Delírio de Carnaval

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Dia cinza, algumas gotas caem levemente sobre minha pele e eu só lembro de que o Carnaval está chegando. A população vai pra rua por uns dias e esquecem de todos seus deveres e problemas. Foi em um Carnaval onde eu cruzei com aquele olhar, depois de muitas doses de alguma coisa alcoólica, não me recordo do que era, talvez eu não tenha vivido nada antes daquele olhar, não consigo me recordar como fui parar na rua, nem porque estava de fantasia, mas aquele olhar profundo lendo minha mente fez com que nada importasse.

Me lembro da rua estar cheia, pessoas se esbarrando, derrubando bebida uns nos outros, perfumando o ambiente com um cheiro quase insuportável de cachaça e urina. Eu já estava de saco cheio dos esbarrões e procurava um refúgio, porém, aquele olhar me fez perder o juízo. Mais do que ler a minha mente, era como se por um segundo, aqueles olhos tivessem invadido todo o meu passado, cada passo, cada história, cada erro, me julgando e condenando quando fosse necessário.

Me perdi dentro de mim, e então, com cinco minutos de pura insanidade, passei a procurar aqueles olhos novamente. Era mais forte que eu. Minha mente delirava, imaginando o que eu poderia fazer quando enfim chegasse ao meu objetivo. O toque da pele, seus lábios roçando nos meus, o arrepio. Meu corpo queimava ao imaginar aqueles olhos me encarando de perto, me deixando sem ar. Mais do que a intimidade, minha mente ansiava por descobrir todos os segredos daquele olhar.

Não me incomodava mais o cheiro da rua, os gritos aleatórios em meu ouvido, os abraços indesejados. Eu apenas abria espaço entre aquele mar de gente, para seguir aquele olhar, que ora me ignorava e ora invadia minh’alma e perturbava meu juízo novamente, brincando comigo como um felino com a sua presa.

Foi quando aqueles olhos se foram. Como uma criança perdida em um shopping, ainda perambulei pelas ruas e até me arrisquei em alguns becos, porém, nada encontrei. Senti como se houvesse um buraco em meu peito, um vazio que fazia doer o estômago. Podia ser a bebida que já estivesse fazendo efeito, mas também podia ser dor de amor, principalmente um amor que nem mesmo houve chance de talvez ser correspondido.

Então, novamente em um dia cinza e uma leve garoa daquelas fininhas que deixam a gente doente, quatro anos depois, em um carnaval, enquanto eu tentava desviar das ruas cheias com meu carro, aqueles olhos passaram na minha frente. Tive que frear bruscamente para lhe observar com cautela. Eram olhos assustados, claros e que me reconheceram no segundo seguinte. Segui seu caminho com meus olhos e estacionei na esquina seguinte. O jogo havia começado novamente e aquele olhar não havia ido longe. Com a rua um pouco mais vazia, pude sentir seu perfume forte, que me inebriava, fazendo-me me perder em delírio. Acendi um cigarro. Se aqueles olhos iam brincar com meu coração novamente, eu precisava me preparar, afinal desta vez eu não estava sob efeito de álcool.

Seus passos furtivos eram rápidos, e agora eu compreendia porque havia perdido seu rastro aquele dia. Mesmo depois de tanto tempo, ainda eram os mesmos olhos, o mesmo olhar inquisidor capaz de julgar todos os meus pecados. Passei novamente a deseja-los para mim. Ora pareciam estar ao alcance de um passo e ora se afastavam me observando de longe. Eu precisava daquele olhar todos os dias. Eu queria aqueles olhos direcionados para mim e somente a mim.

Finalmente, por um momento eu alcancei. Lhe toquei o braço enquanto atravessava a rua, procurando multidões para se esconder. Olhos verdes, travessos e levemente assustados. Olhos que tão de perto possuíam a minha alma sem qualquer esforço. Olhos que piscavam lentamente, fazendo meus batimentos entrarem num descompasso preocupante. Pude observar melhor seu rosto. Lábios delicados e perfeitamente desenhados como uma pintura. Lábios que se mexeram para dizer alguma coisa, porém minha mente estava completamente enfeitiçada por aqueles olhos que não me permitiram ouvir, até que eu senti a pancada.

Um atropelamento, nada demais. Uma perna quebrada? É talvez tenha algo a mais. Me lembro da gritaria, da multidão que se formou e de mim perdendo aqueles olhos na escuridão, enquanto eu desmaiava.

Hoje, durante a noite, enquanto caminhava pelo lugar onde vi aquele olhar pela última vez, pensei ter visto novamente, mas não passou de impressão. Quem sabe daqui a três anos, em um novo carnaval eu possa lhe encontrar novamente e sanar esse vazio que se formou em minha alma e em minha mente. Quem sabe eu possa descobrir enfim os segredos daquele demônio dos olhos verdes.

