um jantar de compromisso.

Paiva não disse mais nada. Se despediu e retornou ao seu trabalho. Müller, com o filho, foi para casa.

– Bem, ele vai pensar e vai ver que este é o melhor negócio. Caso contrário, precisarei apelar um pouco mais. E você vai gostar da menina, ela é bem bonitinha. – Disse Müller enquanto dirigia.

– Ok, tanto faz. – Respondeu Diego desinteressado.

– Devia melhorar essa cara. Vocês terão empregados para fazer tudo para vocês e como você vai trabalhar o dia inteiro, nem vai precisar ficar aturando ela. Ainda vai poder dar umas escapadas e ela nem vai reclamar. – Müller disse, cutucando o filho com o cotovelo, encorajando-o.

– É, pode ser. – Diego respondeu dando um sorriso de canto que logo sumiu dando lugar a sua cara de paisagem.

Mais tarde, Paiva chegou em casa como se carregasse o mundo nas costas. O acordo era muito importante para evitar que a empresa entrasse no buraco, pois não havia mais o que maquiar para parecer que estava tudo bem. Além disso, Müller com aquela ideia maluca de casamento não ajudava em nada. Glória, sua esposa ao ver sua expressão aflita, tratou logo de pegar um copo de água para o marido. Depois de lhe fazer sentar em uma cadeira, começou a massagear seus ombros.

– O que foi meu amor? – Ela começou.

– Nada demais. Só algumas coisas na empresa. Falei com o Müller. Fui ver o que ele queria.

– E o que aquele insuportável queria com você? – Glória disse alterando levemente a sua voz.

– Queria casar o filho dele com a nossa filha. – Paiva falou de uma vez.

– Como assim? – Glória perguntou admirada.

– Ele acha que casando nossos filhos, vamos conseguir unir as famílias melhor, uma vez que elas já vão se juntar no acordo comercial. Ele acha uma boa ideia porque eles teriam apoio das famílias e blá blá blá. – Explicou meio sem paciência.

– Bem, eu acho essa ideia absur…. – Glória começou até ser interrompida por Alice.

A menina entrara pela cozinha toda suja de barro junto com o cachorro. Parou subitamente na porta, ao ver a mãe, enquanto ela já a fuzilava com o olhar.

– Eu vou.… me lavar lá fora primeiro antes de entrar. Com licença. – Disse Alice saindo da cozinha rapidamente, tentando sujar o chão o mínimo possível.

– Você dizia? – Perguntou Paiva.

– Eu…. – Glória disse retomando o pensamento. – Eu acho essa ideia brilhante!

– Como é que é? – Perguntou Paiva espantado.

– Só um casamento para pôr juízo na cabeça dessa menina. E casa com um daqueles trastes do Müller é a melhor punição que ela teria. Eu apoio, e você também vai apoiar. – Ela respondeu intimando o marido.

– Você só pode estar ficando louca! Casamento arranjado é tão…. Grotesco, tão século passado. Não posso permitir que minha filha se case com alguém que ela mal conhece, ainda mais com essas suas motivações. – Paiva respondeu nervoso, se levantando da cadeira.

– Ela vai se casar sim, quer você queira ou não. E vai ser com o filho do Müller mesmo, afinal ninguém mais vai querer uma menina desastrada que não obedece nem a mãe. E você vai aceitar sim senhor, senão é capaz o Müller desistir do contrato. Você sabe como ele é um rato traiçoeiro. Já é muito ele ter sugerido algo assim. É uma oportunidade que não podemos perder. – Disse Glória em voz alta.

– Você está se ouvindo falar? Tem ao menos dimensão da quantidade de asneiras que você está falando?

– Você vai me agradecer mais tarde. A Alice vai se casar e ponto final. – Finalizou Glória, ainda falando alto.

– Eu vou o que? – Disse Alice mais uma vez entrando tempestivamente pela porta da cozinha, desta vez toda molhada.

juhliana_lopes 15-12-2016

Família #1

01No início havia a família Müller, e por muito tempo eles eram a família mais poderosa daquela região. Fora a quantidade absurda de dinheiro que possuíam, também tinham uma enorme influência sobre todas as autoridades locais. De qualquer modo, não eram ruins. Possuíam a soberba, sim, porém eram generosos até onde o orgulho deles permitia, e por vezes ajudavam os necessitados, seja com empregos ou mesmo uma doação em dinheiro.

Então, chegou a essa mesma cidade a família Paiva. Tão rica quanto a Müller, foi ganhando influência aos poucos, devido a vivência no exterior. Eram cultos, letrados, e possuíam casas e terras em outras cidades e estados. Não era preciso ser um gênio da observação para notar que a família Müller se incomodou com a situação. Logo seus filhos e qualquer membro que fosse novo o suficiente foi mandado para os estudos no exterior. Além disso, os que já trabalhavam, foram mandados para trabalhar em outro estado, e alguns foram designados para comprar terras em outros locais. Havia uma competição, nunca declarada, mas que fez a fortuna da família Müller diminuir um pouco e logo aumentar mais que o dobro. Estavam investindo para que pudessem ter um capital maior que a família “concorrente” e conseguiram.

