Quem é o Assassino? #Final

Boris pediu um momento com Adam para conversarem e então ele sugeriu que fossem para os corredores próximos as salas, pois além de vazios, ficavam longe de todo o barulho. Boris o seguiu apreensivo e então começou a falar.

– Primeiro eu gostaria de te agradecer…. Agradecer pela homenagem e pelas belas palavras, mas eu preciso saber…. – Boris engoliu seco. – São sinceras?

Adam deu um sorriso de canto. Ele tinha mordido a isca. Estava claramente apreensivo e parecia escolher com cuidado as palavras, com medo de falar algo errado. Agora era a sua chance para continuar com o teatro.

– Claro Boris. Por que acha que não são? – Respondeu Adam se mostrando visivelmente preocupado.

– Bem, é que com os números da empresa que não fechavam, imaginei que você pudesse achar que fosse culpa minha ou algo do tipo. Incompetência da minha parte, não sei…. – Boris tentou se explicar, sem graça.

– De maneira nenhuma Boris…. – Disse Adam pegando as mãos de Boris. – Eu tenho trabalhado com Isaque direto para descobrir o erro, mas nenhum deles aponta para você. Acho que se não fosse pela sua experiência, talvez eu já tivesse afundado a empresa, nunca administrei algo deste tamanho. É tudo novo para mim.

– Acho que criei uma confusão em minha cabeça, eu peço desculpas…. – Disse Boris com um tom suave, porém ainda confuso. – Mas talvez fosse melhor rever o seu secretário. Acredito que Isaque seja uma má influência.

A mente de Boris havia dado um nó e agora ele resolverá apelar para não acabar se entregando. Estava nervoso e despreparado. Suas mãos suavam e sentia suas pernas tremerem. Era preciso falar devagar para conseguir falar corretamente, sem que o seu estado de choque o afetasse mais do que já havia mostrado.

– Como assim? – Perguntou Adam com um tom curioso.

– Ora, eu não iria falar nada, afinal estava com medo de que você também estivesse contra mim, mas agora percebo que ele é o verdadeiro culpado de tudo. – Disse Boris, engolindo seco mais uma vez, tentando fingir surpresa.

– O que está acontecendo Boris? – Perguntou Adam em um tom mais sério. Percebeu logo a manobra do velho e resolveu incentivar para ver até onde aquela cobra traiçoeira iria.

– Isaque quer roubar o seu lugar. Ele me ameaçou há alguns dias no vestiário com uma arma. Alguns documentos importantes sumiram e eu tive que refazer tudo para lhe apresentar. Eu tive medo do impacto que isso poderia trazer para a empresa, ainda mais depois das mortes que tivemos, então não falei nada. Ele insinuou que você estivesse por trás disso, mas agora eu vejo que ele foi o grande culpado de tudo. Você corre perigo Adam! – Explicou Boris, falando tudo de uma vez um pouco embolado. Estava começando a perder o autocontrole. Sua cabeça doía com o esforço que fazia para não deixar seus pensamentos o atropelarem.

– Olha, você sabe que esta história é muito difícil para eu acreditar. Isaque sempre foi o meu homem de confiança, assim como Liam é o seu. – Disse Adam com um leve tom transparente de deboche, parecendo desinteressado com aquela conversa.

– Liam? Meu homem de confiança? – Perguntou Boris assustado. Será que de fato Adam não sabia ou desconfiava de nada? Essa pergunta martelava sua mente permanentemente agora e ele sentia sua visão ficar turva e voltar ao normal várias vezes.

– Ora Boris, notei que vocês são muito próximos desde o primeiro dia. Ele pode não ser seu secretário, mas sei que são bons amigos e ele deve lhe dar ótimos conselhos. – Respondeu Adam com um tom mais tranquilo, ainda para incentivar a loucura de Boris.

