Medo do Sol Nascente

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Há momentos em que caímos em questionamentos. O sentido da vida, que roupa usarei hoje, rosa ou azul, quente ou frio, levantar ou dormir mais cinco minutos…. A verdade é que seguimos sempre através destes questionamentos, como se eles fossem parte essencial para nossa existência. Pior que isso, só as respostas. Quantos não passaram a vida inteira procurando respostas a esses questionamentos e quando as tiveram, nem se importaram. Se você perguntar para uma pessoa a resolução de um problema que ela chorava há alguns anos, hoje em dia ela nem se lembra mais. As respostas se tornam inúteis, uma vez que o ser humano se acostumou a questionar. A busca, a “aventura”, as pequenas descobertas são mais importantes que a resposta em si. Uma conquista só tem graça durante o seu desenvolvimento, pois uma vez conquistada, uma vez adquirida, o resultado, o glamour, o poder se tornam fáceis. Aquilo que se buscava, aquilo que era apenas um objeto de desejo, se tornou algo ao alcance da mão. Após a primeira vez, aquilo perde seu brilho.

Por isso as pessoas sempre estão buscando alguma coisa e pouco se importando para o que já possuem. Mais do que isso, elas aprenderam a valorizar apenas aquilo que não possuem. Louco, não é? Do alto deste prédio, eu observo o dia a dia de muitas pessoas. Como formigas focadas apenas em um objetivo, as pessoas seguem apressadas, tropeçando umas nas outras. Um ou outro fica para trás, normalmente aqueles que ainda procuram aproveitar os poucos momentos da vida, mas ainda assim, todos sabemos que isso não dura para sempre.

De geração em geração, há sempre alguma coisa que está em alta e outra que é super desvalorizada, chegando ao ponto de ser objeto de vergonha. A ostentação do que está na moda, os holofotes, o Ser querido por alguém é o que faz você ser alguém na vida. Mas afinal, o que é ser alguém? É realmente preciso ser alguém na Vida, ou você pode passar por ela como um completo desconhecido e mesmo assim ser feliz?

Daqui de cima, mais do que as vidas tediosas, eu enxergo também os medos de cada um. Todos eles. E uma coisa eu posso afirmar, a maioria possui o mesmo grande Medo. Entre os mais comuns, há o medo de não ter tempo (que ironia… Ninguém tem), medo de escuro, mas não a falta de luz e sim a falta do conhecimento necessário para se alcançar a luz…. O medo de não ser capaz de enxergar os próprios caminhos. Mas, entre tantos medos que vivem travando as pessoas de conseguirem aquilo que querem, tornando assim tudo tão pacato, existe um que todos confundem, e um dia destes, enquanto eu estava entediada demais para observar as coisas de cima, e resolvi caminhar um pouco, acabei esclarecendo para um dos seres.

Era um dia nublado com temperatura amena, levemente frio. Eu caminhava descalça por ruas aleatórias, com minhas vestes esfarrapadas, já encardidas pelo tempo. É incrível como as pessoas ficam tão apressadas que se quer reparam quem anda a sua volta. Foi durante a caminhada próximo a uma ponte que eu notei, entre tantos passos apressados, um que parou subitamente. Era um rapaz alto e magro, com belas vestes sociais. Parecia muito angustiado, e tremia, enquanto olhava para o viaduto abaixo dele com certo delírio. Ele estava tão atordoado que não me viu chegando – ninguém vê. Então, enquanto o rapaz ainda namorava o asfalto abaixo dele, e vários carros passavam em alta velocidade, lhe fiz uma saudação, com um simples bom dia. Ele não ouviu, então repeti, porém sem toca-lo, apenas falando mais alto.

Como quem vê um fantasma, ele deu um pulo e eu pude sentir seu coração disparar. Um pouco ofegante, ele me olhou com calma dá cabeça aos pés e respondeu alguma coisa gaguejando, que eu não pude entender muito bem.

– Dia difícil? – Eu perguntei com um sorriso no rosto.

Um pouco mais calmo, mas ainda desconfiado, ele respondeu:

– Acho que sim…

– E olha que são só oito horas da manhã. – Respondi, mas desta vez sem encara-lo, olhando para o horizonte.

– Pois é… E você… Saiu de onde? – Ele me perguntou ainda desconfiado.

– Oh, eu? Não se preocupe comigo. Eu vivo vagando por aí, observando tudo. Nada demais.  – Eu respondi como se estivesse desinteressada.

Ele resolveu ignorar minha origem, ou mesmo o motivo para que eu estivesse ali. Com o olhar perdido para frente, ele fez o primeiro desabafo.

– As coisas andam tão difíceis. – Ele suspirou. – É horrível para mim passar por aqui todos os dias e perceber que eu não tenho coragem.

Olhei para ele, que estava olhando para os carros abaixo dele.

– Coragem é algo muito subjetivo, se você não souber do que realmente você tem medo. – Respondi calmamente.

– Filosofia de rua? – Ele perguntou em tom de riso.

– Quase isso. – Respondi, dando um sorriso de canto.

Então, depois de olhar para mim de cima abaixo e dar mais um suspiro, ele fez o segundo desabafo.

– Eu nem sei mais porque continuo aqui. Nada me prende sabe? Meu trabalho está a cada dia mais degradante, e o estresse é tão grande que já tem afetado minha vida pessoal. Aliás, vida pessoal é um elogio vindo da minha parte, pois não dá para chamar de Vida chegar em casa e deitar na cama com a roupa do corpo.

– Realmente. – Eu respondi enquanto observava os carros. Tão rápidos e tão vazios ao mesmo tempo. Sendo guiados por pessoas tão confusas e atordoadas como este rapaz ao meu lado.

Ele se calou. Senti sua boca seca, buscando um pouco de saliva para molhar os lábios. Antes que eu tentasse puxar algum assunto aleatório, ele desabafou pela última vez.

– Eu queria tanto acabar com tudo. Queria tanto me jogar daqui sem qualquer arrependimento, ou com todos eles, mas ainda assim me jogar sem pensar no que poderia acontecer depois…. Mas eu não consigo. Acho que eu tenho medo de morrer, essa que é a verdade. Sou tão fracassado que nem me matar eu consigo, e vou ser obrigado a ter essa vida de merda até a minha velhice, ou virar um morador de rua que nem você…. Sou realmente um medroso, uma vergonha.