Passaram-se várias gerações, e o avanço tecnológico chegou à cidade. Aos poucos as famílias foram perdendo o poder que tinham, porém, sua influência ainda era grandiosa sobre os mais antigos, assim como no comércio ou mesmo as ruas da cidade. Tanto a família Müller como a família Paiva ainda estavam instaladas na cidade e o que era uma competição disfarçada, se tornou uma guerra declarada com o tempo, se transformando em uma intriga de famílias para a atualidade. A verdade é que mesmo com o peso do tempo, e das influências de fora que tornaram a cidadezinha pequena em um grande polo industrial, não foi capaz de quebrar uma briga que perdurou por anos. Mesmo os mais novos não se misturavam e até evitavam os mesmos ambientes. Logo o que poderia ser mais clichê do que uma paixão entre membros desta família? E aconteceu. Não uma, mas pelo menos três vezes. O primeiro casal fugiu para outra cidade onde dizem que vivem feliz. O segundo também fugiu, porém não aguentaram a pressão da vida a dois pelos pensamentos diferentes e se separaram, voltando para seus lares, alimentando ainda mais a distância dos nomes. O terceiro casal fugiu e se separou depois, porém nenhum dos dois voltou ao lar. Conheceram outras pessoas, casaram-se novamente e dizem até que viraram bons amigos.

O fato é que a história não é exatamente sobre as duas famílias e sim sobre Alice Paiva. Ali como as suas amigas a chamavam na escola. Estava para se formar, 17 anos, finalmente ia sair do colégio interno. Antiquado? Sim, mas sua mãe era uma pessoa antiquada. Não sabia o que era pior, ficar presa naquele lugar e estudar até sua mente fadigar ou ter que aguentar sua mãe falando sobre bom casamento o tempo todo. Ela era uma menina ainda, queria sair dali, curtir a vida como suas tias e primas. Para que serviria um homem? O pouco que teve com alguns garotos do colégio só mostrara que eles eram infantis. Ela não. Moça letrada, gostava de ler, e queria muito viajar o mundo. Sua mãe jamais aceitaria, é verdade, mas ela daria um jeito. Arrumaria um emprego e fugiria. Falaria com seu avô, “modernoso” como dizia sua mãe. Ele a ajudaria com certeza.

Estava ansiosa, mal se aguentava na última aula. Não via a hora de tirar aquele uniforme quente e deitar no sofá de casa, ouvir sua mãe reclamar e continuar lá como quem não quer nada. Quando chegou no seu quarto, tirou suas roupas e ficou apenas de lingerie, olhando pela janela o dia de sol. Fazia calor, mas alguns pássaros cantavam alegres, voando baixo.

– Acho que vai chover. – Disse Kamile entrando no quarto. – Pretende ir vestida assim para casa? – A amiga falou sentando-se na cama.

– Você podia bater na porta, sabia? – Respondeu Alice virando somente a cabeça. – E se eu pudesse ia sem nada, para fazer minha mãe surtar. – Alice disse suspirando olhando novamente pela janela.

– Infelizmente Ali – disse Kamile se deitando na cama de Alice. – Você não pode sair nua por aí. Os meninos do terceiro adorariam. E se eu fosse você, se vestia logo, daqui a pouco a inspetora vem te buscar.

– Eu sei. Então sai de cima da minha roupa. – Disse Alice puxando um vestido na cama.

Por muito tempo Alice ficou sozinha na escola até conhecer Kamile. Sua amiga loira do olho claro, que por muito tempo foi a única descrição que tinha dela. Depois acrescentou “solitária” a sua descrição mental. Não sabia nada sobre sua família, apenas que não tinham tempo para ela. Nenhuma visita, exceto no Natal. Passava os fins de semana na escola ajudando os funcionários na limpeza da escola. Ela parecia não se importar.

– Quero que você vá me visitar um dia. – Disse Alice ao pegar sua mala.

– Claro, me passa o endereço do hospício que você vai ficar depois. – Kamile respondeu despreocupada depois de abraçar a amiga.

– Você vai ficar bem? – Disse Alice, quase chorando.

– O que você acha? – Respondeu Kamile a segurando pelos ombros com um sorriso no rosto.

Antes que elas pudessem falar mais alguma coisa, a inspetora bateu a porta. Disse que a família Paiva já a esperava e ela devia se apressar. Alice saiu, acenou timidamente para a amiga antes de sumir pela porta. Kamile ficou ali, parada olhando para o vazio.

– É claro que não vou ficar bem. – Kamile disse por fim, sozinha.

Alice desceu as escadas com cautela. Queria muito sair dali, mas será que ela conseguiria fazer tudo o que desejava fora da escola? Será que seria capaz de enfrentar seus pais para viver a vida que sempre sonhou?

Foi surpreendida em seus pensamentos pelo grito de sua mãe. Logo foi afogada por um abraço e pelo cheiro de perfume forte. Em seguida seu pai lhe deu umas tapinhas no ombro. Seus avós também estavam lá e para eles ela mesmo foi correndo para lhes abraçar.

A sentir o calor do abraço deles se sentiu em casa novamente. Quando soltou sua avó, ouviu sua mãe pigarrear e falar alto alguma coisa sobre um absurdo. Alice olhou para o lado e viu uma outra família reunida, abraçando um garoto alto, loiro. Um homem de terno acenou, e seu pai respondeu o aceno, indo em direção dele que também se afastou do grupo para uma conversa particular.

– Não sei porque Philip ainda perde o tempo dele. – Disse a mãe de Alice.

– Filha, comporte-se. Tenha no mínimo um pouco de decoro. – Disse avó de Alice repreendendo-a.

