Velho

Esses dias, dias comuns desses que não acontecem nada de interessante, nem mesmo vai acontecer. Aqueles dias que até os pássaros parecem entediados, e voam preguiçosamente de um lado para o outro em busca de alguma migalha para encher o papo. Aqueles dias onde o mundo parece amanhecer cansado e ao final da tarde, com um crepúsculo rose, leva consigo um desanimo típico dos que não aguentam mais suas vidas. Foi num desses dias que ao me ocorrer alguns pensamentos diversos, me dei conta de que talvez, eu possa ter nascido com uma idade errada.

A ideia parece completamente insana, e provavelmente é, mas o fato é que me sinto como se tivesse pelo menos 30 anos a mais que a idade que marcam os meus documentos. Teria eu já nascido velho? Seria uma ótima teoria para explicar todo o meu apreço pela solidão ou mesmo para justificar meus momentos rabugentos. Com certeza seria uma ótima ideia. Por diversas vezes, me sinto completamente cansado. Cansado de acordar cedo, cansado dos cigarros que levam os poucos trocados que me restam, cansado das pessoas…. É quando paro para lembrar quando foi a última vez que estive revigorado, percebo que não há momento algum que eu estivesse realmente disposto. Dado a isso, cheguei à conclusão torpe de já ter nascido velho. Além do cansaço típico das idades avançadas, eu também tenho uma enorme falta de paciência. Discussões tolas de amor ou mesmo joguinhos sentimentais não surtem mais nenhum efeito, assim como provocações sutis e flertes descarados. Nada disso é capaz de despertar nada em mim. Nem mesmo uma faísca de emoção. Um velho e mal-amado é o que eu sou, e eu mal acabei de completar três dezenas.

As pessoas e suas rotinas. Todos os dias, é praticamente impossível não esbarrar em ninguém, e claro não existem gentilezas. Nenhum pedido de desculpas ou nem mesmo um pedido de licença para evitar os atritos. Não há tempo para isso. Sempre tão apressadas, tão donas de suas horas. Correm de um lado para o outro, assim como os pássaros que voam. Arrastam-se preguiçosamente de um lado para o outro atrás de migalhas monetárias. Chega a ter um tom poético, mas no fim das contas, não passam de rotinas repetitivas e entediantes. Eu, claro, faço parte desse grupo, quem não faz hoje em dia? É quase como um clube secreto, onde todos os que estão fora, anseiam por uma vida regrada, carregada de horários e agendas, com boas remunerações e pequenas reuniões pós expediente as sextas feiras, mas quando finalmente entram não veem a hora dos anos passarem depressa, para então “aproveitarem”, com a idade pesando em seus ombros, o que restou de suas vidas com as migalhas da aposentadoria.

Eu, estou definitivamente cansado. Cansado dessas rotinas, cansado dessas pessoas. Cansado das regras e do cotidiano. Queria eu, um dia por delírio, viver em um lugar onde não existisse ninguém, ou qualquer preocupação. Utópico, mas um sonho real e intenso entre meus devaneios que me atormentam antes de dormir.

Lembro quando estava eu em um cinema com uma garota. Pamela era o seu nome, ou seria Carol? O nome em si não é relevante, e sim o filme. Um clichê completo é verdade, mas valia os 14,00 reais do ingresso. O enredo nos trazia um rapaz, bem-sucedido, com roupas finas e empresa própria. Daqueles que enriquecem antes dos 30, com alguma formula secreta da riqueza. Ele tinha um carro caro, e tinha estrutura suficiente para ter carros caros, mas era preciso manter uma veia humilde no rapaz. Algo para enganar o público e aproxima-lo dos espectadores, como se fosse um leve atestado de “humanidade”, como se isso ainda servisse de alguma coisa hoje em dia. Na trama, o belo rapaz com sua bela vida, em seu belo momento, ia viajar para mais uma excelente reunião de negócios – coisa que os filmes fazem parecer tão prazerosas quando na verdade se trata apenas de pessoas entediadas, criando mais tédio e aborrecimento – quando de repente, toma um tapa bem servido da vida, e vai parar em uma ilha deserta depois de ser o único sobrevivente de um acidente aéreo. Não me lembro exatamente como acontecia este acidente, eu estava distraído demais nessa parte. O fato é que ao se dar conta de sua atual situação, ele se desesperava completamente, e então toda a sua imagem de homem corajoso da cidade é desconstruída, revelando que em termos de comparação, ele não passava de um menino frágil e remelento esquecido no shopping.  Lógico, que logo quando volta a sua sanidade, ele é tomado por uma incrível inteligência ancestral e como se automaticamente vários genes antigos se ativassem, ele rapidamente cria várias formas de sobrevivência, com pedras, galhos e pedaços de sua roupa rasgada.

A maioria das pessoas cairia no mesmo desespero do rapaz, mas diferente do herói urbano, não sobreviveriam por muito tempo no local. Por isso, muitas não querem nem pensar na hipótese de que algo assim pudesse acontecer a elas. Quem dera eu fosse parar em uma ilha deserta. Seria uma oportunidade perfeita de me livrar das pessoas, das rotinas, das roupas…. Abrir a mente e aceitar a herança dos homens das cavernas, há muito perdida com o avanço das eras, vivendo apenas a favor e de favor da natureza. Seria magnifico não me preocupar com salários, com metas nem mesmo com telefonemas. Claro que as preocupações não sumiriam, apenas mudariam de forma. Invés de me preocupar em acordar cedo para não perder o ônibus, me preocuparia em acordar cedo para aproveitar o sol da manhã e caçar algo para comer, e claro, dormir cedo para não ser lanche dos predadores. No fim das contas ainda haveria uma rotina. Há coisas que depois de adquiridas, não conseguimos nos livrar de jeito nenhum.

O que me resta afinal é esperar por mais algumas dezenas, até que me aceitem em algum asilo. Estou realmente cansado de tudo, e não seria nada mal ter quem cuidasse de mim. É praticamente como se preso. Comida de graça com gosto de mingau, dormir ao lado de pessoas que roncam alto e falam dormindo, porém com um leve conforto a mais. Realmente não seria nada mal. Não mesmo. Eu estou cansado. Cansado do mundo, cansado das pessoas, das rotinas e cansado de mim.

juhliana_lopes 14-08-2017

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