Pergaminho perdido sobre a Grande Ameaça

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Esse é mais um dos muitos pergaminhos que irão descrever para as futuras gerações estes tempos de trevas. Eles existirão para que nos momentos de paz, nossos filhos e netos nunca se esqueçam do sofrimento que eles foram poupados e aprendam a se defender antes de sucumbirem diante de um ataque. Já são 50 dias desde que saímos de nosso reino a mando do rei, para dar o alerta e ajudar a proteger os outros reinos. O Rei Gorgo do reino do Oeste, nos recebeu muito bem e conseguiu se preparar pouco antes da grande ameaça chegar. As baixas foram poucas e com uma muralha reforçada graças a nossa lastimável experiência, conseguiram manter a situação estável. Assim como os alquimistas do Sul, os do Oeste começaram a trabalhar sem pausas, em busca de mais materiais, que possam quebrar este grande mal.

Após a derrota das primeiras hordas, com a situação sob controle, seguimos então pela fronteira, passando pelas lagoas e os rios da floresta da Meia Noite, em direção ao reino do Norte, com os cavalos acelerados para ganhar tempo e assim evitar que mais um reino seja pego de surpresa. Os cavaleiros e todos nós estamos cansados e com medo. Quando a grande Ameaça chegou no reino do Sul, ninguém sabia dizer exatamente o que era e muito menos como seria possível enfrentar aquilo. No início, surgiu como uma mancha escura no mármore da fonte principal da cidade que então, ao cair da noite, se abriu em um buraco com uma espécie de gosma escura ao redor. De lá, saíram três hordas de cavaleiros negros que em pouco menos de uma hora, tomaram conta de todo o vilarejo principal, seguindo em direção ao castelo.

As espadas comuns não faziam efeito, pois todos os cortes abertos se fechavam no mesmo instante como mágica. Os cavaleiros negros não caíam e seguiam indestrutíveis, até que Joshua, o Intocado, surgiu em meio a destruição com sua espada forjada com ouro antigo, e derrubou o primeiro cavaleiro das trevas. A sua lâmina era capaz de decapitar os inimigos sombrios com um só golpe. Foi visto que em todo o reino do Sul, considerando a espada de Joshua, só haviam 5 espadas de ouro, que estavam na sala de arma do rei, e no momento da batalha, sob seu comando, foram confiadas ao príncipe, e a mais três cavaleiros.

Então, juntos e com muita exaustão conseguiram conter as hordas das trevas. O dia já amanhecia quando a primeira batalha acabou e então o buraco da fonte se fechou sozinho, restando apenas a mancha negra. Percebemos então que eles só saíam a noite e assim, foram dias e mais dias trabalhando para conter as hordas e encerrar a entrada. O rei, preocupado com os reinos vizinhos, designou uma caravana, liderada por Joshua para avisar os outros reinos, começando pelo reino do Oeste, para que nenhum povo sofresse como nós havíamos sofrido e assim juntar nossas tropas para evitar que este grande mal crescesse. Hoje, 50 dias depois desse acontecimento, estamos indo em direção ao reino do Norte, esperando que ainda tenha um reino para avisar e proteger.

(…)

Já passava da hora do sol a pino, quando paramos para acampar perto de uma clareira no meio da floresta. Estávamos em 14 homens. Havia uma grande lagoa cristalina, e muitos animais selvagens ao redor. Joshua nos acompanhava e parou em uma árvore para descansar os olhos. Outros dois cavaleiros foram caçar um cervo, enquanto eu e o outro escrivão e soldado do reino preparávamos a fogueira. Então, Hélio, nosso cavaleiro mensageiro seguiu em direção a água, olhando alguma coisa. Os outros nove soldados que descansavam no chão ficaram nervosos, com medo de ser algum sinal da grande Ameaça. Porém, um canto doce tomou conta de nossos ouvidos, e logo estávamos todos em volta da água, procurando aquele som maravilhoso.

Eis que na outra margem, apareceram três donzelas desnudas, com os cabelos cor de mel, molhados e colados ao corpo. Sua pele levemente corada do sol reluzia com o brilho da tarde. Eu mesmo já havia ouvido muitas histórias, mas ali, diante dos meus pobres olhos mortais, estavam três ninfas de água doce. Três demônios sereias como os livros diziam. Confesso que no meu íntimo, não compreendia e praguejava quem as havia lhe dado tal alcunha, pois ali, não havia nada de demônio e sim, apenas uma beleza pura e que dê certo, deveria ser divina.

Aquele canto agradável, atraiu então Hélio para a lagoa que decidiu ir de encontro as belas damas do outro lado. Ele, nadava desesperado e as ninfas o incentivavam com gritos e risos alegres, espirrando água com suas mãos. Ao chegar no meio do lago, ele perdeu o chão e só então percebeu o quão profundo eram aquelas águas. Além disso, ele havia entrado de armadura e agora ela lhe pesava o corpo, o fazendo afundar e se afogar. Hélio, temendo a morte, pedia ajuda as ninfas que se quer se mexiam em seu socorro e cantavam mais canções, fazendo com que também ignorássemos o sofrimento de nosso companheiro.

Eis que do meio das águas, em uma onda incomum que arrastou Hélio de volta para a margem e interrompeu o canto doce das sereias, surgiu um ser que à primeira vista imaginei ser uma deusa reluzente, porém, era também uma sereia, mas não como as outras. Ela apareceu com um brilho incomum e tinha placas de ferro presas em seu corpo, como uma armadura. Usava um elmo prateado que cobria parte do seu rosto, deixando sua boca a mostra. Conforme ia se aproximando de nossa margem, sua cauda se desfazia, revelando suas pernas que também estavam cobertas com uma espécie de armadura que lembrava as grandes saias das princesas. Mesmo parecendo ser de ferro, o material era leve e maleável o bastante para que ela andasse sem qualquer dificuldade.

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Na margem, ela observou todos nós sem dizer uma só palavra. Então, em uma língua estranha, gritou alguma coisa para as outras ninfas que debandaram para dentro da água. Os soldados mais uma vez se encheram de medo e ficaram atentos. Já Hélio, com toda sua raiva e coragem, empunhou sua espada e avançou. Ela, com uma espada que parecia ser de prata, porém era levemente verde como alga, cortou o golpe, o derrubando no chão e jogando a espada simples para o outro lado, com apenas uma mão. Ela, guardou a espada na bainha e com uma voz suave perguntou quem era o nosso líder.

Joshua que continuava deitado na árvore, se levantou e se apresentou. A moça então tirou o seu elmo, revelando uma beleza ainda maior que a das sereias do outro lado. Ela tinha olhos de duas cores, um azul e outro amarelo, além de uma leve cicatriz sobre a sobrancelha direita. Parecia que tinha sido esculpida no mais belo mármore, e a água que lhe corria pelo rosto dos cabelos molhados, a fazia parecer uma pintura perfeita. Seu cabelo, era um castanho claro, quase mel, e também do lado direito, tinha três tranças pequenas, que se misturavam com o resto do cabelo solto.

