Incomodo

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Mais um cigarro e uma mão boa. Estava enfim ficando bom no jogo e ganhando alguns trocados com isso. Sempre se perguntou se Will não se importava que ele fumasse ali dentro, ou se não falava nada só para não o contrariar.  Estava acostumado com isso afinal, desde criança sentia que as pessoas o tratavam diferente. O bullying não lhe fez mal, era até bom, ganhou uma fama. Não era tão ruim ser rejeitado pelas crianças da sua idade, só por se parecer maior. Ele pode fazer amizade com os mais velhos e com isso seu desenvolvimento foi relativamente precoce.

Bebeu mais gole daquela bebida ruim que todo mundo bebia, e tragou um pouco mais de fumaça. Deixou escapar pelas narinas enquanto analisava a jogada do seu oponente. Ele era um fraco realmente, deixando transparecer todo o seu nervosismo diante dele. Já havia perdido o dinheiro todo, mas continuava a apostar, e se ele forçasse um pouco mais, era capaz de ganhar a casa e a esposa do rapaz. Não que ele fizesse isso, mas tinha vontade com alguns idiotas que apareciam por lá todos os dias.

Mais um jogo ganho, e agora o rapaz implorava por mais uma jogada pois a sorte finalmente estava ao seu lado. Ele não quis parecer mal-educado, mas ainda tinha um pouco de dignidade. Deixou então o rapaz falando sozinho e foi pegar outra garrafa para encher o seu copo gradualmente. Will era um velho desprezível apesar de tudo. Aquele bigode grisalho e o avental sujo, forçando simpatia. Ele pouco se importava para a condição de seus clientes ou o que eles pediam. Ele se importava apenas com o dinheiro sobre o balcão. Deixou aquele ancião de lado e voltou para sua mesa, se distraindo enquanto brincava com seus cigarros. Seus melhores amigos nos últimos dias. Deixou escrito um bilhete na carteira, pedindo para ser enterrado com um maço novo, caso alguém encontrasse seu corpo. Era uma preocupação infantil afinal, mas não queria que seu último desejo fosse ignorado, por isso escreveu no papel com uma caneta vermelha em letras maiúsculas.

Ainda distraído com os cigarros, não percebeu quando ela entrou. Só percebeu depois de alguns minutos, quando o perfume dela começou a invadir o lugar. Ela tinha os cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo e usava uma roupa simples, composta por um jeans e uma blusa cinza. Estava com alguns cartazes na mão e pedia para o velho Will para colar em algum lugar do bar. Ele permitiu sem muita paciência para conversa e ela animada, colocou um próximo a porta e outro próximo dos banheiros. Depois, agradeceu o velho com delicadeza que ignorou completamente o gesto, apenas balançando a sua cabeça, enquanto lavava alguns copos.

Mas que senhor sem modos era aquele velho. Como ignorar um ser tão belo que mais se parecia um anjo? Era raro algo daquele tipo aparecer naquele bar sujo, e quando finalmente se levantou para tirar uma água do joelho, percebeu o motivo que fez aquela imagem da perfeição divina aparecer. Um cachorrinho perdido. Imaginou em quantas desculpas esfarrapadas sobre cachorro ele teria que dar para tentar transar com aquela moça caso fosse valer a pena, mas só de pensar isso, já ficou cansado e resolveu voltar ao seu carteado.

Enfim a noite chegou e ele teria que ir embora do bar. Levantou um pouco tonto depois de tantas doses e pegou seu casaco. Alguns poderiam comparar com uma lona de circo, como faziam quando ele era criança, mas a verdade é que suas roupas precisavam ser um pouco mais largas que o normal para suportar o seu tamanho.

Quando criança, era maior que a crianças de sua idade e conforme foi crescendo e com a magia da puberdade, além de mais alto, ficou mais parrudo também. Quem o visse, poderia jurar que ele vivia em academias e estava se preparando para alguma competição de fisiculturismo, porém, o único levantamento que ele fazia era o de copo e o de cigarros. Talvez por isso as pessoas não o ameaçavam e nem mesmo tinham coragem para contradizê-lo. Em parte, ele se sentia mal, pois era difícil saber quando estavam sendo verdadeiros com ele. De qualquer forma isso não o trazia nenhum sofrimento, pois era só tomar um porre que isso se tornava um benefício, afinal, se todos concordavam, ninguém lhe encheria o saco.