A falta de umidade na boca de repente foi compensada com água nos olhos que rolaram pelo rosto. Eu podia sentir o toque quente da lágrima descendo pela bochecha esquerda, que rapidamente sumiu com um toque brusco de sua mão para apaga-la. Era mais do que óbvio que o medo dele não era e nunca ia ser da morte.

– Sabe… – Eu comecei – Você não tem medo da morte. São poucas as pessoas que tem.

Ele me olhou com os olhos marejados e uma expressão confusa.

– Você levanta todos os dias sem a menor vontade de levantar. Caminha até o trabalho, mesmo sem querer e quando chega lá, ainda consegue fazer um trabalho ótimo. Claro que isso não o satisfaz, porque você não admite para você mesmo que mesmo em meio a tantos momentos ruins, uma delas está de fato dando certo, e então, você reage desta forma.

Ele não se atreveu a dizer nada, parecia muito surpreso para isso.

– Olha…. – Continuei – Não é porque sua mãe te abandonou durante a infância que você deveria desistir de tudo entende? Claro que ela não foi correta com você, afinal, você era só uma criança, e é muito difícil entender qualquer coisa grave que aconteça durante essa fase. Todos temos pecados, e o dela foi querer viver. Você não pode ter medo de viver só porque ela te deixou para isso. Seu pai fez de tudo por você, e a sua avó também. A vida é mais do que os desejos pessoais, é a busca por novos objetivos quando os primeiros são frustrados.

Sua expressão mudou. Um misto de raiva e incredulidade. Além de claro, a típica não aceitação. Senti seu suor escorrer pela testa do lado direito, enquanto seus dedos se retraiam. Ele me olhou nos olhos com os punhos fechados e sem respirar direito, falou:

– Quem você acha que é para achar que sabe de alguma coisa sobre mim? Você não me conhece, como pode falar qualquer coisa sobre a minha infância ou sobre o meu trabalho? Você acha que só porque uma pessoa está angustiada ela está ferrada na vida igual você? Acha mesmo que todo mundo tem uma vida de merda igual a sua? Acha que só porque você veio parar na rua como uma mendiga, todo mundo tem uma história triste? – Ele falava alto e tremia um pouco.

– O que eu sou para você? – Eu lhe disse praticamente sem expressão.

Ele, um pouco surpreso com a resposta respondeu um pouco confuso.

– Nada.

– Então porque se importou com o que eu falei?

Ele não respondeu. Como se estivesse repassando tudo o que foi dito, se deu conta da sua raiva sem motivo.

– Você se importa porque é verdade. Não é medo da morte que você tem. É medo da vida. O puro e mais simples medo de viver livremente, encarando os desafios do dia a dia e mais, superando-os. Você tem medo de progredir, medo de crescer. Não é medo de que tudo se acabe. É medo do sol que nasce e te desperta para um novo dia.

Senti então seus olhos arregalarem. Suas mãos começaram a tremer mais, e agora até as pernas começavam a ficar um pouco bambas. Algo me dizia que ele estava começando a me enxergar de verdade.

– Quem é você, algum tipo de anjo? Alguma entidade? Algum ser sobrenatural? – Ele perguntou nervoso.

– Eu pareço um anjo? Não…. Esse título é muito forte para alguém como eu.

– Então quem é você? – Ele perguntou novamente, mas antes que eu respondesse, emendou mais uma pergunta – O que é você? Você é a morte?

Olhei para ele com um leve ar de desprezo. Não importa quantos anos os seres humanos vivam, nunca irão me reconhecer.

– Não. Não sou a morte. Muito pelo contrário. – Eu disse, me aproximando dele. – Eu sou a Vida. É de mim que você tem medo, e é por mim que sua mãe lhe abandonou, e por meio de mim que você irá para casa um pouco mais…. Feliz. – E então lhe toquei no ombro.

Era como se ele tivesse sido soprado. O leve toque foi suficiente para que eu pudesse sentir todo o seu organismo reagindo de uma vez só. Todos os estímulos, o sangue correndo nas veias e o ar passando em seus pulmões. Foi tão rápido que ele ofegou puxando o ar de uma vez como quem acaba de emergir de um mergulho.  Com as pupilas dilatas, ele olhou em volta levemente desesperado e sorriu. Ele não me viu. Não poderia mais me ver. Aquele sorriso tímido, se tornou uma gargalhada, levemente insana. Então, ele subitamente se calou. Olhou em volta novamente, e seguiu caminhando pelas ruas, apressado, segurando o riso. Ele estava feliz, estava motivado e bobo. Permaneceria assim por alguns dias, mas poderia estender o efeito, dependendo das suas atitudes.

Eu fiquei ali, no mesmo lugar observando.

Assim como a Morte vaga por aí, observando as pessoas, apenas as tocando quando é a hora certa. Eu vago por aí, apenas observando e reservando meus toques para àqueles que não se permitem viver o que tem. Reservando meu sopro para aqueles que tem medo de mim.

 

juhliana_lopes 12-02-2017

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Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017

Jantar

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Brian era mesmo um cara diferente. Nos conhecemos por acaso na cadeia, em um dia que eu fui levar a comida para os prisioneiros. Não era a minha função, mas até os funcionários base precisam de folga de vez em quando. Ele estava lá, isolado dentro da cela. Os outros três presos que estavam com ele não se atreviam a chegar perto. Entreguei a marmita a eles e depois chamei Brian para pegar o dele. Os outros me disseram que não adiantava chamar, pois ele sempre ficava ali deitado, e não obedecia a ordens, por mais simples que fossem. Incrivelmente ele veio, pegou a marmita de minhas mãos e ficou me olhando com aqueles grandes olhos azuis. Fiquei um pouco incomodada, mas tentei não demonstrar, afinal, tudo o que um bandido quer é intimidar uma autoridade. Ele voltou para seu canto com a comida, e eu segui o meu caminho.