Aleks Durden e juhliana_lopes 07-02-2017

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Desejo

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A brisa leve bagunça meus cabelos enquanto te espero.

Meus pensamentos voam lembrando de nossos momentos.

Seus olhos me intimando, que observam tudo,

Que me deixam sem graça sem dizer qualquer palavra.

Seus braços que me tomam para si, de forma tão acolhedora,

Seu toque suave que me faz arrepiar,

Suas mãos quentes que fazem minha pele ferver.

Enquanto te espero, consigo sentir o gosto do seu beijo,

E sou capaz de ouvir suas palavras sussurradas em meu ouvido.

Quando estou com você, me sinto tão bem,

É como se o tempo não precisasse passar.

Cada momento ruim parece sem importância,

E cada segundo parece muito, longe de você.

Me sinto nas nuvens ao seu lado,

Uma liberdade que há muito eu não podia sentir.

Eu poderia pedir para me conter, para me controlar,

Mas ao seu lado, eu não penso em limites.

Algo em você faz eu me sentir leve,

Pronta para arriscar, pronta para seguir.

Algo em você me faz querer coisas que eu nunca pensei.

O cheiro do seu perfume, a forma como você sorri,

Tudo faz sentido em você.

A brisa leve bagunça meus cabelos enquanto eu te espero,

E seu olhar perturba a minha mente,

Pois é você que eu desejo,

É só você que eu quero.

juhliana_lopes 27-02-2017

Um amigo de um amigo meu #1

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Em minhas caminhadas, já me deparei com muitos casos, em um deles, um amigo, de um amigo meu, tinha uma mania estranha. Ele adorava dar presentes. Se você era amigo dele (assim como o meu amigo), podia ter a certeza que logo ganharia um boneco, uma toalha, um livro… sabe quando você compartilha uma imagem de algum objeto muito legal com “eu quero”? Pois bem, se fizesse isso, no outro dia ele aparecia com aquele objeto embrulhado para você e um “espero que goste, É SÓ UMA LEMBRANCINHA”.

Eu na verdade, não tenho preconceito nenhum com quem gosta de presentear os outros, mas o estranho era porque as gratificações aconteciam sem datas, sem motivos, apenas pelo prazer de presentear alguém. Um fetiche? Talvez, o que me surpreendia nesta história do amigo do meu amigo, era o fato de onde ele arrumava dinheiro para comprar tanta coisa?

Se você parar para pensar, uma agenda, um doce, um porta-retratos… sei lá, esses tipos de coisas são baratas, mas de repente o cara aparece com um boneco de edição limitada, livros e mais livros, até mesmo os raros, peças de cristal… Ele rouba bancos? Eu me perguntava isso e meu amigo também começou a ficar curioso e resolveu investigar.

A verdade é que você nunca deve investigar sobre “de onde vem” certas coisas. É como aquela história sobre restaurantes, se você for olhar a cozinha e o processo do prato, você nunca mais come lá. Se você não vê não te afeta, e isto pode ser considerado também em relação a pessoas que gostam de dar presentes.

Já vi muitas pessoas com estranhas manias, e não me importa os motivos, pelo menos não depois deste caso em especial. Antes que você comece a pensar mil coisas, vamos excluindo algumas… Ele não rouba bancos. Não assalta carros. Não pega a aposentadoria da avó doente. Não se finge de mendigo na rua. Não ganhou na loteria. Não faz programa. Não vende drogas. Não é empresário anônimo de uma marca famosa. Apesar de ser um médico formado, prefere trabalhar como diagramador numa editora.

Meu amigo bem que tentou deixar para lá, mas outras pessoas começaram a ficar curiosas e outra começaram a se aproveitar a boa vontade do “pobre” coitado. Sozinho? Um pouco, ele preferia se isolar na maior parte do tempo, só fazia contato mesmo quando ia presentear seus amigos e em festas. Meu amigo foi em frente e depois de um tempo sumiu.

Claro que todos ficaram preocupados com seu sumiço, inclusive o cara dos presentes. Alguns familiares pensaram em sequestro e outros que havia surtado. Lembrei de nossa última conversa e confesso que senti um leve arrepio na espinha sobre o que poderia ter acontecido mas achei melhor esperar do que especular. Passaram-se alguns meses até que a família não falou mais sobre o desaparecimento. Alguns amigos também receberam notícias e então foi a minha vez.

