Pergaminho perdido sobre a Grande Ameaça

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Esse é mais um dos muitos pergaminhos que irão descrever para as futuras gerações estes tempos de trevas. Eles existirão para que nos momentos de paz, nossos filhos e netos nunca se esqueçam do sofrimento que eles foram poupados e aprendam a se defender antes de sucumbirem diante de um ataque. Já são 50 dias desde que saímos de nosso reino a mando do rei, para dar o alerta e ajudar a proteger os outros reinos. O Rei Gorgo do reino do Oeste, nos recebeu muito bem e conseguiu se preparar pouco antes da grande ameaça chegar. As baixas foram poucas e com uma muralha reforçada graças a nossa lastimável experiência, conseguiram manter a situação estável. Assim como os alquimistas do Sul, os do Oeste começaram a trabalhar sem pausas, em busca de mais materiais, que possam quebrar este grande mal.

Após a derrota das primeiras hordas, com a situação sob controle, seguimos então pela fronteira, passando pelas lagoas e os rios da floresta da Meia Noite, em direção ao reino do Norte, com os cavalos acelerados para ganhar tempo e assim evitar que mais um reino seja pego de surpresa. Os cavaleiros e todos nós estamos cansados e com medo. Quando a grande Ameaça chegou no reino do Sul, ninguém sabia dizer exatamente o que era e muito menos como seria possível enfrentar aquilo. No início, surgiu como uma mancha escura no mármore da fonte principal da cidade que então, ao cair da noite, se abriu em um buraco com uma espécie de gosma escura ao redor. De lá, saíram três hordas de cavaleiros negros que em pouco menos de uma hora, tomaram conta de todo o vilarejo principal, seguindo em direção ao castelo.

As espadas comuns não faziam efeito, pois todos os cortes abertos se fechavam no mesmo instante como mágica. Os cavaleiros negros não caíam e seguiam indestrutíveis, até que Joshua, o Intocado, surgiu em meio a destruição com sua espada forjada com ouro antigo, e derrubou o primeiro cavaleiro das trevas. A sua lâmina era capaz de decapitar os inimigos sombrios com um só golpe. Foi visto que em todo o reino do Sul, considerando a espada de Joshua, só haviam 5 espadas de ouro, que estavam na sala de arma do rei, e no momento da batalha, sob seu comando, foram confiadas ao príncipe, e a mais três cavaleiros.

Então, juntos e com muita exaustão conseguiram conter as hordas das trevas. O dia já amanhecia quando a primeira batalha acabou e então o buraco da fonte se fechou sozinho, restando apenas a mancha negra. Percebemos então que eles só saíam a noite e assim, foram dias e mais dias trabalhando para conter as hordas e encerrar a entrada. O rei, preocupado com os reinos vizinhos, designou uma caravana, liderada por Joshua para avisar os outros reinos, começando pelo reino do Oeste, para que nenhum povo sofresse como nós havíamos sofrido e assim juntar nossas tropas para evitar que este grande mal crescesse. Hoje, 50 dias depois desse acontecimento, estamos indo em direção ao reino do Norte, esperando que ainda tenha um reino para avisar e proteger.

(…)

Já passava da hora do sol a pino, quando paramos para acampar perto de uma clareira no meio da floresta. Estávamos em 14 homens. Havia uma grande lagoa cristalina, e muitos animais selvagens ao redor. Joshua nos acompanhava e parou em uma árvore para descansar os olhos. Outros dois cavaleiros foram caçar um cervo, enquanto eu e o outro escrivão e soldado do reino preparávamos a fogueira. Então, Hélio, nosso cavaleiro mensageiro seguiu em direção a água, olhando alguma coisa. Os outros nove soldados que descansavam no chão ficaram nervosos, com medo de ser algum sinal da grande Ameaça. Porém, um canto doce tomou conta de nossos ouvidos, e logo estávamos todos em volta da água, procurando aquele som maravilhoso.

Eis que na outra margem, apareceram três donzelas desnudas, com os cabelos cor de mel, molhados e colados ao corpo. Sua pele levemente corada do sol reluzia com o brilho da tarde. Eu mesmo já havia ouvido muitas histórias, mas ali, diante dos meus pobres olhos mortais, estavam três ninfas de água doce. Três demônios sereias como os livros diziam. Confesso que no meu íntimo, não compreendia e praguejava quem as havia lhe dado tal alcunha, pois ali, não havia nada de demônio e sim, apenas uma beleza pura e que dê certo, deveria ser divina.

