Família #1

01No início havia a família Müller, e por muito tempo eles eram a família mais poderosa daquela região. Fora a quantidade absurda de dinheiro que possuíam, também tinham uma enorme influência sobre todas as autoridades locais. De qualquer modo, não eram ruins. Possuíam a soberba, sim, porém eram generosos até onde o orgulho deles permitia, e por vezes ajudavam os necessitados, seja com empregos ou mesmo uma doação em dinheiro.

Então, chegou a essa mesma cidade a família Paiva. Tão rica quanto a Müller, foi ganhando influência aos poucos, devido a vivência no exterior. Eram cultos, letrados, e possuíam casas e terras em outras cidades e estados. Não era preciso ser um gênio da observação para notar que a família Müller se incomodou com a situação. Logo seus filhos e qualquer membro que fosse novo o suficiente foi mandado para os estudos no exterior. Além disso, os que já trabalhavam, foram mandados para trabalhar em outro estado, e alguns foram designados para comprar terras em outros locais. Havia uma competição, nunca declarada, mas que fez a fortuna da família Müller diminuir um pouco e logo aumentar mais que o dobro. Estavam investindo para que pudessem ter um capital maior que a família “concorrente” e conseguiram.

Passaram-se várias gerações, e o avanço tecnológico chegou à cidade. Aos poucos as famílias foram perdendo o poder que tinham, porém, sua influência ainda era grandiosa sobre os mais antigos, assim como no comércio ou mesmo as ruas da cidade. Tanto a família Müller como a família Paiva ainda estavam instaladas na cidade e o que era uma competição disfarçada, se tornou uma guerra declarada com o tempo, se transformando em uma intriga de famílias para a atualidade. A verdade é que mesmo com o peso do tempo, e das influências de fora que tornaram a cidadezinha pequena em um grande polo industrial, não foi capaz de quebrar uma briga que perdurou por anos. Mesmo os mais novos não se misturavam e até evitavam os mesmos ambientes. Logo o que poderia ser mais clichê do que uma paixão entre membros desta família? E aconteceu. Não uma, mas pelo menos três vezes. O primeiro casal fugiu para outra cidade onde dizem que vivem feliz. O segundo também fugiu, porém não aguentaram a pressão da vida a dois pelos pensamentos diferentes e se separaram, voltando para seus lares, alimentando ainda mais a distância dos nomes. O terceiro casal fugiu e se separou depois, porém nenhum dos dois voltou ao lar. Conheceram outras pessoas, casaram-se novamente e dizem até que viraram bons amigos.

O fato é que a história não é exatamente sobre as duas famílias e sim sobre Alice Paiva. Ali como as suas amigas a chamavam na escola. Estava para se formar, 17 anos, finalmente ia sair do colégio interno. Antiquado? Sim, mas sua mãe era uma pessoa antiquada. Não sabia o que era pior, ficar presa naquele lugar e estudar até sua mente fadigar ou ter que aguentar sua mãe falando sobre bom casamento o tempo todo. Ela era uma menina ainda, queria sair dali, curtir a vida como suas tias e primas. Para que serviria um homem? O pouco que teve com alguns garotos do colégio só mostrara que eles eram infantis. Ela não. Moça letrada, gostava de ler, e queria muito viajar o mundo. Sua mãe jamais aceitaria, é verdade, mas ela daria um jeito. Arrumaria um emprego e fugiria. Falaria com seu avô, “modernoso” como dizia sua mãe. Ele a ajudaria com certeza.

Estava ansiosa, mal se aguentava na última aula. Não via a hora de tirar aquele uniforme quente e deitar no sofá de casa, ouvir sua mãe reclamar e continuar lá como quem não quer nada. Quando chegou no seu quarto, tirou suas roupas e ficou apenas de lingerie, olhando pela janela o dia de sol. Fazia calor, mas alguns pássaros cantavam alegres, voando baixo.

– Acho que vai chover. – Disse Kamile entrando no quarto. – Pretende ir vestida assim para casa? – A amiga falou sentando-se na cama.

– Você podia bater na porta, sabia? – Respondeu Alice virando somente a cabeça. – E se eu pudesse ia sem nada, para fazer minha mãe surtar. – Alice disse suspirando olhando novamente pela janela.