Depois da conversa rápida, foram todos embora. Em casa, Alice tratou de largar as malas no quarto e correu antes que sua mãe a achasse para o jardim. Sua casa era enorme e seu jardim também, como nos filmes. Perto da piscina haviam várias árvores o que deixava o ambiente ainda mais bonito. Havia um lugar que sua mãe não olhava e era lá que ela se escondia desde pequena quando queria ficar sozinha. Porém, ao chegar lá percebeu que seu lugar não era mais tão secreto assim.

– Abner?

– Alice? Você já voltou? Da aqui um abraço! – Respondeu o rapaz.

Abner era um primo que não aparecia muito na casa, apenas nas festas de fim de ano. Devia ser dois anos mais velho que Alice, ela mesmo não se lembrava.

Ficaram os dois conversando por horas, até Alice se cansar de ouvir os gritos da sua mãe chamando seu nome. Lavou as mãos, e foi para o jantar. Sua mãe bem que tentou lhe dar algumas broncas, porém perto do seu avô era quase impossível. Ele não permitia discussões sobre a mesa, e Alice nunca esperava que todos terminassem de comer para sair da mesa, diferente de sua mãe.

Aquela noite ela dormiu cedo. Estava cansada, queria aproveitar a primeira noite sem alarmes escandalosos para acordar. Se tivesse sorte, seu avô não deixaria sua mãe lhe acordar cedo. Alice dormiu logo, e sonhou. Sonhou com a escola, com as professoras, com as provas e com Kamile.

 

juhliana_lopes 15-12-2016

Fácil demais

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Ele estava obcecado. Não sabia de onde ela vinha, nem para onde ia, mas era quase impossível ignorar a presença dela. Era alta, tinha uma bela postura e curvas leves. Devia ser modelo talvez. Roupas sociais, cabelo impecável. Executiva talvez. Bolsa ao lado do corpo e celular quase sempre na mão. Muito ocupada talvez. Uma vez, ele passou por ela e viu uma foto de criança no celular dela, que logo deu lugar para uma tela de aplicativo de mensagens. Deve ser mãe talvez.

Não importava, ele só queria saber o nome dela, se estava bem, alguma coisa. Qualquer coisa. Eles se encontravam sempre no ponto de ônibus, porém ela pegava uma linha e ele outra. A dela sempre vinha primeiro. Ele ficava feito um bobo olhando pela janela, e ela com os olhos na tela, nem lhe dava atenção.

Pensou em abordá-la, falar banalidades, mas poderia ser interpretado mal. Afinal ele só a encontrava tarde da noite quando estava voltando do trabalho. Pensou em mil maneiras de esbarrar com ela para ter uma desculpa de pelo menos tocá-la. Mas não. Melhor esquecer.

Todo homem precisa de uma motivação e com ele não seria diferente. Sua maior fraqueza era o álcool e em um dia qualquer ele, a convite de amigos, bebeu algumas doses que viraram muitas em um aniversário. Voltando para casa, estava alto, atordoado e ao vê-la, seu pensamento ganhou uma direção.

Talvez por coincidência, o ônibus dele veio primeiro naquele mesmo dia, e talvez por acaso ela pegou o mesmo ônibus que ele. Suas mãos suavam. Ele não sabia o que fazer. Sabia que o que ele queria era errado, mas sabia que não tinha condições de conduzir uma conversa normal. Já havia esperado muito e tantos outros faziam, qual seria o problema? Ela nunca seria dele por vias normais.

Percebeu então que ela não morava tão longe e que só pegava o outro ônibus porque ele passava primeiro mesmo, afinal os dois faziam a mesma parte do caminho. Ele, sentado no fundo no ônibus, estralando os dedos e balançando a perna direita, ainda pensava que estava louco e não devia agir assim. Mas ele se arrependeria muito mais se não fizesse nada e talvez demorasse um bom tempo para usar o álcool como desculpa.

Desceu atrás dela e foi seguindo cauteloso, se esgueirando pelas sombras. Mantendo uma distância segura, percebeu que logo ela estaria em casa e ele perderia sua chance. Era preciso um segundo de coragem insana. Um segundo de loucura absurda. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Observou ela caminhando calmamente, com o celular na mão e então foi.

Se aproximou depressa e lhe deu uma chave de braço. Arrastou ela para o primeiro canto escuro que achou. Pressionou ela contra a parede e começou a beijar seu pescoço. Ela tentava em vão resistir. Ele a virou de frente para ele, e rasgou a sua blusa. Arrancando dois ou três botões. Com as mãos, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com força. Mordia seu pescoço e seu colo, e revezava suas mãos entre segurar as mãos dela e apalpar seu corpo. Estava se dando bem afinal, ele pensou. Mas faltava algo. Ele apertava, mordia e lhe deixava marcas. Não ousava olhar no rosto dela, apenas para o seu corpo que era alvo e delicado. Mas ainda faltava algo.

Quando ele começou a passar a mão pelas suas coxas, ela parou de resistir e puxava o corpo dele contra o dela. Ela estava gostando? Olhou finalmente para o rosto dela que estava de olhos fechados e um sorriso de satisfação. Ela estava realmente gostando. Resolveu então lhe dar um beijo na boca que foi correspondido com luxúria. Ele foi ficando cada vez mais animado, e suando com o álcool que reagia em seu corpo, se forçava mais contra o corpo da moça, tentando rasgar as roupas que ainda restavam. A camisa dele já estava no chão amassada, quando o sangue espirrou nela.