Depois, voltando para a sala dos guardas, fiquei sabendo que deveria ter seguido o conselho dos outros presos e deixado a comida no chão para ele pegar e que foi um milagre ele não ter feito nada. Até então, não sabia porque Brian havia sido preso. Além de torturas, comprovadas que levaram a sua detenção, ele também foi acusado de homicídio e canibalismo com o corpo de uma vítima, porém para esta acusação não havia provas. Ainda assim, a conversa ganhou força depois dele tentar matar um “colega” de cela que o agrediu. Os outros presos contaram e as imagens das câmeras confirmaram que durante o banho de sol, Brian deu uma chave de braço no preso que o agrediu que era ligeiramente maior que ele, o derrubou no chão e mordeu o seu rosto, tão forte que foi capaz de arrancar uma parte da pele e da carne. Ele mastigou o pedaço que arrancou e antes que pudesse mordê-lo de novo, agora no pescoço, foi acertado com cassetete no pescoço por um policial. Ambos foram levados para o hospital. O “colega” aterrorizado foi para outra cela com uma cicatriz horrível no rosto e Brian voltou para sua cela normal, para a infelicidade dos outros presos.

Alguns dias depois, fui levar comida novamente e antes que eu pedisse, ele mesmo se aproximou da grade. Novamente lhe dei a comida e ele com seus grandes olhos, como se enxergasse a minha alma, tocou a minha mão ao pegar a comida, acariciando-a. Fingi novamente que aquilo não havia me afetado e continuei meu trabalho. Aquela atitude estava me incomodando, porém, talvez ele só estivesse me cantando de forma barata, achando que conseguiria alguma coisa. Tentei evitar fazer as entregas, porém me chamaram novamente na semana seguinte. Quando me aproximei, ele veio com um sorriso no rosto. Desta vez, puxou assunto, perguntando meu nome. Então eu lhe disse que isso não lhe interessava e que ele deveria pegar a comida logo.

– Mas é claro que me interessa! – Ele disse animado. – Preciso saber o nome da dama que eu vou convidar para jantar quando sair daqui.

– Não perca tempo fazendo convites para alguém que não vai a lugar nenhum com você. – Eu respondi, da forma mais seca possível.

– Claro, claro. – Ele disse pegando a marmita de minhas mãos e acariciando-as novamente. – Será as 7h da noite em minha própria casa, ficarei ansioso para ter a sua presença. – Ele disse olhando em meus olhos, sorrindo.

Não respondi. Recolhi minhas mãos rapidamente e continuei meu caminho.

No fim daquele mês, o advogado dele foi muitas vezes a delegacia com vários documentos. Àquela altura eu já tinha ouvido histórias demais para entender que ele era um louco psicopata, que todos deveriam manter distância. Ainda assim, ele conseguiu uma liminar para responder pelo seu crime em liberdade, e quando fiquei sabendo que seria o seu dia de saída, fiz questão de fazer uma patrulha pelo bairro, só para não ter que encaras suas piadas e seus convites inconvenientes.

Voltei à noite para a delegacia, onde peguei minhas coisas para ir para casa. Quando sai, um taxi apareceu e eu entrei, dizendo para qual endereço devia ir. Fiquei perdida em pensamentos, sobre onde Brian estaria e o que faria agora em liberdade. Se aquela história de que ele bebia sangue e comia carne humana era realmente verdade e se as investidas dele para mim tinham alguma intenção, ainda mais relacionada a essa bizarrice. Só percebi que o taxista havia ido por outro caminho totalmente diferente quando chegamos a um bairro mais rico, cheio de condomínios e casas enormes.

– Eu não mandei ir por aqui. – Falei séria. Eu já não estava fardada, mas uma policial nunca perde a sua pose.

Ele me ignorou e continuou seu caminho. Usava óculos escuros e um terno. Um leve terror me tomou o corpo, me arrepiando a espinha. Olhei para as portas, na esperança de pular para fora do carro na primeira oportunidade. Assim como nossas viaturas, não havia trincos por dentro. Reclamei novamente, e novamente fui ignorada.

A essa hora eu já procurava minha arma em minha bolsa, disfarçadamente, me preparando para quando o carro parasse. Enfim parou, em uma casa enorme. O motorista saiu e abriu a porta para mim. Desci do carro cautelosa, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, porém em minha mente só me vinha o nome de um autor possível para aquela palhaçada.

– Brian! – Eu disse surpresa ao vê-lo vindo em minha direção.

– Olá minha bela! Fico feliz que tenha aceitado o convite. Está na hora certa, 7h. – Ele disse, segurando minha mão.

Olhei para o relógio, realmente eram 7h. Ele me puxou pela mão, mas eu não andei, então ele se aproximou para me puxar novamente.

– Ora, vamos minha linda. Não há problema nenhum. É só um jantar inocente. – Ele dizia com uma voz suave no rosto.

Resolvi o seguir. Enquanto isso procurava em minha bolsa o celular para ligar para a polícia e avisar do meu sequestro, mas ele não estava lá. Ao me ver mexendo em minha bolsa, ele me perguntou se havia algo errado. Quando olhei para seu rosto, havia um sorriso sarcástico.

– Cadê o meu celular?

– Ora minha linda, você não vai precisar dele, afinal é uma falta de educação extrema mexer no celular durante o jantar. Agora deixe sua bolsa aqui. – Ele disse enquanto pegava minha bolsa. Ele a pendurou em um gancho perto da porta. – E venha por aqui. – Ele terminou, colocando a mão em minha cintura.

– Me largue! – Eu disse me esquivando dele. – Eu não aceitei o seu convite em momento algum. Eu vou embora imediatamente e você não pode me prender aqui. – Falei furiosa, seguindo em direção da porta. Ele não fez nada, a não ser ficar parado. Quando cheguei a porta, ela estava trancada. – Abre isso! – Eu gritei.

– Não dá amor. – Ele disse gentilmente. – Está trancada por fora, para que ninguém atrapalhe nosso jantar. Agora vamos logo, afinal, já que você está se sentindo tão indisposta assim, quanto mais rápido comermos, mais rápido você pode ir embora. – Ele abriu um sorriso, segurando minha mão e levando-me para a sala de jantar.

A casa era enorme. Uma verdadeira mansão. Talvez aquilo explicasse porque ele conseguiu responder um crime de tortura em liberdade. Era claro que ele queria jogar e tinha todas as regras ao seu favor.