Um retiro. Se isolou, achou que estava muito sobrecarregado de serviço e resolveu descansar por um tempo. Pediu desculpas por não ter avisado antes, mas ele precisava desse tempo. Não sabia ainda quanto tempo ia ficar e me fez jurar que não contaria para ninguém sobre o lugar que estava, que deixasse que ele fosse avisando todos, um a um, calmamente, e que nunca comentasse nada sobre com o amigo dele.

É claro que eu devia ter ficado quieto, mas é claro que eu também fiquei curioso. Não devia ter perguntado, muito menos insistido, mas eu não pude resistir, queria saber o porquê apesar de já desconfiar. Ele falou mais baixo, começou a respirar mais forte, quando parecia que ia contar mudava de assunto. Resolvi ir direto ao ponto e perguntei se ele enfim descobriu a origem do dinheiro do amigo “papai Noel”, se era por isso que ele havia se isolado. Ele respirou fundo e disse sim, quando tomou novo fôlego para começar a contar, não disse mais que “ele ven…” e a ligação caiu.

Fiquei mais meses sem resposta. O pensamento me atormentava a noite, mas eu conseguia o ignorar perfeitamente durante o dia. As pessoas levavam suas vidas normalmente e outras continuavam a ganhar presentes. Numa noite qualquer, o amigo veio até mim com uma caixinha, dizendo que não me conhecia direito mas achava que eu iria gostar. Agradeci a gentileza mas recusei educadamente. Ele ficou um pouco chateado, mas então mostrei-lhe uma amiga em comum que ficaria mais feliz já que ela estava passando por um momento de luto na família, prontamente seu sorriso voltou e ele pôde voltar com seu prazer.

Meu amigo apareceu, um pouco mais assustado, cauteloso, sem mencionar muito seu retiro e aos poucos voltou a sua vida normal. Demorou um tempo para que ele voltasse a falar como antes comigo, pois por algum motivo ele evitava todos os seus confidentes.

 

Eis o que aconteceu:

Meu amigo descobriu o segredo, e achou tudo tão surpreendente que resolveu se isolar para proteger seus amigos e familiares e se proteger também. Quando começou a se comunicar e avisar, achou que estava sendo “invisível”, e quando finalmente ia confiar o segredo para alguém em seu momento, o dono do segredo apareceu.

Cortou o fio do telefone com uma tesoura enorme e o olhava fixamente. Largou a tesoura no chão, se agachou e perguntou: “Por que você sumiu?”. Qualquer outra pessoa surtaria e sairia correndo pedindo ajuda, mas depois do que ele ficou sabendo, aquilo era apenas uma consequência.

“Fiquei preocupado com você, toda a sua família, amigos… O que foi? Está passando por algum problema? Alguma dificuldade financeira? Eu posso te ajudar…”

É claro que ele não queria o dinheiro e nem os presentes dele. Queria paz. Mesmo com medo, como a situação já estava estranha o bastante, despejou tudo que sabia sobre ele. Acusou, mas de forma desesperada de quem está com medo e a acusação é a última coisa que resta antes do último suspiro. Só que ele não veio.

O amigo na verdade deu algumas risadas e lhe explicou a situação. Apesar de insano, ele parecia bem à vontade com aquilo. Lhe deu detalhes, tabelas, todo tipo de informação. O medo de meu amigo ficou preso na garganta. Ele parecia extremamente inofensivo, mas por que ele lhe contaria tudo se não houvesse outra intenção? E estava certo, só que do jeito errado. No fim da sua palestra, ele lhe deu um presente e sussurrou em seu ouvido: “Pode voltar, não precisa ter medo, você tem sorte, você é do tipo barato.”

A fonte do seu dinheiro era algo simples, um bom negócio na verdade. Ele era um excelente vendedor. No mercado negro. De órgãos.

Ele ia para outras cidades normalmente a noite, procurava pessoas “saudáveis”, as dopava e levava em seu carro. Pessoas saudáveis são mais caras que as que fumam ou bebem, vez ou outra pegava um bêbado na rua, mas sempre lucrava mais com crianças e pessoas na faixa dos 25 a 35 anos. Em casa, ele matava, dissecava, recolhia e armazenava cuidadosamente tudo que pudesse ser aproveitado. Numa tacada só (nesse caso, num corpo), ele voltava milionário de suas vendas, com a soma de todas as partes. Sempre compravam dele, pois, a qualidade do produto era excelente, e como todo “clube”, nunca ninguém perguntava de onde vinha pois, não era interessante.

Meu amigo, ainda tem a cicatriz e um rim faltando. Ele me garantiu que não lhe faz falta, e já se acostumou com a situação e acha tudo normal, porém, ainda fica nervoso quando ouve barulhos a noite e tem medo de atender o telefone.