– Infelizmente Ali – disse Kamile se deitando na cama de Alice. – Você não pode sair nua por aí. Os meninos do terceiro adorariam. E se eu fosse você, se vestia logo, daqui a pouco a inspetora vem te buscar.

– Eu sei. Então sai de cima da minha roupa. – Disse Alice puxando um vestido na cama.

Por muito tempo Alice ficou sozinha na escola até conhecer Kamile. Sua amiga loira do olho claro, que por muito tempo foi a única descrição que tinha dela. Depois acrescentou “solitária” a sua descrição mental. Não sabia nada sobre sua família, apenas que não tinham tempo para ela. Nenhuma visita, exceto no Natal. Passava os fins de semana na escola ajudando os funcionários na limpeza da escola. Ela parecia não se importar.

– Quero que você vá me visitar um dia. – Disse Alice ao pegar sua mala.

– Claro, me passa o endereço do hospício que você vai ficar depois. – Kamile respondeu despreocupada depois de abraçar a amiga.

– Você vai ficar bem? – Disse Alice, quase chorando.

– O que você acha? – Respondeu Kamile a segurando pelos ombros com um sorriso no rosto.

Antes que elas pudessem falar mais alguma coisa, a inspetora bateu a porta. Disse que a família Paiva já a esperava e ela devia se apressar. Alice saiu, acenou timidamente para a amiga antes de sumir pela porta. Kamile ficou ali, parada olhando para o vazio.

– É claro que não vou ficar bem. – Kamile disse por fim, sozinha.

Alice desceu as escadas com cautela. Queria muito sair dali, mas será que ela conseguiria fazer tudo o que desejava fora da escola? Será que seria capaz de enfrentar seus pais para viver a vida que sempre sonhou?

Foi surpreendida em seus pensamentos pelo grito de sua mãe. Logo foi afogada por um abraço e pelo cheiro de perfume forte. Em seguida seu pai lhe deu umas tapinhas no ombro. Seus avós também estavam lá e para eles ela mesmo foi correndo para lhes abraçar.

A sentir o calor do abraço deles se sentiu em casa novamente. Quando soltou sua avó, ouviu sua mãe pigarrear e falar alto alguma coisa sobre um absurdo. Alice olhou para o lado e viu uma outra família reunida, abraçando um garoto alto, loiro. Um homem de terno acenou, e seu pai respondeu o aceno, indo em direção dele que também se afastou do grupo para uma conversa particular.

– Não sei porque Philip ainda perde o tempo dele. – Disse a mãe de Alice.

– Filha, comporte-se. Tenha no mínimo um pouco de decoro. – Disse avó de Alice repreendendo-a.

Depois da conversa rápida, foram todos embora. Em casa, Alice tratou de largar as malas no quarto e correu antes que sua mãe a achasse para o jardim. Sua casa era enorme e seu jardim também, como nos filmes. Perto da piscina haviam várias árvores o que deixava o ambiente ainda mais bonito. Havia um lugar que sua mãe não olhava e era lá que ela se escondia desde pequena quando queria ficar sozinha. Porém, ao chegar lá percebeu que seu lugar não era mais tão secreto assim.

– Abner?

– Alice? Você já voltou? Da aqui um abraço! – Respondeu o rapaz.

Abner era um primo que não aparecia muito na casa, apenas nas festas de fim de ano. Devia ser dois anos mais velho que Alice, ela mesmo não se lembrava.

Ficaram os dois conversando por horas, até Alice se cansar de ouvir os gritos da sua mãe chamando seu nome. Lavou as mãos, e foi para o jantar. Sua mãe bem que tentou lhe dar algumas broncas, porém perto do seu avô era quase impossível. Ele não permitia discussões sobre a mesa, e Alice nunca esperava que todos terminassem de comer para sair da mesa, diferente de sua mãe.

Aquela noite ela dormiu cedo. Estava cansada, queria aproveitar a primeira noite sem alarmes escandalosos para acordar. Se tivesse sorte, seu avô não deixaria sua mãe lhe acordar cedo. Alice dormiu logo, e sonhou. Sonhou com a escola, com as professoras, com as provas e com Kamile.

 

juhliana_lopes 15-12-2016

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