Sentei a mesa, enorme, na lateral e ele sentou ao meu lado, na ponta da mesa. Então ele balançou um sininho que tinha ao seu lado e logo entraram algumas pessoas com bandejas. Serviram também um vinho. No prato, haviam alguns pedaços de carne, com um pouco de purê e umas folhas verdes. Algo bem gourmet. Ele, assim que foi servido, começou a comer, se deliciando de cada pedaço. Eu só conseguia lembrar dos comentários sobre canibalismo e sentir nojo daquela situação. Então, ele ao perceber que não havia tocado na comida, me perguntou com uma voz gentil se estava tudo bem.

– O que é isso? – Eu disse apontando para o prato.

– Ah, isso é Carre d´agnello con fegato grasso e salsa alla menta.

– O quê? – Eu perguntei.

– Ah sim, é fígado de ganso, no estilo fois gras, com ossos e caldo de carneiro, e com purê, folhas de hortelã e aspargo. Uma delícia, pode comer.

– Isso está com uma cara estranha…. Você não come carne humana? – Perguntei sem pensar.

Ele se engasgou. Tomou o vinho, respirou fundo e me olhou um pouco assustado.

– E porque eu comeria carne humana? Quem faz uma atrocidade dessas?

– Eu…. Seu episódio na cadeia. E antes disso houve a acusação de canibalismo….

– Essa acusação não passa de uma mentira deslavada. Sobre o episódio, eu só tive um leve surto psicológico que foi devidamente tratado. Eu passei muito mal naquele dia depois de ingerir aquilo. Mas…. Você achou mesmo que eu era um monstro desse tipo? Que ia te trazer aqui para fazer você comer carne humana?

Ele parecia profundamente ofendido. Como se só me trazer para um jantar contra a minha vontade não fosse motivo suficiente para eu lhe achar um monstro, eu ainda estava acrescentando a carga de canibalismo ao seu currículo. De qualquer forma, eu ainda não estava confiante nas palavras dele. Cheirei o vinho. Era vinho mesmo, então tomei um gole.

Ele percebendo que eu estava levemente mais relaxada, continuou comendo. Eu queria ir embora, estava me sentindo mal ao lado dele. Era loucura demais para um dia só e eu não podia simplesmente aceitar aquilo de bom grado, só para que ele me soltasse, afinal eu era uma policial.

Me levantei subitamente, e corri para onde minha bolsa estava na entrada. Ele veio atrás de mim, andando depressa. Quando ele se aproximou, apontei a arma para ele que levantou as mãos.

– Calma minha linda, não há a menor necessidade disso. – Ele dizia ainda com a voz gentil.

– Eu quero ir embora. AGORA! – Eu gritei. Aos poucos eu perdia a calma e a paciência também. Então um dos mordomos dele se aproximo com uma badeja tampada. Quando abriu a bandeja, haviam várias balas de revólver.

– Você…

– Minha linda, eu não podia arriscar…. – Ele disse, abaixando as mãos. – Eu fiquei tempo demais na cadeia para que meus empregados pudessem olhar tudo e saber tudo. Antes de você chegar, pedi para esvaziarem seu revólver, assim não teríamos problema quando você chegasse aqui. Vamos voltar para a mesa, sim?

– Você esvaziou meu revólver na delegacia? – Perguntei cautelosa.

Ele confirmou com a cabeça que sim, se aproximando. Então, em um minuto de coragem insana, mirei em sua cabeça e atirei. Ele caiu no chão sangrando com parte do rosto desfigurado. O plano dele estava muito bem montado, se não fosse pelo fato de eu ter dois revólveres e colocar na bolsa sempre o que eu andei com ele durante o dia e não o que está no armário. Os mordomos e outros empregados correram para se esconder em outros cômodos, porém a porta principal ainda continuava trancada. Quando mirei com a arma no trinco para abri-la, ouvi uma risada insana, que me gelou o corpo novamente. Quando me virei o horror tomou conta de mim, ele estava ali, de pé, ensanguentado, com o rosto deformado, porém, que pouco a pouco ia voltando ao normal.

Rindo, ele disse:

– Sabe o que é incrível? É que você realmente atirou. Você realmente é uma mulher incrível. Eu estava certo quando te escolhi. – Com um sorriso medonho, ele ia se aproximando, enquanto passava a mão em sua roupa.

– Vo….. Você…. Eu…. Eu te matei…. – Eu fiquei incrédula.

– Não amor, eu não posso morrer. – Ele disse, agora com o rosto quase todo recuperado.

Eu disparei novamente. Agora os tiros não tinham mira certa. Acertei o ombro, a barriga, a perna. Todos abriam furos profundos, fazendo o sangue correr, porém ele não parava e logo era possível ver que a pele havia fechado o ferimento. Ele então, tomou a arma da minha mão, jogando para a longe. Me deu um tapa no rosto que me fez cair no chão, próximo de seu sangue no chão.

– O que você é? O demônio? – Perguntei em desespero. Ele se abaixou para ficar perto do meu rosto. Me segurou e me deu um beijo intenso.

Depois, olhou em meus olhos da mesma forma intensa que me olhava na cadeira e disse em meu ouvido:

 – Não. Mas sou quase. – E então, abriu a boca e cravou seus dentes em meu pescoço.

Senti meu corpo desfalecer e eu perder todas as minhas forças. Achei que eu ia morrer, porém acordei algumas horas depois, em uma cama enorme e ele ao meu lado segurando minha mão. Havia um espelho no teto do quarto e enquanto minha visão turva começava a voltar ao normal, ele me disse, me olhando com seus grandes olhos azuis:

– E então meu amor, como se sente?

Eu não sabia dizer, mas sentia fraca, e quando olhei para cima com mais atenção percebi com um certo horror que não havia reflexo, nem dele e nem meu.

juhliana_lopes 30-12-2016

Família #2

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Diego estava exausto. Mal chegara em casa e ainda teve que ouvir meia hora de discurso do seu pai sobre negócios. De qualquer forma agora estava formado, em breve ganharia seu carro e iria trabalhar no grande escritório de seu pai. Tudo de acordo com o que a família dele já havia planejado. Ele se incomodava com aquilo, mas era muito mais cômodo aproveitar as mordomias do que lutar por um espaço. “Se você não mudar os seus problemas, faça deles sua nova casa”, ela o que ele dizia para si mesmo quando se sentia chateado. Por muito tempo aquilo tinha sido sua rota de fuga, porém quando ouviu seu pai falar uma certa palavra mágica o menino virou o bicho.