– Realmente…. – Boris disse um pouco mais aliviado. – Mas Isaque não é como Liam, acredite. Ele não está interessado em fazer as coisas certas, ele quer te prejudicar! – Disse Boris recobrando seus pensamentos insanos. A verdade é que agora nem ele conseguia mais acreditar nas coisas que dizia. Será que este era o grande plano de Adam? Fingir aquilo tudo para vê-lo fraco e amedrontado e assim fazê-lo confessar tudo? Não, isso não estava certo. Ele mesmo havia convidado Adam para conversarem a sós. A festa era apenas uma distração para os últimos problemas da empresa…. Ou talvez fossem uma distração para ele mesmo? Agora era tarde e ele precisava continuar com aquilo. Precisava insanamente convencer Adam de que Isaque era o culpado por qualquer coisa e que ele não tinha nada a ver com isso.  Depois de um breve tempo em silêncio, enquanto Adam o olhava com olhos grandes e atentos esperando a sua explicação, ele tornou a falar.

– Adam, meu Deus! Nós dois corremos perigo! – O velho disse em um tom que pareceu mais desesperado do que ele pretendia insinuar. Talvez não precisasse mais fingir desespero. Estava completamente em choque. Era preciso ousar mais. – Acredito que Isaque não esteja sozinho nessa.

– Como assim? – Perguntou Adam ligeiramente interessado, esperando qual seria a próxima história que Boris inventaria.

– Acredito que Isaque esteja tramando algo junto com Anne, e então os dois irão assumir a empresa. Precisamos demiti-los imediatamente! – Disse Boris assustadoramente sério.

– Olha, você já me disse seus motivos com Isaque, que sinceramente Boris, eu ainda acho pouco provável, mas agora Anne? O que ela tem a ver com isso? – Respondeu Adam tentando não fazer piada com a situação. Estava difícil controlar o seu humor com aquele circo de Boris.

– Ora, não se lembra do velório que teve aqui na empresa quando você veio com o Léo? Clara se suicidou no estoque, mas a perícia achou vestígios de um material que é usado para dopar as pessoas de forma quase instantânea. Antes disso, houve Meg que foi encontrada morta em um beco, e que depois alguns acharam que Clara havia matado. Mas eu sei de toda a verdade. Foi Anne. – Disse Boris em um tom mais alto. Mais uma vez acabou falando tudo de uma forma atropelada, ofegando bastante.

– E como você sabe? – Perguntou Adam em um tom sério. Seus olhos o fitavam para não perder nenhum detalhe daquele teatro.

– Ela é uma assassina cruel que finge ser uma moça normal! Isaque deve ter descoberto e a procurado depois de me ameaçar…. Agora os dois vão se preparar para nos matar Adam! – Boris respondeu, porém não parecia mais estar falando para Adam e sim para o vento ou mesmo as paredes. Seus olhos estavam vermelhos pela pressão do estresse envolvido. Sua boca tremia e ele babava um pouco ao falar.

– Boris, se acalma. Isso está me parecendo muito fantasioso.  Como sabe de tudo isso? – Perguntou Adam demonstrando um pouco de preocupação. Se não tomasse cuidado, aquele velho teria um infarto ali mesmo.

– Ora, Liam me contou e…. – Boris parou subitamente. Falou demais. Não queria arriscar a reputação de Liam, mas já estava feito. Não havia desculpa para retirar o que ele havia dito.

– Boris, desculpa, mas o que você está falando não está fazendo o menor sentido. Acho que a emoção da festa lhe fez mal ou a pressão dos últimos dias mexeu com a sua cabeça. Vamos voltar a festa…. – Disse Adam colocando a mão no seu ombro, ignorando a revelação que agora fazia todas as outras coisas fazerem um pouco de sentido. Pelo menos no sentido das acusações. Talvez ele tenha ensaiado aquele texto por muitas vezes com ajuda de Liam, para escapar das investigações caso houvessem. Talvez Liam tenha lhe dado a arma para que ele fosse ameaçar Isaque…. De qualquer forma, já tinha a sua certeza e a essa altura, esperava que Felipe já estivesse com tudo pronto.

– Não! – Disse Boris alto, tirando a mão de Adam de si. – Eu cansei disso ok? Cansei de bancar o tolo! Cansei de aguentar um menino mimado cheirando a leite sentado em minha cadeira! Cansei do seu tio caduco que acha que pode fazer o que quiser com um trabalho que foi uma parceria produtiva durante anos! Cansei de fingir simpatia por um moleque que acha que pode mandar no mundo! NO MEU MUNDO! Eu cansei! A empresa vai ser minha, e vai ser agora! – Boris enfim explodiu, falando tudo que já devia ter falado a meia hora atrás. Explodiu palavras e baba na cara de Adam, que além das ofensas, agora tinha também uma arma apontada para ele.