Ele ficou um tempo parado, olhando para ela que agora encarava seus olhos profundamente. Olhos castanhos, mais escuros ainda com a noite. Ele não sentiu dor quando a lâmina entrou, mas sentiu a profundidade do corte quando a lâmina saiu. Antes que ele pudesse sair do estado de choque e se manifestar sobre o acontecido, ela enfiou a faca novamente, desta vez no estômago. Agora ele se sentia mais fraco e fica uma quantidade de sangue absurda sair de si mesmo. Ela, agora olhava para ele com um sorriso. O mesmo sorriso de satisfação de quando ele estava tomando seu corpo. Ele caiu no chão e começou a agonizar. Ela, pegou sua bolsa, tirou uma camisa e uma toalha. Limpo o sangue dele que havia sujado a sua barriga e se vestiu. Ele, se debatia no chão, ainda olhando para ela. Seus pensamentos confusos não permitiam que ele pudesse manter uma linha de raciocínio, ele só sabia que estava morrendo.

Ela usava um salto, que não era tão alto, afinal ela mesmo era um pouco mais alta que as outras mulheres. Ela usou esse mesmo salto para enfiar a ponta no ferimento que ela havia aberto no seu estômago. Pisando literalmente sobre ele, observava com asco, enquanto ele gemia de dor, sem poder reagir, fraco com a perda de sangue.

Tirando o pé de cima dele, ela caminhou até a rua, pegou um cigarro e começou a fumar, observando a rua vazia. Maldita rua vazia. Quando estava quase terminando, apagou o cigarro na testa dele, e com a faca, abriu um corte profundo na sua garganta, sem acertar a jugular. Como um açougueiro, ela só desceu com a faca no pescoço do pobre homem e deixou a faca lá, fincada. Ele não se mexeu mais. Ela pegou a camisa dele com cuidado para não se sujar, e cobriu o seu rosto. Se levantou com leveza e seguiu andando até um ponto de ônibus próximo de uma avenida. Sozinha, pegou outro cigarro e o celular enquanto observava os carros. “Fácil demais”, ela pensou.

juhliana_lopes 10-10-2016

Noite fria

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Eu vagava só pelas noites,

Uma andarilha pelas ruas escuras.

Me escondia nas sombras,

Com medo de tudo.

A lua era minha única amiga,

Me guiando com sua luz.

Porém as vezes, ela me faltava

Nas noites de lua nova,

Ou quando as nuvens a cobriam.

Novamente, eu ficava só

E com medo.

Um dia, você apareceu para me aquecer.

Quem diria, tão frio e tão quente.

Seu abraço, era meu aconchego

E seu sorriso, minha luz.

Assim como a lua, as vezes você me falta,

E eu vago sozinha, a te procurar.

Descobri depois que estamos ligados,

Pois quando se sente triste,

Meu coração aperta.

Quando se sente em dúvida,

Meu coração me alerta.

Quando está feliz,

Meu coração faz festa!

Te procuro nesta noite fria,

Mas não procuro seu calor.

Te procuro nesta noite fria,

Para lhe dar o meu amor.

juhliana_lopes 16-09-2016

Pergaminho perdido sobre a Grande Ameaça

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Esse é mais um dos muitos pergaminhos que irão descrever para as futuras gerações estes tempos de trevas. Eles existirão para que nos momentos de paz, nossos filhos e netos nunca se esqueçam do sofrimento que eles foram poupados e aprendam a se defender antes de sucumbirem diante de um ataque. Já são 50 dias desde que saímos de nosso reino a mando do rei, para dar o alerta e ajudar a proteger os outros reinos. O Rei Gorgo do reino do Oeste, nos recebeu muito bem e conseguiu se preparar pouco antes da grande ameaça chegar. As baixas foram poucas e com uma muralha reforçada graças a nossa lastimável experiência, conseguiram manter a situação estável. Assim como os alquimistas do Sul, os do Oeste começaram a trabalhar sem pausas, em busca de mais materiais, que possam quebrar este grande mal.

Após a derrota das primeiras hordas, com a situação sob controle, seguimos então pela fronteira, passando pelas lagoas e os rios da floresta da Meia Noite, em direção ao reino do Norte, com os cavalos acelerados para ganhar tempo e assim evitar que mais um reino seja pego de surpresa. Os cavaleiros e todos nós estamos cansados e com medo. Quando a grande Ameaça chegou no reino do Sul, ninguém sabia dizer exatamente o que era e muito menos como seria possível enfrentar aquilo. No início, surgiu como uma mancha escura no mármore da fonte principal da cidade que então, ao cair da noite, se abriu em um buraco com uma espécie de gosma escura ao redor. De lá, saíram três hordas de cavaleiros negros que em pouco menos de uma hora, tomaram conta de todo o vilarejo principal, seguindo em direção ao castelo.

As espadas comuns não faziam efeito, pois todos os cortes abertos se fechavam no mesmo instante como mágica. Os cavaleiros negros não caíam e seguiam indestrutíveis, até que Joshua, o Intocado, surgiu em meio a destruição com sua espada forjada com ouro antigo, e derrubou o primeiro cavaleiro das trevas. A sua lâmina era capaz de decapitar os inimigos sombrios com um só golpe. Foi visto que em todo o reino do Sul, considerando a espada de Joshua, só haviam 5 espadas de ouro, que estavam na sala de arma do rei, e no momento da batalha, sob seu comando, foram confiadas ao príncipe, e a mais três cavaleiros.