– Casamento pai? – Perguntou Diego com a voz alterada.

– Claro. – Respondeu seu pai em um tom seco. – Ou você achou que ia só trabalhar de boa a vida inteira e gastar seu dinheiro com vídeo game? Vai casar sim, construir uma família. É isso que os homens fazem.

– Não pai. Não vou me casar. – Diego disse pensativo. – Você quer que eu trabalhe, que eu vire o homem dos negócios, tudo bem. Mas eu não vou me casar só porque você quer. – Ele disse, talvez enfrentando o pai pela primeira vez.

– Meu filho…. – Respondeu o Pai de Diego sentando-se ao seu lado colocando a mão no seu ombro. – É claro que você não vai se casar porque eu quero. Isso seria realmente um absurdo. – Sua voz era mansa, mas causava arrepios. – Você vai se casar porque você quer. Afinal, não se casar significa que você vai se virar sozinho no mundo. Sem emprego garantido, sem carrinho, sem casinha, sem nada. Vai se virar sozinho, sem qualquer ajuda do seu pai. Você vai se casar por que você não quer perder sua vida de luxo, você não quer perder seus brinquedinhos e porque se você se casar com uma menina jovem, você ainda vai ter o benefício de ter sexo todos os dias! Pensa bem. Não estou te pedindo um neto, lógico que não. Só estou te comunicando que você quer se casar e por isso eu, como seu pai, vou preparar tudo para você.

Diego subiu para o quarto sem falar nada. Se trancou e se abraçou a uma almoçada de ursinho que tinha desde quando era criança. Gostava dela pois se mantinha macia apesar do tempo. A abraçava quando as coisas estavam difíceis. Quando se sentia sozinho. Já fez algumas “homenagens” usando a almofada também. Naquela noite, antes de dormir, fez uma para uma menina loira do olho claro do colégio que provavelmente nunca mais a veria. Ficou com ela uma vez, quando a arrastou para o banheiro, escondido da inspetora. No começo ela não queria, lógico, mas depois de a segurar firme e mostrar a sua capacidade, ela foi ficando mais calma. Queria repetir a dose, pena que arriscou tarde demais.

No dia seguinte, durante o café da manhã, seu pai lhe disse satisfeito:

– Hoje compraremos seu primeiro carro meu filho. Logo em seguida teremos uma reunião com um rapaz importante, então não precisa falar nada. Eu mesmo falo por você.

Na loja de carros, haviam muitos modelos bonitos. Diego resolveu meter o pé no balde e escolheu um Mustang Shelby GT350, que lá fora passava dos 40.000 dólares. Seu pai acertou o pagamento e a entrega para o dia seguinte. Em seguida, foram para um restaurante antigo da cidade, onde se encontraram com um rapaz elegante. Diego não tinha certeza, mas talvez já tinha visto aquele rapaz em outro lugar.

– Senhor Müller. – Disse o rapaz estendendo a mão para seu pai.

– Paiva, vamos tirar o Senhor, tudo bem? – Respondeu o Pai de Diego, cumprimentando o rapaz.

Sentaram-se e então, Müller começou.

– Bem Paiva, como sabe, aquele acordo empresarial que você me apresentou está prestes a ser aceito pela comissão da nossa empresa. Além de muito vantajoso, é a oportunidade de juntar nossas áreas comerciais para aumentar ainda mais o nosso polo na cidade.

– Exatamente, fico muito feliz que a proposta está prestes a ser aprovada, porém para você ter trazido seu filho aqui, acredito que o assunto não ficara restrito somente ao profissional. – Respondeu Paiva.

– Exatamente Paiva. Estive pensando e porque não ajudar as nossas famílias a acabar com essa briga de anos de uma vez? Afinal se vamos trabalhar juntos, porque não juntar nossas famílias? Afinal, até onde eu sei sua filha também acabou de se formar na escola. – Respondeu Müller dando uma piscada.

– Sim, se formou, mas você acredita mesmo que isto dará certo? Afinal, não serão os primeiros…. – Disse Paiva.

– Claro que não serão os primeiros, mas enquanto os outros brigaram com as famílias e tiveram que fugir para tentarem a vida, nós estaremos supervisionando tudo.

– Supervisionando? – Disse Paiva.

– Sim, quero dizer, estaremos do lado deles. Eles podem não se conhecer agora, mas estudaram na mesma escola por anos, e sabe como é essa galera jovem. Basta um olhar que a faísca se acende. Eles namoram, se conhecem por um tempo e logo estarão completamente apaixonados. Diego é um ótimo rapaz, respeitador, casto, criado dentro das leis. Irá respeitar a Aline com todas as honras.

– Alice. – Interrompeu Paiva, com semblante sério.

– Sim, claro, Alice. – Se retratou Müller. – Me perdoe, são tantas coisas na empresa que eu acabo confundindo nomes.

– Eu compreendo. – Respondeu Paiva, ainda sério.

– Como eu ia dizendo, fica a minha sugestão. E caso aceite, fiquei honrado em receber sua família em minha casa para um jantar de compromisso.

Paiva não disse mais nada. Se despediu e retornou ao seu trabalho. Müller, com o filho, foi para casa.

– Bem, ele vai pensar e vai ver que este é o melhor negócio. Caso contrário, precisarei apelar um pouco mais. E você vai gostar da menina, ela é bem bonitinha. – Disse Müller enquanto dirigia.

– Ok, tanto faz. – Respondeu Diego desinteressado.

– Devia melhorar essa cara. Vocês terão empregados para fazer tudo para vocês e como você vai trabalhar o dia inteiro, nem vai precisar ficar aturando ela. Ainda vai poder dar umas escapadas e ela nem vai reclamar. – Müller disse, cutucando o filho com o cotovelo, encorajando-o.