A lição? Cabe a você descobrir, eu só digo que as aparências enganam e que se algo não te afeta, apenas aceite, pode ser perigoso descobrir de onde vem, ou não aceite e fique o mais em paz que conseguir, nunca se sabe se um dia todos esses mimos serão cobrados…

E de repente, nunca foi tão bom ser um fumante bêbado em toda a minha vida…

juhliana_lopes

Medo do Sol Nascente

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Há momentos em que caímos em questionamentos. O sentido da vida, que roupa usarei hoje, rosa ou azul, quente ou frio, levantar ou dormir mais cinco minutos…. A verdade é que seguimos sempre através destes questionamentos, como se eles fossem parte essencial para nossa existência. Pior que isso, só as respostas. Quantos não passaram a vida inteira procurando respostas a esses questionamentos e quando as tiveram, nem se importaram. Se você perguntar para uma pessoa a resolução de um problema que ela chorava há alguns anos, hoje em dia ela nem se lembra mais. As respostas se tornam inúteis, uma vez que o ser humano se acostumou a questionar. A busca, a “aventura”, as pequenas descobertas são mais importantes que a resposta em si. Uma conquista só tem graça durante o seu desenvolvimento, pois uma vez conquistada, uma vez adquirida, o resultado, o glamour, o poder se tornam fáceis. Aquilo que se buscava, aquilo que era apenas um objeto de desejo, se tornou algo ao alcance da mão. Após a primeira vez, aquilo perde seu brilho.

Por isso as pessoas sempre estão buscando alguma coisa e pouco se importando para o que já possuem. Mais do que isso, elas aprenderam a valorizar apenas aquilo que não possuem. Louco, não é? Do alto deste prédio, eu observo o dia a dia de muitas pessoas. Como formigas focadas apenas em um objetivo, as pessoas seguem apressadas, tropeçando umas nas outras. Um ou outro fica para trás, normalmente aqueles que ainda procuram aproveitar os poucos momentos da vida, mas ainda assim, todos sabemos que isso não dura para sempre.

De geração em geração, há sempre alguma coisa que está em alta e outra que é super desvalorizada, chegando ao ponto de ser objeto de vergonha. A ostentação do que está na moda, os holofotes, o Ser querido por alguém é o que faz você ser alguém na vida. Mas afinal, o que é ser alguém? É realmente preciso ser alguém na Vida, ou você pode passar por ela como um completo desconhecido e mesmo assim ser feliz?

Daqui de cima, mais do que as vidas tediosas, eu enxergo também os medos de cada um. Todos eles. E uma coisa eu posso afirmar, a maioria possui o mesmo grande Medo. Entre os mais comuns, há o medo de não ter tempo (que ironia… Ninguém tem), medo de escuro, mas não a falta de luz e sim a falta do conhecimento necessário para se alcançar a luz…. O medo de não ser capaz de enxergar os próprios caminhos. Mas, entre tantos medos que vivem travando as pessoas de conseguirem aquilo que querem, tornando assim tudo tão pacato, existe um que todos confundem, e um dia destes, enquanto eu estava entediada demais para observar as coisas de cima, e resolvi caminhar um pouco, acabei esclarecendo para um dos seres.

Era um dia nublado com temperatura amena, levemente frio. Eu caminhava descalça por ruas aleatórias, com minhas vestes esfarrapadas, já encardidas pelo tempo. É incrível como as pessoas ficam tão apressadas que se quer reparam quem anda a sua volta. Foi durante a caminhada próximo a uma ponte que eu notei, entre tantos passos apressados, um que parou subitamente. Era um rapaz alto e magro, com belas vestes sociais. Parecia muito angustiado, e tremia, enquanto olhava para o viaduto abaixo dele com certo delírio. Ele estava tão atordoado que não me viu chegando – ninguém vê. Então, enquanto o rapaz ainda namorava o asfalto abaixo dele, e vários carros passavam em alta velocidade, lhe fiz uma saudação, com um simples bom dia. Ele não ouviu, então repeti, porém sem toca-lo, apenas falando mais alto.

Como quem vê um fantasma, ele deu um pulo e eu pude sentir seu coração disparar. Um pouco ofegante, ele me olhou com calma dá cabeça aos pés e respondeu alguma coisa gaguejando, que eu não pude entender muito bem.

– Dia difícil? – Eu perguntei com um sorriso no rosto.

Um pouco mais calmo, mas ainda desconfiado, ele respondeu:

– Acho que sim…

– E olha que são só oito horas da manhã. – Respondi, mas desta vez sem encara-lo, olhando para o horizonte.

– Pois é… E você… Saiu de onde? – Ele me perguntou ainda desconfiado.

– Oh, eu? Não se preocupe comigo. Eu vivo vagando por aí, observando tudo. Nada demais.  – Eu respondi como se estivesse desinteressada.