– Boris o que você está fazendo? – Disse Adam sinceramente surpreso erguendo as mãos e dando alguns passos para trás. O velho enlouquecera afinal.

– Eu vou te matar Adam, agora! – Disse Boris, efetuando o primeiro disparo.

Liam seguiu os dois pois sabia que aquela conversa poderia lhe custar alguma coisa. Se posicionou então em um corredor próximo, mas ainda não era o suficiente para ouvir a conversa. Entrou então em uma sala que dava acesso a outra onde o pessoal do design poderia trabalhar livremente. De lá, além de ouvir bem a conversa, tinha uma ótima visão dos dois, sem que eles o vissem.

Ao ver Adam tecendo elogios para Boris, percebeu então a sua estratégia suja do jovem sócio, e se surpreendeu com a jogada rápida e desesperada de Boris em colocar a culpa no assistente. Colocou a mão no bolso para confortar seu coração, porém quando percebeu o descontrole de Boris, que começava a falar de Anne, o sangue começou a lhe subir à cabeça. Seria possível que aquele velho maldito estragaria tudo? Sim, mais do que possível. Adam provavelmente achava agora que o velho estava demente, e Boris ia perdendo o controle a cada palavra que dizia a seu favor. Decidiu pôr um ponto final quando ouviu seu nome. A raiva ia lhe consumindo por dentro, enquanto estava de plateia e não iria aplaudir enquanto Boris lhe entregava. Puxou a arma de seu bolso e se preparou para atirar, porém hesitou surpreso ao ver que Boris também puxou uma. Onde ele havia conseguido aquela afinal? Ele não tinha perdido a dele para o Isaque? De qualquer forma, se preparou para puxar o gatilho, logo depois que Boris puxasse o dele, acabando com dois coelhos com uma cajadada só. O velho, já estava na mira.

Anne terminou sua taça ao perceber que Liam seguiu Boris e Adam pelos corredores. Era a sua chance de pegar Liam desprevenido e mostrar e lhe dar o que ele merecia. Aprendeu cedo que os mortos não contam histórias e Liam seria mais um a ficar calado. Ao deixar sua taça sobre uma mesa, tropeçou em um convidado de fora. Lhe pediu desculpas, mas mal olhou para ver em quem tinha esbarrado. Estava apressada. Precisava ser rápida. Havia muitas salas vazias e indo por um corredor paralelo, ela conseguiu a acesso a antiga sala de Manoela que ainda não havia sido ocupada. Lembrou da conversa fiada sobre fantasmas na empresa e riu ao pensar nas besteiras que as pessoas inventam para justificar seus medos. Da sala de Manoela, ela pode ouvir toda discussão, e esperou pacientemente que Liam aparecesse para então dar um jeito nele. Porém, ele havia sumido e não parecia que ia interromper a conversa tão cedo. Será que além de fofoqueiro ele também era covarde? Será que ele estaria roubando a sala de Adam enquanto aquela discussão tola de Boris e Adam fosse só uma distração? Anne já começava a se distrair com as próprias pernas, que balançavam com a ansiedade do momento quando ouviu Boris dizer seu nome. Só então prestou atenção no que o velho dizia. Viu então que realmente Liam havia contado a ele quando Boris falou demais, porém para sua sorte Adam não estava lhe dando muito crédito, provavelmente achando que o velho estava louco ou inventando qualquer coisa para não se ferrar. Quando Adam estava se preparando para convencer Boris a voltar para festa, viu Boris o velho puxar uma arma para Adam, que recuou assustado. Olhando com atenção pela persiana, percebeu uma figura nas sombras, apontando algo para Boris na sala do outro lado do corredor. Anne então se posicionou confortavelmente para apreciar o show.