– É, pode ser. – Diego respondeu dando um sorriso de canto que logo sumiu dando lugar a sua cara de paisagem.

Mais tarde, Paiva chegou em casa como se carregasse o mundo nas costas. O acordo era muito importante para evitar que a empresa entrasse no buraco, pois não havia mais o que maquiar para parecer que estava tudo bem. Além disso, Müller com aquela ideia maluca de casamento não ajudava em nada. Glória, sua esposa ao ver sua expressão aflita, tratou logo de pegar um copo de água para o marido. Depois de lhe fazer sentar em uma cadeira, começou a massagear seus ombros.

– O que foi meu amor? – Ela começou.

– Nada demais. Só algumas coisas na empresa. Falei com o Müller. Fui ver o que ele queria.

– E o que aquele insuportável queria com você? – Glória disse alterando levemente a sua voz.

– Queria casar o filho dele com a nossa filha. – Paiva falou de uma vez.

– Como assim? – Glória perguntou admirada.

– Ele acha que casando nossos filhos, vamos conseguir unir as famílias melhor, uma vez que elas já vão se juntar no acordo comercial. Ele acha uma boa ideia porque eles teriam apoio das famílias e blá blá blá. – Explicou meio sem paciência.

– Bem, eu acho essa ideia absur…. – Glória começou até ser interrompida por Alice.

A menina entrara pela cozinha toda suja de barro junto com o cachorro. Parou subitamente na porta, ao ver a mãe, enquanto ela já a fuzilava com o olhar.

– Eu vou.… me lavar lá fora primeiro antes de entrar. Com licença. – Disse Alice saindo da cozinha rapidamente, tentando sujar o chão o mínimo possível.

– Você dizia? – Perguntou Paiva.

– Eu…. – Glória disse retomando o pensamento. – Eu acho essa ideia brilhante!

– Como é que é? – Perguntou Paiva espantado.

– Só um casamento para pôr juízo na cabeça dessa menina. E casa com um daqueles trastes do Müller é a melhor punição que ela teria. Eu apoio, e você também vai apoiar. – Ela respondeu intimando o marido.

– Você só pode estar ficando louca! Casamento arranjado é tão…. Grotesco, tão século passado. Não posso permitir que minha filha se case com alguém que ela mal conhece, ainda mais com essas suas motivações. – Paiva respondeu nervoso, se levantando da cadeira.

– Ela vai se casar sim, quer você queira ou não. E vai ser com o filho do Müller mesmo, afinal ninguém mais vai querer uma menina desastrada que não obedece nem a mãe. E você vai aceitar sim senhor, senão é capaz o Müller desistir do contrato. Você sabe como ele é um rato traiçoeiro. Já é muito ele ter sugerido algo assim. É uma oportunidade que não podemos perder. – Disse Glória em voz alta.

– Você está se ouvindo falar? Tem ao menos dimensão da quantidade de asneiras que você está falando?

– Você vai me agradecer mais tarde. A Alice vai se casar e ponto final. – Finalizou Glória, ainda falando alto.

– Eu vou o que? – Disse Alice mais uma vez entrando tempestivamente pela porta da cozinha, desta vez toda molhada.

juhliana_lopes 15-12-2016

Família #1

01No início havia a família Müller, e por muito tempo eles eram a família mais poderosa daquela região. Fora a quantidade absurda de dinheiro que possuíam, também tinham uma enorme influência sobre todas as autoridades locais. De qualquer modo, não eram ruins. Possuíam a soberba, sim, porém eram generosos até onde o orgulho deles permitia, e por vezes ajudavam os necessitados, seja com empregos ou mesmo uma doação em dinheiro.

Então, chegou a essa mesma cidade a família Paiva. Tão rica quanto a Müller, foi ganhando influência aos poucos, devido a vivência no exterior. Eram cultos, letrados, e possuíam casas e terras em outras cidades e estados. Não era preciso ser um gênio da observação para notar que a família Müller se incomodou com a situação. Logo seus filhos e qualquer membro que fosse novo o suficiente foi mandado para os estudos no exterior. Além disso, os que já trabalhavam, foram mandados para trabalhar em outro estado, e alguns foram designados para comprar terras em outros locais. Havia uma competição, nunca declarada, mas que fez a fortuna da família Müller diminuir um pouco e logo aumentar mais que o dobro. Estavam investindo para que pudessem ter um capital maior que a família “concorrente” e conseguiram.

Passaram-se várias gerações, e o avanço tecnológico chegou à cidade. Aos poucos as famílias foram perdendo o poder que tinham, porém, sua influência ainda era grandiosa sobre os mais antigos, assim como no comércio ou mesmo as ruas da cidade. Tanto a família Müller como a família Paiva ainda estavam instaladas na cidade e o que era uma competição disfarçada, se tornou uma guerra declarada com o tempo, se transformando em uma intriga de famílias para a atualidade. A verdade é que mesmo com o peso do tempo, e das influências de fora que tornaram a cidadezinha pequena em um grande polo industrial, não foi capaz de quebrar uma briga que perdurou por anos. Mesmo os mais novos não se misturavam e até evitavam os mesmos ambientes. Logo o que poderia ser mais clichê do que uma paixão entre membros desta família? E aconteceu. Não uma, mas pelo menos três vezes. O primeiro casal fugiu para outra cidade onde dizem que vivem feliz. O segundo também fugiu, porém não aguentaram a pressão da vida a dois pelos pensamentos diferentes e se separaram, voltando para seus lares, alimentando ainda mais a distância dos nomes. O terceiro casal fugiu e se separou depois, porém nenhum dos dois voltou ao lar. Conheceram outras pessoas, casaram-se novamente e dizem até que viraram bons amigos.

O fato é que a história não é exatamente sobre as duas famílias e sim sobre Alice Paiva. Ali como as suas amigas a chamavam na escola. Estava para se formar, 17 anos, finalmente ia sair do colégio interno. Antiquado? Sim, mas sua mãe era uma pessoa antiquada. Não sabia o que era pior, ficar presa naquele lugar e estudar até sua mente fadigar ou ter que aguentar sua mãe falando sobre bom casamento o tempo todo. Ela era uma menina ainda, queria sair dali, curtir a vida como suas tias e primas. Para que serviria um homem? O pouco que teve com alguns garotos do colégio só mostrara que eles eram infantis. Ela não. Moça letrada, gostava de ler, e queria muito viajar o mundo. Sua mãe jamais aceitaria, é verdade, mas ela daria um jeito. Arrumaria um emprego e fugiria. Falaria com seu avô, “modernoso” como dizia sua mãe. Ele a ajudaria com certeza.

