Fácil demais

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Ele estava obcecado. Não sabia de onde ela vinha, nem para onde ia, mas era quase impossível ignorar a presença dela. Era alta, tinha uma bela postura e curvas leves. Devia ser modelo talvez. Roupas sociais, cabelo impecável. Executiva talvez. Bolsa ao lado do corpo e celular quase sempre na mão. Muito ocupada talvez. Uma vez, ele passou por ela e viu uma foto de criança no celular dela, que logo deu lugar para uma tela de aplicativo de mensagens. Deve ser mãe talvez.

Não importava, ele só queria saber o nome dela, se estava bem, alguma coisa. Qualquer coisa. Eles se encontravam sempre no ponto de ônibus, porém ela pegava uma linha e ele outra. A dela sempre vinha primeiro. Ele ficava feito um bobo olhando pela janela, e ela com os olhos na tela, nem lhe dava atenção.

Pensou em abordá-la, falar banalidades, mas poderia ser interpretado mal. Afinal ele só a encontrava tarde da noite quando estava voltando do trabalho. Pensou em mil maneiras de esbarrar com ela para ter uma desculpa de pelo menos tocá-la. Mas não. Melhor esquecer.

Todo homem precisa de uma motivação e com ele não seria diferente. Sua maior fraqueza era o álcool e em um dia qualquer ele, a convite de amigos, bebeu algumas doses que viraram muitas em um aniversário. Voltando para casa, estava alto, atordoado e ao vê-la, seu pensamento ganhou uma direção.

Talvez por coincidência, o ônibus dele veio primeiro naquele mesmo dia, e talvez por acaso ela pegou o mesmo ônibus que ele. Suas mãos suavam. Ele não sabia o que fazer. Sabia que o que ele queria era errado, mas sabia que não tinha condições de conduzir uma conversa normal. Já havia esperado muito e tantos outros faziam, qual seria o problema? Ela nunca seria dele por vias normais.

Percebeu então que ela não morava tão longe e que só pegava o outro ônibus porque ele passava primeiro mesmo, afinal os dois faziam a mesma parte do caminho. Ele, sentado no fundo no ônibus, estralando os dedos e balançando a perna direita, ainda pensava que estava louco e não devia agir assim. Mas ele se arrependeria muito mais se não fizesse nada e talvez demorasse um bom tempo para usar o álcool como desculpa.

Desceu atrás dela e foi seguindo cauteloso, se esgueirando pelas sombras. Mantendo uma distância segura, percebeu que logo ela estaria em casa e ele perderia sua chance. Era preciso um segundo de coragem insana. Um segundo de loucura absurda. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Observou ela caminhando calmamente, com o celular na mão e então foi.

Se aproximou depressa e lhe deu uma chave de braço. Arrastou ela para o primeiro canto escuro que achou. Pressionou ela contra a parede e começou a beijar seu pescoço. Ela tentava em vão resistir. Ele a virou de frente para ele, e rasgou a sua blusa. Arrancando dois ou três botões. Com as mãos, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com força. Mordia seu pescoço e seu colo, e revezava suas mãos entre segurar as mãos dela e apalpar seu corpo. Estava se dando bem afinal, ele pensou. Mas faltava algo. Ele apertava, mordia e lhe deixava marcas. Não ousava olhar no rosto dela, apenas para o seu corpo que era alvo e delicado. Mas ainda faltava algo.

Quando ele começou a passar a mão pelas suas coxas, ela parou de resistir e puxava o corpo dele contra o dela. Ela estava gostando? Olhou finalmente para o rosto dela que estava de olhos fechados e um sorriso de satisfação. Ela estava realmente gostando. Resolveu então lhe dar um beijo na boca que foi correspondido com luxúria. Ele foi ficando cada vez mais animado, e suando com o álcool que reagia em seu corpo, se forçava mais contra o corpo da moça, tentando rasgar as roupas que ainda restavam. A camisa dele já estava no chão amassada, quando o sangue espirrou nela.

Ele ficou um tempo parado, olhando para ela que agora encarava seus olhos profundamente. Olhos castanhos, mais escuros ainda com a noite. Ele não sentiu dor quando a lâmina entrou, mas sentiu a profundidade do corte quando a lâmina saiu. Antes que ele pudesse sair do estado de choque e se manifestar sobre o acontecido, ela enfiou a faca novamente, desta vez no estômago. Agora ele se sentia mais fraco e fica uma quantidade de sangue absurda sair de si mesmo. Ela, agora olhava para ele com um sorriso. O mesmo sorriso de satisfação de quando ele estava tomando seu corpo. Ele caiu no chão e começou a agonizar. Ela, pegou sua bolsa, tirou uma camisa e uma toalha. Limpo o sangue dele que havia sujado a sua barriga e se vestiu. Ele, se debatia no chão, ainda olhando para ela. Seus pensamentos confusos não permitiam que ele pudesse manter uma linha de raciocínio, ele só sabia que estava morrendo.

Ela usava um salto, que não era tão alto, afinal ela mesmo era um pouco mais alta que as outras mulheres. Ela usou esse mesmo salto para enfiar a ponta no ferimento que ela havia aberto no seu estômago. Pisando literalmente sobre ele, observava com asco, enquanto ele gemia de dor, sem poder reagir, fraco com a perda de sangue.

Tirando o pé de cima dele, ela caminhou até a rua, pegou um cigarro e começou a fumar, observando a rua vazia. Maldita rua vazia. Quando estava quase terminando, apagou o cigarro na testa dele, e com a faca, abriu um corte profundo na sua garganta, sem acertar a jugular. Como um açougueiro, ela só desceu com a faca no pescoço do pobre homem e deixou a faca lá, fincada. Ele não se mexeu mais. Ela pegou a camisa dele com cuidado para não se sujar, e cobriu o seu rosto. Se levantou com leveza e seguiu andando até um ponto de ônibus próximo de uma avenida. Sozinha, pegou outro cigarro e o celular enquanto observava os carros. “Fácil demais”, ela pensou.

juhliana_lopes 10-10-2016

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