Aquele canto agradável, atraiu então Hélio para a lagoa que decidiu ir de encontro as belas damas do outro lado. Ele, nadava desesperado e as ninfas o incentivavam com gritos e risos alegres, espirrando água com suas mãos. Ao chegar no meio do lago, ele perdeu o chão e só então percebeu o quão profundo eram aquelas águas. Além disso, ele havia entrado de armadura e agora ela lhe pesava o corpo, o fazendo afundar e se afogar. Hélio, temendo a morte, pedia ajuda as ninfas que se quer se mexiam em seu socorro e cantavam mais canções, fazendo com que também ignorássemos o sofrimento de nosso companheiro.

Eis que do meio das águas, em uma onda incomum que arrastou Hélio de volta para a margem e interrompeu o canto doce das sereias, surgiu um ser que à primeira vista imaginei ser uma deusa reluzente, porém, era também uma sereia, mas não como as outras. Ela apareceu com um brilho incomum e tinha placas de ferro presas em seu corpo, como uma armadura. Usava um elmo prateado que cobria parte do seu rosto, deixando sua boca a mostra. Conforme ia se aproximando de nossa margem, sua cauda se desfazia, revelando suas pernas que também estavam cobertas com uma espécie de armadura que lembrava as grandes saias das princesas. Mesmo parecendo ser de ferro, o material era leve e maleável o bastante para que ela andasse sem qualquer dificuldade.

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Na margem, ela observou todos nós sem dizer uma só palavra. Então, em uma língua estranha, gritou alguma coisa para as outras ninfas que debandaram para dentro da água. Os soldados mais uma vez se encheram de medo e ficaram atentos. Já Hélio, com toda sua raiva e coragem, empunhou sua espada e avançou. Ela, com uma espada que parecia ser de prata, porém era levemente verde como alga, cortou o golpe, o derrubando no chão e jogando a espada simples para o outro lado, com apenas uma mão. Ela, guardou a espada na bainha e com uma voz suave perguntou quem era o nosso líder.

Joshua que continuava deitado na árvore, se levantou e se apresentou. A moça então tirou o seu elmo, revelando uma beleza ainda maior que a das sereias do outro lado. Ela tinha olhos de duas cores, um azul e outro amarelo, além de uma leve cicatriz sobre a sobrancelha direita. Parecia que tinha sido esculpida no mais belo mármore, e a água que lhe corria pelo rosto dos cabelos molhados, a fazia parecer uma pintura perfeita. Seu cabelo, era um castanho claro, quase mel, e também do lado direito, tinha três tranças pequenas, que se misturavam com o resto do cabelo solto.

– O que vocês fazem aqui? Não deviam estar aqui. – Ela disse em um tom severo.

– Estamos a caminho do reino do Norte. Somos do Sul. Estamos em caravana para avisar sobre um grande mal.

– Vocês poderiam ter ido pela estrada. Por que vir por aqui? – Ela perguntou com autoridade.

– Para ganharmos tempo. Existe um mal que aparece toda noite, e entra pelo reino através de um buraco negro nas pedras de mármore. Até agora, sabemos apenas que o ouro é capaz de parar essas criaturas, por isso estamos a caminho dos reinos, a pedido do rei do Sul, para lhes avisar e lhes dar uma chance de salvar o seu povo de grandes baixas. A chance que não tivemos. – Explicou Joshua com paciência. – E qual a sua graça? Quem é você? – Ele disse fazendo uma reverência irônica.

Ela, observando o gesto com frieza, deu um leve sorriso de canto. Enquanto isso, todos nós ficamos apreensivos com o gesto do Intocado, e com medo de que a aquele ser ficasse zangada.

– Sou Maena. 1º General do reino de Cyperus, sob a ordem do Rei Chez. E você?

– Sou Joshua. 1º Cavaleiro do Reino do Sul sob missão. – Respondeu Joshua engolindo seco. – Eu peço desculpas caso…

– Eu nunca ouvi falar desse reino… – Interrompeu Hélio, ainda zangado com o quase afogamento e a investida da General contra o seu ataque.

– É porque fica debaixo da água. Se você aprender a respirar embaixo d’água, eu ficarei lisonjeada em te mostrar tudo um dia. – Maena respondeu com o mais profundo sarcasmo.

– Como eu estava dizendo…. – Disse Joshua sério, olhando para Hélio. – Peço desculpas pela minha falta de jeito e por termos provocado algum incômodo. Não era a nossa intenção. Em todo caso não sei como esse mal se comportaria na água, então agora que sabemos da existência de vocês, espero que possam se preparar. – Ele terminou com um tom cortês.

– Eu agradeço. – Ela respondeu ainda com um tom sério. – E peço desculpa pelas meninas. Há muito tempo elas não se alimentam de nada humano, apenas animais da floresta mesmo. Sentiram cheiro de carne nova e resolveram ver do que se tratava. Peço para que vocês também tomem cuidado, pois não posso protegê-los toda hora. Ainda assim, lhes darei a ordem para que não se alimentem de caravanas nos próximos dias.