– O que vocês fazem aqui? Não deviam estar aqui. – Ela disse em um tom severo.

– Estamos a caminho do reino do Norte. Somos do Sul. Estamos em caravana para avisar sobre um grande mal.

– Vocês poderiam ter ido pela estrada. Por que vir por aqui? – Ela perguntou com autoridade.

– Para ganharmos tempo. Existe um mal que aparece toda noite, e entra pelo reino através de um buraco negro nas pedras de mármore. Até agora, sabemos apenas que o ouro é capaz de parar essas criaturas, por isso estamos a caminho dos reinos, a pedido do rei do Sul, para lhes avisar e lhes dar uma chance de salvar o seu povo de grandes baixas. A chance que não tivemos. – Explicou Joshua com paciência. – E qual a sua graça? Quem é você? – Ele disse fazendo uma reverência irônica.

Ela, observando o gesto com frieza, deu um leve sorriso de canto. Enquanto isso, todos nós ficamos apreensivos com o gesto do Intocado, e com medo de que a aquele ser ficasse zangada.

– Sou Maena. 1º General do reino de Cyperus, sob a ordem do Rei Chez. E você?

– Sou Joshua. 1º Cavaleiro do Reino do Sul sob missão. – Respondeu Joshua engolindo seco. – Eu peço desculpas caso…

– Eu nunca ouvi falar desse reino… – Interrompeu Hélio, ainda zangado com o quase afogamento e a investida da General contra o seu ataque.

– É porque fica debaixo da água. Se você aprender a respirar embaixo d’água, eu ficarei lisonjeada em te mostrar tudo um dia. – Maena respondeu com o mais profundo sarcasmo.

– Como eu estava dizendo…. – Disse Joshua sério, olhando para Hélio. – Peço desculpas pela minha falta de jeito e por termos provocado algum incômodo. Não era a nossa intenção. Em todo caso não sei como esse mal se comportaria na água, então agora que sabemos da existência de vocês, espero que possam se preparar. – Ele terminou com um tom cortês.

– Eu agradeço. – Ela respondeu ainda com um tom sério. – E peço desculpa pelas meninas. Há muito tempo elas não se alimentam de nada humano, apenas animais da floresta mesmo. Sentiram cheiro de carne nova e resolveram ver do que se tratava. Peço para que vocês também tomem cuidado, pois não posso protegê-los toda hora. Ainda assim, lhes darei a ordem para que não se alimentem de caravanas nos próximos dias.

A reunião estava enfim, sendo perfeitamente bem-sucedida, e a fogueira já estava alta. Antes, porém que os soldados pudessem chegar com o cervo para assar, fomos surpreendidos por ladrões. Eles eram altos e bárbaros, e conseguiram derrubar e ferir pelo menos três de nossos soldados. Joshua e Maena lutaram lado a lado, e sozinhos, eles conseguiram derrubar mais ladrões que o resto de nós. Era realmente uma luta incrível e uma graça ver a sereia general manejar a sua espada, parecia não haver qualquer peso em suas mãos.

Os bárbaros então fizeram uma emboscada, e prenderam Joshua com uma rede. Parecia que seríamos dominados, pois muitos de nós já estávamos amarrados. Eles eram realmente mais fortes e extremamente habilidosos, além de trapaceiros em suas lutas. Apenas a general ainda estava de pé, lutando sozinha e ainda conseguindo conter muitos. Com um golpe traiçoeiro, conseguiram tomar a espada de suas mãos e então percebemos que havia magia nela. Na mão da sereia, ela parecia não ter peso algum, porém quando o ladrão imundo a tocou, ela caiu pesada no chão e nenhum deles conseguia levantá-la para lutar, apenas arrastá-la para longe de sua dona.

Apontaram uma espada para o meu pescoço, e então imaginei que estava tudo perdido, até ouvir um canto, ainda mais bonito que os das ninfas. Maena começou a cantar, não uma música de sereia, mas uma música antiga que muitas vezes tocávamos em festa. A música é tão antiga, que há muitos anos é passada de geração em geração, e eu mesmo confesso que nunca havia ouvido a letra completa. Logos os bárbaros estavam calmos e indo em direção a água, mas não eram só eles que se encantaram. Todos nós queríamos nos desfazer das amarradas e segui-los como se aquilo fosse mais forte que tudo. Hélio conseguiu se soltar e foi correndo em direção a água. Joshua também se soltou e o segurou o mais firme que pode, o arrastando de volta e o amarrando. Um a um, ele conferia as amarras, para que não entrássemos na água. Uma vez dentro, podíamos ver os bárbaros virarem comida, como se houvesse mil crocodilos os devorando, mas não eram crocodilos. Como se eu estivesse despertando de um sonho, pude ver a carnificina e descobri enfim por que o nome de “demônios sereias”. Maena parou de cantar e não entrou na água. Apenas observava de longe, ainda em terra firme.

A água ficou em um tom vermelho escuro por causa do sangue dos ladrões. Havia também, boiando na água, partes não devoradas como braços e pernas. Muitos soldados horrorizados, se afastaram da general quando ela caminhou em direção a sua espada. Joshua ajudava os outros soldados a se soltarem e logo eles recolhiam as coisas do acampamento para seguir viagem. Ainda estavam exaustos e com fome, mas nenhum deles queria mais descansar ali.

– Então você é o Intocado? – Perguntou Maena para Joshua, ao perceber que ele não havia sido o único que não foi encantado.

– Dizem que eu sou. – Ele respondeu sem lhe encarar nos olhos, ajudando a desamarrar o último soldado.

– Você conhece a profecia? – Questionou mais uma vez Maena.

– Que profecia? – Ele perguntou curioso, agora encarando a moça. Ela tinha olhos grandes e curiosos para ele, como quem tem um truque na manga e está pronto para usá-lo.

– Se vê logo que não conhece. – Ela disse pegando sua espada do chão – Vá para o reino do Norte e os salve. Depois siga para o reino do Leste pelas colinas e não pelas montanhas, senão vocês podem cair no grande abismo. Quando terminar sua caravana, volte aqui e lhe contarei o que quiser saber. – Ela disse em um som suave, lhe entregando uma peça de prata verde. – Jogue isso na água e eu virei ao seu encontro.

Joshua recebeu a peça, um pouco confuso e era a primeira vez que eu e acredito também que todos os outros, pudemos vê-lo assim. A general, batendo continência, virou-se e seguiu para a água que já estava limpa e cristalina novamente, como se nunca tivesse sido tocada por nenhum homem. Ao entrar na água, sua cauda voltou e ela afundou de volta para o seu reino.

