Insistente

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Hector estava completamente apaixonado. Nunca havia se sentido assim, mas agora só tinha olhos para a aluna nova. Ela era realmente muito bonita, parecia uma escultura renascentista e agora ele falava dela com todos os elogios bregas que conseguia imaginar que poderiam exaltar ainda mais a beleza dela com o seu amigo.

Ele era um fracasso com as mulheres, é verdade. Desde o ensino fundamental, não tinha sorte nem naqueles jogos de verdade ou desafio. As meninas simplesmente o rejeitavam como se ele fosse um portador de alguma doença grave. Hector também tinha problemas com amigos. Ele não era bom em nenhum esporte ou jogo que pudesse ajuda-lo a socializar, então ele foi uma criança muito sozinha.

Seus pais mudaram de cidade e por consequência o mudaram de escola, que apesar de ser um prédio meio sombrio, era extremamente agradável. Lá, Hector conseguiu seu primeiro melhor amigo que tinha um nome engraçado. Zan, como Hector o chamava, era um menino alvo de cachos dourados. No começo, percebeu que alguns o chamavam de veado, mas ele parecia lidar bem com isso, ignorando todas as ofensas. Hector o admirava pela sua intensa sabedoria que as vezes parecia datar de tempos antigos. Além disso ele era muito bom em escalar coisas e o ensinou a subir nas árvores e a “cair” sem se machucar.

Hector ainda falava da menina com os olhos brilhantes, sem perceber que Zan já começava a ficar entediado com aquela conversa. Quando parou para respirar, percebeu pela expressão do amigo que ele já era contra aquela “relação”, antes mesmo de começar. Mesmo sabendo que ele seria contra, resolveu ouvir o amigo para então quebrar cada argumento com palavras bonitas sobre seu amor platônico.

– Ela não é boa. É melhor nem tentar. – Zan respondeu desinteressado, enquanto mordia seu sanduíche natural.

– Mas Zan…. Ela parece um anjo….

– Mas não é. Pode até ser filha de um, mas ela mesmo não é. – Zan respondeu em um tom mais sério, que usava normalmente quando aparentava ser mais velho.

– Não adianta você ficar torcendo contra. Ela vai ser a mulher da minha vida! – Disse Hector com um tom sonhador.

– Você que sabe. – Zan deus os ombros.

A garota, se chamava Bárbara Naamah, revelando assim ser estrangeria. Mesmo se não fosse pelo nome diferente, suas feições mostravam que ela era de muito longe. Tão alva quanto Zan, seus cabelos ruivos voavam fácil ao vento. Por vezes pareciam mudar de cor, ora um laranja opaco como o fim de uma tarde fria, ora vermelho como uma chama ardente. Ela era miúda e magra, e andava com uma delicadeza de uma bailarina. Ainda assim, não era fraca, demonstrando várias vezes sua força nos jogos durante as aulas de educação física.

Nolin, o garoto popular já havia se aproximado dela, mas aparentemente não havia conseguido nada. Ela era linha dura e Hector estava adorando isso. Ele estava decidido a se aproximar, mas sentia que seu coração iria pular para fora da boca toda vez que tentava. Da forma antiga, escreveu um bilhete e escondeu em seu caderno. Ficou olhando de longe para ver a sua reação, que despedaçou um pouquinho o seu coração. Ela achou o bilhete, leu e o jogou fora na mesma hora. Nenhuma expressão de surpresa, nenhuma expressão de curiosidade para saber quem era. Apenas leu como quem lê um recado na geladeira e o descartou.

Hector ainda tinha muito amor para dar e resolveu uma aproximação mais direta, porém quando estava frente a frente com ela, sentiu suas pernas tremerem e suas mãos suarem instantaneamente. Ela, com um olhar confuso apenas disse um Oi e perguntou se poderia ajudar em algo. Ele, sem graça, disse um Oi também e pediu licença para pegar um livro que estava atrás dela. Ela saiu de sua frente e seguiu andando com suas amigas que riam da timidez do garoto.

Hector começava a ficar com raiva de si mesmo e se sentia um fracassado. Zan, apareceu como um bálsamo tentando lhe trazer de volta a razão:

– Você é bem insistente. – Ele disse em um tom despreocupado.

– Eu sou um idiota. A menina está ali! É só eu chegar e falar com ela. – Dizia Hector batendo contra a própria cabeça.

– Por que você simplesmente não parte para outra? Existem muitas outras garotas por aí… – Zan lhe aconselhou.

Hector então olhou para Zan para tentar identificar algum tom de sarcasmo. Seu rosto estava contra o sol e ele não conseguia enxergar todos os detalhes do seu rosto. Era estranho admitir isso para si mesmo, mas Hector podia jurar que as vezes Zan parecia ter um rosto tão feminino quanto qualquer menina. Ao mesmo tempo, ele não era nem um pouco afeminado, e ao aconselhar sobre qualquer assunto, seu tom de voz era de alguém que tinha mil anos, por isso Hector tentava encontrar alguma ponta de ironia, pois por mais que ele estivesse sendo, era qualquer impossível de identificar.