Ele resolveu ignorar minha origem, ou mesmo o motivo para que eu estivesse ali. Com o olhar perdido para frente, ele fez o primeiro desabafo.

– As coisas andam tão difíceis. – Ele suspirou. – É horrível para mim passar por aqui todos os dias e perceber que eu não tenho coragem.

Olhei para ele, que estava olhando para os carros abaixo dele.

– Coragem é algo muito subjetivo, se você não souber do que realmente você tem medo. – Respondi calmamente.

– Filosofia de rua? – Ele perguntou em tom de riso.

– Quase isso. – Respondi, dando um sorriso de canto.

Então, depois de olhar para mim de cima abaixo e dar mais um suspiro, ele fez o segundo desabafo.

– Eu nem sei mais porque continuo aqui. Nada me prende sabe? Meu trabalho está a cada dia mais degradante, e o estresse é tão grande que já tem afetado minha vida pessoal. Aliás, vida pessoal é um elogio vindo da minha parte, pois não dá para chamar de Vida chegar em casa e deitar na cama com a roupa do corpo.

– Realmente. – Eu respondi enquanto observava os carros. Tão rápidos e tão vazios ao mesmo tempo. Sendo guiados por pessoas tão confusas e atordoadas como este rapaz ao meu lado.

Ele se calou. Senti sua boca seca, buscando um pouco de saliva para molhar os lábios. Antes que eu tentasse puxar algum assunto aleatório, ele desabafou pela última vez.

– Eu queria tanto acabar com tudo. Queria tanto me jogar daqui sem qualquer arrependimento, ou com todos eles, mas ainda assim me jogar sem pensar no que poderia acontecer depois…. Mas eu não consigo. Acho que eu tenho medo de morrer, essa que é a verdade. Sou tão fracassado que nem me matar eu consigo, e vou ser obrigado a ter essa vida de merda até a minha velhice, ou virar um morador de rua que nem você…. Sou realmente um medroso, uma vergonha.

A falta de umidade na boca de repente foi compensada com água nos olhos que rolaram pelo rosto. Eu podia sentir o toque quente da lágrima descendo pela bochecha esquerda, que rapidamente sumiu com um toque brusco de sua mão para apaga-la. Era mais do que óbvio que o medo dele não era e nunca ia ser da morte.

– Sabe… – Eu comecei – Você não tem medo da morte. São poucas as pessoas que tem.

Ele me olhou com os olhos marejados e uma expressão confusa.

– Você levanta todos os dias sem a menor vontade de levantar. Caminha até o trabalho, mesmo sem querer e quando chega lá, ainda consegue fazer um trabalho ótimo. Claro que isso não o satisfaz, porque você não admite para você mesmo que mesmo em meio a tantos momentos ruins, uma delas está de fato dando certo, e então, você reage desta forma.

Ele não se atreveu a dizer nada, parecia muito surpreso para isso.

– Olha…. – Continuei – Não é porque sua mãe te abandonou durante a infância que você deveria desistir de tudo entende? Claro que ela não foi correta com você, afinal, você era só uma criança, e é muito difícil entender qualquer coisa grave que aconteça durante essa fase. Todos temos pecados, e o dela foi querer viver. Você não pode ter medo de viver só porque ela te deixou para isso. Seu pai fez de tudo por você, e a sua avó também. A vida é mais do que os desejos pessoais, é a busca por novos objetivos quando os primeiros são frustrados.

Sua expressão mudou. Um misto de raiva e incredulidade. Além de claro, a típica não aceitação. Senti seu suor escorrer pela testa do lado direito, enquanto seus dedos se retraiam. Ele me olhou nos olhos com os punhos fechados e sem respirar direito, falou:

– Quem você acha que é para achar que sabe de alguma coisa sobre mim? Você não me conhece, como pode falar qualquer coisa sobre a minha infância ou sobre o meu trabalho? Você acha que só porque uma pessoa está angustiada ela está ferrada na vida igual você? Acha mesmo que todo mundo tem uma vida de merda igual a sua? Acha que só porque você veio parar na rua como uma mendiga, todo mundo tem uma história triste? – Ele falava alto e tremia um pouco.

– O que eu sou para você? – Eu lhe disse praticamente sem expressão.

Ele, um pouco surpreso com a resposta respondeu um pouco confuso.

– Nada.

– Então porque se importou com o que eu falei?

Ele não respondeu. Como se estivesse repassando tudo o que foi dito, se deu conta da sua raiva sem motivo.

– Você se importa porque é verdade. Não é medo da morte que você tem. É medo da vida. O puro e mais simples medo de viver livremente, encarando os desafios do dia a dia e mais, superando-os. Você tem medo de progredir, medo de crescer. Não é medo de que tudo se acabe. É medo do sol que nasce e te desperta para um novo dia.