(…)

Foram 55 dias desde a aparição da grande Ameaça e cinco em que nos encontramos com as sereias do Reino de Cyperus. Agora, faltam só mais cinco dias para chegarmos ao reino do Norte para completar metade de nossa missão. Aqui, registramos todos os acontecimentos desse grande mal para que ninguém se esqueça de nós e de nossa história. Aqui deixamos o nosso legado, que será preservado para muitas gerações. Aqui estão todos nossos segredos e dúvidas, além de registros mágicos. Aqui, está tudo o que fomos um dia e tudo o que somos.

juhliana_lopes 27-08-2016

Insistente

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Hector estava completamente apaixonado. Nunca havia se sentido assim, mas agora só tinha olhos para a aluna nova. Ela era realmente muito bonita, parecia uma escultura renascentista e agora ele falava dela com todos os elogios bregas que conseguia imaginar que poderiam exaltar ainda mais a beleza dela com o seu amigo.

Ele era um fracasso com as mulheres, é verdade. Desde o ensino fundamental, não tinha sorte nem naqueles jogos de verdade ou desafio. As meninas simplesmente o rejeitavam como se ele fosse um portador de alguma doença grave. Hector também tinha problemas com amigos. Ele não era bom em nenhum esporte ou jogo que pudesse ajuda-lo a socializar, então ele foi uma criança muito sozinha.

Seus pais mudaram de cidade e por consequência o mudaram de escola, que apesar de ser um prédio meio sombrio, era extremamente agradável. Lá, Hector conseguiu seu primeiro melhor amigo que tinha um nome engraçado. Zan, como Hector o chamava, era um menino alvo de cachos dourados. No começo, percebeu que alguns o chamavam de veado, mas ele parecia lidar bem com isso, ignorando todas as ofensas. Hector o admirava pela sua intensa sabedoria que as vezes parecia datar de tempos antigos. Além disso ele era muito bom em escalar coisas e o ensinou a subir nas árvores e a “cair” sem se machucar.

Hector ainda falava da menina com os olhos brilhantes, sem perceber que Zan já começava a ficar entediado com aquela conversa. Quando parou para respirar, percebeu pela expressão do amigo que ele já era contra aquela “relação”, antes mesmo de começar. Mesmo sabendo que ele seria contra, resolveu ouvir o amigo para então quebrar cada argumento com palavras bonitas sobre seu amor platônico.

– Ela não é boa. É melhor nem tentar. – Zan respondeu desinteressado, enquanto mordia seu sanduíche natural.

– Mas Zan…. Ela parece um anjo….

– Mas não é. Pode até ser filha de um, mas ela mesmo não é. – Zan respondeu em um tom mais sério, que usava normalmente quando aparentava ser mais velho.

– Não adianta você ficar torcendo contra. Ela vai ser a mulher da minha vida! – Disse Hector com um tom sonhador.

– Você que sabe. – Zan deus os ombros.

A garota, se chamava Bárbara Naamah, revelando assim ser estrangeria. Mesmo se não fosse pelo nome diferente, suas feições mostravam que ela era de muito longe. Tão alva quanto Zan, seus cabelos ruivos voavam fácil ao vento. Por vezes pareciam mudar de cor, ora um laranja opaco como o fim de uma tarde fria, ora vermelho como uma chama ardente. Ela era miúda e magra, e andava com uma delicadeza de uma bailarina. Ainda assim, não era fraca, demonstrando várias vezes sua força nos jogos durante as aulas de educação física.

Nolin, o garoto popular já havia se aproximado dela, mas aparentemente não havia conseguido nada. Ela era linha dura e Hector estava adorando isso. Ele estava decidido a se aproximar, mas sentia que seu coração iria pular para fora da boca toda vez que tentava. Da forma antiga, escreveu um bilhete e escondeu em seu caderno. Ficou olhando de longe para ver a sua reação, que despedaçou um pouquinho o seu coração. Ela achou o bilhete, leu e o jogou fora na mesma hora. Nenhuma expressão de surpresa, nenhuma expressão de curiosidade para saber quem era. Apenas leu como quem lê um recado na geladeira e o descartou.

Hector ainda tinha muito amor para dar e resolveu uma aproximação mais direta, porém quando estava frente a frente com ela, sentiu suas pernas tremerem e suas mãos suarem instantaneamente. Ela, com um olhar confuso apenas disse um Oi e perguntou se poderia ajudar em algo. Ele, sem graça, disse um Oi também e pediu licença para pegar um livro que estava atrás dela. Ela saiu de sua frente e seguiu andando com suas amigas que riam da timidez do garoto.

Hector começava a ficar com raiva de si mesmo e se sentia um fracassado. Zan, apareceu como um bálsamo tentando lhe trazer de volta a razão:

– Você é bem insistente. – Ele disse em um tom despreocupado.

– Eu sou um idiota. A menina está ali! É só eu chegar e falar com ela. – Dizia Hector batendo contra a própria cabeça.

– Por que você simplesmente não parte para outra? Existem muitas outras garotas por aí… – Zan lhe aconselhou.

Hector então olhou para Zan para tentar identificar algum tom de sarcasmo. Seu rosto estava contra o sol e ele não conseguia enxergar todos os detalhes do seu rosto. Era estranho admitir isso para si mesmo, mas Hector podia jurar que as vezes Zan parecia ter um rosto tão feminino quanto qualquer menina. Ao mesmo tempo, ele não era nem um pouco afeminado, e ao aconselhar sobre qualquer assunto, seu tom de voz era de alguém que tinha mil anos, por isso Hector tentava encontrar alguma ponta de ironia, pois por mais que ele estivesse sendo, era qualquer impossível de identificar.

O garoto sonhador resolveu então levantar e em um ato desesperado, falar com ela de uma vez. Se declarar, colocando a cara a tapa, porém, antes de dar um passo, viu quando sua musa passou alegre e sorridente, guiando outro garoto pela mão até um canto qualquer da escola. Logo os dois estavam unidos por um beijo longo e demorado. Hector, com seu sensor de fracasso quase estourando, sentou-se no chão, deixando todo o seu peso cair sobre a grama de uma vez. Olhou mais uma vez para o rosto de Zan, que tinha um leve sorriso nos lábios. Agora sim, qualquer coisa que aquele maldito falasse seria irônico.

No outro dia, Hector andava cabisbaixo pelo corredor, quando viu a bela ruiva de mãos dadas com outro rapaz. Com um suspiro pesado, percebeu que as coisas aconteciam muito rápido naquela escola. Porém foi só no fim daquele mesmo dia, ao vê-la aos beijos com um terceiro rapaz, que ele percebeu que se não poderia ter o amor dela, teria pelo menos os seus lábios.

Desta vez Zan não opinou. Apenas deu os ombros como quem já está cansado de falar e não ser ouvido. Hector estava determinado e levou até um pequeno buquê de rosas oculto em sua jaqueta. Andou pela escola toda, espreitando pelos cantos até que conseguiu achar a bela donzela sozinha.