Foi andando a noite, pelas ruas escuras que viu a sua musa inspiradora daquele dia novamente. Sozinha, ainda colando cartazes. Os postes estavam cheios, e ela parecia bem determinada. E com frio. Ele ficou um tempo ali parado na escuridão observando os movimentos graciosos da bela moça. Talvez ele tenha a imaginado nua, uma ou duas vezes, mas ele tinha certeza que na maioria do tempo, estava apenas tentando focar sua visão turva pela bebida. Depois de um tempo, se deu conta de como aquilo iria parecer bizarro, pois caso ela o visse ali parado com aquela cara de tarado, iria achar que ele era um maldito stalker e chamaria a polícia. Eles então viriam, e não fariam nada, além de pedir gentilmente para que ele lhes acompanhasse, para algumas perguntas. Não haveria enquadro, nem mesmo qualquer tipo de agressão. Ele enfim suspirou e tentou uma abordagem. A mais amigável que pode pensar naquela hora.

Mesmo com um Oi gentil, é claro que ela ia se virar assustada, fazendo com que os cartazes caíssem. Após ajudá-la a recolher, ele perguntou se não era perigoso ela estar ali naquele horário. Droga! Que merda de pergunta era essa? Agora ela correria, ou olharia para ele com cara de desconfiança e daria um jeito de sumir da sua vista. Ele se calou subitamente após a pergunta, porém ela respondeu delicadamente que achava sim, porém estava muito preocupada com seu cachorro. Ele era muito importante para ela e ela não queria que nada de ruim acontecesse com seu filhote. Era a primeira vez que alguém não saia de perto dele depois de uma pergunta qualquer.

A moça tremia de frio e ele ofereceu então o seu casaco, que poderia enrolar duas ou três moças iguais a ela de uma vez. Ela sorriu e aceitou, ficando um pouco mais próxima dele desta vez. Aquilo era realmente estranho. Pelo menos para ele. Suas experiências com o sexo feminino sempre foram muito simplórias. Na escola, as meninas o ignoravam, mas no ensino médio as coisas começaram a mudar com o incentivo dos garotos mais velhos. Logo estava quebrando corações em troca de alguns momentos ofegantes e desde que se lembra, nunca foi diferente. Talvez aquilo significasse que o ciclo se repetiria.

Ela parecia ser tão frágil, tão delicada, aquele tipo de pessoa que precisava ser protegida. Ele não sabia ainda se queria protege-la, afinal seus pensamentos ainda estavam um pouco pervertidos. Em todo caso, ela era uma companhia agradável e tinha uma ótima conversa.

Enfim chegaram na casa dela, que para a sorte dele, não era tão longe do bar. Ela agradeceu a gentileza com um sorriso lindo, e ele percebeu então que talvez aquilo valesse mais do que uma simples transa. Percebeu então naquele mínimo instante que talvez aquele sorriso ficaria em sua cabeça por mais alguns dias e logo ele estaria passando por ali, como quem não quer nada, apenas para quem sabe, por acaso, encontra-la de novo e no meio de uma conversa desinteressada, convidá-la para sair. Percebeu que depois de algumas saídas, ela não o convidaria para entrar, e mesmo assim ele não se importaria. Notou que quando eles tivessem enfim uma oportunidade mais propícia aos desejos carnais, ele não teria pressa, e iria fazer de tudo para que ela ficasse satisfeita antes dele. Com um certo terror oculto nos olhos, percebeu então que talvez, aquilo fosse o tal “amor” que todos falavam. Ele não precisava daquilo.

Se despediu da moça, e acendeu um cigarro. Ela estava quase entrando em casa quando ele sentiu uma leve fisgada do lado esquerdo do peito e uma vontade incontrolável de voltar atrás. Parte dele sabia que não devia, que não era natural. Ele voltou. A chamou. Perguntou seu nome e se ofereceu para ajudá-la a procurar o cachorro no dia seguinte. Ela voltou sorridente, lhe deu seu número e um beijo no rosto.

Porém, o cachorro apareceu. Maldito.

Ela já estava com aquela coisa imunda no colo, quando ele sentiu mais um incomodo no peito. “Ainda podemos nos ver amanhã? ” Ele perguntou. “Sim, claro. ” Ela respondeu com aquele mesmo sorriso. Ele então saiu sorridente pelas ruas escuras, enquanto acendia seu cigarro.

No alto do telhado, com um olhar travesso, um pequeno ser com asas douradas levemente transparentes sorria feito criança. Seu arco estava na mão e as flechas nas costas. O Cupido havia feito um bom trabalho naquela noite afinal.

juhliana_lopes 24-07-2016

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