Senti então seus olhos arregalarem. Suas mãos começaram a tremer mais, e agora até as pernas começavam a ficar um pouco bambas. Algo me dizia que ele estava começando a me enxergar de verdade.

– Quem é você, algum tipo de anjo? Alguma entidade? Algum ser sobrenatural? – Ele perguntou nervoso.

– Eu pareço um anjo? Não…. Esse título é muito forte para alguém como eu.

– Então quem é você? – Ele perguntou novamente, mas antes que eu respondesse, emendou mais uma pergunta – O que é você? Você é a morte?

Olhei para ele com um leve ar de desprezo. Não importa quantos anos os seres humanos vivam, nunca irão me reconhecer.

– Não. Não sou a morte. Muito pelo contrário. – Eu disse, me aproximando dele. – Eu sou a Vida. É de mim que você tem medo, e é por mim que sua mãe lhe abandonou, e por meio de mim que você irá para casa um pouco mais…. Feliz. – E então lhe toquei no ombro.

Era como se ele tivesse sido soprado. O leve toque foi suficiente para que eu pudesse sentir todo o seu organismo reagindo de uma vez só. Todos os estímulos, o sangue correndo nas veias e o ar passando em seus pulmões. Foi tão rápido que ele ofegou puxando o ar de uma vez como quem acaba de emergir de um mergulho.  Com as pupilas dilatas, ele olhou em volta levemente desesperado e sorriu. Ele não me viu. Não poderia mais me ver. Aquele sorriso tímido, se tornou uma gargalhada, levemente insana. Então, ele subitamente se calou. Olhou em volta novamente, e seguiu caminhando pelas ruas, apressado, segurando o riso. Ele estava feliz, estava motivado e bobo. Permaneceria assim por alguns dias, mas poderia estender o efeito, dependendo das suas atitudes.

Eu fiquei ali, no mesmo lugar observando.

Assim como a Morte vaga por aí, observando as pessoas, apenas as tocando quando é a hora certa. Eu vago por aí, apenas observando e reservando meus toques para àqueles que não se permitem viver o que tem. Reservando meu sopro para aqueles que tem medo de mim.

 

juhliana_lopes 12-02-2017

Tentação

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Rick estava entediado. Fazia muito tempo que não aprontava nada e hoje, estava sentado num bar decidido a fazer algum que fizesse sua noite valer a pena. Olhou ao redor, havia muita gente. De repente se formasse uma briga, em poucos segundos o bar todo viria abaixo. Há muitas garrafas, sempre quebram garrafas e “sem querer” alguém poderia pegar uma delas e passar no pescoço de alguém. Ele então se deu conta de que estava fazendo uma cara de doido, com isso, soltou um riso baixo , tomou um gole de sua cerveja e ficou olhando a rua no lado de fora.

Havia algumas casas noturnas na mesma rua, então ela estava cheia de gente indo de um lado para o outro falando alto e bebendo, se preparando para virar a noite. Rick estava cheio dessas pessoas. Vazias, superficiais e completamente descartáveis era o que ele pensava, mas era óbvio que ele também era uma delas, afinal, se fosse o contrário ele não estaria em um bar e sim com a sua família que logicamente, não existe.

Rick se sentia um pouco inferior a outros homens, afinal ele mesmo nunca teve sorte com mulheres. Na verdade ele poderia ser considerado um pegador, pois nunca lhe faltava uma companhia para passar a noite, porém, pela manhã elas sempre iam embora. Rick era bom com mulheres, mas não com namoradas. Ele sentia uma ponta de inveja daqueles caras que iam pra casa numa sexta a noite animados, porque tinham uma mulher lhes esperando, e na manhã seguinte elas lhe preparariam um belo café da manhã. Rick sentia falta de uma companhia para a vida toda, mas como sempre foi um homem muito prático, quando se sentia assim, ele simplesmente saia de casa e ia beber. Dependendo da quantidade, isso lhe rendia pelo menos uma semana sem pensamentos desse tipo e claro, uma bela ressaca seguida de lembranças das confusões que arrumou.

Acabou se perdendo em pensamentos novamente. Com a quantidade de pessoas passando pela rua, seria muito fácil para ele roubar uma garrafa de alguma mesa, sair correndo e quebrá– la na primeira pessoa que encontrasse pela frente. Seria simples e no mínimo engraçado, para ele. Mais risos soltos e mais goles, até secar a caneca.