Primeiro ela ficou surpresa, e não era para menos. A expressão de Hector parecia mais de um estuprador frustrado do que de um rapaz apaixonado. Depois, quando lhe entregou as rosas, ele ficou a observando e vendo a delicadeza com a qual ela tratava as flores. Seu coração se clareou novamente e invés de pedir algo casual para não ficar sem nada, despejou todo o seu amor aos pés dela.

– Eu te amo. Te amo como eu acho que nunca vou amar alguém. Você é tão perfeita para ficar passando de mão em mão. Eu sei que eles não te forçam a isso. Sei que você deve gostar disso, mas eu estou aqui, como um servo pedindo a sua benção. Eu estou aqui para ser seu capacho, estou aqui para lhe fazer a mulher mais feliz do mundo. Eu só quero uma chance para fazer de você o anjo mais elevado que o céu poderia ver. Eu te amo, e gostaria muito que me desse uma chance para demonstrar pelo menos um pouco desse meu amor! – Hector falou tudo quase sem respirar, segurando as mãos dela enquanto tremia. Ela olhava para ele estática, até que em um sorriso lindo, respondeu com bondade.

– Eu acho tão lindo esse seu sentimento, mas se você soubesse quem eu sou e de quem eu sou filha, você não teria coragem nem de se aproximar de mim. Sabe, no início até que era difícil, mas hoje em dia eu nem ligo mais. Fico realmente lisonjeada, mas não posso ficar com você.

– Mas por que não? Seu pai proíbe você de ter namorados? Por isso você fica escondida com todos? Acha que ninguém vai ter peito para enfrenta-lo e assim ter um namoro de verdade? Eu tenho, eu enfrento! – Hector agora falava em um tom um pouco mais alto que a sua voz, que fazia ela falhar algumas vezes.

– Você enfrentaria o próprio demônio para ficar comigo? – Ela respondeu com uma seriedade fora do comum. Hector ficou um pouco confuso, afinal só conhecia uma pessoa falava daquele jeito…

– Ele pode ser tão bravo quanto um monstro, por você meu anjo, eu enfrento tudo! – Respondeu Hector um pouco mais calmo e sonhador.

– Ele não é um monstro Hector… E eu não sou um anjo. Eu sou um demônio. E meu pai é Lúcifer. – Ela respondeu deixando as rosas tocarem seus cabelos vermelhos. No mesmo instante, elas incendiaram até restar cinzas. – Ele não me proíbe de ter namorados, e eu sei que ninguém vai ter peito de enfrenta-lo, mas não precisam. Papai até que é bonzinho. Por isso eu fico com quem eu quiser, e com você eu não quero. – Ela disse com um risinho irônico.

Hector estava confuso. Completamente confuso. Aquilo que ela dizia, era realmente verdade? E aquele truque com as rosas e o cabelo? O que estava acontecendo afinal. Bárbara deixou o garoto sozinho com seus pensamentos. Hector, em meio a sua confusão só conseguiu falar baixinho:

– Não é um anjo…

A moça se virou então e disse por fim:

– Não. Eu não sou um anjo. Você anda com o anjo.

Hector permanecia ali parado. Reparou então como o ambiente estava silencioso. Era como se o tempo tivesse parado, como se tudo estivesse congelado, até mesmo seus nervos. Quando ela sumiu pelo corredor, ele se virou e deu de cara com um professor, caindo no chão com o esbarrão.

– Hector, você está bem? – Perguntou o professor o ajudando a levantar.

– Sim senhor. – Respondeu Hector ainda confuso com a cabeça baixa.

– Que ótimo. Zaniel está te chamando na biblioteca. Ele pediu para que eu fosse procura-lo.

– Tudo bem, obrigado. – Respondeu Hector, percebendo todo os barulhos retornando aos poucos, invadindo seus ouvidos e perturbando ainda mais a sua mente.

juhliana_lopes 22-08-2016

De verdade

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A verdade é que eu sinto muito. Assim como eu já senti tantas outras vezes. As lágrimas, são verdadeiras, e sempre vão existir muitas por aí. Elas parecem todas iguais, porém, cada uma carrega um peso específico, um peso de um motivo. O tempo, esse grande curador de feridas, que faz tantas pessoas ficarem frias e amargas, também ajuda a renovar a lenha que faz a brasa levantar em uma grande chama novamente. Por isso, não me surpreendo mais com minhas próprias mudanças.

Você não entende, e talvez nunca vai entender os motivos para o que está acontecendo agora, mas um dia quem sabe, você vai olhar para o céu e lembrar de tudo, de cada parte, cada momento, e então vai se pegar falando sozinho, dizendo: “É verdade”. Neste dia, eu estarei longe, e talvez você esteja acompanhado de outra pessoa, mas de qualquer forma, provavelmente lhe restará pouco tempo para se desculpar ou exigir as suas desculpas.

Uma coisa pode ser uma das verdades absolutas que a humanidade tanto procura: As luzes são iguais. Antes, elas eram distantes, e continuaram sendo. Porém as pessoas a trouxeram para mais perto com a eletricidade. Ainda são as mesmas luzes. Os mesmos pontos. As mesmas faíscas que incendeiam os olhos e fazem as pupilas de contraírem depressa, causando um leve desconforto. As mesmas luzes.

Algumas pessoas me perguntam por que eu tenho pensamentos tão distantes, tão frios. Perguntam se eu já conheci um amor de verdade. Me falam que o amor verdadeiro só se encontra uma vez na vida. Outra verdade simples é que os amores são intensos, e fazem você se sentir nas nuvens, mas não são únicos. O que faz as pessoas se iludirem ao ponto de dizer que só existe um amor para a vida toda, é a falta de tempo. Se eles tivessem duas vidas todas, três, quem sabe quatro, amariam mais vezes, sofreriam mais vezes, com a mesma intensidade.

Eu evito conversas profundas, afinal tive tempo suficiente para estudar e conhecer muitas coisas. Percebi ao longo desses últimos anos que as pessoas estão ficando mais rasas, então, meu assunto para com elas se mantém em seus níveis. Isso, não me afeta, mas com o acumulo de palavras e prosas, me faz conversar sozinha ao vento, muitas vezes.

Agora você se vai, nervoso e sem entender. Praguejando aos quatro ventos como a vida pode ser injusta. Acredite, eu já vi esse filme muitas vezes, e isso não diminui a sua dor, muito pelo contrário, ela é totalmente válida e seu de direito. Eu é que já entendo tudo e já vivi isso tantas vezes e viverei novamente, que não consigo mais esboçar qualquer reação para satisfazer o seu ego ferido.

Novamente, eu vou para aquela ponte, a mesma que eu tive a oportunidade de ver nascer e que depois de tantas gerações ela tem durado tanto, firme e forte. Quando ela se for, terei que arrumar outro lugar, que seja tão resistente ao tempo, assim como essa ponte. Assim como eu.