Então, juntos e com muita exaustão conseguiram conter as hordas das trevas. O dia já amanhecia quando a primeira batalha acabou e então o buraco da fonte se fechou sozinho, restando apenas a mancha negra. Percebemos então que eles só saíam a noite e assim, foram dias e mais dias trabalhando para conter as hordas e encerrar a entrada. O rei, preocupado com os reinos vizinhos, designou uma caravana, liderada por Joshua para avisar os outros reinos, começando pelo reino do Oeste, para que nenhum povo sofresse como nós havíamos sofrido e assim juntar nossas tropas para evitar que este grande mal crescesse. Hoje, 50 dias depois desse acontecimento, estamos indo em direção ao reino do Norte, esperando que ainda tenha um reino para avisar e proteger.

(…)

Já passava da hora do sol a pino, quando paramos para acampar perto de uma clareira no meio da floresta. Estávamos em 14 homens. Havia uma grande lagoa cristalina, e muitos animais selvagens ao redor. Joshua nos acompanhava e parou em uma árvore para descansar os olhos. Outros dois cavaleiros foram caçar um cervo, enquanto eu e o outro escrivão e soldado do reino preparávamos a fogueira. Então, Hélio, nosso cavaleiro mensageiro seguiu em direção a água, olhando alguma coisa. Os outros nove soldados que descansavam no chão ficaram nervosos, com medo de ser algum sinal da grande Ameaça. Porém, um canto doce tomou conta de nossos ouvidos, e logo estávamos todos em volta da água, procurando aquele som maravilhoso.

Eis que na outra margem, apareceram três donzelas desnudas, com os cabelos cor de mel, molhados e colados ao corpo. Sua pele levemente corada do sol reluzia com o brilho da tarde. Eu mesmo já havia ouvido muitas histórias, mas ali, diante dos meus pobres olhos mortais, estavam três ninfas de água doce. Três demônios sereias como os livros diziam. Confesso que no meu íntimo, não compreendia e praguejava quem as havia lhe dado tal alcunha, pois ali, não havia nada de demônio e sim, apenas uma beleza pura e que dê certo, deveria ser divina.

Aquele canto agradável, atraiu então Hélio para a lagoa que decidiu ir de encontro as belas damas do outro lado. Ele, nadava desesperado e as ninfas o incentivavam com gritos e risos alegres, espirrando água com suas mãos. Ao chegar no meio do lago, ele perdeu o chão e só então percebeu o quão profundo eram aquelas águas. Além disso, ele havia entrado de armadura e agora ela lhe pesava o corpo, o fazendo afundar e se afogar. Hélio, temendo a morte, pedia ajuda as ninfas que se quer se mexiam em seu socorro e cantavam mais canções, fazendo com que também ignorássemos o sofrimento de nosso companheiro.

Eis que do meio das águas, em uma onda incomum que arrastou Hélio de volta para a margem e interrompeu o canto doce das sereias, surgiu um ser que à primeira vista imaginei ser uma deusa reluzente, porém, era também uma sereia, mas não como as outras. Ela apareceu com um brilho incomum e tinha placas de ferro presas em seu corpo, como uma armadura. Usava um elmo prateado que cobria parte do seu rosto, deixando sua boca a mostra. Conforme ia se aproximando de nossa margem, sua cauda se desfazia, revelando suas pernas que também estavam cobertas com uma espécie de armadura que lembrava as grandes saias das princesas. Mesmo parecendo ser de ferro, o material era leve e maleável o bastante para que ela andasse sem qualquer dificuldade.

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Na margem, ela observou todos nós sem dizer uma só palavra. Então, em uma língua estranha, gritou alguma coisa para as outras ninfas que debandaram para dentro da água. Os soldados mais uma vez se encheram de medo e ficaram atentos. Já Hélio, com toda sua raiva e coragem, empunhou sua espada e avançou. Ela, com uma espada que parecia ser de prata, porém era levemente verde como alga, cortou o golpe, o derrubando no chão e jogando a espada simples para o outro lado, com apenas uma mão. Ela, guardou a espada na bainha e com uma voz suave perguntou quem era o nosso líder.

Joshua que continuava deitado na árvore, se levantou e se apresentou. A moça então tirou o seu elmo, revelando uma beleza ainda maior que a das sereias do outro lado. Ela tinha olhos de duas cores, um azul e outro amarelo, além de uma leve cicatriz sobre a sobrancelha direita. Parecia que tinha sido esculpida no mais belo mármore, e a água que lhe corria pelo rosto dos cabelos molhados, a fazia parecer uma pintura perfeita. Seu cabelo, era um castanho claro, quase mel, e também do lado direito, tinha três tranças pequenas, que se misturavam com o resto do cabelo solto.

– O que vocês fazem aqui? Não deviam estar aqui. – Ela disse em um tom severo.

– Estamos a caminho do reino do Norte. Somos do Sul. Estamos em caravana para avisar sobre um grande mal.

– Vocês poderiam ter ido pela estrada. Por que vir por aqui? – Ela perguntou com autoridade.

– Para ganharmos tempo. Existe um mal que aparece toda noite, e entra pelo reino através de um buraco negro nas pedras de mármore. Até agora, sabemos apenas que o ouro é capaz de parar essas criaturas, por isso estamos a caminho dos reinos, a pedido do rei do Sul, para lhes avisar e lhes dar uma chance de salvar o seu povo de grandes baixas. A chance que não tivemos. – Explicou Joshua com paciência. – E qual a sua graça? Quem é você? – Ele disse fazendo uma reverência irônica.

Ela, observando o gesto com frieza, deu um leve sorriso de canto. Enquanto isso, todos nós ficamos apreensivos com o gesto do Intocado, e com medo de que a aquele ser ficasse zangada.