Rick era um cara pacífico. Extremamente alguns diriam. Resiliente, sempre pensando em atitudes melhores, em formas de resolver as questões sem conflito. Paciência era um de seus dons, e claro, ele nunca se estressava. Porém, era cheio de pensamentos insanos e era só beber que ele dava espaço para que eles se libertassem, ainda assim, durante as ressacas nunca se lembrava de nada grave a não ser alguma confusão isolada, sem vítimas que acabavam com ele chorando no chão pedindo perdão.

Ele queria mais do que isso. Já passava da casa dos 30 e sentia que não tinha feito de significativo. Queria mais e sabia que podia, ele só precisava do primeiro passo. E ele deu, porém foi um passo para fora do bar. Enquanto caminhava durante a noite, desviando de pessoas bêbadas e apressadas, acendeu seu cigarro. Não gostava de fumar, mas o fazia depois de adquirir um leve vício, motivado pelos fumantes do trabalho. Eles podiam sair sem pausas programadas para fumarem do lado de fora, e mesmo que fosse por cinco minutos, parecia muito interessante sair assim a hora que queria. Logo ele também era um fumante, porém ficava apenas com o cigarro na mão conversando com os outros. Devido os olhares dos monitores, ele teve que aprender a fumar para continuar com suas saídas. Só fumava no trabalho, ou quando se sentia entediado, exatamente como naquela noite.

Andou pelo menos uns três quarteirões, até que conseguisse andar pela calçada sem desviar de ninguém. Andou mais até ficar completamente sozinho. Caminhando devagar, ouvindo o movimento da vida noturna sumir pouco a pouco atrás dele, foi surpreendido por um barulho vindo em sua direção. Com a cabeça baixa, viu sapatos de salto alto pretos, e conforme foi levantando o olhar, observou pelas pernas. Era uma moça linda, com um vestido preto. Ela tinha a pele branca que se destacava com as luzes da noite, e tinha o cabelo comprido, jogado de lado, que ocultava parte do seu rosto. Não olhou para ele, parecia muito concentrada olhando o celular enquanto caminhava depressa. Ela seguiu caminhando, indo em direção as casas noturnas e ele a teria ignorando sem problemas, como muitas que passaram por ele naquela noite, mas esta estava usando um perfume extremamente inebriante.

Ele simplesmente a seguiu. Se ia fazer alguma coisa hoje, seria levar aquela mulher para sua casa, nem que para isso ele precisasse brigar com alguém – no fundo, ele não sabia dizer se estava mais interessado na moça ou na possibilidade de uma briga.

Ela andava rápido e sem qualquer problema pra quem estava com a cara no celular. Desviava com destreza e ele trombava com um e outro para não perdê-la de vista. Até que ela subitamente virou e ele trombou com mais um rapaz para acompanhá-la. Era uma boate grande, e as luzes que piscavam sem parar, fariam terror a um epilético. Ele por sua vez, desviando de um e de outro, conseguiu chegar até a bela moça, que continuava com a cara no celular. Ela estava encostada num balcão, esperando um barman fazer a sua bebida. Ofegante, Rick se aproximou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse sem tirar os olhos do celular:

– Que pique pra quem não está interessado.

Rick ficou confuso por um momento, e só conseguiu pedir pra ela repetir.

– Eu vi você lá atrás. Correu muito pra quem não vai conseguir nada. – Ela disse em um tom frio.

Recuperando o fôlego, Rick entendeu que ela já estava lhe dando um fora, porém, ao mesmo tempo continuava confuso: Como ela o viu se nem ao menos olhou pro lado? De qualquer forma, não iria sair por baixo, aquele perfume era bom demais para ele ignorar.

– Você podia ao menos esperar eu fazer a proposta para me dar um fora. – Ele respondeu com um sorriso no rosto.

– Então faça. – Ela disse em um tom sério, pela primeira vez levantando o rosto. Ela era mais linda do que ele imaginava. Atordoado com aquela beleza, ele só conseguiu dizer:

– Eu queria te convidar pra ir pra minha casa e não sair de lá nunca mais.

Ela fez um leve olhar de espanto, mas sorriu. Um ponto pra ele.

– Isso é algum tipo de sequestro? – Ela disse em um tom mais leve levantando uma sobrancelha.

– Eu… – Ele pensou um pouco só então percebendo o que tinha dito. – Espera, eu não quis dizer dessa forma… Caramba… – Ele tentou organizar seus pensamentos, um pouco sem graça. – Quero te convidar pra ir em minha casa, porque eu quero ter você pra mim, mas não só hoje, todos os dias, pra sempre. – Disse um pouco mais confiante.

Ela riu. Ele ainda estava um pouco confuso sobre isso ser bom ou ruim, mas pelo menos ela havia parado de olhar no celular.

– É pior do que eu pensei. Você está me pedindo em casamento? – Ela disse, rindo.

Ele relaxou e riu também e então arriscou pegar na mão da moça, que era um pouco fria.