O garoto sonhador resolveu então levantar e em um ato desesperado, falar com ela de uma vez. Se declarar, colocando a cara a tapa, porém, antes de dar um passo, viu quando sua musa passou alegre e sorridente, guiando outro garoto pela mão até um canto qualquer da escola. Logo os dois estavam unidos por um beijo longo e demorado. Hector, com seu sensor de fracasso quase estourando, sentou-se no chão, deixando todo o seu peso cair sobre a grama de uma vez. Olhou mais uma vez para o rosto de Zan, que tinha um leve sorriso nos lábios. Agora sim, qualquer coisa que aquele maldito falasse seria irônico.

No outro dia, Hector andava cabisbaixo pelo corredor, quando viu a bela ruiva de mãos dadas com outro rapaz. Com um suspiro pesado, percebeu que as coisas aconteciam muito rápido naquela escola. Porém foi só no fim daquele mesmo dia, ao vê-la aos beijos com um terceiro rapaz, que ele percebeu que se não poderia ter o amor dela, teria pelo menos os seus lábios.

Desta vez Zan não opinou. Apenas deu os ombros como quem já está cansado de falar e não ser ouvido. Hector estava determinado e levou até um pequeno buquê de rosas oculto em sua jaqueta. Andou pela escola toda, espreitando pelos cantos até que conseguiu achar a bela donzela sozinha.

Primeiro ela ficou surpresa, e não era para menos. A expressão de Hector parecia mais de um estuprador frustrado do que de um rapaz apaixonado. Depois, quando lhe entregou as rosas, ele ficou a observando e vendo a delicadeza com a qual ela tratava as flores. Seu coração se clareou novamente e invés de pedir algo casual para não ficar sem nada, despejou todo o seu amor aos pés dela.

– Eu te amo. Te amo como eu acho que nunca vou amar alguém. Você é tão perfeita para ficar passando de mão em mão. Eu sei que eles não te forçam a isso. Sei que você deve gostar disso, mas eu estou aqui, como um servo pedindo a sua benção. Eu estou aqui para ser seu capacho, estou aqui para lhe fazer a mulher mais feliz do mundo. Eu só quero uma chance para fazer de você o anjo mais elevado que o céu poderia ver. Eu te amo, e gostaria muito que me desse uma chance para demonstrar pelo menos um pouco desse meu amor! – Hector falou tudo quase sem respirar, segurando as mãos dela enquanto tremia. Ela olhava para ele estática, até que em um sorriso lindo, respondeu com bondade.

– Eu acho tão lindo esse seu sentimento, mas se você soubesse quem eu sou e de quem eu sou filha, você não teria coragem nem de se aproximar de mim. Sabe, no início até que era difícil, mas hoje em dia eu nem ligo mais. Fico realmente lisonjeada, mas não posso ficar com você.

– Mas por que não? Seu pai proíbe você de ter namorados? Por isso você fica escondida com todos? Acha que ninguém vai ter peito para enfrenta-lo e assim ter um namoro de verdade? Eu tenho, eu enfrento! – Hector agora falava em um tom um pouco mais alto que a sua voz, que fazia ela falhar algumas vezes.

– Você enfrentaria o próprio demônio para ficar comigo? – Ela respondeu com uma seriedade fora do comum. Hector ficou um pouco confuso, afinal só conhecia uma pessoa falava daquele jeito…

– Ele pode ser tão bravo quanto um monstro, por você meu anjo, eu enfrento tudo! – Respondeu Hector um pouco mais calmo e sonhador.

– Ele não é um monstro Hector… E eu não sou um anjo. Eu sou um demônio. E meu pai é Lúcifer. – Ela respondeu deixando as rosas tocarem seus cabelos vermelhos. No mesmo instante, elas incendiaram até restar cinzas. – Ele não me proíbe de ter namorados, e eu sei que ninguém vai ter peito de enfrenta-lo, mas não precisam. Papai até que é bonzinho. Por isso eu fico com quem eu quiser, e com você eu não quero. – Ela disse com um risinho irônico.

Hector estava confuso. Completamente confuso. Aquilo que ela dizia, era realmente verdade? E aquele truque com as rosas e o cabelo? O que estava acontecendo afinal. Bárbara deixou o garoto sozinho com seus pensamentos. Hector, em meio a sua confusão só conseguiu falar baixinho:

– Não é um anjo…

A moça se virou então e disse por fim:

– Não. Eu não sou um anjo. Você anda com o anjo.

Hector permanecia ali parado. Reparou então como o ambiente estava silencioso. Era como se o tempo tivesse parado, como se tudo estivesse congelado, até mesmo seus nervos. Quando ela sumiu pelo corredor, ele se virou e deu de cara com um professor, caindo no chão com o esbarrão.

– Hector, você está bem? – Perguntou o professor o ajudando a levantar.

– Sim senhor. – Respondeu Hector ainda confuso com a cabeça baixa.

– Que ótimo. Zaniel está te chamando na biblioteca. Ele pediu para que eu fosse procura-lo.

– Tudo bem, obrigado. – Respondeu Hector, percebendo todo os barulhos retornando aos poucos, invadindo seus ouvidos e perturbando ainda mais a sua mente.

juhliana_lopes 22-08-2016

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