– Sou Maena. 1º General do reino de Cyperus, sob a ordem do Rei Chez. E você?

– Sou Joshua. 1º Cavaleiro do Reino do Sul sob missão. – Respondeu Joshua engolindo seco. – Eu peço desculpas caso…

– Eu nunca ouvi falar desse reino… – Interrompeu Hélio, ainda zangado com o quase afogamento e a investida da General contra o seu ataque.

– É porque fica debaixo da água. Se você aprender a respirar embaixo d’água, eu ficarei lisonjeada em te mostrar tudo um dia. – Maena respondeu com o mais profundo sarcasmo.

– Como eu estava dizendo…. – Disse Joshua sério, olhando para Hélio. – Peço desculpas pela minha falta de jeito e por termos provocado algum incômodo. Não era a nossa intenção. Em todo caso não sei como esse mal se comportaria na água, então agora que sabemos da existência de vocês, espero que possam se preparar. – Ele terminou com um tom cortês.

– Eu agradeço. – Ela respondeu ainda com um tom sério. – E peço desculpa pelas meninas. Há muito tempo elas não se alimentam de nada humano, apenas animais da floresta mesmo. Sentiram cheiro de carne nova e resolveram ver do que se tratava. Peço para que vocês também tomem cuidado, pois não posso protegê-los toda hora. Ainda assim, lhes darei a ordem para que não se alimentem de caravanas nos próximos dias.

A reunião estava enfim, sendo perfeitamente bem-sucedida, e a fogueira já estava alta. Antes, porém que os soldados pudessem chegar com o cervo para assar, fomos surpreendidos por ladrões. Eles eram altos e bárbaros, e conseguiram derrubar e ferir pelo menos três de nossos soldados. Joshua e Maena lutaram lado a lado, e sozinhos, eles conseguiram derrubar mais ladrões que o resto de nós. Era realmente uma luta incrível e uma graça ver a sereia general manejar a sua espada, parecia não haver qualquer peso em suas mãos.

Os bárbaros então fizeram uma emboscada, e prenderam Joshua com uma rede. Parecia que seríamos dominados, pois muitos de nós já estávamos amarrados. Eles eram realmente mais fortes e extremamente habilidosos, além de trapaceiros em suas lutas. Apenas a general ainda estava de pé, lutando sozinha e ainda conseguindo conter muitos. Com um golpe traiçoeiro, conseguiram tomar a espada de suas mãos e então percebemos que havia magia nela. Na mão da sereia, ela parecia não ter peso algum, porém quando o ladrão imundo a tocou, ela caiu pesada no chão e nenhum deles conseguia levantá-la para lutar, apenas arrastá-la para longe de sua dona.

Apontaram uma espada para o meu pescoço, e então imaginei que estava tudo perdido, até ouvir um canto, ainda mais bonito que os das ninfas. Maena começou a cantar, não uma música de sereia, mas uma música antiga que muitas vezes tocávamos em festa. A música é tão antiga, que há muitos anos é passada de geração em geração, e eu mesmo confesso que nunca havia ouvido a letra completa. Logos os bárbaros estavam calmos e indo em direção a água, mas não eram só eles que se encantaram. Todos nós queríamos nos desfazer das amarradas e segui-los como se aquilo fosse mais forte que tudo. Hélio conseguiu se soltar e foi correndo em direção a água. Joshua também se soltou e o segurou o mais firme que pode, o arrastando de volta e o amarrando. Um a um, ele conferia as amarras, para que não entrássemos na água. Uma vez dentro, podíamos ver os bárbaros virarem comida, como se houvesse mil crocodilos os devorando, mas não eram crocodilos. Como se eu estivesse despertando de um sonho, pude ver a carnificina e descobri enfim por que o nome de “demônios sereias”. Maena parou de cantar e não entrou na água. Apenas observava de longe, ainda em terra firme.

A água ficou em um tom vermelho escuro por causa do sangue dos ladrões. Havia também, boiando na água, partes não devoradas como braços e pernas. Muitos soldados horrorizados, se afastaram da general quando ela caminhou em direção a sua espada. Joshua ajudava os outros soldados a se soltarem e logo eles recolhiam as coisas do acampamento para seguir viagem. Ainda estavam exaustos e com fome, mas nenhum deles queria mais descansar ali.

– Então você é o Intocado? – Perguntou Maena para Joshua, ao perceber que ele não havia sido o único que não foi encantado.

– Dizem que eu sou. – Ele respondeu sem lhe encarar nos olhos, ajudando a desamarrar o último soldado.

– Você conhece a profecia? – Questionou mais uma vez Maena.

– Que profecia? – Ele perguntou curioso, agora encarando a moça. Ela tinha olhos grandes e curiosos para ele, como quem tem um truque na manga e está pronto para usá-lo.

– Se vê logo que não conhece. – Ela disse pegando sua espada do chão – Vá para o reino do Norte e os salve. Depois siga para o reino do Leste pelas colinas e não pelas montanhas, senão vocês podem cair no grande abismo. Quando terminar sua caravana, volte aqui e lhe contarei o que quiser saber. – Ela disse em um som suave, lhe entregando uma peça de prata verde. – Jogue isso na água e eu virei ao seu encontro.

Joshua recebeu a peça, um pouco confuso e era a primeira vez que eu e acredito também que todos os outros, pudemos vê-lo assim. A general, batendo continência, virou-se e seguiu para a água que já estava limpa e cristalina novamente, como se nunca tivesse sido tocada por nenhum homem. Ao entrar na água, sua cauda voltou e ela afundou de volta para o seu reino.