Assim que Adam e Boris entraram corredor a dentro, Felipe também os seguiu, porém virou para o outro lado. Ele tinha que ser rápido e chegar na sala de Boris. Rapidamente começou a plantar evidências simples como documentos falsificados, além de papéis com assinaturas faltas. Ele teve cinco dias para aprender a assinatura do velho e como um bom designer, não decepcionou. Com alguns amigos, conseguiu também algumas drogas leves e as escondeu em cantos estratégicos de quem não quer ser descoberto. Com tudo pronto, saiu com cuidado e se encontrou com Isaque. Tudo estava andando conforme o plano.

– Tudo pronto, agora eu vou por esse lado e você vai até eles. Quando me der o sinal, eu dou um jeito de segurar a fera. – Disse Felipe quase em um sussurro.

– Certo, irei para lá imediatamente. – Respondeu Isaque.

Isaque ofegava e respirava fundo para tentar controlar a sua respiração. Estava visivelmente com medo e nervoso. Raramente se sentia assim, mas agora era diferente. Não estava só roubando carteiras, estava cada vez mais metido em algo grande. Em todo caso sabia que precisava chegar logo, afinal Boris não pensava bem sob pressão e ele não poderia garantir que ele também não tivesse comprado uma arma. E Liam? Enquanto ainda estava no salão, percebeu que Liam havia sumido. Será que Boris pediu para ele comprar a arma e fazer algo com Adam? A ideia de que esse plano doentio poderia estar acontecendo corroeu ainda mais seu coração. Sua respiração ainda falhava e andava apressado com os punhos cerrados, esperando que nada desse errado. Ninguém nunca lhe dava uma chance, ainda mais depois de que descobriam seu vício. Adam foi o primeiro que mesmo sendo prejudicado acreditou no seu potencial, era um bom amigo e um ótimo patrão. Não queria perder isso. Quando enfim chegou no corredor onde os dois estavam, ainda oculto pelas sombras, ouviu Boris dizer em alto e bom som que mataria Adam. Mesmo desesperado, deu alguns passos cautelosos a frente e viu a arma reluzir em meio a pouca luz do ambiente, o que tornava a cena ainda mais macabra. Em um impulso de coragem, não pensou duas vezes quando ouviu o disparo, se jogando na frente de Adam.

O jovem empresário ficou surpreso. Por um momento viu a morte em seus olhos, de maneira clara e direta. Estava começando a pensar se não tinha ido longe demais com aquele plano maluco, mas de repente Isaque estava ali, jogado no chão sangrando. Se ele estava ali, queria dizer que Felipe obteve sucesso, mas agora de que isso adiantaria? Sua mente ficou anestesiada e levemente perturbada. Depois desse leve estado de choque, como se acordando de um sonho, se abaixou para tentar acudir o rapaz e ouviu o segundo disparo. Ao olhar rapidamente para cima, viu Boris cair e o sangue escorrer lentamente pelo chão. Adam não conseguia ver muito bem, mas o tiro tinha vindo pelas costas de Boris. Isaque, ainda estava vivo, porém o tiro o havia acertado próximo da costela.

– Senhor… – disse Isaque baixinho com dificuldade. – Obrigado por confiar em mim….

– Fique quieto Isaque, vou conseguir ajuda para você. Não durma, ok? – Adam tentava tranquiliza-lo enquanto olhava ao redor. Felipe se aproximou logo em seguida com uma expressão de pavor do outro lado do corredor, por onde o tiro que acertou Boris veio.

– Felipe, foi você? – Adam o questionou com a voz trêmula, apontando para Boris.

– Lógico que não Adam, eu nem estava aqui, e você sabe que eu não sei atirar. Vi alguém apontando a arma de lá, oculto no escuro e depois sair correndo. Eu pensei em segui-lo, mas fiquei preocupado. – Felipe falava afobado tão surpreso quanto Adam com a situação. – Eu…. Eu vou chamar uma ambulância, já volto. – Ele disse por fim correndo em direção ao salão.

– Adam…. – Chamou Isaque, tossindo – É melhor você sair daqui…. Liam…. Liam deve estar com uma arma também….

– Não vou te deixar aqui sozinho Isaque. Não neste estado. Agora, quieto. – Adam tentou tranquiliza-lo novamente, mas agora, também estava morrendo de medo com a possibilidade eminente de ser morto.