As pessoas se julgam conhecedoras do mundo, e do saber. Passam anos de suas vidas se dedicando, apontando o dedo para aquelas que estão despreocupadas. As que levam a vida “numa boa”, vivem cada dia como se não fosse haver um amanhã, apontando também os seus dedos, para os que “perdem tempo”. Um dia, em uma das poucas conversas profundas que eu tive, me perguntaram afinal, quais desses tipos, estavam certas. Ninguém está. Então você pode continuar fazendo da sua vida, o que bem entender, afinal, você só vai ter uma vida mesmo.

Eu não sei como aconteceu, eu só sei que um dia eu percebi que todos tinham uma coisa que eu não tinha. Eu juro que tentei encontrar mil formas para quebrar esta maldição, mas não há nada que possa fazer, para que isso mude. Então, continuei vivendo, uma vida de cada vez, viajando, curtindo, conhecendo, estudando, pesquisando, casando, separando, simplesmente tendo vidas, vidas eternas. Não me lembro mais como aconteceu. Já tentei explicar isso aos meus amantes, mas foram poucos que entenderam. A vida é diferente para quem não tem uma só vida. O mundo é o mesmo, com fases diferentes, como a lua, para quem é imortal.  Uma única vida, mísera e comum, é um grande artigo de inveja para quem um dia, sem porquê ou para que, perdeu o privilégio da morte.

Eu sinto muito. De verdade. Assim como já senti outras vezes. Todas, de verdade.

juhliana_lopes 10-08-2016

Sem pressa

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É noite e a lua esta alta.

A brisa sopra leve, fazendo as folhas dançarem.

Pelas sombras você se aproxima,

Pois como um demônio,

Você vem me possuir.

Tu, minha serpente,

Que se enrola em minhas pernas

E sobe pela minha cintura,

Com seu corpo frio e esguio,

Me arrepiando pouco a pouco,

Me fazendo delirar em mil devaneios,

Me fazendo me perder de mim mesmo.

Tu, minha vampira,

Que me morde o pescoço,

E pouco a pouco suga minha alma,

Me arranhando lentamente,

Abrindo minha carne,

Expondo meu ser.

Tu, meu doce erro,

Que pesa seu corpo sobre o meu,

Que me impede de fugir,

Que me prende com seus abraços,

Deixando meu corpo dormente,

Me fazendo esquecer das horas.

Tu, minha ninfa travessa,

Que brinca com meus sentimentos,

Que me ilude com seus beijos,

E me tem por completo com seu olhar.

Peço-te que devolvas meu coração,

Pois preciso dele para viver.

Porém, não tenha pressa.

Devolva-me apenas,

Depois que usares completamente meu corpo,

Para seu bel-prazer.

juhliana_lopes 08-08-2016

Quem é o Assassino? #Final

Boris pediu um momento com Adam para conversarem e então ele sugeriu que fossem para os corredores próximos as salas, pois além de vazios, ficavam longe de todo o barulho. Boris o seguiu apreensivo e então começou a falar.

– Primeiro eu gostaria de te agradecer…. Agradecer pela homenagem e pelas belas palavras, mas eu preciso saber…. – Boris engoliu seco. – São sinceras?

Adam deu um sorriso de canto. Ele tinha mordido a isca. Estava claramente apreensivo e parecia escolher com cuidado as palavras, com medo de falar algo errado. Agora era a sua chance para continuar com o teatro.

– Claro Boris. Por que acha que não são? – Respondeu Adam se mostrando visivelmente preocupado.

– Bem, é que com os números da empresa que não fechavam, imaginei que você pudesse achar que fosse culpa minha ou algo do tipo. Incompetência da minha parte, não sei…. – Boris tentou se explicar, sem graça.

– De maneira nenhuma Boris…. – Disse Adam pegando as mãos de Boris. – Eu tenho trabalhado com Isaque direto para descobrir o erro, mas nenhum deles aponta para você. Acho que se não fosse pela sua experiência, talvez eu já tivesse afundado a empresa, nunca administrei algo deste tamanho. É tudo novo para mim.

– Acho que criei uma confusão em minha cabeça, eu peço desculpas…. – Disse Boris com um tom suave, porém ainda confuso. – Mas talvez fosse melhor rever o seu secretário. Acredito que Isaque seja uma má influência.

A mente de Boris havia dado um nó e agora ele resolverá apelar para não acabar se entregando. Estava nervoso e despreparado. Suas mãos suavam e sentia suas pernas tremerem. Era preciso falar devagar para conseguir falar corretamente, sem que o seu estado de choque o afetasse mais do que já havia mostrado.

– Como assim? – Perguntou Adam com um tom curioso.

– Ora, eu não iria falar nada, afinal estava com medo de que você também estivesse contra mim, mas agora percebo que ele é o verdadeiro culpado de tudo. – Disse Boris, engolindo seco mais uma vez, tentando fingir surpresa.

– O que está acontecendo Boris? – Perguntou Adam em um tom mais sério. Percebeu logo a manobra do velho e resolveu incentivar para ver até onde aquela cobra traiçoeira iria.

– Isaque quer roubar o seu lugar. Ele me ameaçou há alguns dias no vestiário com uma arma. Alguns documentos importantes sumiram e eu tive que refazer tudo para lhe apresentar. Eu tive medo do impacto que isso poderia trazer para a empresa, ainda mais depois das mortes que tivemos, então não falei nada. Ele insinuou que você estivesse por trás disso, mas agora eu vejo que ele foi o grande culpado de tudo. Você corre perigo Adam! – Explicou Boris, falando tudo de uma vez um pouco embolado. Estava começando a perder o autocontrole. Sua cabeça doía com o esforço que fazia para não deixar seus pensamentos o atropelarem.

– Olha, você sabe que esta história é muito difícil para eu acreditar. Isaque sempre foi o meu homem de confiança, assim como Liam é o seu. – Disse Adam com um leve tom transparente de deboche, parecendo desinteressado com aquela conversa.

– Liam? Meu homem de confiança? – Perguntou Boris assustado. Será que de fato Adam não sabia ou desconfiava de nada? Essa pergunta martelava sua mente permanentemente agora e ele sentia sua visão ficar turva e voltar ao normal várias vezes.

– Ora Boris, notei que vocês são muito próximos desde o primeiro dia. Ele pode não ser seu secretário, mas sei que são bons amigos e ele deve lhe dar ótimos conselhos. – Respondeu Adam com um tom mais tranquilo, ainda para incentivar a loucura de Boris.