(…)

Foram 55 dias desde a aparição da grande Ameaça e cinco em que nos encontramos com as sereias do Reino de Cyperus. Agora, faltam só mais cinco dias para chegarmos ao reino do Norte para completar metade de nossa missão. Aqui, registramos todos os acontecimentos desse grande mal para que ninguém se esqueça de nós e de nossa história. Aqui deixamos o nosso legado, que será preservado para muitas gerações. Aqui estão todos nossos segredos e dúvidas, além de registros mágicos. Aqui, está tudo o que fomos um dia e tudo o que somos.

juhliana_lopes 27-08-2016

Insistente

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Hector estava completamente apaixonado. Nunca havia se sentido assim, mas agora só tinha olhos para a aluna nova. Ela era realmente muito bonita, parecia uma escultura renascentista e agora ele falava dela com todos os elogios bregas que conseguia imaginar que poderiam exaltar ainda mais a beleza dela com o seu amigo.

Ele era um fracasso com as mulheres, é verdade. Desde o ensino fundamental, não tinha sorte nem naqueles jogos de verdade ou desafio. As meninas simplesmente o rejeitavam como se ele fosse um portador de alguma doença grave. Hector também tinha problemas com amigos. Ele não era bom em nenhum esporte ou jogo que pudesse ajuda-lo a socializar, então ele foi uma criança muito sozinha.

Seus pais mudaram de cidade e por consequência o mudaram de escola, que apesar de ser um prédio meio sombrio, era extremamente agradável. Lá, Hector conseguiu seu primeiro melhor amigo que tinha um nome engraçado. Zan, como Hector o chamava, era um menino alvo de cachos dourados. No começo, percebeu que alguns o chamavam de veado, mas ele parecia lidar bem com isso, ignorando todas as ofensas. Hector o admirava pela sua intensa sabedoria que as vezes parecia datar de tempos antigos. Além disso ele era muito bom em escalar coisas e o ensinou a subir nas árvores e a “cair” sem se machucar.

Hector ainda falava da menina com os olhos brilhantes, sem perceber que Zan já começava a ficar entediado com aquela conversa. Quando parou para respirar, percebeu pela expressão do amigo que ele já era contra aquela “relação”, antes mesmo de começar. Mesmo sabendo que ele seria contra, resolveu ouvir o amigo para então quebrar cada argumento com palavras bonitas sobre seu amor platônico.

– Ela não é boa. É melhor nem tentar. – Zan respondeu desinteressado, enquanto mordia seu sanduíche natural.

– Mas Zan…. Ela parece um anjo….

– Mas não é. Pode até ser filha de um, mas ela mesmo não é. – Zan respondeu em um tom mais sério, que usava normalmente quando aparentava ser mais velho.

– Não adianta você ficar torcendo contra. Ela vai ser a mulher da minha vida! – Disse Hector com um tom sonhador.

– Você que sabe. – Zan deus os ombros.

A garota, se chamava Bárbara Naamah, revelando assim ser estrangeria. Mesmo se não fosse pelo nome diferente, suas feições mostravam que ela era de muito longe. Tão alva quanto Zan, seus cabelos ruivos voavam fácil ao vento. Por vezes pareciam mudar de cor, ora um laranja opaco como o fim de uma tarde fria, ora vermelho como uma chama ardente. Ela era miúda e magra, e andava com uma delicadeza de uma bailarina. Ainda assim, não era fraca, demonstrando várias vezes sua força nos jogos durante as aulas de educação física.

Nolin, o garoto popular já havia se aproximado dela, mas aparentemente não havia conseguido nada. Ela era linha dura e Hector estava adorando isso. Ele estava decidido a se aproximar, mas sentia que seu coração iria pular para fora da boca toda vez que tentava. Da forma antiga, escreveu um bilhete e escondeu em seu caderno. Ficou olhando de longe para ver a sua reação, que despedaçou um pouquinho o seu coração. Ela achou o bilhete, leu e o jogou fora na mesma hora. Nenhuma expressão de surpresa, nenhuma expressão de curiosidade para saber quem era. Apenas leu como quem lê um recado na geladeira e o descartou.

Hector ainda tinha muito amor para dar e resolveu uma aproximação mais direta, porém quando estava frente a frente com ela, sentiu suas pernas tremerem e suas mãos suarem instantaneamente. Ela, com um olhar confuso apenas disse um Oi e perguntou se poderia ajudar em algo. Ele, sem graça, disse um Oi também e pediu licença para pegar um livro que estava atrás dela. Ela saiu de sua frente e seguiu andando com suas amigas que riam da timidez do garoto.

Hector começava a ficar com raiva de si mesmo e se sentia um fracassado. Zan, apareceu como um bálsamo tentando lhe trazer de volta a razão:

– Você é bem insistente. – Ele disse em um tom despreocupado.

– Eu sou um idiota. A menina está ali! É só eu chegar e falar com ela. – Dizia Hector batendo contra a própria cabeça.

– Por que você simplesmente não parte para outra? Existem muitas outras garotas por aí… – Zan lhe aconselhou.

Hector então olhou para Zan para tentar identificar algum tom de sarcasmo. Seu rosto estava contra o sol e ele não conseguia enxergar todos os detalhes do seu rosto. Era estranho admitir isso para si mesmo, mas Hector podia jurar que as vezes Zan parecia ter um rosto tão feminino quanto qualquer menina. Ao mesmo tempo, ele não era nem um pouco afeminado, e ao aconselhar sobre qualquer assunto, seu tom de voz era de alguém que tinha mil anos, por isso Hector tentava encontrar alguma ponta de ironia, pois por mais que ele estivesse sendo, era qualquer impossível de identificar.