Estava ansiosa, mal se aguentava na última aula. Não via a hora de tirar aquele uniforme quente e deitar no sofá de casa, ouvir sua mãe reclamar e continuar lá como quem não quer nada. Quando chegou no seu quarto, tirou suas roupas e ficou apenas de lingerie, olhando pela janela o dia de sol. Fazia calor, mas alguns pássaros cantavam alegres, voando baixo.

– Acho que vai chover. – Disse Kamile entrando no quarto. – Pretende ir vestida assim para casa? – A amiga falou sentando-se na cama.

– Você podia bater na porta, sabia? – Respondeu Alice virando somente a cabeça. – E se eu pudesse ia sem nada, para fazer minha mãe surtar. – Alice disse suspirando olhando novamente pela janela.

– Infelizmente Ali – disse Kamile se deitando na cama de Alice. – Você não pode sair nua por aí. Os meninos do terceiro adorariam. E se eu fosse você, se vestia logo, daqui a pouco a inspetora vem te buscar.

– Eu sei. Então sai de cima da minha roupa. – Disse Alice puxando um vestido na cama.

Por muito tempo Alice ficou sozinha na escola até conhecer Kamile. Sua amiga loira do olho claro, que por muito tempo foi a única descrição que tinha dela. Depois acrescentou “solitária” a sua descrição mental. Não sabia nada sobre sua família, apenas que não tinham tempo para ela. Nenhuma visita, exceto no Natal. Passava os fins de semana na escola ajudando os funcionários na limpeza da escola. Ela parecia não se importar.

– Quero que você vá me visitar um dia. – Disse Alice ao pegar sua mala.

– Claro, me passa o endereço do hospício que você vai ficar depois. – Kamile respondeu despreocupada depois de abraçar a amiga.

– Você vai ficar bem? – Disse Alice, quase chorando.

– O que você acha? – Respondeu Kamile a segurando pelos ombros com um sorriso no rosto.

Antes que elas pudessem falar mais alguma coisa, a inspetora bateu a porta. Disse que a família Paiva já a esperava e ela devia se apressar. Alice saiu, acenou timidamente para a amiga antes de sumir pela porta. Kamile ficou ali, parada olhando para o vazio.

– É claro que não vou ficar bem. – Kamile disse por fim, sozinha.

Alice desceu as escadas com cautela. Queria muito sair dali, mas será que ela conseguiria fazer tudo o que desejava fora da escola? Será que seria capaz de enfrentar seus pais para viver a vida que sempre sonhou?

Foi surpreendida em seus pensamentos pelo grito de sua mãe. Logo foi afogada por um abraço e pelo cheiro de perfume forte. Em seguida seu pai lhe deu umas tapinhas no ombro. Seus avós também estavam lá e para eles ela mesmo foi correndo para lhes abraçar.

A sentir o calor do abraço deles se sentiu em casa novamente. Quando soltou sua avó, ouviu sua mãe pigarrear e falar alto alguma coisa sobre um absurdo. Alice olhou para o lado e viu uma outra família reunida, abraçando um garoto alto, loiro. Um homem de terno acenou, e seu pai respondeu o aceno, indo em direção dele que também se afastou do grupo para uma conversa particular.

– Não sei porque Philip ainda perde o tempo dele. – Disse a mãe de Alice.

– Filha, comporte-se. Tenha no mínimo um pouco de decoro. – Disse avó de Alice repreendendo-a.

Depois da conversa rápida, foram todos embora. Em casa, Alice tratou de largar as malas no quarto e correu antes que sua mãe a achasse para o jardim. Sua casa era enorme e seu jardim também, como nos filmes. Perto da piscina haviam várias árvores o que deixava o ambiente ainda mais bonito. Havia um lugar que sua mãe não olhava e era lá que ela se escondia desde pequena quando queria ficar sozinha. Porém, ao chegar lá percebeu que seu lugar não era mais tão secreto assim.

– Abner?

– Alice? Você já voltou? Da aqui um abraço! – Respondeu o rapaz.

Abner era um primo que não aparecia muito na casa, apenas nas festas de fim de ano. Devia ser dois anos mais velho que Alice, ela mesmo não se lembrava.

Ficaram os dois conversando por horas, até Alice se cansar de ouvir os gritos da sua mãe chamando seu nome. Lavou as mãos, e foi para o jantar. Sua mãe bem que tentou lhe dar algumas broncas, porém perto do seu avô era quase impossível. Ele não permitia discussões sobre a mesa, e Alice nunca esperava que todos terminassem de comer para sair da mesa, diferente de sua mãe.

Aquela noite ela dormiu cedo. Estava cansada, queria aproveitar a primeira noite sem alarmes escandalosos para acordar. Se tivesse sorte, seu avô não deixaria sua mãe lhe acordar cedo. Alice dormiu logo, e sonhou. Sonhou com a escola, com as professoras, com as provas e com Kamile.

 

juhliana_lopes 15-12-2016

Fácil demais

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Ele estava obcecado. Não sabia de onde ela vinha, nem para onde ia, mas era quase impossível ignorar a presença dela. Era alta, tinha uma bela postura e curvas leves. Devia ser modelo talvez. Roupas sociais, cabelo impecável. Executiva talvez. Bolsa ao lado do corpo e celular quase sempre na mão. Muito ocupada talvez. Uma vez, ele passou por ela e viu uma foto de criança no celular dela, que logo deu lugar para uma tela de aplicativo de mensagens. Deve ser mãe talvez.

Não importava, ele só queria saber o nome dela, se estava bem, alguma coisa. Qualquer coisa. Eles se encontravam sempre no ponto de ônibus, porém ela pegava uma linha e ele outra. A dela sempre vinha primeiro. Ele ficava feito um bobo olhando pela janela, e ela com os olhos na tela, nem lhe dava atenção.