– Realmente…. – Boris disse um pouco mais aliviado. – Mas Isaque não é como Liam, acredite. Ele não está interessado em fazer as coisas certas, ele quer te prejudicar! – Disse Boris recobrando seus pensamentos insanos. A verdade é que agora nem ele conseguia mais acreditar nas coisas que dizia. Será que este era o grande plano de Adam? Fingir aquilo tudo para vê-lo fraco e amedrontado e assim fazê-lo confessar tudo? Não, isso não estava certo. Ele mesmo havia convidado Adam para conversarem a sós. A festa era apenas uma distração para os últimos problemas da empresa…. Ou talvez fossem uma distração para ele mesmo? Agora era tarde e ele precisava continuar com aquilo. Precisava insanamente convencer Adam de que Isaque era o culpado por qualquer coisa e que ele não tinha nada a ver com isso.  Depois de um breve tempo em silêncio, enquanto Adam o olhava com olhos grandes e atentos esperando a sua explicação, ele tornou a falar.

– Adam, meu Deus! Nós dois corremos perigo! – O velho disse em um tom que pareceu mais desesperado do que ele pretendia insinuar. Talvez não precisasse mais fingir desespero. Estava completamente em choque. Era preciso ousar mais. – Acredito que Isaque não esteja sozinho nessa.

– Como assim? – Perguntou Adam ligeiramente interessado, esperando qual seria a próxima história que Boris inventaria.

– Acredito que Isaque esteja tramando algo junto com Anne, e então os dois irão assumir a empresa. Precisamos demiti-los imediatamente! – Disse Boris assustadoramente sério.

– Olha, você já me disse seus motivos com Isaque, que sinceramente Boris, eu ainda acho pouco provável, mas agora Anne? O que ela tem a ver com isso? – Respondeu Adam tentando não fazer piada com a situação. Estava difícil controlar o seu humor com aquele circo de Boris.

– Ora, não se lembra do velório que teve aqui na empresa quando você veio com o Léo? Clara se suicidou no estoque, mas a perícia achou vestígios de um material que é usado para dopar as pessoas de forma quase instantânea. Antes disso, houve Meg que foi encontrada morta em um beco, e que depois alguns acharam que Clara havia matado. Mas eu sei de toda a verdade. Foi Anne. – Disse Boris em um tom mais alto. Mais uma vez acabou falando tudo de uma forma atropelada, ofegando bastante.

– E como você sabe? – Perguntou Adam em um tom sério. Seus olhos o fitavam para não perder nenhum detalhe daquele teatro.

– Ela é uma assassina cruel que finge ser uma moça normal! Isaque deve ter descoberto e a procurado depois de me ameaçar…. Agora os dois vão se preparar para nos matar Adam! – Boris respondeu, porém não parecia mais estar falando para Adam e sim para o vento ou mesmo as paredes. Seus olhos estavam vermelhos pela pressão do estresse envolvido. Sua boca tremia e ele babava um pouco ao falar.

– Boris, se acalma. Isso está me parecendo muito fantasioso.  Como sabe de tudo isso? – Perguntou Adam demonstrando um pouco de preocupação. Se não tomasse cuidado, aquele velho teria um infarto ali mesmo.

– Ora, Liam me contou e…. – Boris parou subitamente. Falou demais. Não queria arriscar a reputação de Liam, mas já estava feito. Não havia desculpa para retirar o que ele havia dito.

– Boris, desculpa, mas o que você está falando não está fazendo o menor sentido. Acho que a emoção da festa lhe fez mal ou a pressão dos últimos dias mexeu com a sua cabeça. Vamos voltar a festa…. – Disse Adam colocando a mão no seu ombro, ignorando a revelação que agora fazia todas as outras coisas fazerem um pouco de sentido. Pelo menos no sentido das acusações. Talvez ele tenha ensaiado aquele texto por muitas vezes com ajuda de Liam, para escapar das investigações caso houvessem. Talvez Liam tenha lhe dado a arma para que ele fosse ameaçar Isaque…. De qualquer forma, já tinha a sua certeza e a essa altura, esperava que Felipe já estivesse com tudo pronto.

– Não! – Disse Boris alto, tirando a mão de Adam de si. – Eu cansei disso ok? Cansei de bancar o tolo! Cansei de aguentar um menino mimado cheirando a leite sentado em minha cadeira! Cansei do seu tio caduco que acha que pode fazer o que quiser com um trabalho que foi uma parceria produtiva durante anos! Cansei de fingir simpatia por um moleque que acha que pode mandar no mundo! NO MEU MUNDO! Eu cansei! A empresa vai ser minha, e vai ser agora! – Boris enfim explodiu, falando tudo que já devia ter falado a meia hora atrás. Explodiu palavras e baba na cara de Adam, que além das ofensas, agora tinha também uma arma apontada para ele.

– Boris o que você está fazendo? – Disse Adam sinceramente surpreso erguendo as mãos e dando alguns passos para trás. O velho enlouquecera afinal.

– Eu vou te matar Adam, agora! – Disse Boris, efetuando o primeiro disparo.

Liam seguiu os dois pois sabia que aquela conversa poderia lhe custar alguma coisa. Se posicionou então em um corredor próximo, mas ainda não era o suficiente para ouvir a conversa. Entrou então em uma sala que dava acesso a outra onde o pessoal do design poderia trabalhar livremente. De lá, além de ouvir bem a conversa, tinha uma ótima visão dos dois, sem que eles o vissem.

Ao ver Adam tecendo elogios para Boris, percebeu então a sua estratégia suja do jovem sócio, e se surpreendeu com a jogada rápida e desesperada de Boris em colocar a culpa no assistente. Colocou a mão no bolso para confortar seu coração, porém quando percebeu o descontrole de Boris, que começava a falar de Anne, o sangue começou a lhe subir à cabeça. Seria possível que aquele velho maldito estragaria tudo? Sim, mais do que possível. Adam provavelmente achava agora que o velho estava demente, e Boris ia perdendo o controle a cada palavra que dizia a seu favor. Decidiu pôr um ponto final quando ouviu seu nome. A raiva ia lhe consumindo por dentro, enquanto estava de plateia e não iria aplaudir enquanto Boris lhe entregava. Puxou a arma de seu bolso e se preparou para atirar, porém hesitou surpreso ao ver que Boris também puxou uma. Onde ele havia conseguido aquela afinal? Ele não tinha perdido a dele para o Isaque? De qualquer forma, se preparou para puxar o gatilho, logo depois que Boris puxasse o dele, acabando com dois coelhos com uma cajadada só. O velho, já estava na mira.