A reunião estava enfim, sendo perfeitamente bem-sucedida, e a fogueira já estava alta. Antes, porém que os soldados pudessem chegar com o cervo para assar, fomos surpreendidos por ladrões. Eles eram altos e bárbaros, e conseguiram derrubar e ferir pelo menos três de nossos soldados. Joshua e Maena lutaram lado a lado, e sozinhos, eles conseguiram derrubar mais ladrões que o resto de nós. Era realmente uma luta incrível e uma graça ver a sereia general manejar a sua espada, parecia não haver qualquer peso em suas mãos.

Os bárbaros então fizeram uma emboscada, e prenderam Joshua com uma rede. Parecia que seríamos dominados, pois muitos de nós já estávamos amarrados. Eles eram realmente mais fortes e extremamente habilidosos, além de trapaceiros em suas lutas. Apenas a general ainda estava de pé, lutando sozinha e ainda conseguindo conter muitos. Com um golpe traiçoeiro, conseguiram tomar a espada de suas mãos e então percebemos que havia magia nela. Na mão da sereia, ela parecia não ter peso algum, porém quando o ladrão imundo a tocou, ela caiu pesada no chão e nenhum deles conseguia levantá-la para lutar, apenas arrastá-la para longe de sua dona.

Apontaram uma espada para o meu pescoço, e então imaginei que estava tudo perdido, até ouvir um canto, ainda mais bonito que os das ninfas. Maena começou a cantar, não uma música de sereia, mas uma música antiga que muitas vezes tocávamos em festa. A música é tão antiga, que há muitos anos é passada de geração em geração, e eu mesmo confesso que nunca havia ouvido a letra completa. Logos os bárbaros estavam calmos e indo em direção a água, mas não eram só eles que se encantaram. Todos nós queríamos nos desfazer das amarradas e segui-los como se aquilo fosse mais forte que tudo. Hélio conseguiu se soltar e foi correndo em direção a água. Joshua também se soltou e o segurou o mais firme que pode, o arrastando de volta e o amarrando. Um a um, ele conferia as amarras, para que não entrássemos na água. Uma vez dentro, podíamos ver os bárbaros virarem comida, como se houvesse mil crocodilos os devorando, mas não eram crocodilos. Como se eu estivesse despertando de um sonho, pude ver a carnificina e descobri enfim por que o nome de “demônios sereias”. Maena parou de cantar e não entrou na água. Apenas observava de longe, ainda em terra firme.

A água ficou em um tom vermelho escuro por causa do sangue dos ladrões. Havia também, boiando na água, partes não devoradas como braços e pernas. Muitos soldados horrorizados, se afastaram da general quando ela caminhou em direção a sua espada. Joshua ajudava os outros soldados a se soltarem e logo eles recolhiam as coisas do acampamento para seguir viagem. Ainda estavam exaustos e com fome, mas nenhum deles queria mais descansar ali.

– Então você é o Intocado? – Perguntou Maena para Joshua, ao perceber que ele não havia sido o único que não foi encantado.

– Dizem que eu sou. – Ele respondeu sem lhe encarar nos olhos, ajudando a desamarrar o último soldado.

– Você conhece a profecia? – Questionou mais uma vez Maena.

– Que profecia? – Ele perguntou curioso, agora encarando a moça. Ela tinha olhos grandes e curiosos para ele, como quem tem um truque na manga e está pronto para usá-lo.

– Se vê logo que não conhece. – Ela disse pegando sua espada do chão – Vá para o reino do Norte e os salve. Depois siga para o reino do Leste pelas colinas e não pelas montanhas, senão vocês podem cair no grande abismo. Quando terminar sua caravana, volte aqui e lhe contarei o que quiser saber. – Ela disse em um som suave, lhe entregando uma peça de prata verde. – Jogue isso na água e eu virei ao seu encontro.

Joshua recebeu a peça, um pouco confuso e era a primeira vez que eu e acredito também que todos os outros, pudemos vê-lo assim. A general, batendo continência, virou-se e seguiu para a água que já estava limpa e cristalina novamente, como se nunca tivesse sido tocada por nenhum homem. Ao entrar na água, sua cauda voltou e ela afundou de volta para o seu reino.

(…)

Foram 55 dias desde a aparição da grande Ameaça e cinco em que nos encontramos com as sereias do Reino de Cyperus. Agora, faltam só mais cinco dias para chegarmos ao reino do Norte para completar metade de nossa missão. Aqui, registramos todos os acontecimentos desse grande mal para que ninguém se esqueça de nós e de nossa história. Aqui deixamos o nosso legado, que será preservado para muitas gerações. Aqui estão todos nossos segredos e dúvidas, além de registros mágicos. Aqui, está tudo o que fomos um dia e tudo o que somos.

juhliana_lopes 27-08-2016

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