Desenho

O dia havia amanhecido, mas não havia o brilho do sol. Chovia forte, e o céu ainda estava escuro por contas das nuvens. Eu levantei, com o corpo cansado e um pouco de dor nos ombros. Fui até a cozinha e peguei um copo de água e voltei me arrastando pesadamente até o quarto. Abri um pouco a janela para que o ar pudesse circular e sentei na cama, acendendo um cigarro. Fazia muito tempo que eu não fumava, mas aquele era um momento especial. O céu se clareou de repente com um raio forte, e logo em seguida ouvi o estrondo de um trovão. Me virei para te olhar a tempo de ver você se mexendo preguiçosamente na cama, incomodada com o barulho. Não havia sido o suficiente para te acordar. Nada era naquele momento. Fiquei então um tempo observando a fumaça que subia do meu cigarro, até me dar conta de que no criado mudo havia um desenho.

Era tão estranho como as coisas haviam chegado naquele ponto. Há um ano eu era um mero farejador. Um caçador. Um animal. Um nada perante os homens que tinham posses. Diante deles, eu não passava de um objeto, de mais um empregado que deveria agradecer pela oportunidade de trabalho. Achavam que eu deveria me orgulhar por cumprir suas ordens de forma tão obediente. Não me orgulhava. Como animal, matei muitos. Alguns mereciam a morte, outros não, mas em momento nenhum eu deveria ter tido o direito de tirar suas vidas. Aos que mereciam, não era necessária intervenção, pois a estes a morte sempre os encontra, mais cedo ou mais tarde. Aos que morreram sem motivo, eu tenho apenas o meu lamento e os seus gritos de horror em minhas lembranças.

Eu já estava tão acostumado a viver pelo mato me rastejando que não olhava mais para o alto. Não olhava mais ao redor com a mesma sensibilidade de uma pessoa comum. Eu podia ter certeza de que já havia vendido a minha alma, e para mim não haviam mais chances, na verdade, ao lembrar de meu passado, muitas vezes ainda acredito nisso. Em todo caso, foi quando comecei mais uma de minhas caçadas que eu me rendi. Eu não era só um caçador, eu também era um alvo, e ao encarar os seus olhos, tão escuros e tão profundos, me vi desarmado, fraco e sem reação.

Você. Linda, com o cabelo no rosto, e os braços estendidos enquanto apontava o revólver para mim. Não havia nenhum sinal de medo. Suas mãos estavam firmes, e sua respiração era tão lenta quanto a de um monge. Concentração. Para minha sorte, seus olhos encontraram os meus, o que me garantiu um tempo maior para que eu pudesse admirá-la. A cicatriz no ombro está se fechando completamente, mas foi ela que me deu você. Ao me transformar em minha forma real, coisa que não fazia há tanto tempo, seus olhos se arregalaram, revelando um susto que ativou seus membros efetuando o disparo. Ao ver que o tiro não havia feito estrago, você hesitou. Era a minha deixa. Talvez naquele momento eu ainda estivesse no piloto automático, afinal quando avancei ainda tinha em mente o meu trabalho, mas tudo estava tão confuso.

Seus olhos me perturbavam de tal maneira que eu precisava tê-los mais perto de mim. Você estava no chão, meu corpo sobre o seu corpo. Seus braços presos pelos meus. Seus olhos em mim e uma respiração ofegante, mas não era medo. Não tinha cheiro de medo. Ao chegar perto de seu pescoço, pude sentir o seu perfume doce, aliado ao seu cheiro natural. Não era humana, mas também não era um monstro como eu. Era melhor. Seu coração acelerado se encontrava com o meu. Agora eu estava perdido e já sabia que não ganharia o pagamento daquele dia, pois ele era o que menos importava naquele momento.

Outro trovão cortou meus pensamentos e então ouvi um gemido. Era você na cama, se mexendo novamente me procurando. Estendi a mão para tocar seu braço fazendo um carinho. Logo seus olhos, levemente abertos me fitavam com a mesma ternura de sempre. Subitamente, você vira de costas e volta a dormir. O cigarro já estava no fim, então o abandonei no cinzeiro, peguei o desenho e me deitei na cama o observando. Tão delicada, tão doce. Mesmo em meio a crueldade do mundo, você ainda guardava o que havia de melhor. Mantinha a sete chaves, mas naquele dia eu arrebentei as fechaduras. Sua doçura não tinha nada a ver com fraqueza. A prova veio no mesmo dia, quando me pressionou pelo pescoço contra uma árvore. Poderia muito bem ser um brutamontes qualquer de um bar sujo, mas era você. A brutalidade não a assustava, mas o amor sim. Um amor estranho, de repente, com tal intensidade que era capaz de tornar monstros renegados em doces amantes.

Quando não estava de serviço, assumia sua forma real. Doce, terna e cruel. Sua visão sobre mim era doce. Seu desenho sobre mim era doce. Seus cuidados para comigo, antes e depois dos trabalhos eram ternos. Sua preocupação era terna. Quando eu fazia algo que não lhe agradava, ou quando algo dava errado no trabalho sua crueldade aflorava. E mesmo quando cruel era justa. A crueldade não era só maldade, mas também malícia e é com ela que você me tem em suas mãos.

À noite, quando nossos olhos se encontram me sinto completo, e sei que não sou só animal ou só homem. Quando nossa respiração sincroniza, sinto que você não é só humana, mas sei que não é só sobrenatural. Quando nos unimos, sei que não somos um só, somos nós. Pelos seus carinhos, sinto que você não toca somente a mim, mas também a minha alma. O desenho em minha mão, o desenho de um lobo, não se trata apenas de mim, mas de minha essência. E eu sei que você não é só minha mulher, mas o meu maior tesouro. Minha salvação.

juhliana_lopes 18-10-2017

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