Anne terminou sua taça ao perceber que Liam seguiu Boris e Adam pelos corredores. Era a sua chance de pegar Liam desprevenido e mostrar e lhe dar o que ele merecia. Aprendeu cedo que os mortos não contam histórias e Liam seria mais um a ficar calado. Ao deixar sua taça sobre uma mesa, tropeçou em um convidado de fora. Lhe pediu desculpas, mas mal olhou para ver em quem tinha esbarrado. Estava apressada. Precisava ser rápida. Havia muitas salas vazias e indo por um corredor paralelo, ela conseguiu a acesso a antiga sala de Manoela que ainda não havia sido ocupada. Lembrou da conversa fiada sobre fantasmas na empresa e riu ao pensar nas besteiras que as pessoas inventam para justificar seus medos. Da sala de Manoela, ela pode ouvir toda discussão, e esperou pacientemente que Liam aparecesse para então dar um jeito nele. Porém, ele havia sumido e não parecia que ia interromper a conversa tão cedo. Será que além de fofoqueiro ele também era covarde? Será que ele estaria roubando a sala de Adam enquanto aquela discussão tola de Boris e Adam fosse só uma distração? Anne já começava a se distrair com as próprias pernas, que balançavam com a ansiedade do momento quando ouviu Boris dizer seu nome. Só então prestou atenção no que o velho dizia. Viu então que realmente Liam havia contado a ele quando Boris falou demais, porém para sua sorte Adam não estava lhe dando muito crédito, provavelmente achando que o velho estava louco ou inventando qualquer coisa para não se ferrar. Quando Adam estava se preparando para convencer Boris a voltar para festa, viu Boris o velho puxar uma arma para Adam, que recuou assustado. Olhando com atenção pela persiana, percebeu uma figura nas sombras, apontando algo para Boris na sala do outro lado do corredor. Anne então se posicionou confortavelmente para apreciar o show.

Assim que Adam e Boris entraram corredor a dentro, Felipe também os seguiu, porém virou para o outro lado. Ele tinha que ser rápido e chegar na sala de Boris. Rapidamente começou a plantar evidências simples como documentos falsificados, além de papéis com assinaturas faltas. Ele teve cinco dias para aprender a assinatura do velho e como um bom designer, não decepcionou. Com alguns amigos, conseguiu também algumas drogas leves e as escondeu em cantos estratégicos de quem não quer ser descoberto. Com tudo pronto, saiu com cuidado e se encontrou com Isaque. Tudo estava andando conforme o plano.

– Tudo pronto, agora eu vou por esse lado e você vai até eles. Quando me der o sinal, eu dou um jeito de segurar a fera. – Disse Felipe quase em um sussurro.

– Certo, irei para lá imediatamente. – Respondeu Isaque.

Isaque ofegava e respirava fundo para tentar controlar a sua respiração. Estava visivelmente com medo e nervoso. Raramente se sentia assim, mas agora era diferente. Não estava só roubando carteiras, estava cada vez mais metido em algo grande. Em todo caso sabia que precisava chegar logo, afinal Boris não pensava bem sob pressão e ele não poderia garantir que ele também não tivesse comprado uma arma. E Liam? Enquanto ainda estava no salão, percebeu que Liam havia sumido. Será que Boris pediu para ele comprar a arma e fazer algo com Adam? A ideia de que esse plano doentio poderia estar acontecendo corroeu ainda mais seu coração. Sua respiração ainda falhava e andava apressado com os punhos cerrados, esperando que nada desse errado. Ninguém nunca lhe dava uma chance, ainda mais depois de que descobriam seu vício. Adam foi o primeiro que mesmo sendo prejudicado acreditou no seu potencial, era um bom amigo e um ótimo patrão. Não queria perder isso. Quando enfim chegou no corredor onde os dois estavam, ainda oculto pelas sombras, ouviu Boris dizer em alto e bom som que mataria Adam. Mesmo desesperado, deu alguns passos cautelosos a frente e viu a arma reluzir em meio a pouca luz do ambiente, o que tornava a cena ainda mais macabra. Em um impulso de coragem, não pensou duas vezes quando ouviu o disparo, se jogando na frente de Adam.

O jovem empresário ficou surpreso. Por um momento viu a morte em seus olhos, de maneira clara e direta. Estava começando a pensar se não tinha ido longe demais com aquele plano maluco, mas de repente Isaque estava ali, jogado no chão sangrando. Se ele estava ali, queria dizer que Felipe obteve sucesso, mas agora de que isso adiantaria? Sua mente ficou anestesiada e levemente perturbada. Depois desse leve estado de choque, como se acordando de um sonho, se abaixou para tentar acudir o rapaz e ouviu o segundo disparo. Ao olhar rapidamente para cima, viu Boris cair e o sangue escorrer lentamente pelo chão. Adam não conseguia ver muito bem, mas o tiro tinha vindo pelas costas de Boris. Isaque, ainda estava vivo, porém o tiro o havia acertado próximo da costela.

– Senhor… – disse Isaque baixinho com dificuldade. – Obrigado por confiar em mim….

– Fique quieto Isaque, vou conseguir ajuda para você. Não durma, ok? – Adam tentava tranquiliza-lo enquanto olhava ao redor. Felipe se aproximou logo em seguida com uma expressão de pavor do outro lado do corredor, por onde o tiro que acertou Boris veio.

– Felipe, foi você? – Adam o questionou com a voz trêmula, apontando para Boris.

– Lógico que não Adam, eu nem estava aqui, e você sabe que eu não sei atirar. Vi alguém apontando a arma de lá, oculto no escuro e depois sair correndo. Eu pensei em segui-lo, mas fiquei preocupado. – Felipe falava afobado tão surpreso quanto Adam com a situação. – Eu…. Eu vou chamar uma ambulância, já volto. – Ele disse por fim correndo em direção ao salão.

– Adam…. – Chamou Isaque, tossindo – É melhor você sair daqui…. Liam…. Liam deve estar com uma arma também….

– Não vou te deixar aqui sozinho Isaque. Não neste estado. Agora, quieto. – Adam tentou tranquiliza-lo novamente, mas agora, também estava morrendo de medo com a possibilidade eminente de ser morto.

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Anne ficou surpresa por Boris ter tido coragem de atirar realmente e mais surpresa ainda quando Isaque apareceu do nada e protegeu Adam. Não teve tempo de imaginar qual trama já estava planejada, pois logo viu outro tiro acertar Boris que caiu duro no chão, porém o tiro que o matou não veio de Liam. Anne então pensou um pouco, tentando buscar algo em sua mente em uma surpresa quase infantil se pegou pensando alto “Era ele”. Correu para fora da sala antes da chegada de Felipe que para a sua sorte não a viu correr pelos corredores.

Liam, pela outra sala também ficou perplexo. Ainda tinha sua arma apontada agora para o vácuo sem acreditar no que havia acontecido. Sua mão tremia e o coração estava acelerado. Quem havia atirado naquele velho maldito? Será que Anne resolveu se vingar pela investida dele no banheiro? Não…. Ela era discreta demais para tentar uma coisa dessas, não parecia ser algo vindo dela. Mas então quem poderia ter feito isso? Acordando de seu momento de espanto, se encolheu atrás de uma mesa quando ouviu Felipe chegar. Ele tremia e deixava seus pensamentos rápidos especularem, tentando descobrir quem poderia ter feitos o disparo. Para ele, ficou claro que Felipe tinha cometido este crime, afinal porque ele estaria vindo todos esses dias? Ele ouviu o rapaz negar quando Adam perguntou, mas ainda assim, Liam não conseguia acreditar. Em todo caso precisava sair dali antes que o resgate chegasse e alguém descobrisse o seu esconderijo. Agora era mais do que hora para ele sumir.