677352317_81a3888671

Anne ficou surpresa por Boris ter tido coragem de atirar realmente e mais surpresa ainda quando Isaque apareceu do nada e protegeu Adam. Não teve tempo de imaginar qual trama já estava planejada, pois logo viu outro tiro acertar Boris que caiu duro no chão, porém o tiro que o matou não veio de Liam. Anne então pensou um pouco, tentando buscar algo em sua mente em uma surpresa quase infantil se pegou pensando alto “Era ele”. Correu para fora da sala antes da chegada de Felipe que para a sua sorte não a viu correr pelos corredores.

Liam, pela outra sala também ficou perplexo. Ainda tinha sua arma apontada agora para o vácuo sem acreditar no que havia acontecido. Sua mão tremia e o coração estava acelerado. Quem havia atirado naquele velho maldito? Será que Anne resolveu se vingar pela investida dele no banheiro? Não…. Ela era discreta demais para tentar uma coisa dessas, não parecia ser algo vindo dela. Mas então quem poderia ter feito isso? Acordando de seu momento de espanto, se encolheu atrás de uma mesa quando ouviu Felipe chegar. Ele tremia e deixava seus pensamentos rápidos especularem, tentando descobrir quem poderia ter feitos o disparo. Para ele, ficou claro que Felipe tinha cometido este crime, afinal porque ele estaria vindo todos esses dias? Ele ouviu o rapaz negar quando Adam perguntou, mas ainda assim, Liam não conseguia acreditar. Em todo caso precisava sair dali antes que o resgate chegasse e alguém descobrisse o seu esconderijo. Agora era mais do que hora para ele sumir.

Conseguiu sair pelo mesmo caminho que veio, sem ser visto e correu para a sala de Adam. Lá havia uma janela grande de vidro, que tinha a vista para a avenida na frente do prédio. Precisava abrir sua mente um pouco e respirar. Estaria seguro e de lá seria um esconderijo melhor, já que Adam estava preocupado com Isaque.

Chegou na sala correndo e fechou a porta. Não conseguiu trancar, pois as chaves não estavam lá. De qualquer forma, agora seu coração começava a se acalmar e ele parou para admirar a paisagem. As luzes da noite se confundiam com as luzes do carro e a escuridão da noite, quase não era notada em meio a toda claridade da cidade.

– Que merda vai acontecer agora? – Liam disse para si mesmo, suspirando vendo as ambulâncias chegarem.

– Você morre. – Disse uma voz, na escuridão.

Liam atordoado, tremeu com um arrepio estranho. Não sabia se estava ouvindo coisas ou se havia mais alguém ali com ele. Ficou com medo de descobrir. O medo tomava conta de cada parte do seu ser.  Aos poucos estava enlouquecendo também, como Boris. Depois de olhar ao redor, percebeu uma sombra que apontava uma arma para ele. A figura então deu dois passos à frente, se revelando por completo. Era um rapaz distinto, barbado e com poucas palavras. Seu olhar era frio e ele lhe encarava com pesar, como se olhasse para sua alma.

– Ele não. – Disse Anne entrando na sala de repente. – Esse eu vou matar. – Ela disse em um tom sério que Liam nunca ouviu. Observou quando ela se aproximou do rapaz com uma determinação estranha. O rapaz não desviou o foco da arma e dos olhos nem um milímetro. Apesar de não dar a devida atenção a moça, ele parecia obedecê-la.

– O que significa isso Anne? – Perguntou Liam, sendo tomado pelo seu próprio desespero.

– Um delicioso acaso que eu vou ter o prazer de aproveitar. – Respondeu Anne com um tom insano e de deboche anormal. Seu olhar era tão frio quanto o do rapaz, porém ela tinha um brilho diferente, como de quem está saboreando cada momento. O rapaz barbado, não desviou os olhos e atirou, porém, desviou a arma no último momento, acertando o joelho de Liam. Não houve tempo para qualquer defesa, pois Liam se distraiu com aqueles olhos vazios em meio ao seu desespero e declínio pessoal.