O garoto sonhador resolveu então levantar e em um ato desesperado, falar com ela de uma vez. Se declarar, colocando a cara a tapa, porém, antes de dar um passo, viu quando sua musa passou alegre e sorridente, guiando outro garoto pela mão até um canto qualquer da escola. Logo os dois estavam unidos por um beijo longo e demorado. Hector, com seu sensor de fracasso quase estourando, sentou-se no chão, deixando todo o seu peso cair sobre a grama de uma vez. Olhou mais uma vez para o rosto de Zan, que tinha um leve sorriso nos lábios. Agora sim, qualquer coisa que aquele maldito falasse seria irônico.

No outro dia, Hector andava cabisbaixo pelo corredor, quando viu a bela ruiva de mãos dadas com outro rapaz. Com um suspiro pesado, percebeu que as coisas aconteciam muito rápido naquela escola. Porém foi só no fim daquele mesmo dia, ao vê-la aos beijos com um terceiro rapaz, que ele percebeu que se não poderia ter o amor dela, teria pelo menos os seus lábios.

Desta vez Zan não opinou. Apenas deu os ombros como quem já está cansado de falar e não ser ouvido. Hector estava determinado e levou até um pequeno buquê de rosas oculto em sua jaqueta. Andou pela escola toda, espreitando pelos cantos até que conseguiu achar a bela donzela sozinha.

Primeiro ela ficou surpresa, e não era para menos. A expressão de Hector parecia mais de um estuprador frustrado do que de um rapaz apaixonado. Depois, quando lhe entregou as rosas, ele ficou a observando e vendo a delicadeza com a qual ela tratava as flores. Seu coração se clareou novamente e invés de pedir algo casual para não ficar sem nada, despejou todo o seu amor aos pés dela.

– Eu te amo. Te amo como eu acho que nunca vou amar alguém. Você é tão perfeita para ficar passando de mão em mão. Eu sei que eles não te forçam a isso. Sei que você deve gostar disso, mas eu estou aqui, como um servo pedindo a sua benção. Eu estou aqui para ser seu capacho, estou aqui para lhe fazer a mulher mais feliz do mundo. Eu só quero uma chance para fazer de você o anjo mais elevado que o céu poderia ver. Eu te amo, e gostaria muito que me desse uma chance para demonstrar pelo menos um pouco desse meu amor! – Hector falou tudo quase sem respirar, segurando as mãos dela enquanto tremia. Ela olhava para ele estática, até que em um sorriso lindo, respondeu com bondade.

– Eu acho tão lindo esse seu sentimento, mas se você soubesse quem eu sou e de quem eu sou filha, você não teria coragem nem de se aproximar de mim. Sabe, no início até que era difícil, mas hoje em dia eu nem ligo mais. Fico realmente lisonjeada, mas não posso ficar com você.

– Mas por que não? Seu pai proíbe você de ter namorados? Por isso você fica escondida com todos? Acha que ninguém vai ter peito para enfrenta-lo e assim ter um namoro de verdade? Eu tenho, eu enfrento! – Hector agora falava em um tom um pouco mais alto que a sua voz, que fazia ela falhar algumas vezes.

– Você enfrentaria o próprio demônio para ficar comigo? – Ela respondeu com uma seriedade fora do comum. Hector ficou um pouco confuso, afinal só conhecia uma pessoa falava daquele jeito…

– Ele pode ser tão bravo quanto um monstro, por você meu anjo, eu enfrento tudo! – Respondeu Hector um pouco mais calmo e sonhador.

– Ele não é um monstro Hector… E eu não sou um anjo. Eu sou um demônio. E meu pai é Lúcifer. – Ela respondeu deixando as rosas tocarem seus cabelos vermelhos. No mesmo instante, elas incendiaram até restar cinzas. – Ele não me proíbe de ter namorados, e eu sei que ninguém vai ter peito de enfrenta-lo, mas não precisam. Papai até que é bonzinho. Por isso eu fico com quem eu quiser, e com você eu não quero. – Ela disse com um risinho irônico.

Hector estava confuso. Completamente confuso. Aquilo que ela dizia, era realmente verdade? E aquele truque com as rosas e o cabelo? O que estava acontecendo afinal. Bárbara deixou o garoto sozinho com seus pensamentos. Hector, em meio a sua confusão só conseguiu falar baixinho:

– Não é um anjo…

A moça se virou então e disse por fim:

– Não. Eu não sou um anjo. Você anda com o anjo.

Hector permanecia ali parado. Reparou então como o ambiente estava silencioso. Era como se o tempo tivesse parado, como se tudo estivesse congelado, até mesmo seus nervos. Quando ela sumiu pelo corredor, ele se virou e deu de cara com um professor, caindo no chão com o esbarrão.

– Hector, você está bem? – Perguntou o professor o ajudando a levantar.

– Sim senhor. – Respondeu Hector ainda confuso com a cabeça baixa.

– Que ótimo. Zaniel está te chamando na biblioteca. Ele pediu para que eu fosse procura-lo.

– Tudo bem, obrigado. – Respondeu Hector, percebendo todo os barulhos retornando aos poucos, invadindo seus ouvidos e perturbando ainda mais a sua mente.

juhliana_lopes 22-08-2016