Conseguiu sair pelo mesmo caminho que veio, sem ser visto e correu para a sala de Adam. Lá havia uma janela grande de vidro, que tinha a vista para a avenida na frente do prédio. Precisava abrir sua mente um pouco e respirar. Estaria seguro e de lá seria um esconderijo melhor, já que Adam estava preocupado com Isaque.

Chegou na sala correndo e fechou a porta. Não conseguiu trancar, pois as chaves não estavam lá. De qualquer forma, agora seu coração começava a se acalmar e ele parou para admirar a paisagem. As luzes da noite se confundiam com as luzes do carro e a escuridão da noite, quase não era notada em meio a toda claridade da cidade.

– Que merda vai acontecer agora? – Liam disse para si mesmo, suspirando vendo as ambulâncias chegarem.

– Você morre. – Disse uma voz, na escuridão.

Liam atordoado, tremeu com um arrepio estranho. Não sabia se estava ouvindo coisas ou se havia mais alguém ali com ele. Ficou com medo de descobrir. O medo tomava conta de cada parte do seu ser.  Aos poucos estava enlouquecendo também, como Boris. Depois de olhar ao redor, percebeu uma sombra que apontava uma arma para ele. A figura então deu dois passos à frente, se revelando por completo. Era um rapaz distinto, barbado e com poucas palavras. Seu olhar era frio e ele lhe encarava com pesar, como se olhasse para sua alma.

– Ele não. – Disse Anne entrando na sala de repente. – Esse eu vou matar. – Ela disse em um tom sério que Liam nunca ouviu. Observou quando ela se aproximou do rapaz com uma determinação estranha. O rapaz não desviou o foco da arma e dos olhos nem um milímetro. Apesar de não dar a devida atenção a moça, ele parecia obedecê-la.

– O que significa isso Anne? – Perguntou Liam, sendo tomado pelo seu próprio desespero.

– Um delicioso acaso que eu vou ter o prazer de aproveitar. – Respondeu Anne com um tom insano e de deboche anormal. Seu olhar era tão frio quanto o do rapaz, porém ela tinha um brilho diferente, como de quem está saboreando cada momento. O rapaz barbado, não desviou os olhos e atirou, porém, desviou a arma no último momento, acertando o joelho de Liam. Não houve tempo para qualquer defesa, pois Liam se distraiu com aqueles olhos vazios em meio ao seu desespero e declínio pessoal.

Ele caiu com o joelho sangrando e espatifado. Gritava de dor, rolando no chão. Seus olhos se encheram de lágrimas, em uma mistura de raiva e impotência.

Anne com uma expressão vazia, olhava Liam como um predador ao olhar sua caça que tenta debilmente escapar depois de ser ferida. Liam não tentava fugir, mas procurava em seus olhos, algum tipo de redenção inútil.

Anne levantou a saia revelando sua coxa que parecia mais branca com as luzes da janela. Usava uma cinta liga e de lá, tirou uma faca, grande demais para ser um simples canivete. Aquilo era um punhal, talhado com belos desenhos em sua lateral. Seu fio, afiado, reluzia em meios as luzes, assim como a pele da moça.

Liam nada pode fazer, pois a perda de sangue e a dor infernal do joelho espatifado lhe deixava sem forças para lutar. Anne se ajoelhou perto de sua cabeça e lhe cortou a garganta. Foi um corte rápido, porém profundo que fez seu sangue esguichar e escorrer ensopando o tapete.

Ela se levantou e se aproximou de Santiago que observava tudo, com a mesma expressão vazia que a dela.

– Não imaginei que fosse te encontrar tão cedo. – Ela disse quando o corpo de Liam terminou de agonizar dando o último espasmo.

– Eu imaginei. – Ele respondeu com sua voz grossa, que parecia mais grossa que da última vez, em meio àquela sala vazia e escura, exceto pelas luzes que traziam uma penumbra para o ambiente.

– Eu preciso ir embora. Isso vai virar um pandemônio. – Anne respondeu, se aproximando da janela observando mais uma vez as luzes confusas da cidade, pulando o corpo de Liam.

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– E eu preciso ma… matar mais algumas pessoas. Está na hora do ma… massacre. – Ele respondeu, com uma voz sutil, como quem está com pensamentos distante, revirando uma bolsa que ele havia deixado no canto da sala. De lá tirou uma metralhadora.

Anne se aproximou da porta e observou o corpo de Liam mais uma vez. Então se surpreendeu com Santiago tão próximo dela, vindo por trás.

– Você é boazinha? – Perguntou ele ainda apático.

A pergunta não fazia o menor sentido, mas mesmo assim Anne respondeu:

– Talvez um dia. Quando eu era uma criança e inocente.

– Você ainda é inocente? – Ele perguntou novamente em um tom mais pesado, se aproximando mais.

– Acredito que não… – Anne respondeu com um medo visível nos olhos, segurando o cabo de sua faca com um pouco mais de força.

– Eu acho que ainda é. E isso é o que importa. Agora, se me dá licença, eu preciso fazer uns.… trabalhos. – Santiago respondeu tentando colocar um papel no bolso que caiu debilmente no chão sem ele perceber.

Anne viu então quando ele sumiu pelo corredor. Era possível ouvir também a correria dos paramédicos com suas macas. Se sentia anestesiada e com uma sensação de dever cumprido. Precisava muito de um banho quente, porém ela não pode conter a sua curiosidade e então pegou o papel que Santigado havia derrubado para ler.  Havia alguns itens escritos e alguns riscados de vermelho. Roubo, sequestro e assassinato eram alguns itens que estavam riscados, assim como “assassinato pelas costas (aleatório) ”. Logo abaixo estava massacre, terror psicológico, estupro e necrofilia. Massacre estava riscado com uma cor diferente, que ao reparar, Anne viu que era a mesma de uma caneta que estava sem tampa sobre a mesa de Adam. Anne engoliu seco e saiu apressada, ao perceber que com essa caneta também estava escrito “Anne” ao lado de estupro e necrofilia.

Foram cerca de 30 mortos e pelo menos 10 feridos naquela noite. Funcionários e convidados aleatórios, sem qualquer tipo de ligação. Pela manhã, as testemunhas dos arredores ainda estavam sendo ouvidas. A maioria não percebeu nenhuma movimentação estranha antes da festa, mas duas relataram ver um homem sair com uma mochila preta, carregando o que parecia ser uma moça de vestido preto nos ombros e entrar em um carro.