Pensou em abordá-la, falar banalidades, mas poderia ser interpretado mal. Afinal ele só a encontrava tarde da noite quando estava voltando do trabalho. Pensou em mil maneiras de esbarrar com ela para ter uma desculpa de pelo menos tocá-la. Mas não. Melhor esquecer.

Todo homem precisa de uma motivação e com ele não seria diferente. Sua maior fraqueza era o álcool e em um dia qualquer ele, a convite de amigos, bebeu algumas doses que viraram muitas em um aniversário. Voltando para casa, estava alto, atordoado e ao vê-la, seu pensamento ganhou uma direção.

Talvez por coincidência, o ônibus dele veio primeiro naquele mesmo dia, e talvez por acaso ela pegou o mesmo ônibus que ele. Suas mãos suavam. Ele não sabia o que fazer. Sabia que o que ele queria era errado, mas sabia que não tinha condições de conduzir uma conversa normal. Já havia esperado muito e tantos outros faziam, qual seria o problema? Ela nunca seria dele por vias normais.

Percebeu então que ela não morava tão longe e que só pegava o outro ônibus porque ele passava primeiro mesmo, afinal os dois faziam a mesma parte do caminho. Ele, sentado no fundo no ônibus, estralando os dedos e balançando a perna direita, ainda pensava que estava louco e não devia agir assim. Mas ele se arrependeria muito mais se não fizesse nada e talvez demorasse um bom tempo para usar o álcool como desculpa.

Desceu atrás dela e foi seguindo cauteloso, se esgueirando pelas sombras. Mantendo uma distância segura, percebeu que logo ela estaria em casa e ele perderia sua chance. Era preciso um segundo de coragem insana. Um segundo de loucura absurda. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Observou ela caminhando calmamente, com o celular na mão e então foi.

Se aproximou depressa e lhe deu uma chave de braço. Arrastou ela para o primeiro canto escuro que achou. Pressionou ela contra a parede e começou a beijar seu pescoço. Ela tentava em vão resistir. Ele a virou de frente para ele, e rasgou a sua blusa. Arrancando dois ou três botões. Com as mãos, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com força. Mordia seu pescoço e seu colo, e revezava suas mãos entre segurar as mãos dela e apalpar seu corpo. Estava se dando bem afinal, ele pensou. Mas faltava algo. Ele apertava, mordia e lhe deixava marcas. Não ousava olhar no rosto dela, apenas para o seu corpo que era alvo e delicado. Mas ainda faltava algo.

Quando ele começou a passar a mão pelas suas coxas, ela parou de resistir e puxava o corpo dele contra o dela. Ela estava gostando? Olhou finalmente para o rosto dela que estava de olhos fechados e um sorriso de satisfação. Ela estava realmente gostando. Resolveu então lhe dar um beijo na boca que foi correspondido com luxúria. Ele foi ficando cada vez mais animado, e suando com o álcool que reagia em seu corpo, se forçava mais contra o corpo da moça, tentando rasgar as roupas que ainda restavam. A camisa dele já estava no chão amassada, quando o sangue espirrou nela.

Ele ficou um tempo parado, olhando para ela que agora encarava seus olhos profundamente. Olhos castanhos, mais escuros ainda com a noite. Ele não sentiu dor quando a lâmina entrou, mas sentiu a profundidade do corte quando a lâmina saiu. Antes que ele pudesse sair do estado de choque e se manifestar sobre o acontecido, ela enfiou a faca novamente, desta vez no estômago. Agora ele se sentia mais fraco e fica uma quantidade de sangue absurda sair de si mesmo. Ela, agora olhava para ele com um sorriso. O mesmo sorriso de satisfação de quando ele estava tomando seu corpo. Ele caiu no chão e começou a agonizar. Ela, pegou sua bolsa, tirou uma camisa e uma toalha. Limpo o sangue dele que havia sujado a sua barriga e se vestiu. Ele, se debatia no chão, ainda olhando para ela. Seus pensamentos confusos não permitiam que ele pudesse manter uma linha de raciocínio, ele só sabia que estava morrendo.

Ela usava um salto, que não era tão alto, afinal ela mesmo era um pouco mais alta que as outras mulheres. Ela usou esse mesmo salto para enfiar a ponta no ferimento que ela havia aberto no seu estômago. Pisando literalmente sobre ele, observava com asco, enquanto ele gemia de dor, sem poder reagir, fraco com a perda de sangue.

Tirando o pé de cima dele, ela caminhou até a rua, pegou um cigarro e começou a fumar, observando a rua vazia. Maldita rua vazia. Quando estava quase terminando, apagou o cigarro na testa dele, e com a faca, abriu um corte profundo na sua garganta, sem acertar a jugular. Como um açougueiro, ela só desceu com a faca no pescoço do pobre homem e deixou a faca lá, fincada. Ele não se mexeu mais. Ela pegou a camisa dele com cuidado para não se sujar, e cobriu o seu rosto. Se levantou com leveza e seguiu andando até um ponto de ônibus próximo de uma avenida. Sozinha, pegou outro cigarro e o celular enquanto observava os carros. “Fácil demais”, ela pensou.

juhliana_lopes 10-10-2016

Noite fria

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Eu vagava só pelas noites,

Uma andarilha pelas ruas escuras.

Me escondia nas sombras,

Com medo de tudo.

A lua era minha única amiga,

Me guiando com sua luz.

Porém as vezes, ela me faltava

Nas noites de lua nova,

Ou quando as nuvens a cobriam.

Novamente, eu ficava só

E com medo.

Um dia, você apareceu para me aquecer.

Quem diria, tão frio e tão quente.

Seu abraço, era meu aconchego

E seu sorriso, minha luz.

Assim como a lua, as vezes você me falta,

E eu vago sozinha, a te procurar.

Descobri depois que estamos ligados,

Pois quando se sente triste,

Meu coração aperta.

Quando se sente em dúvida,

Meu coração me alerta.

Quando está feliz,

Meu coração faz festa!

Te procuro nesta noite fria,

Mas não procuro seu calor.

Te procuro nesta noite fria,

Para lhe dar o meu amor.

juhliana_lopes 16-09-2016