Ele caiu com o joelho sangrando e espatifado. Gritava de dor, rolando no chão. Seus olhos se encheram de lágrimas, em uma mistura de raiva e impotência.

Anne com uma expressão vazia, olhava Liam como um predador ao olhar sua caça que tenta debilmente escapar depois de ser ferida. Liam não tentava fugir, mas procurava em seus olhos, algum tipo de redenção inútil.

Anne levantou a saia revelando sua coxa que parecia mais branca com as luzes da janela. Usava uma cinta liga e de lá, tirou uma faca, grande demais para ser um simples canivete. Aquilo era um punhal, talhado com belos desenhos em sua lateral. Seu fio, afiado, reluzia em meios as luzes, assim como a pele da moça.

Liam nada pode fazer, pois a perda de sangue e a dor infernal do joelho espatifado lhe deixava sem forças para lutar. Anne se ajoelhou perto de sua cabeça e lhe cortou a garganta. Foi um corte rápido, porém profundo que fez seu sangue esguichar e escorrer ensopando o tapete.

Ela se levantou e se aproximou de Santiago que observava tudo, com a mesma expressão vazia que a dela.

– Não imaginei que fosse te encontrar tão cedo. – Ela disse quando o corpo de Liam terminou de agonizar dando o último espasmo.

– Eu imaginei. – Ele respondeu com sua voz grossa, que parecia mais grossa que da última vez, em meio àquela sala vazia e escura, exceto pelas luzes que traziam uma penumbra para o ambiente.

– Eu preciso ir embora. Isso vai virar um pandemônio. – Anne respondeu, se aproximando da janela observando mais uma vez as luzes confusas da cidade, pulando o corpo de Liam.

tumblr_lqvec2lhwF1qi23vmo1_500_large

– E eu preciso ma… matar mais algumas pessoas. Está na hora do ma… massacre. – Ele respondeu, com uma voz sutil, como quem está com pensamentos distante, revirando uma bolsa que ele havia deixado no canto da sala. De lá tirou uma metralhadora.

Anne se aproximou da porta e observou o corpo de Liam mais uma vez. Então se surpreendeu com Santiago tão próximo dela, vindo por trás.

– Você é boazinha? – Perguntou ele ainda apático.

A pergunta não fazia o menor sentido, mas mesmo assim Anne respondeu:

– Talvez um dia. Quando eu era uma criança e inocente.

– Você ainda é inocente? – Ele perguntou novamente em um tom mais pesado, se aproximando mais.

– Acredito que não… – Anne respondeu com um medo visível nos olhos, segurando o cabo de sua faca com um pouco mais de força.

– Eu acho que ainda é. E isso é o que importa. Agora, se me dá licença, eu preciso fazer uns.… trabalhos. – Santiago respondeu tentando colocar um papel no bolso que caiu debilmente no chão sem ele perceber.

Anne viu então quando ele sumiu pelo corredor. Era possível ouvir também a correria dos paramédicos com suas macas. Se sentia anestesiada e com uma sensação de dever cumprido. Precisava muito de um banho quente, porém ela não pode conter a sua curiosidade e então pegou o papel que Santigado havia derrubado para ler.  Havia alguns itens escritos e alguns riscados de vermelho. Roubo, sequestro e assassinato eram alguns itens que estavam riscados, assim como “assassinato pelas costas (aleatório) ”. Logo abaixo estava massacre, terror psicológico, estupro e necrofilia. Massacre estava riscado com uma cor diferente, que ao reparar, Anne viu que era a mesma de uma caneta que estava sem tampa sobre a mesa de Adam. Anne engoliu seco e saiu apressada, ao perceber que com essa caneta também estava escrito “Anne” ao lado de estupro e necrofilia.

Foram cerca de 30 mortos e pelo menos 10 feridos naquela noite. Funcionários e convidados aleatórios, sem qualquer tipo de ligação. Pela manhã, as testemunhas dos arredores ainda estavam sendo ouvidas. A maioria não percebeu nenhuma movimentação estranha antes da festa, mas duas relataram ver um homem sair com uma mochila preta, carregando o que parecia ser uma moça de vestido preto nos ombros e entrar em um carro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s