– Se você entender desta forma, eu vou ficar imensamente feliz. Você é muito linda!

Ela abaixou levemente a cabeça com certa graça medieval e disse:

– Obrigada, mas acho que preciso saber das suas qualidades antes. – Ela respondeu fazendo cara de séria, porém abriu um sorriso logo em seguida.

Rick, um pouco mais confiante falou de seu trabalho e seus passatempos, além de claro, ocultar seus pensamentos insanos que naquele momento, não faziam mais sentindo algum. Como se lesse seus pensamentos, ela disse:

– Parece bom, mas acho que não posso ir com você. Nada me garante que você não seja um maníaco psicopata querendo me usar nos seus planos malignos.

Apesar da risada dela que veio em seguida, a frase lhe deu um pouco de impacto. Ele disfarçou, mas resolveu reverter o papo

– Bem, você pode ir ao meu trabalho e todo mundo vai confirmar que eu não sou um doido. – Ele riu. – Mas e você, quem me garante que você não é uma louca, querendo roubar meus órgãos, disfarçando para que eu fique interessado? – Ele disse com um tom de deboche.

Ela então se aproximou dele, com o rosto bem perto e as bocas quase se tocando. Então ela disse bem suavemente:

– Eu garanto que não sou…

Depois, ela voltou ao seu lugar e o ficou olhando fixamente. Era um olhar sedutor, penetrante, sem pudor. Rick se viu novamente enfeitiçado, por aqueles olhos, aquele perfume e aquela boca… Ah, aquela boca, tão perto da sua. Ela ainda o estava olhando quando ele pegou em sua mão e a guiou para fora. Ela não relutou, não perguntou, nem fez piada. Apenas o seguiu.

Eles seguiram em silêncio, andando e se afastando da movimentação, até que ela o puxa para um beco. Ele, surpreso tentou questionar, porém foi calado por um beijo. Um beijo intenso, daqueles que começam devagar e vão tomando conta, tirando o juízo de qualquer um. Ele nunca havia sido beijado assim.

As mãos começaram a dançar, ainda sem interromper o beijo, que já estava acompanhado de respirações profundas. Ele explorava o corpo da bela dama, que mesmo com o vestido, demonstrava as curvas que ele queria se perder durante a noite toda. As mãos delas pareciam nervosas. Arranhavam seu peito, entravam pela camisa até chegar as suas costas, ele sentia suas unhas lhe rasgando pouco a pouco e mesmo com a leve dor, ele sentia um prazer indescritível.

Os amassos dos dois naquele beco escuros estavam ficando cada vez mais intensos e ele já se preparava para tirar a camisa. Ela se afastou um pouco, e enquanto Rick arrancava sua roupa, sentiu uma fisgada na costela. Diferente das unhas, essa entrou profunda e ele só pode sentir o frio da lâmina se aquecer com seu sangue quente. Olhando para ela sem entender o que estava acontecendo, gemeu abafado quando a faca saiu lhe deixando apenas um buraco.

A moça bonita, mais linda ainda a meia luz do beco, colocou a mão em seu ombro e começou a morder e lamber sua orelha. Por um momento ele se esqueceu da dor e começou a se entregar para ela novamente que passava a mão que antes estava no ombro, por todo o seu corpo com volúpia. Então, quando Rick sentiu ela mordendo seu lábio suavemente, sentiu uma nova fisgada, no seu estômago. Além da dor, desta vez ele começou a sentir que seus sentidos também estavam se perdendo, pouco a pouco conforme o sangue escorria. Desta vez, ele reagiu dizendo:

– Você é louca? – Ele tossiu e cuspiu sangue. – O que pensa que está fazendo?

– Eu? Nada demais, estou fazendo o meu trabalho. – Ela respondeu calmamente, enquanto limpava a faca com um lenço.

– Você não disse que não era uma maníaca? Que garantia que não era louca? – Rick gritou enquanto continuava a cuspir sangue e perdia a força nas pernas, sentando pouco a pouco no chão se apoiando na parede.

– Mas eu não sou uma maníaca. – Ela respondeu surpresa.

– Então o que é isso? – Rick gritou nervoso, cuspindo sangue.

– Isso, não é nada. – Ela disse se aproximando e se abaixando para olhar em seus olhos. – Eu não sou uma maníaca Rick… – Ela passou a mão em seus cabelos – Eu sou a morte. A sua morte Rick. Eu só vim fazer o meu trabalho. – Sua voz era pesada e seu tom era frio.

Rick não conseguiu dizer mais nada. Apenas a olhou apavorado e suspirou profundamente pela última vez, buscando o ar que de repente ele tinha perdido.

juhliana_lopes 04-02-2017